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Fábio Brüggemann

Fui parido numca casa, já demolida – quase coisa inevitável – em Lages, em 1962. A parteira, muito gorda (tanto quanto sua doçura, me disseram), entalou-se comigo no colo numa porta bem menor do que ela, mas muito maior que eu. Neste dia, a sensação de que à medida em que cresço (e quase cheguei aos dois metros) diminui o resto das coisas e das pessoas, proporcionalmente, nunca mais me abandonou. A única coisa que jamais diminui foi a imensidão do planalto, incluindo o pôr do sol dos mais solitários e comoventes que vi, de uma melancolia de doer. E reconheço que a imensidão do planalto e a sensação de pequenez diante dele influenciou demais minha própria melancolia. Dou muita risada, mas é só disfarce.

O nome Fábio veio de um tio, morto tragicamente. O primeiro nome – que abandonei desde cedo – veio do próprio pai, também morto de forma trágica quando minha mãe me carregava de oito meses na barriga.

Não li nada sério até os 17 anos, nem mesmo as obrigações escolares, pelo fato de que o objeto livro não existia em casa. Mesmo assim, aos 9, ganhei um livro de orações, cuja primeira coisa que fiz com ele foi cheirá-lo. Este cheiro sinto até hoje, talvez por isto tenha escolhido como uma das profissões fazer livros. E cada vez que um deles chega da gráfica, repito o ritual olfativo.

Aos vinte anos, em 1982, entendi que Lages era apenas um retrato na parede e parti para o desterro, aqui nesta Ilha onde vivo até hoje. Entrei para o curso de Letras, na UFSC, mas abandonei quando um professor me reprovou por faltas, apesar de ter dito que meu trabalho sobre Cruz e Sousa era um dos melhores que havia lido e, em seguida, quando disse a uma professora que achava inútil saber se uma frase é subordinada assindética ou não. Ela me disse que a gente deveria saber para poder escrever melhor. Talvez por isto eu até hoje não saiba escrever. Mesmo não sabendo, publiquei, só de teimoso, alguns livros. Comecei achando que era uma poeta genial, até descobrir que não passava de um imitador de Mário Quintana. Mas já era tarde, já havia publicado DanÁando na chuva, em 1982, meu primeiro livro. Depois vieram outros, até que lá pelo terceiro ou quarto, para o bem da poesia, larguei mão dela.

Depois disso, comecei a trabalhar no jornal O Estado (1985-1987) e, mais tarde, em A NotÌcia (1989-1991 e 1997-1999), onde convivi com grandes amigos, como Joca Wollf (escrevemos juntos uma novela, chamada Homem Aranha, 1988) e Jéferson Lima. Neste meio tempo, fui dono do primeiro sebo de Florianópolis, chamado de Sebo de Qualidade, onde conheci muitos escritores com os quais convivo até hoje, como Cléber Teixeira, Renato Tapado, Iaponan Soares, Silveira de Souza, Salim Miguel, Flávio José Cardozo, Rodrigo de Haro, Vinícius Alves, Dennis Radünz e Péricles Prade. Junto com o sebo, abri uma editora, chamado Semprelo. Através dela, publiquei cinquenta títulos, todos com tiragens pequenas, incluindo tanto autores novos quanto já conhecidos. Mais tarde, Péricles Prade e eu montamos a editora Letras Contemporâneas, contando hoje com mais de 150 títulos em seu catálogo.

Após abandonar a poesia, publiquei a novela A lebre dÛi como faca de ouvido (1992, com segunda edição em 1996), os livros de contos Riomadrenses (1999) e Fabul•rio dos ilustres desconhecidos (2002), além de três peças para teatro, reunidas em Trilogia da ang?stia (Editora da UFSC, 1999) e do livro Para que serve o Estado?, de diálogos sobre filosofia do direito com o promotor Pedro Roberto Decomain. Atualmente, escrevo aos sábados no caderno “Variedades”, do Di•rio Catarinense e preparo um volume com uma seleção dos artigos publicados nestes últimos vinte anos, chamado Isto n„o È notÌcia ñ escritos de jornal.

Não posso esquecer que dirigi alguns filmes (entre eles O Espelho, baseado em obra homônima de Machado de Assis, e O sanduÌche frio est• fora de foca, entre outros. Escrevi também alguns roteiros, incluindo L¥amar, dirigido por Sandra Alves.

Isso sou eu, mas tenho a sensação de que estou esquecendo alguma coisa.

FONTE: www.umdedodeprosa.cce.ufsc.br/paginas/autor.php