Com mais de 40 livros publicados, Enéas Athanázio não é um escritor conhecido nacionalmente.
Por que isso ocorre?
Nesta entrevista exclusiva à revista Escritores do Sul, o profícuo autor faz uma análise das razões que isso acontece, bem como conta um pouco de sua longa e brilhante história de vida e faz algumas considerações importantes:
"A literatura de Santa Catarina vai de mal a pior. Os críticos mais antigos não militam mais e não surgem novos. E as notinhas estão cada vez mais raras e mais superficiais. O resultado é que prosperam coisas abomináveis, que só têm o formato de livros mas na verdade não o são".
Qual seu nome completo?
É algo estranho, mas fui batizado como José Enéas Cezar Athanázio. José homenageava meu pai, falecido aos 37 anos de idade, Enéas e Cezar eram conhecidas admirações dele. Nunca, porém, fui assim tratado. Em todos os lugares fui sempre Enéas Athanázio e quando alguém me chama de José custo a me reconhecer.
Onde e quando nasceu?
Nasci em Campos Novos, a antiga São João Batista dos Campos Novos, cidade emblemática dos Gerais Catarinenses. Vim ao mundo na casa de pedra que meu construiu na coxilha mais elevada da cidade, a mesma onde ele iniciou o hospital que hoje leva o nome dele. Foi em 28 de março de 1935, em plena era getuliana.
Como você se define?
Um homem comum mas persistente nas ideias e com muita disposição para o trabalho. E que se considera feio no aspecto físico.
Como foi a sua infância? Você era uma criança que já costumava ler? Se sim, do que você gostava?
Fui para o internato aos dez anos e saí de lá com 16, de forma que isso truncou minha infância. Mas nas férias, tanto em Campos Novos como em Calmon, eu me esbaldava, andando a cavalo e de bicicleta pelas redondezas, entregue a todo tipo de aventuras. E já lia de um tudo, desde Karl May e Zane Gray até Monteiro Lobato (proibido no colégio) e tudo que me caía nas mãos. Quase não tinha acesso aos autores catarinenses, a maioria de Florianópolis, que era, na época, um fim de mundo.
E a sua família? Como era?
Com a perda precoce de meu pai, anos depois minha mãe se casou outra vez. Minhas relações com o padrasto sempre foram um tanto tensas; diria que nos tolerávamos por força das circunstâncias. Com minha mãe e meu meio-irmão, onze anos mais moço, eu me dava bem, ainda que pouco convivesse com ele. Meu norte era a avó materna, Olívia, pela qual nutria verdadeira adoração e em cuja casa, em Campos Novos, eu costumava permanecer nas “férias grandes.”
Tendo ido para um colégio interno muito cedo, aos dez anos, - o que muito lhe marcou – como você demonstra em alguns de seus livros, resuma o que você aprendeu de mais importante por lá.
O internato era um colégio pobre, meio sujo e desmazelado. Não havia tapetes nem cortinas nas janelas, o que provocava uma sensação de mais frio do que fazia na realidade. O dormitório imenso, com as janelas apenas envidraçadas, era lúgubre. Eu tratava de me adaptar, mesmo porque não havia outro jeito. Mas é um tipo de colégio, hoje em extinção, que constituía uma desumanidade. Os padres se diziam democráticos, mas na verdade não passava de aparência: havia muita repressão. Eu tinha admiração pelo Prof. Estevão Juk, o único integrante do corpo docente que não era religioso. Creio que aprendi muito com ele, inclusive os rudimentos da escrita literária. Fazíamos as tais redações, por ele solicitadas, que depois tínhamos que ler em voz alta durante a aula. Receber dele um lacônico “muito bem” constituía um prêmio que enchia os outros colegas de inveja. A grande lição do internato, porém, é a de que a gente tem que se fazer de duro, mesmo que não o seja, porque tudo um dia termina.
O que lhe incentivou a cursar a Faculdade de Direito? Por que você se decidiu por essa formação?
A região dos Campos Gerais sempre se destacou pelos grandes advogados que lá atuavam. As figuras de um Brasílio Celestino de Oliveira, de um Waldemar Rupp (meu tio), de um Evilásio Caon me arrebatavam nos seus debates, em especial na tribuna do Tribunal d Júri. Creio que isso me influenciou e ao terminar o secundário eu não tinha a menor dúvida sobre a escolha da profissão.
E as colaborações na imprensa, quando e como apareceram?
