SINCLAIR POZZA CASEMIRO - Caminho de Peabiru: verde, marron, vermelho...?

 

 

 

 

 

Caminho de Peabiru: verde, marron, vermelho...?
por Sinclair Pozza Casemiro

Verde. Essa era a cor do Peabiru. Quem nos deixou a informação foi Montoya, em 1639, líder jesuíta das Missões do Guairá. Diz que viu “o caminho feito por esses índios, o Peabiru...” e que era forrado por uma gramínea especial.Então, era verde. E quem cita Montoya é Sérgio Buarque de Holanda em seu livro “Visões do Paraíso”, editora Brasiliense, 2000.
E essa é a cor queremos que seja o Peabiru.

Mas, o branco, o não índio, no século XVI, como Aleixo Garcia, Cabeza de Vaca, Ulrich Schmidle e tantos outros viajantes e colonizadores, marronearam a trilha que prometia o El Dourado. Com a ajuda dos Guarani, lá foram eles conhecendo os mistérios do Caminho, desejando outros caminhos, da ambição branca, da ganância incontrolável pelo amarelo do Peru ou mesmo pela riqueza dessas terras guairenhas, até que, no século XVII, o Peabiru se avermelhou.Numa tintura tão forte que ainda hoje se mantém. Disse-me um cacique guarani há pouco tempo: “O Caminho de Peabiru é o Caminho de Sangue...”. Porque foi por ele que, aos poucos, as nações indígenas foram sucumbindo perante os não índios. E foi por ele, finalmente, que os bandeirantes paulistas empreenderam a mais sangrenta batalha contra os indígenas da Província Del Guairá, com a última delas, em 1632, passando por aqui, na COMCAM, pela cidade espanhola de Vila Rica do Espírito Santo e próxima povoação jesuítica, hoje município de Fênix. Deixando as águas da foz do Corumbataí e do Ivaí igualmente vermelhas por uma semana, contam historiadores...

Nesse episódio, conhecido como “êxodo guairenho”, milhares de índios morreram, outros tantos foram levados escravos para a plantação de cana-de açúcar da Bahia e cerca de doze mil deles se evadiram com Montoya , cruzando as cataratas. Os que conseguiram. Também outros fugiram para o Tape. Desde então, a cor do Peabiru tem sido vermelha. Apagaram-se as histórias. Esquecer era preciso. Era preciso para quem? Com essa pergunta no ar, nasceu na região da COMCAM o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM-NECAPECAM, no ano de 2004. Desde então, o grupo vem, com planejamento bem definido, projeto de mapeamento bem fundamentado, traçando um caminho simbólico e turístico de peregrinação. Foram mais de 500 km percorridos em dez peregrinações que abrangeram a mesopotâmica região da COMCAM. Desde o Ivaí ao Piquiri, o grupo do NECAPECAM procurou levar a conscientização, construir sentidos para essa trilha a partir da saga indígena. Alguns índios e muitos não índios participaram juntos com os integrantes do NECAPECAM , foi um trabalho de centenas de mãos. Uma aventura intelectual inesquecível que, com certeza, atingiu seus objetivos. As comunidades do entorno, os municípios colaboraram. Num conjunto de vozes e de meditativas interferências, a trilha simbólica foi se reconstruindo, passo a passo. Primeiro, pelos pesquisadores, rastreando pistas, inscrevendo a rota. Depois, pelos peregrinos. Simbólica, porque é assim que é possível, hoje, trilhar o Peabiru. Embora o mapeamento tenha seguido a movimentação indígena mais evidenciada pelos indícios deixados, como trilhas “de índios”, “de jesuítas”, cemitérios indígenas, oficinas líticas, objetos líticos, pedras inscritas, enfim, tudo aquilo que mostrasse a presença ainda hoje da passagem indígena, é possível apenas simbolicamente desenhar um roteiro do Peabiru, por enquanto. Alguns pontos, não. Orientados principalmente pelas pesquisas do arqueólogo Igor Chmyz, por exemplo, há lugares em que se pode assegurar que se caminha sobre o antigo Caminho.Porém, com certeza, o NECAPECAM sabe que chegou o mais próximo possível dos caminhos peabiruanos. E sobre esse trabalho do NECAPECAM, Igor Chmyz assim se manifesta, em 19.02.2010, quando perguntado sobre sua vinda a Campina da Lagoa,no Simpósio da V Peregrinação, décadas depois da realização de sua pesquisa naquela região:

“Além da satisfação de rever amigos e a família Pedro Altoé, incentivadores das pesquisas em Campina da Lagoa e Ubiratã que culminaram com a constatação de um trecho de caminho indígena, tive o prazer de verificar o sério trabalho de conscientização desenvolvido pelo NECAPECAM junto à comunidade local, tendo como tema o Peabiru.”

Desse modo e polindo as histórias, passo a passo o NECAPECAM foi procurando afastar a poeira que pairou sobre o Peabiru. Viu que está mesmo vermelho. Aos poucos, os índios se foram aproximando. Hoje já há algumas vozes indígenas entre nós, do NECAPECAM. A intenção é que sejam mais numerosas, que se aproximem mais, é deles o Caminho. A intenção é que sejam, os caminhos reconstruídos pelo NECAPECAM, mediadores de um processo de interação cultural e de reconhecimento, de valorização de suas culturas por meio desse que se tornou também e indubitavelmente Patrimônio da Humanidade. Até que os índios se façam novamente donos dessa história, como quiserem. Interagindo com toda a história, com a contemporaneidade, as peregrinações podem ser vias de comunicação e de compreensão da sagrada IVY MARÃ EY – “Busca da Terra Sem Mal”. Que o vermelho se torne verde de novo, batizado pelas renovadas águas guairenhas.Quem sabe? Pois, afinal, não foi pelas poderosas águas que o “Pay Sumé” dos Guarani veio construir o Peabiru?

