Ex-estudante de colégio agrícola, de família humilde, hoje um escritor talentoso, criativo e disciplinado ("maníaco da madrugada, como se denomina"), MIguel Sanches Neto revela fatos e histórias interessantes de sua vida, inclusive o desentendimento com um de seus grandes ídolos:
"Minha maior influência foi o Jamil Snege – que morreu anos atrás. E também o Dalton Trevisan, para quem eu morri anos atrás."

Nome completo:
Miguel Sanches Neto
Data e local de nascimento:
Bela Vista do Paraíso, Norte do Paraná, em 24 de julho de 1965, mas só fui registrado no dia 25, porque não era comum registrar um varão nesta data do mês.
Por que você escreve?
Para suportar a falta de sentido de estar vivo.
Você chegou a trabalhar com agricultura? Com qual idade você descobriu a Literatura?
A partir dos 13/14 anos eu comecei a escrever poemas, mas só comecei a me ver como escritor mesmo a partir dos 17 anos. Neste meio tempo, fiz colégio agrícola, comecei e larguei a carreira de agricultor, ajudei minha família numa cerealista.
Na sua casa, como foi esta descoberta? Você demonstrava o amor que passou a ter pelos livros? O que a sua família dizia disso?
Achavam que ler era uma forma de vagabundagem. Assim, eu evitava o trabalho pesado. Só passaram a entender o sentido maior da leitura depois que ganhei uma bolsa de mestrado e eles viram que a literatura poderia ser a minha profissão.
O que você aprendeu de mais importante com eles, antes dos livros, com as atividades que exercia?
O fascínio para narrativa oral. Esta proximidade com as estórias foi determinante para minha atividade de escritor.
Como você explica que um homem simples, vindo do campo, tenha se tornado um nome tão importante na literatura do sul do Brasil? É vocação? Você acredita em vocação para a literatura ou para alguma coisa?
Acho que havia uma predestinação. Mas, para chegar à literatura, tive que ir dando errado nas demais tentativas de assumir uma identidade profissional. Com sou reativo, ajo quando desafiado, os desafios do meio rural, da formação interiorana, da exigência de uma vida prática, do trabalho braçal, enfim, essa coisa toda serviu para ir me conduzindo a uma vida entre livros.
Você defende a idéia que o escritor deve ter outras rendas, outras atividades, até mesmo para ser mais livre e criar à vontade, sem ser um “produto das editoras”, digamos assim. Para você, viver só de literatura é uma ilusão incapaz de gerar belas obras, já que talvez desta forma aja menos desafios?
Não acho que seja uma ilusão, e alguns até conseguem uma grande independência apenas escrevendo, e produzem grandes livros. Acho apenas que a chance de dar errado quando a pessoa se isola numa identidade “pura” de artista é maior. A arte nasce deste confronto com a vida, que é mais intenso nas relações sociais reais. Então, quando você está trabalhando, está dentro de ambientes comuns à grande maioria das pessoas, e pode sentir melhor as tensões.
Vi você falando num programa de televisão que você queria fazer Direito porque acreditava que escritores tinham que cursar esta faculdade. Você chegou realmente a entrar numa faculdade de Direito e se tornar um advogado? Quando a faculdade de Letras entrou na sua vida e em que momento você resolveu ser um professor?
Eu fiz apenas o vestibular para Direito, passei em segunda chamada e não fui cursar. Fiz Letras a partir do exemplo de um amigo que freqüentou o colégio agrícola comigo, e que hoje é professor na USP (Waldir Heitor Barzotto) e de uma dica de meu dentista da época. O curso de Letras foi fundamental para mim, pude ter uma profissão muito próxima da atividade de escritor. Sou grato a esta profissão.
Como são as suas aulas? Que aulas você leciona e como os alunos lhe vêem, mais como um professor-escritor ou como um escritor-professor? Aliás, quais as diferenças disso?