Em Florianópolis, ainda nos dias acadêmicos, eu já publicava alguma coisa. Havia um jornal chamado “Correio do Estreito” que foi tomado de assalto por nosso grupo e nele todos publicamos muita coisa. Também escrevi alguns artigos para “A Gazeta”, “O Estado” e “O Lutador”, que era o jornal da União Catarinense de Estudantes (UCE). Nosso grupo mantinha um programa literário na Rádio Dário da Manhã, a emissora mais poderosa do Estado, para o qual escrevi algumas crônicas. Depois, instalado na terra natal, nunca mais deixei de escrever para os jornais e o rádio.
Por que você só publicou o primeiro livro em 1973, com quase quarenta anos de idade?
Aqui no Estado não existiam editoras, com exceção da Lunardelli, que quase só publicava livros de acadêmicos e não abria espaço para os novos. Quando a Editora do Escritor, de São Paulo, se dispôs a publicar meu livro, foi um desafogo, embora os originais tenham permanecido lá por mais de um ano. Aqui alguns publicavam pela Imprensa Oficial, mas eram uns livros grosseiros e muito feios.
O seu regionalismo literário foi algo que você construiu ou acha que foi algo que brotou de dentro de você, que nasceu sozinho, de modo involuntário?
A segunda hipótese é a verdadeira. Eu admirava as coisas de minha região natal, a beleza dos campos e matos, a variedade de animais e pássaros, o modo de vida da minha gente, as histórias que corriam, os ditos populares e, acima de tudo, o linguajar ao mesmo tempo rude e suave, conservador e criativo, e ficava intrigado com o fato de que ninguém havia posto aquilo tudo na literatura. Nutria, no íntimo, a esperança de que surgiria alguém que o fizesse. Mas os anos passavam e esse alguém não aparecia. Foi então que decidi enfrentar a tarefa e comecei a escrever os primeiros contos, retratando a região como eu a via com meus próprios olhos. Quando dei por mim já tinha material para o primeiro livro. O restante foi consequência. É claro que eu não sabia e nem pretendia retomar os caminhos de Tito Carvalho, o fundador de nosso regionalismo, e Guido Wilmar Sassi, um de nossos maiores escritores. Creio que foi isso que despertou tanto interesse pelo livro – “O Peão Negro.”
Quando inicia um livro, sabe antecipadamente seu conteúdo, já o planejou na cabeça ou vai construindo-o aos poucos?
Meu processo criativo é mental. A ideia surge, baila um pouco e desaparece. Quando é boa, volta, e já vem com mais ingredientes, e assim o texto vai se formando. Uma vez maduro, é só transferi-lo para as palavras escritas. No momento da escrita pode sofrer alterações, mas em geral poucas.
Você começou imitando alguém? Quem?
Não, jamais imitei ninguém. Alguém afirmou que sofri muita influência de Monteiro Lobato por causa de minha admiração por ele. Mas não é verdade, nossos estilos são totalmente diferentes. Ele me influenciou no modo de vida, isso sim.
Quantos livros você já escreveu? Qual deles mais gostou ou tem maior carinho? Por quê?
Tenho 41 livros publicados, além de 14 opúsculos, totalizando 55 obras individuais em volumes. Não tenho preferência por nenhum deles, todos são meus filhos, mas o mais recente sempre me dá mais satisfação. É um prazer manusear o livro, observá-lo, folhear as páginas e encontrar ali, à disposição do leitor, o fruto de meu esforço.
Há algum livro seu que você já amou e hoje não gosta mais, como acontece com alguns escritores? Por quê?
Não, eu gosto de todos meus livros. Os temas de alguns deles nem sempre me atraem tanto como antes e não pretendo voltar a eles. Examinando alguns deles, como a biografia de Godofredo Rangel, por exemplo, eu fico admirado ao verificar a pesquisa que fiz, com tantos detalhes e minúcias catados aqui e ali, ao longo dos anos, em fontes muito reduzidas e precárias. Monteiro Lobato, no fim da vida, dizia que necessitava vomitar o Jeca Tatu porque não suportava mais o personagem. Por sorte, comigo isso nunca aconteceu.
Como você pode ser tão profícuo? A que você acha que deve sua facilidade em produzir tanto? Talento, dedicação, vontade, o conjunto de tudo isso e mais um pouco, enfim?
