Walter Galvani (dezembro,2009)
Um escritor que sabe fazer história

Jornalista premiado, apaixonado por história e literatura, Walter Galvani falou com exclusividade à revista Escritores do Sul:

"Um escritor não precisa de diploma. Precisa é se "diplomar" aprendendo a escrever. Lendo e tentando a escrita, todos os dias."

Nome completo:
Walter Galvani da Silveira

Data e local de nascimento:
6 de maio de 1934, em Canoas

Como você se define?
Um grande leitor e um escritor trabalhador... Um jornalista acima de tudo ou, antes de tudo... Um apaixonado por História e pela pesquisa. E um amante da Literatura. E da música.

Fale um pouco sobre como começou a sua carreira literária. Quando você decidiu escrever o primeiro livro?
Foi em 1969, como resultado de três viagens ao exterior, uma seleção de crônicas jornalísticas.

E o jornal, como surgiu na sua vida?
Em 1954, com o suicídio de Getúlio Vargas, eu e alguns amigos canoenses (Antonio Canabarro Trois Filho, Nilo del Cueto dos Reis e outros) fundamos um jornal: "Expressão". Era o choque político, dramático da morte de Getúlio e nosso desejo de mudar as nossas vidas e tornar o trabalho a expressão da nossa geração.

A Folha da tarde foi marcante na sua carreira,pelo que sei. Conte um pouco sobre o seu trabalho neste jornal.
Depois da experiência canoense vim para o Correio do Povo em fevereiro de 1955, onde iniciei como cronista esportivo. Fiquei mais de cinquenta anos... até hoje, passando pela rádio Guaíba, onde ainda mantenho uma aparição semanal. Andei por televisão (pouco) e outras rádios, como Pampa. Na Folha da Tarde fui tudo. Repórter, redator, cronista social, redator da área cultural, promoções, chefe de reportagem, editor e finalmente diretor de redação. Lidei com estagiários de jornalismo e mais aprendi com eles do que eles comigo. Até hoje tenho a minha "turma", eu os sigo, admiro e procuro cantar seus feitos. Suas carreiras, que muito me orgulham por ter estado lá, bem no início.

E no Correio do Povo, existe alguma coluna sua preferida? Qual coluna deu maior repercussão até hoje na sua vida (em número de e-mails, comentários nos dias seguintes, enfim.).
Crônicas de antes da era do e-mail... Minha campanha dos anos setenta pela preservação do Mercado Público, por exemplo, me enche de orgulho até hoje. Queriam derrubar o velho prédio. Para ligar o trânsito da Siqueira Campos com a av. Julio de Castilhos. Não deixei, não deixamos! Foi uma grande campanha, até o Mário Quintana participou, mais o Carlos Reverbel, Sérgio da Costa Franco, todos os que tinham algo a dizer e fazer pela comunidade.

É verdade que você fugiu de casa, em Canoas/RS, para tentar a vida em Passo Fundo?
Sim, isso foi no fim do ano de 1955, passei a noite de Ano Bom, correndo na praça central de Passo Fundo. Voltei de carona, depois de vender a penúltima camisa para comer na viagem...

Por falar nisso, como foi a sua infância e adolescência em Canoas? O que você lembra de mais marcante daquela época?
Os amigos, claro, a turma do La Salle, o pessoal que participou comigo no Grêmio Literário coordenado pelo Irmão Henrique Justo, uma loucura! A gente deixava de jogar futebol no pátio do colégio para falar de literatura.

Já existia algum indício ou pista que mostravam que você iria escolher o caminho do jornalismo e da literatura depois de adulto?
Era isso, o que contei antes. Participei também no jornalzinho interno "Ecos de São Luiz".

E Porto Alegre, como surgiu na sua vida?
Sempre passei minhas férias em Porto Alegre, na casa das tias, na Estrada da Pedreira (hoje Plinio Brasil Milano) ou na rua Carlos Von Kozeritz e na rua Cândido Silveira. Frequentava muito aquela zona. Aos poucos fui sonhando com morar na capital, mas só concretizei isso aos 21 anos, quando cheguei ao Correio do Povo. Morei em diversos endereços, pequenos hoteis e pensões, no centro da capital.

Você acha que pra se tornar um grande escritor é necessário trabalho duro,como um "operário da escrita" ou é uma questão de mero talento?
Não sei se é talento, mas sempre é o trabalho. Repito a frase de Picasso ao lhe perguntarem se existe inspiração: "Existe sim, mas sempre que ela chega me encontra trabalhando". É uma lição. É isso aí.

Para você, publicar livros no Brasil é fácil, difícil ou depende de cada um?
Publicar livros é difícil, é preciso ainda mais trabalho, boas relações, e ter um bom produto. Inscrever em concursos de inéditos, também ajuda, para sair do anonimato. Mas é para quem pode...

O que você acha das publicações virtuais? Para onde vão os livros com inovações como o Kindle?
Tudo bem, todos os tipos coexistirão. Assim como a TV não acabou com o cinema, como o cinema não acabou com o teatro, como o rádio não acabou com o jornalismo impresso e nem foi terminado pela tv...

