Autora de diversos livros traduzidos para inúmeros idiomas, Letícia Wierzchowski não quer ser uma escritora conhecida somente pelo seriado baseado em sua obra "A Casa das 7 mulheres". Nesta entrevista, ela fala um pouco sobre isso, sobre a sua carreira literária e sobre a sua vida em geral.
"A 'Casa das Sete Mulheres' virou uma espécie de epíteto meu...Esse epíteto pode ser desagradável sim: Para um autor sempre é bom que as pessoas acompanhem seu trabalho recente."

Nome completo:
Leticia Wierzchowski Gomes
Data e local de nascimento:
4/6/72 Porto Alegre
Como você se define?
Sou caseira. Gosto de estar com a minha família e bons livros por perto. E sou solar.
Por que você escreve?
Porque não sei viver sem escrever. Preciso disso, escrever ficção me define e me completa. Além disso, sempre é um bom modo de viver várias vidas em uma só.
Fale um pouco de sua infância. O que você acha que mais trouxe para seus livros de sua época de criança?
Tive uma infância feliz. Meu pai era um cara alegre e criativo, que incentivou a minha imaginação. Na mãe, eu encontrava segurança. No pai, liberdade. E a companhia das minhas duas irmãs foi fundamental.
Por que você cursou Arquitetura na faculdade? Acha que na época já tinha a veia literária pulsando dentro de você e a escolha foi mais por influência da família (já que seu pai trabalha com construção civil) ou não, foi uma opção sua que você decidiu independente da literatura?
O jovem termina o segundo grau, e dele se exige que siga sua carreira de estudos sem muita hesitação – como eu sempre fui criativa e desenhava bem, pareceu um caminho lógico. Mas não durei dois anos na Arquitetura : muitas regrasa minha veia criativa é libertária por natureza.
Você chegou a pensar em estudar Letras na faculdade ou alguma coisa mais a ver com literatura?
Cheguei. Mas então eu tinha já meu primeiro romance editado, e me pareceu mais lógico seguir lendo e escrevendo sozinha. Sou uma pessoa bastante solitária, não funciono em grupos aleatórios.
O livro Eu@teamo.com.br traz a sua história de amor (os e-mails trocados) com o seu marido, Marcelo Pires. A idéia deste texto era só um convite de casamento que acabou virando livro? Como isso se deu?
Era isso mesmo. Marcelo fez o livro como lembrança para os convidados. Acontece que um dos convidados era meu editor na época, o Pinheiro Machado, da LPM, e ele adorou o livro e propôs a publicação. Nós topamos.
De uma hora para a outra, o Brasil inteiro passou a lhe conhecer com a adaptação do livro “A Casa das 7 Mulheres”. Desta forma, você conheceu o lado positivo da fama e o lado negativo também, sobretudo através das críticas. Como você lidou com tudo isso?
É preciso ter leveza. Tudo na vida tem um lado que é positivo e outro negativo. Quando o sucesso vem em grande escala, no caso de uma produção com a visibilidade que a Globo tem, tudo veio de forma bastante intensa. Mas eu estava preparada e levei numa boa. Algumas alegria inesquecíveis e alguns arranhões, e o fato para o currículo. A casa das sete mulheres virou uma espécie de epíteto meu...
E esse epíteto lhe incomoda, ou é tranquilo para você?
Esse epíteto pode ser desagradável sim: para um autor sempre é bom que as pessoas acompanhem seu trabalho recente. Isso acontece com qualquer artista.Mas é preciso compreender a dimensão que a televisão tem na vida da maioria das pessoas.Somos um país de poucos leitores, então é bem mais comum que eu seja conhecida por uma minissérie (cuja origem veio de um livro meu) do que exatamente por um livro. Muita gente acha, inclusive,que a série de tv foi escrita por mim.
Em algum momento você já pensou em deixar de escrever por mágoas com estas críticas ou algo do tipo? Como é o seu senso-crítico em relação aos seus próprios livros? Quando a crítica fala alguma coisa ruim, você chega a refletir e rever o que foi criticado ou nem se preocupa a ponto de pensar em mudar algo?