Estou sempre com a cabeça fervilhando de ideias para artigos, crônicas e contos. Preciso, inclusive, me policiar para não ceder à tendência de escrever sobre tudo. Como escrevo todos os dias, estando em casa, a produção vai aumentando e novos livros surgindo. Também escrevo muito para a imprensa. Só na revista “Blumenau em Cadernos”, da Fundação Cultural de Blumenau, mantenho uma coluna há mais de trinta anos. E no jornal “Página 3”, aqui da cidade, escrevo todos os sábados há mais de doze anos, sem falhar uma única semana. Esse material, se colocado em volumes, dobraria o número de meus livros.
Você tem livros traduzidos para outros idiomas também. Como isso aconteceu? Você já leu as traduções de suas obras? O que acha delas?
Tenho contos e artigos traduzidos para o inglês, o francês e o espanhol. Isso aconteceu por acaso. Dessas traduções, a que acho mais curiosa é a espanhola. Meus personagens falando nessa língua ficam muito engraçados. Um exemplo é a exclamação do marido diante da morte de Siá Nó: “Ahora si, ahora ni punto ni nudo!” Meus caboclos pelo duro se expressando em espanhol ficam mesmo impagáveis.
Qual o seu objetivo com a escrita?
A literatura é uma arte, aliás, a segunda mais difícil, depois da música (a grande música), segundo os entendidos. Logo, o objetivo da escrita é criar uma obra de arte que seja capaz de tocar o sentimento do leitor e chegar ao seu coração.
Quais são, na sua opinião, suas principais qualidades e seus principais defeitos como escritor?
Como qualidades, eu apontaria a sinceridade e a honestidade. Não “chuto” nos meus ensaios, não jogo baixo com meus leitores de ficção. Meu defeito principal é não gostar da vida literária. Sou comprometido com a literatura, não com as badalações em torno dela. Isso nem sempre é compreendido e alguns imaginam que seja orgulho ou coisa parecida, mas não é verdade.
Você é um escritor pouco conhecido do grande público. Com uma produção tão vasta e elogiada pelos que lhe conhecem, por que você acha que isso acontece?
Vários fatores contribuíram para essa situação esquisita. Como Promotor de Justiça, passei a maior parte da vida em pequenas cidades onde a preocupação com a cultura é nula. Lá, o sujeito “metido a escritor” é o ser diferente, a coisa rara, uma espécie de louco da aldeia. Às vezes é até vítima de hostilidade pelos que temem ser por ele transformados em personagens, talvez até captados por algum lado negativo. Além disso, as barreiras impostas por um Estado muito pequeno, emparedado, de cujos limites não é fácil sair. Anos atrás esteve aqui, por algum tempo, um crítico gaúcho que ficou impressionado com a qualidade de alguns de nossos escritores, inclusive eu, dos quais nunca ouvira falar. Ainda sob essa impressão, ele publicou um artigo denominado “Os talentos amordaçados de Santa Catarina” que teve muito impacto mas não alterou a situação. Porque, na verdade, aqui é tudo muito pequeno, muito miúdo, muito personalista. E aí vai minha admiração pelo Nordeste. Lá, quando o filho da terra começa a se destacar, todos ajudam, impulsionam, divulgam, incentivam. Aqui é o oposto, a ordem é dificultar, atrapalhar, criar entraves. Some-se a tudo isso o meu afastamento voluntário das badalações literárias e a minha recusa a filiar-me a grupos e a explicação está dada. Por outro lado, não é demais relembrar que nenhum escritor catarinense foi ou é conhecido do grande público. Jamais houve caso que, mesmo de longe, se comparasse aos de um Jorge Amado na Bahia, um Gilberto Freyre em Pernambuco, um Câmara Cascudo no Rio Grande do Norte ou um Érico Veríssimo no Rio Grande do Sul.
E a sua rotina, como funciona? Você escreve todos os dias? Tem horários próprios para isso? Concilia com facilidade a vida profissional e a vida pessoal?
Escrevo todos os dias, pelo menos algumas linhas. Pela manhã “bato ponto” na praia, andando, conversando, tomando sol (quando há...). À tarde escrevo, respondo cartas e leio. Sou leitor inveterado. Nos tempos da Promotoria isso tudo era feito à noite e nos fins de semana; depois de aposentado a coisa ficou mais fácil.
De onde surgiu seu grande interesse por Godofredo Rangel e Crispim Mira a ponto de ser o único biógrafo dos dois autores no país? Fale um pouco sobre eles e sobre seus trabalhos sobre Monteiro Lobato também.