Leciono principalmente literatura brasileira contemporânea, mas este ano vou dar uma disciplina de crítica literária. A minha marca como professor é não soterrar o aluno de leituras teóricas, mostrando para ele que a teoria é uma construção que qualquer um pode tentar a partir da leitura dos textos dos artistas. Nesse sentido, talvez eu seja mais escritor do que professor. A diferença principal é na maneira de encarar o texto – para o escritor ele não é o conteúdo de uma disciplina, mas o centro de sua vida. Lecionar se confunde, para ele, com viver. Para o professor, mesmo que seja escritor, a literatura tem um sentido mais profissional, digamos, e menos vital.
Há “alunos ruins” que lêem seus livros ou crônicas e comentam em aula só para tentar ganhar alguma simpatia e uma boa nota? Como é que fica quando acontece isso?
Tento não deixar que ocorra esta confusão, e pouco ou quase nada falo de meus livros entre meus alunos ou colegas de trabalho. Quando o professor entra em ação, o escritor se afasta um pouco. Quero ocupar o papel de educador ali naquele espaço. Mas sempre há alunos que comentam meus livros. Em um recente concurso público, do qual eu era um dos avaliadores, houve candidato que, para meu constrangimento, elogiou livro meu.
Falando em sala de aula, quais os autores que você mais gosta de estudar e ensinar?
São muitos autores. De Mario de Andrade a Luiz Vilela, de Guimarães Rosa a Dalton Trevisan, de Manuel Bandeira a Paulo Leminski. Sou um leitor onívoro da literatura brasileira.
O que você vê de mais negativo e positivo nas universidades brasileiras hoje?
O mais negativo é uma tendência para trocar a leitura dos livros de literatura por ensaios teóricos. Não sou contra a teoria, sou leitor de alguns teóricos, mas sou crítico em relação ao teorismo, que é uma mania nacional. O bom da universidade brasileira é que ela garante um espaço para o pensamento livre. Podemos trabalhar naquilo que nos move. Pode haver crítica e pequenas perseguições grupais, mas é um espaço de liberdade de ação.
Você acredita que escritores devem fazer alguma faculdade relacionada à letras e à literatura ou isso é mais para quem quer ser professor, crítico, etc, e para escrever basta escrever, dedicar-se, seguir orientações como as que você deu num site (www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp)?
Ninguém precisa cursar faculdade para ser escritor. Eu cursei porque precisava ter uma profissão. Se eu fosse, por exemplo, proprietário de terra, não teria feito universidade e teria seguido adiante na minha predestinação. Agora, cursar uma faculdade é sempre um processo de amadurecimento. Ajuda a formar o intelecto, principalmente se for na área social ou humanística.
O que você acha das publicações virtuais? Para onde vão os livros com inovações como o Kindle?
Tenho uma fé meio démodé no livro impresso. Acho que a publicação virtual é interessante, eu mesmo mantenho um microblog (www.twitter.com/miguelsanchesnt), mas isso me parece mais uma forma relacional. A literatura para durar rima melhor com livro impresso. Claro, falo do mundo da literatura, não dos livros de referência, de estudo, que migrarão mais para as mídias eletrônicas. Como disse, é mais uma fé do que uma análise.
E o jornalismo, como surgiu no seu dia-a-dia? Os convites para escrever para jornais, para ser um colunista da Gazeta do Povo, por exemplo?
Sempre quis escrever em jornais. Era um desafio. Escrever coisas para um público maior, nem sempre interessado em literatura. Tem sido uma experiência positiva, melhorou a legibilidade de meus textos. São 16 anos de coluna semanal ininterrupta e colaborações para vários veículos. Eu fui apresentado à Gazeta do Povo pelo Dalton Trevisan, que me recomendou. Depois, o pessoal foi me tolerando e continuo lá. Tenho uma liberdade total no jornal, sou grato aos donos, principalmente à jornalista Ana Amélia Filizola, que foi minha primeira editora e que me descobriu como colunista.
Como presidente da Imprensa Oficial do Paraná, como você vê a não mais obrigatoriedade da faculdade de Jornalismo no Brasil?