Evidentemente, eu levo em consideração as críticas cuja origem eu respeito. Você precisa saber separar as coisas... E nunca pensei em parar de escrever. Como eu disse, escrever é uma necessidade pessoal.
Por que você resolveu processar o crítico Milton Ribeiro? Muitos lhe criticaram por este processo pelo fato do direito de opinião ser livre, podendo se gostar ou não de algo e se falar (escrever) sobre isso publicamente. Fale um pouco sobre o que aconteceu e como você se sentiu para ter levado o artigo que ele escreveu tão longe? E como ficou o processo?
Esse é um assunto que passou. Aliás, quero dizer que, aqui nesta entrevista, sempre que nos refirimos à crítica, eu penso em crítica literária. Sendo uma escritora, meus livros são passíveis de crítica, e até de deboche. Não estamos falando de ofensas pessoais. A minha vida pessoal não está em questão.
O que você mais gostou quando viu o seu livro “A casa das 7 Mulheres” na televisão e o que você menos gostou?
Ah... gostei disso, de ver o livro na televisão. Foi um sucesso. Os gaúchos ficaram felizes. Faz tanto tempo, no entanto, não vejo sentido em ficar esmiuçando detalhes. Depois desse romance, eu já publiquei outros dez livros.
Mas um livro (especialmente o de maior sucesso) não acompanha o autor para todo e sempre? Raduan Nassar sempre terá que responder por Lavoura Arcaica, por exemplo. Shakespeare, Kafka, Joyce, Dostoievski, Machado, se vivos, sempre teriam que falar sobre o que escreveram no passado, independente do tempo distante. Penso que é normal, portanto, que sejam feitas perguntas sobre sua obra de maior sucesso, não?
O fato de Raduan Nassar ter sempre que responder sobre Lavoura Arcaica não significa que isso não lhe seja um incômodo. Aliás, Nassar, ao que consta, abandonou a literatura. É claro que respondo sempre sobre A casa das sete mulheres,mas perguntas sobre outros livros, menos conhecidos e, portanto,mais passíveis de receber novos olhares, sempre me agradam mais.Aliás, depois de 7 anos, as perguntas acabam sendo sempre as mesmas...
Sim, pois o livro também é sempre o mesmo. Quanto às atuações dos atores, alguém se destacou ou caracterizou mais alguma das personagens que imaginou quando escreveu o romance?
Fiquei muito amiga do Thiago Lacerda, e isso lá valeu. Ele é uma grande figura.
Aliás, como veio a idéia de escrever este romance? Você gostava de ler as sagas, as histórias de época e procurou escrever algo do tipo desde sempre ou simplesmente aconteceu?
A idéia veio da leitura de Os varões assinalados, belíssimo romance do Tabajara Ruas.
Você chegou a viver no interior do estado e trouxe muita inspiração de lá? Ou a maioria das coisas que escreve parte principalmente da sua imaginação e das dedicadas pesquisas?
Sempre morei na Capital. E quando escrevi esse livro, eu estava vivendo em São Paulo. A premissa da vivência não pode ser fundamental para um romancista.
“Um Farol no Pampa” é uma continuação da Casa das 7 mulheres, isso mostra que ainda faltava muita coisa para contar ou devido ao sucesso da obra citada você viu que seria interessante dar uma continuidade ao tema?
Quando A casa das sete mulheres foi comprada pela Globo, eu tinha já um bom volume de texto pronto daquilo que seria a continuação do livro. E levei o projeto até o final porque escrever aquela história me dava prazer, alegria. Todos os meus livros partem dessa premissa: uma necessidade pessoal de falar sobre um determinado assunto.
Como foi escrever um livro contando a história do seu avô polonês (“Uma ponte para Terebin”)? É mais fácil escrever sobre alguém que a gente ama e conhece ou, no fundo, é tudo a mesma coisa?