Minhas pesquisas sobre Lobato despertaram a curiosidade sobre Rangel. Quem seria aquele escritor silencioso, que nunca se manifestava, a quem Lobato escreveu cartas durante 44 anos? Procurei descobrir e então teve início uma tarefa das mais árduas porque nunca contei com o auxílio decidido de ninguém, nem mesmo da família dele, sempre reticente e desconfiada. Eu ficava me indagando sobre o que ela temia e que não gostaria que eu soubesse, pois Rangel me parecia um homem de bem, sem nada a esconder. Hoje eu acredito que sei os motivos desse temor, mas, como são assuntos familiares, não devo divulgar, esclarecendo que não é nada de negativo em relação a ele, que foi um homem de muito caráter e absoluta honestidade intelectual. E assim, aos trancos e barrancos, colhendo coisinhas daqui e dali, fui construindo a biografia que até hoje continua sendo a única. Quanto a Crispim Mira, desde que o descobri notei que havia a nítida intenção de silenciar, esconder, abafar. Tratava-se de assunto tabu e isso só atiçou meu interesse. Comecei a estudar, partindo do levantamento das obras dele e depois para a análise dos livros, um a um. Acabou nascendo o livro “Jornalista por ideal.” Até hoje há quem me olhe atravessado por ter mexido nesse vespeiro. Em meu último livro incluí um capítulo sobre ele.
Quanto a Lobato, foi uma das maiores figuras deste país, talvez nem tanto como escritor, mas como cidadão, como abridor de caminhos, como um guia da nacionalidade. A maioria das pessoas nem de longe avalia o quanto devemos a ele.
O que você aprendeu de mais importante com eles (Godofredo, Crispim e Lobato)?
Com Rangel eu aprendi que uma obra de arte literária só se faz com muita calma, trabalho e perseverança. Crispim me ensinou que em certas situações a consciência tem que falar mais alto, sejam quais forem as consequências, como ele próprio fez, e que lhe custou a vida. E Lobato me ensinou tudo, isto é, me ensinou a ser brasileiro.
Na história nacional e mundial da literatura, quais as personagens mais bem construídas que conhece e por quê?
Nestes últimos tempos tenho lido e admirado o franco-suiço Blaise Cendrars, o hagiógrafo sem fé, Ele amava o Brasil como poucos, foi seu ardoroso defensor e muito o divulgou na Europa. Esteve aqui várias vezes e integrou a célebre caravana modernista às cidades históricas de Minas Gerais, da qual participaram Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, René Thiollier, Gofredo da Silva Teles, Olívia Guedes Penteado e outros. Escreveu vários livros sobre o Brasil e traduziu autores brasileiros para o francês. Foi um autor-personagem dos mais interessantes com que topei.
Também me fascinam os personagens de Ernest Hemingway. São em geral destemidos, ativos, andarilhos, misto de aventureiros e intelectuais, como foi seu próprio criador.
Entre os nossos, tenho especial simpatia pelo Dr. Rodrigo Cambará, figura central de “O Retrato”, de Érico Veríssimo, um homem sofisticado e culto perdido no meio rude e atrasado de Santa Fé daqueles tempos.
Riobaldo Tatarana, o jagunço-filósofo de Guimarães Rosa, é outro que me agrada. A cada retorno ao “Grande Sertão: Veredas” ele me surpreende com novas tiradas.
E tenho simpatia pelas figuras mais humildes, os deserdados da sorte, os náufragos da vida, como o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, o Fabiano de Graciliano Ramos e o João Onofre de Guido Wilmar Sassi. Sempre que o leio, sou tomado de compaixão pelo Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, com seu extremado e ingênuo patriotismo.
Como toda minha geração, Che Guevara, Elvis Presley e James Dean foram ícones que compunham o meu panteão. Todos, porém, já estudam a geologia do campo santo – como dizia mestre Machado.
Você acha que para se tornar um grande escrito é necessário trabalho duro, como um “operário da escrita”, ou é uma questão de mero talento?
As duas condições são indispensáveis. Mesmo trabalhando duro, se não houver algum talento, jamais alguém se tornará um grande escritor.
E seus acervos? Conte um pouco a respeito deles.
Tenho muita coisa guardada em pastas e as obras completas de meus autores preferidos – Lobato, Rangel, Lima Barreto, Gilberto Amado. Meu acervo sobre Crispim Mira doei ao Arquivo Histórico de Joinville, terra natal dele, onde tem servido a muitos pesquisadores. Também doei muita coisa ao Arquivo Histórico de Blumenau. Tenho socorrido pesquisadores sobre esses autores com livros e outros materiais. Agora mesmo há pelo menos cinco pesquisadores realizando trabalhos sobre Rangel e a todos tenho procurado ajudar.