Este assunto é muito complexo. Resumindo eu diria: não acho imprescindível o curso para ser jornalista, mas acho que o curso ajuda muito na formação de um bom jornalista. E já que existe uma estrutura universitária para isso, minha tendência é defender a profissão. Agora, vejo que os jornalistas também têm que patrulhar menos os que não são jornalistas. Há casos de referências intelectuais que não precisam fazer curso para exercer esta profissão. E muitas outras. Como a de professor de literatura.
Qual a sua própria crônica preferida? Ou qual deu maior repercussão em número de e-mails, cartas, comentários no jornal, enfim?
As polêmicas dão mais repercussão. Uma que fiz sobre Buenos Aires, dizendo que havia um mito de capital européia na América Latina e isso era falso. Era uma cidade como qualquer outra do seu porte em nosso continente. Quase fui linchado. Principalmente porque eu vinha de uma viagem de lá e acabara de receber o prêmio Brasil-Argentina de Artes. Gosto muito de Buenos Aires, assim como gosto do Rio, mas não vejo diferenças substanciais entre as grandes cidades.
“Chove sobre minha infância”, um de seus livros de maior sucesso nacional, é uma autobiografia disfarçada? Fale um pouco deste livro e do que ele tem (e não tem) a ver com você.
Não é uma autobiografia. É um romance autobiográfico. Ou autoficção, como dizem os teóricos franceses. Ou bio-romance, como quer o Domingos Pellegrini. Segundo um célebre ensaio de Philippe Lejeune, o que conta é o pacto que o autor faz com o leitor. No meu caso, por mais que existam fatos da minha vida, o pacto é ficcional. Deve, portanto, ser lido como ficção. As estratégias de escrita são da ficção. Apenas o material é da autobiografia.
Por que você se considera um “escritor periférico”, como disse numa entrevista? O que você gostaria que fosse diferente? Aliás, você gostaria que algo fosse diferente?
Sou periférico porque escrevo num Estado periférico, numa cidade média do interior do Paraná, porque falo de um conflito entre o mundo rural e o mundo urbano, quando o tema do momento é a grande urbe, porque escrevo numa linguagem clara, transparente, quando na matriz a língua literária é a fragmentária, a confusa, a cheia de ruídos. Não gostaria que nada fosse diferente, pois o desafio é mais interessante para o escritor. Quero continuar na periferia, desafiando as verdades galvanizadas.
Você escreve crônicas, contos, romance, livros infantis e até poesia já escreveu. Qual gênero você prefere afinal, e por que a opção de “navegar” de um para outro não mirando um público específico, talvez?
Sou polígrafo. Gosto de todos os gêneros. Mas o meu preferido é o romance. Ele exige mais do autor também. Não escrevo pensando em público. Aliás, se eu pensasse em quem vai me ler eu não teria escrito quase nada do que escrevi. Escrevo em vários gêneros porque assim amplio as possibilidades de expressão.
É verdade que você costuma escrever das 4:30 às 7:30 da madrugada? Como é a sua rotina literária?
Sim, sou o maníaco da madrugada. Este horário é o melhor para ler e escrever – a casa está quieta. Os passarinhos fazem um fundo musical. O telefone não toca. Não há carros passando na rua. E no horário comercial eu trabalho num cargo administrativo da universidade. Sobram-me as madrugadas e os finais de semana. E também as férias. Só posso escrever romances nas férias, pois preciso de uma imersão total na história.
Sendo também um crítico literário, algum escritor famoso já ficou chateado com você sobre algo que escreveu e reagiu a isso negativamente?
Muitos ficaram chateados. Uns até me perseguem. Outros me ofenderam publicamente. Mas isso tudo faz parte do jogo. São as regras da vida literária. Não me deixo vencer, sigo em frente, dando não respostas, mas produzindo novos livros.
E a sua chamada “espaçonave”? Quantos livros você tem lá em média? Quais os seus preferidos?
