Um dos maiores e mais polêmicos intelectuais do Rio Grande do Sul, o sociólogo, jornalista, professor, escritor e tradutor Juremir Machado conversou com a revista, e até relembrou a briga com Luis Fernando Veríssimo, há muitos anos num jornal de Porto Alegre.
"Muita gente já pediu a minha cabeça. Só o LFV conseguiu."

Nome completo:
Juremir Machado da Silva
Data e local de nascimento:
29 de janeiro de 1962, Santana do Livramento
Como você se define?
Um escritor maldito.
Fale um pouco sobre como começou a sua carreira literária. Quando você decidiu escrever o primeiro livro?
Escrevi meu primeiro livro, O vale da morte, aos 15 anos de idade. O texto desapareceu. Não sei se perdi ou ganhei com isso.
Depois desse primeiro livro, aos 15 anos, quando você publicou o primeiro realmente? E qual foi este livro?
Meu livro publicado foi minha dissertação de mestrado reprovada na banca em antropologia na UFRGS, que saiu pela Artes & Oficios: A miséria do cotidiano, em 1991.
Até que ponto é bom ou ruim escrever uma coluna (quase que diária) para um jornal? Como é que se faz quando falta inspiração? Aliás, o que é inspiração pra você?
Escrever uma coluna quase diária é maravilhoso. Nunca falta inspiração. Sobram temas e falta espaço. Inspiração é submeter o cérebro a estímulos constantes: ir ao cinema, ler, sair, conversar, viajar, navegar na internet.
Existe alguma coluna preferida? E qual coluna deu maior repercussão até hoje na sua vida (em número de e-mails, comentários nos dias seguintes, enfim)?
Minha coluna que mais repercutiu foi muito triste, Cabo Vito, que publiquei quando meu pai morreu. Teve uma com milhares de emails, O dedo do Lula, sobre os preconceitos contra o candidato do PT. E outra que rodou o mundo, Inferno no paraíso, sobre Cuba.
Voce já chegou a receber ameaças pelo que escreve sendo o bom polemista que é?
Sim. O que mais acontece é pressão de gente importante em cima do veículo. Muita gente já pediu a minha cabeça. Só o Luis Fernando Verissimo conseguiu. A estratégia dele era mais ardilosa: ou eu me retratava ou ele se demitia. Fui demitido para que ele não saísse, pois não me retratei do que havia dito sobre ele e sobre seu pai.
Para os leitores que não sabem deste fato, o que você havia dito que culminou a ira de Luis Fernando Veríssimo?
Eu disse que achava o LFV um humorista previsivel muito útil para quem precisava optar entre meias e sabonetes como presente de Natal. E que LFV, assim como Erico Verissimo, não brilharam na luta permanente contra a ditadura militar.
De que forma você vê isso hoje?
É passado. LFV não faz parte dos meus gostos estéticos.
Você ainda consegue tempo para escrever seus livros mesmo com toda a rotina do Jornal, lançando livros como "Solo", em 2008. Você tem uma rotina e uma disciplina para fazer literatura ou escreve somente quando é possível?
Escrevo sempre. Todas as manhãs. Sou disciplina e obsessivo. Ter um livro no horizonte é a minha razão de viver.
"Fora da ironia, não há salvação" é um dos recados do seu livro (Solo). Resuma um pouco isso, a sociedade midiática e o problema de não conseguirmos o afastamento dela, como o seu personagem.
Não temos como escapar do universo da mídia. Precisamos da ironia para desconstruir os excessos e mostrar o quando há de ridículo na mídia. A ironia produz um efeito de inteligência que não tem preço. É um orgasmo intelectual.
Você acha que pra se tornar um grande escritor é necessário trabalho duro,como um "operário da escrita" ou é uma questão de mero talento?
Não gosto de literatura. Gosto de quem conta a vida. Amo Rimbaud, o poeta para quem mudar a vida era mais importante do que ser artista, tanto que largou tudo antes dos 20 anos de idade e foi traficar armas na Africa.
Você acha que publicar livros no Brasil é fácil, difícil ou depende de cada um?
Publicar é fácil, obter visibilidade é que é difícil.
O que você acha das publicações virtuais? Para onde vão os livros com inovações como o Kindle?
Acho ótimo. Não sou apegado a papel. Gosto é de texto.
Michel Houellebecq e seu livro "Partículas elementares" foram grandes influências para o seu livro "Cai a Noite sobre Palomas"?