Você já foi (ou é) membro de diversas academias de literatura. De quais academias você já fez parte e por que considera isso importante?
Na verdade não pertenço a nenhuma academia, como integrante ou sócio efetivo. Fui designado sócio-correspondente de várias delas, uma espécie de representante da instituição para a região. É uma designação unilateral e espontânea da entidade, além de ser uma forma de homenagem.
Entre as que me nomearam estão a Academia Piauiense de Letras, a Academia Pernambucana de Letras, a Academia Mineira de Letras, a Academia Carioca de Letras e a Academia de Letras e Artes do Amazonas, além de diversas academias e instituições culturais regionais ou locais. Essas ligações são importantes pelo intercâmbio que propiciam e pelos amigos que fazemos, uma das boas coisas que a literatura nos dá.
A seu respeito já foi dito: “As narrativas de Enéas, misturando drama, humor, violência, têm como tônica dominante um lirismo incontido. Em breves e estarrecedoras tomadas, o homem, em geral, é visto com os olhos do amor e da solidariedade. É uma espécie de luta para entender e dar sentido ao contraditório dos fatos concretos. Unindo a pesquisa, o estudo e a criação ficcional, Enéas Athanázio projetou-se como um dos mais conscientes, sérios e persistentes homens de letras catarinenses.” Fale um pouco sobre isso.
Com sinceridade, não me lembro de quem disse isso, mas fico satisfeito porque revela alguém que conhece bem o meu trabalho. São palavras que só me engrandecem, como engrandeceriam a qualquer outro escritor.
Quais personagens que já criou que mais se identificam pelas ideias ou como ser humano? Criou-os já se tendo como modelo ou escreveu e se reconheceu apenas depois?
Gosto de todos meus personagens, afinal fui eu quem os colocou no mundo. Mas minha simpatia maior vai para Janary Messias, um eterno sonhador romântico, capaz de se apaixonar por uma santa e por uma prostituta, além de ser incansável andarilho, sempre a procurar um lugar que lhe sirva. Profissional da área forense, como eu, é capaz de abraçar causas difíceis apenas pelo desejo de ajudar – como tantas vezes também fiz. Mas, apesar dos pontos em comum, ele não é meu alter-ego, como alguns têm escrito. Creio que é meu personagem mais rico e coerente.
Você se sente mais à vontade escrevendo crônicas, contos, romances, ensaios. . .o quê?
Tão logo começo a escrever um texto, mergulho nele de cabeça. Embora o ensaio exija muita leitura e pesquisa, além de interrupções para consultas, eu considero mais fácil. O duro mesmo é criar, espremer os miolos e dali extrair histórias, lugares, situações e personagens. É um desafio.
Numa entrevista ao Luiz Carlos Amorim, em 1989, você revelou que não via com bons olhos a literatura catarinense, uma literatura sem espaço, sem crítica, divulgada muitas vezes somente com pequenas notinhas. Como você vê isso hoje?
Penso que as coisas só fizeram piorar. Os críticos mais antigos não militam mais e não surgem novos. O último abencerragem que continua a escrever sobre os catarinenses sou eu mesmo. E as notinhas estão cada vez mais raras e mais superficiais. O resultado é que prosperam coisas abomináveis, que só têm o formato de livros mas na verdade não o são.
Quando uma obra sua, ou de outro autor, não tem repercussão, quem são os culpados?
O leitor é o maior propagandista de um autor. Quando a obra o entusiasmo ele divulga nas conversas com amigos e procura outros títulos do autor. Mas se o livro não agrada, a culpa será do próprio livro. Agora, quando a obra fracassa por absoluta ausência de leitores e cai no vazio, é impossível saber qual foi a causa porque a obra foi vítima do desinteresse e da indiferença. Nem chegou a ser analisada. É isso que costuma acontecer por aqui.
E o Jornal do Enéas? É a sua vontade de ajudar quem escreve, de ser um escritor atuante pensando no todo?