Qual o seu próprio livro preferido?
Nau Capitânia.

Como foi fazer uma biografia do Pedro Álvares Cabral?
Muito trabalho de pesquisa, muitos contatos. Contei com a ajuda decisiva da minha companheira, Carla Irigaray, jornalista como eu, e apaixonada por História, como eu. Mas, muito mais competente do que eu.

E os prêmios recebidos? Você tem estima e orgulho maior por algum?
`Por todos é claro, mas de modo especial pelo Casa de Las Americas do "Nau Capitânia" e os prêmios de História que ele conquistou em São Paulo e no Rio de Janeiro. E aqui os prêmios da AGES para meus livros sobre Crônica e Jornalismo.

E ser um patrono da 49º Feira do Livro de Porto Alegre, como foi? Era um convite que você já esperava que um dia acontecesse ou lhe pegou de surpresa?
Eu esperava, esperava sempre. Mas, não esperava para aquele ano. Graças a Deus, veio no momento certo, pois eu havia recém perdido o programa cultural que fazia na importante Rádio Guaíba, por obra e graça de uma busca de patrocinadores de que não participei. Não era o meu feitio buscar apoios comerciais, embora não desdenhe a tarefa. Talvez não saiba fazê-lo...

Dos países que você já conheceu, qual o que mais culturalmente lhe encantou e por quê?
Italia por herança genética, Portugal por compreensão direta, tendo lá estado muito mais vezes e por muito mais tempo do que em qualquer outro lugar e por continuar me comunicando e correspondendo com portugueses ilustres ocmo Bernardo Vasconcelos e Sousa, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, e o "português-brasileiro-gaúcho e lusitano de nascimento", Ruy Diniz Netto.

A sua primeira ficção é de 1993, para muitos você começou tarde. Não existe cedo e tarde na literatura pra você? O que te levou a escrevê-la?
É, fui indo, primeiro frequentando outros setores da literatura e sempre o jornalismo. A ficção ainda me espera... Tenho três projetos, um em andamento, outro concluído e outro inconcluso... no bojo do computador.

Quais os escritores brasileiros você mais admira?
Machado de Assis, Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo, Machado de Assis e Machado de Assis...

E do sul do Brasil (Rio Grande do Sul. Santa Catarina e Paraná)?
Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo, Alcy Cheuiche, Tabajara Ruas

O que você vê de mais negativo e positivo na literatura brasileira hoje?
Muito pouco trabalho e muita badalação para quem passa por certas redes de televisão...

Você acredita que um escritor precisa de algum diploma em alguma área determinada?
Nada. Precisa se "diplomar" aprendendo a escrever. Lendo e tentando a escrita, todos os dias. Pode e deve cursar letras, fazer oficinas de "escrita criativa" e, acima de tudo, não deixar um dia sem uma linha (como dizia Jean-Paul Sartre).

De todas as atividades que você já desenvolveu, quais as que mais te fascinam entre rádio, jornal e literatura? (ou alguma outra, se existe)
Literatura, jornal e rádio.

Falando em rádio, como você viu e vê o rádio em nossos tempos?
Sim, ouço, procuro selecionar minha audiência.

E o futebol. Você é colorado, mas aconteceu algo que lhe ligou ao Grêmio no passado, não é verdade? Fale um pouco sobre isso.
Fui tão bem tratado no Grêmio que esqueci minha opção de criança, quando meu tio me levou a um Grenal para que eu me tornasse gremista e o "Rolo Compressor" amassou o Grêmio... Mas, na atividade profissional, Fernando Kroeff, Oswaldo Rolla e outros gremistas ilustres me ajudaram a descobrir a necessária imparcialidade e a admiração por quem trabalha certo. Fiz muitos amigos, nos dois clubes, alguns mantenho até hoje, outros já partiram.

Defina algumas palavras:

Amor – É necessário correspondência, o que completa a vida e nos torna capazes dos maiores feitos pessoais.
Sexo – Necessário, não pode ser apenas hábito e precisa de muito carinho e compreensão.
Liberdade – Indispensável para qualquer atividade. Para viver.
Religião – Não preciso.
Deus – É bom acreditar em alguma coisa.
Inteligência – A gente conquista e desenvolve.
Burrice – Acontece, e em geral não tem remédio.
Prosperidade – Trabalha-se a vida inteira.
Vida – É o que interessa. Apagada a chama, foi ... era...
Morte – Inevitável. É pena. A gente sempre tinha mais coisas para fazer.

Como gostaria de morrer?
Num instante, apenas fechando os olhos.

Já usou drogas, inclusive bebidas?
Já bebi muito cerveja, vinho, uisque, etc.etc. Mas bebo cada vez menos.

Quais seus próximos lançamentos, etc?
Ainda não posso falar. Estão em gestação.

Gostaria de deixar alguma mensagem ou falar alguma coisa que não foi questionado?
Leia. Leia sempre. Mais e mais. É o único caminho para aprender a pensar e quem pensa claro, fala claro e escreve claro.

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