O NECAPECAM agora se debruça para projetar e planejar uma nova fase. Nela, as ações continuam se pretendendo solidárias, comunicativas, respeitadoras do sagrado que é o Peabiru para os Guarani, do histórico que é para as demais comunidades tradicionais como as dos Jês e outras. E, assim, com a possibilidade de devolver-lhes a dignidade, o respeito. Queremos um Projeto do Peabiru da cor verde. Mas, não sabemos se é mesmo possível tornar verde o Peabiru. Pois sabemos – e muito bem - que não depende apenas de nós. E sabemos que muitos não índios estão reescrevendo um Peabiru de novo colonizador, exercendo seu colonialismo arcaico em pleno século XXI. Contra essa onda o NECAPECAM quer se levantar. O Peabiru é indígena, é verde, mesmo estando manchado de vermelho, Não venham os brancos modernos, travestidos aventureiros colonialistas, perto de 500 anos depois, dar a ele um outro sentido, igualmente apropriador e devastador da cultura tradicional, feito os brancos europeus do século XVI e XVII.

 

Sinclair Pozza Casemiro (sinclaircasemiro@yahoo.com.br) é pós-doutora em Letras pela USP, escritora e Imortal pela Academia de Letras do Brasil pelo estado do Paraná

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O existir e as palavras
por Sinclair Pozza Casemiro

Há dois momentos em que as palavras não existem: o antes e o depois.
Antes, porque não faz sentido existirem. Nada se conhece.
Quando acontece, ou já quando começa a acontecer, alas vêm. E vêm tantas, se desdobram, se multiplicam num infinito de polifonia e dialogia que espanta!
Até que a natureza cumpre seu papel: elas criam tanto sentido e tantos, elas fazem nascer tanta verdade, que preenchem, que satisfazem mesmo nesse carnaval de sentidos que criaram. Então, eis o papel da natureza, o filho mata o pai: elas, as palavras, não são mais necessárias. E se vão. Fica ou ficam seus sentidos, se estabelece uma certeza tal, prenhe de criações outras, um silêncio tão significativo e mudo, que espanta! E que acalma.
Agora, elas, as palavras, não são mais necessárias. As idéias foram entendidas. E elas, as palavras, cumpriram seu papel.
Eis que existe.
Disse o monge Thomas Merton: “Onde encontro um homem que esqueceu as palavras? É com ele que quero conversar” .

Sinclair Pozza Casemiro (sinclaircasemiro@yahoo.com.br) é pós-doutora em Letras pela USP, escritora e Imortal pela Academia de Letras do Brasil pelo estado do Paraná

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Um mau acordo (Setembro/2010)
por Sinclair Pozza Casemiro

Um dia, lá pelos fins dos anos de 1800, um cacique, dos olhos da cor da noite, chamado Bandeira, junto com outros caciques, das margens do Piquiri e de afluentes do Corumbataí, foram visitar o governo dos homens de olhos da cor clara do dia e do céu, que ficava em Guarapuava, pra ajudá-los a abandonar a vida de selvagens e entrarem no gozo das vantagens da civilização. Era esse o nome do paraíso: “civilização”, que era prometido pelos homens bem-vestidos às gentes das matas. Conta-se que eles, os homens da mata, pediram mais ferramentas, mais roupas, equipamentos para fabricar açúcar, aguardente e outras coisas. Pediram padre, se ofereceram pra abrir estradas, prometeram ser cristãos. Mas, fora o desespero de verem perdidos seus campos, derrubadas suas matas, roubadas suas mulheres, suas crianças, que os levaram a isso. Precisavam proteger seus toldos, então, se fizeram amistosos. E ganharam tudo o que pediram. Bandeira tinha entre seus amigos das matas os caciques Gregório e Henrique, que moravam perto da abandonada Vila Rica do Espírito Santo. Juntos, conta-se, pretendiam com essa tentativa de acordo defender seus toldos e garantir território pra suas gentes. O governo dos homens da civilização marcou-lhes, sim, territórios, que chamou de aldeamentos. Mas, foi se tornando clara a impossibilidade desse ser um bom acordo. Pela sua implacável cobiça,aos poucos, esses homens bem-vestidos foram atacando e invadindo os toldos que restavam, os próprios aldeamentos, derrubando as árvores, sujando os rios, a região foi-se enchendo de gente vestida, eles foram se revelando de verdade e mostrando a incontrolável perversidade de que eram capazes, causada pelas malditas ignorância e ganância. Os homens das matas foram perdendo tudo o que pensaram ter conseguido do governo lá em Guarapuava, seu território foi se encolhendo, suas gentes foram sendo cada vez mais ignoradas, quando não impunemente assassinadas, escravizadas pelo trabalho rude, destratadas como pessoas ou aldeadas, sem respeito aos seus costumes e aos seus modos de pensar e compreender o mundo, as mulheres e crianças arrancadas de suas moradias e de suas famílias. Hoje, toda a história dessa gente das matas corre o risco de se perder. Para testemunhar esse mau acordo, uma avenida, na cidade de Campo Mourão, lembra o velho cacique Bandeira, porque leva o seu nome. E a Academia Mourãoense de Letras destinou-lhe uma cadeira como Patrono, imortalizando seu itinerário na região e na vida mundana que dividimos todos.

*Sinclair Pozza Casemiro (sinclaircasemiro@yahoo.com.br ) é pós-doutora em Letras pela USP, escritora e Imortal pela Academia de Letras do Brasil pelo estado do Paraná