Muitas pessoas me remetiam trabalhos na esperança de que eu os publicasse em algum lugar. É claro que eu não podia atender a todas. Alguns desses textos eu conseguia, a duras penas, colocar em jornais conhecidos, mas a maioria ficava nas gavetas. É frustrante para um escritor que gosta do que faz não ter onde publicar. Foi daí que surgiu a ideia do Jornal do Enéas. Mas nunca imaginei que ele se tornasse tão conhecido. Nunca consigo publicar tudo que recebo, ainda que tenha qualidade literária, e nem atender a todos os pedidos, sempre superiores às tiragens. O jornal já vai entrar no décimo ano de circulação.
O que lhe levou a morar em Balneário Camboriú? Já chegou a morar no Nordeste que tanto admira?
Quando me aposentei no Ministério Público surgiu o problema. Onde morar? Retornar à terra natal, depois de uma ausência tão prolongada, seria conviver com fantasmas. Voltar às cidades onde trabalhei como Promotor não faria sentido porque haviam sido meros acampamentos à beira do caminho, nada de definitivo. Foi então que me decidi por este cantão de praia onde eu não tinha passado e quase não conhecia ninguém. Ele me parecia o lugar ideal para iniciar nova fase da vida, talvez a última. E aqui me encontro até agora, alternando temporadas em Piçarras, onde tenho uma casinha. Cheguei a cogitar em me fixar no Nordeste, mas seria uma grande complicação e acabei desistindo. Árvore velha não se muda – diz a sabedoria popular.
Você se considera um resistente literário? Alguém que, por mais dificuldades que a literatura e a vida já tenham colocado no caminho, segue e sempre seguiu, firme e forte em seus objetivos? Seriam esses, aliás, alguns dos seus “segredos da vitória” como pessoa e como escritor?
As dificuldades com que me deparei nunca foram de tanta gravidade que exigissem um esforço hercúleo para superá-las. À medida que foram surgindo eu as enfrentei com disposição. Sempre que desejei alguma coisa procurei obtê-la fazendo as coisas bem feitas. Assim, quando fui candidato não fiquei desesperado, correndo como barata tonta, mas visitei os amigos e lhes pedi o voto. Funcionou. Quando me inscrevi para o concurso de ingresso no Ministério Público, um concurso muito difícil, tratei de estudar, estudar e estudar. Também funcionou. Agora, escrever parece que já faz parte da minha natureza e nunca experimentei parar. Bem ou mal, creio que escreverei até o fim.
Como você vê as universidades atualmente? Acredita que é importante que os escritores tenham algum curso superior ou especializações, mestrados, doutorados? Por quê?
As universidades de hoje estão bem equipadas e bem instaladas, contando com grandes recursos. Mas, pelo que tenho observado, as bibliotecas universitárias em geral são mal organizadas e deficientes. Deixam muito a desejar. Creio que é importante que escritores façam cursos, embora esses cursos não façam escritores. Cursos de letras, por exemplo, costumam formar professores e críticos que professam uma crítica universitária hermética e que ninguém lê. No entanto, é claro que todo curso feito com esmero abre horizontes.
Defina em algumas palavras:
Amor: o mais nobre dos sentimentos
Sexo: o maior prazer físico do ser humano
Liberdade: condição essencial para a vida
Religião: a busca de amparo no sobrenatural
Deus: entidade onipotente mas ausente; parece ter cansado das loucuras humanas e nos deu as costas
Inteligência; um dom da pessoa
Burrice; ausência desse dom
Prosperidade; consequência do trabalho, contando com alguma sorte
Vida: um ciclo com começo, meio e fim
Morte; o ingresso no outro lado do mistério, como dizia mestre Machado.
Qual o sentido da vida para você?
Contribuir, como cidadão e escritor, para que este mundo seja um pouco melhor e mais justo.
Já usou drogas, inclusive bebidas?
Nunca usei drogas mas confesso que gosto de beber. Não bebo porque meu organismo é refratário ao álcool, o que considero um grande azar. Uns tragos de vez em quando são indispensáveis.
Qual seu próximo lançamento?
Neste ano já lancei meu 41º. livro – “Ensaios Escoteiros”, de modo que é prematuro falar no próximo. Há tempos, porém, penso em organizar uma coletânea de meus contos escolhidos, embora ainda sem prazo.
Gostaria de dizer mais alguma coisa ou deixar uma mensagem para os leitores?
Aos leitores eu diria que continuem lendo porque a leitura de suas obras é a maior homenagem ao escritor. E nada mais digo porque já falei demais, violando o velho princípio do fala pouco e bem e ter-te-ão por alguém.
B. Camboriú, 22 de agosto de 2010, 16,30h.