Minha biblioteca tem 70 metros quadrados, e é um lugar ordenado. Descarto todos os livros que não me interessam. O leitor é um presidente do pelotão de fuzilamento. Tem que eliminar muitos livros. Ficam os que li, os que pretendo ler. Não coleciono por colecionar.
E quanto aos escritores do sul, quais os autores que mais admira?
Ih, muitos. Eu teria que citar quase todos os meus amigos. Seria uma lista que não diria nada. Minha maior influência foi o Jamil Snege – que morreu anos atrás. E também o Dalton Trevisan, para quem eu morri anos atrás. Pois nos afastamos e agora cada um tem uma versão deste afastamento.
Fale um pouco mais sobre isso. Qual a sua versão deste afastamento do Dalton, por que ele ocorreu. como você vê isso?
Fui, durante uma década e meia, leitor devoto da obra dele. Fiz uma dissertação de mestrado na UFSC sobre A Polaquinha. Uma tese de doutorado na UNICAMP sobre a Revista Joaquim, que ele editou na década de 40. Reeditei, em uma versão fac-similar, esta revista. Escrevi um livro sobre toda a produção dele até aquele momento - Biblioteca Trevisan (Editora da UFPR, 1996). Enfim, fui o que pode se chamar de um pequeno discípulo. Mas, em uma das suas crises, Dalton se afastou de mim, acusando-me de ter falado a um repórter sobre ele. Nenhum problema se eu tivesse falado ao repórter, mas não falei. Depois disso, ele começou a falar mal de mim. A maledicência é um esporte paranaense. Percebi isso neste momento, é uma regra entre nós: "Falai mal uns dos outros", eis o nosso único mandamento. Foi quando decidi reagir da única forma que um escritor sabe reagir, criando uma narrativa ficcional que tem a maledicência como um dos centros. Dalton conseguiu, por meio de artimanhas, envolvendo um amigo em comum, uma cópia deste livro e escreveu uma acusão feroz e infantil sobre mim, que está aí na internet. Chama-se "Hiena papuda". Ri da coisa toda. Ele nega o recurso de escrever a partir de uma ficcionalização do real, transpondo-o para o terreno das estruturas simbólicas. Nega isso em mim. Mas é exatamente isso que ele sempre fez. E eu aprendi a fazer isso lendo e estudando a obra dele. Ou seja, continuo sendo discípulo, apenas não sou mais alinhado ao mestre.
Numa pesquisa feita pelo nosso site, Escritores do Sul, concluímos que dos 3 Estados da Região, o Paraná é um dos que tem menos escritores conhecidos pelo grande público (Rio Grande do Sul disparado na frente). No PR, em geral, sempre são citados os mesmos: Você, Domingos Pelegrini, Helena Kolody, Leminski e Trevisan. Quais escritores do seu Estado - inclusive contemporâneos - você indicaria também para quem conhece pouco a literatura paranaense?
Jamil Snege, que foi um mestre.
Como você vê a política brasileira e mundial hoje?
Um deserto de idéias. São apenas palavras de ordem.
Defina algumas palavras:
Amor – um raio que cai sempre no mesmo lugar.
Sexo – aquilo que um corpo pensa sobre o outro.
Liberdade – aquilo que só entendemos quando não temos.
Religião – sistema wireless de conexão com o mistério.
Deus – o maior buraco negro do universo.
Inteligência – capacidade de rir de nossas próprias ridicularias.
Burrice – pretensão de ser grande.
Prosperidade – pagar em dia o financiamento do carro.
Vida – intervalo entre dois vazios.
Morte – aposentadoria por invalidez.
Qual o sentido da vida pra você?
Sentido de mão única, quando a gente dirige na contramão.
Como gostaria de morrer?
Com muita vida pelas costas.
Já usou drogas, inclusive bebidas?
Além do chimarrão, só bebidas.
Quais seus próximos lançamentos?
Um romance, um livro de crônicas, um livro de contos e um volume de ensaios acadêmicos – não necessariamente nesta ordem.
Gostaria de deixar alguma mensagem ou falar alguma coisa que não foi questionado?
A caixa de mensagens do mundo já está muito cheia.