Não. Foi muito importante para "Solo".
Qual o seu próprio livro preferido?
"Solo" é meu melhor livro. Um livro injustiçado pela indiferença da mídia, dado que o personagem, assim como autor, é irônico crìtico da mídia.
Quais os escritores brasileiros você mais admira?
No Brasil, Marcelo Mirisola é legal.
E do sul do Brasil (Rio Grande do Sul. Santa Catarina e Paraná)?
Gosto muito do gaúcho João Gilberto Noll.
O que você vê de mais negativo e positivo nas universidades brasileiras hoje?
As universidades são o último reduto da discussão, da poesia, da pesquisa e da busca de algo não meramente utilitário.
Você acredita que um escritor precisa de algum diploma em alguma área determinada?
Não. Pode até ter. Mas não é imprescindivel.
Como professor universitário e autor de um livro tão importante como "A miseria do Jornalismo brasileiro", como você vê o fim da faculdade de Jornalismo no Brasil hoje?
A faculdade não está no fim. A exigência de diploma para o exercício da profissão é que caiu. As faculdades vão continuar cheias de alunos.
Em seu doutorado na França, você teve como orientador ninguém menos que Michel Maffesoli. Quais as mais importantes lições que você aprendeu com ele?
Aprendi que é preciso ter a coragem de pensar contra os clichês e aceitar o preço da heresia.
Falando nisso, conte um pouco sua experiência como correspondente do Jornal Zero Hora em Paris.
Entrevistei muitos intelectuais e artistas. Viajei muito. Foi um tempo maravilhoso.
Como entrevistador, qual a sua melhor entrevista?
Difícil dizer. Talvez uma que fiz com Jean Baudrillard sobre o papel do estilo na produção de um intelectual.
Você é tradutor de poesias de Baudelaire também. O que tanto lhe encanta neste poeta e nos autores que você traduz, como Claude Simon, Alain Robbe-Grillet, Michel Houellebecq, Yves Simon, Pierre Michon, Gilles Lipovestsky, entre outros?
Traduzir é deslumbrante, um desafio intelectual. Minha última tradução é Raízes do Mal, de Maurice Dantec, um romance policial de mais de 700 páginas. Uma obra-prima.
De todas as atividades que você desenvolve, quais as que mais te fascinam entre sociologia, história, jornalismo, literatura ou tradução?
Escrever é a minha paixão absoluta.
Volta e meia vejo você falando ou escrevendo sobre futebol, e a pergunta que me faço é por que este jogo seduz tanto um intelectual como voce? Pra você, o futebol não é também mais um ópio do povo, bem como carnaval, religião é para muitos intelectuais?
Futebol é um bom divertimento e assunto que faz cimento social. Todo mundo fala, opina e brinca.
Nos anos 90, você era considerado por muitos um conservador reacionário de direita. De uns anos para cá, pórém, lendo suas colunas ou mesmo livros, vemos inúmeras mudanças. A que isso se deve?
Eu fui e sou um crítico do marxismo. Nunca me considerei reacionário. Sempre fui um anarquista. A esquerda tacanha é que me achava direitista.
Existe um modelo de sociedade ideal para você? Alguma forma da sociedade passar a ser inteligente ou isso por si só já é uma contradição (sociedade x inteligência)?
Há muita inteligência na sociedade. A arte produz muita novidade boa.
Qual a doença mais grave da sociedade atual em sua opinião?
A mediocridade.
E as coisas boas nesta sociedade que vivemos? No mundo?
A vida é maravilhosa. Tomar vinho, ler, transar, viajar. A vida é legal demais.
Defina algumas palavras:
Amor – cumplicidade
Sexo – plenitude
Liberdade – poder escrever sem medo
Religião – um mistério
Deus – uma incognita
Inteligência – um prazer superior
Burrice – um câncer
Prosperidade – uma mão na roda
Vida – sublime
Morte – um terror adiado
Qual o sentido da vida pra você?
A vida não tem sentido. Mas pode ser maravilhosa. O importante é buscar não fazer o mal para ninguém.
Como gostaria de morrer?
Dormindo.
Já usou drogas, inclusive bebidas?
Gosto de um bom vinho.
Quais seus próximos lançamentos, etc?
Tenho um livro em acabamento sobre os negros na revolução farroupilha.
Gostaria de deixar alguma mensagem ou falar alguma coisa que não foi questionado?
Leiam Solo. Só por esse livro eu já me considero tendo feito algo de bom na vida.