É mais difícil, na verdade. Foi um descobrimento, uma viagem nas origens e segredos da minha própria família. Atencipando sua pergunta, esse é meu livro preferido, e tenho muito orgulho dele. Aliás, está saindo em Portugal agora em março.
Você já teve livros traduzidos para Espanhol, Grego e Italiano, correto? Deseja se projetar no exterior ou suas maiores ambições literárias já foram atendidas? Aliás, em algum momento você chegou a ter ambições literárias ou a carreira “caiu no seu colo” e foi simplesmente acontecendo?
Tenho livros também em alemão, tenho um romance até em sérvio. Isso tudo aconteceu: é um desdobramento natural da carreira de escritor, os livros vencem fronteiras, ganham seu próprio espaço. Mas eu quis ser escritora, e nada, absolutamente nada, caiu no meu colo de graça. Foi tudo resultado de escolhas pessoais, dedicação e trabalho. Livros não se escrevem sozinhos. E entrar numa boa editora é um processo complicado.
Você é uma declarada fã de Érico Veríssimo. O que você mais admira nele? Qual a sua obra preferida e também a que mais lhe inspirou?
O Tempo e o Vento é minha obra preferida. Um livro inesquecível, com um final extremamente tocante. Um épico misto de força e delicadeza. Gosto muito do Érico, e da sua persona. Um escritor discreto, direito, íntegro.
Como está o projeto cinematográfico do “O Continente”, com o Tabajara Ruas?
O projeto está andando. O cinema é um caminho lento, leva tempo. Mas teremos um filme em breve, espero.
Você acha que publicar livros no Brasil é fácil, difícil ou depende de cada um?
Nada é fácil nessa vida, você não pensa assim? São tantos querendo as mesmas coisas, quarenta candidados por vaga numa universidade federal. Quatro mil candidados por vaga num concurso público. Quantos originais chegam a uma editora semanalmente? Eu lutei muito e insisti muito até ter meu primeiro romance publicado. E sigo lutando e insistindo, diariamente.
O que você acha das publicações virtuais? Para onde vão os livros com inovações como o Kindle?
Acho o Kindle interessante, e quero comprar um em breve. Mas acredito no livro, no objeto livro. É necessário pensar no livro agora em versão virtual e real.
Você acredita que um escritor precisa de algum diploma em alguma área determinada? O que um autor precisa afinal?
Um autor precisa de talento e dedicação ao trabalho.
Fale um pouco de sua rotina. Você escreve todos os dias? Tem algum horário que reserva só para literatura? Levanta cedo?
Tenho dois filhos e uma casa para administrar. Minha rotina é de mãe: escola de esportes, colégio, parque, supermercado. Levanto cedo sim. Mas escrevo à tarde, quase diariamente. Depende da quantidade de trabalho que tenho que levar. Os romances têm um ritmo próprio de escritura, um tempo próprio. Mas também escrevo matérias para revistas, textos de jornais, alguma coisa de publicidade, coisas com prazo de entrega à vista.
Consegue conciliar bem a vida profissional com a pessoal?
Perfeitamente. Sou caseira, gosto de trabalhar em casa, em meio aos meus livros, perto das crianças.
Você acha que é possível hoje, no Brasil, um escritor viver do que escreve? Você já vive só do que escreve ou ainda faz outra (s) atividade (s)? Se sim, qual (ais)?
Olha, só posso falar por mim. Nosso orçamento se compõe do meu trabalho e do trabalho do meu marido, que é publicitário. Mas eu vivo só do que escrevo. Não apenas da ficção, como expliquei acima.
Você acompanha política? Tem algum partido, simpatia ou levanta alguma bandeira por alguém ou alguma coisa?
A política vem me deixando cada vez mais descrente. Minhas simpatias passam longe dela.
Qual o sentido da vida pra você?
Ter tempo para curtir quem eu amo.
Como gostaria de morrer?
Dormindo, aos 90 anos.
Já usou ou usa drogas, inclusive bebidas?
Não despenso um bom vinho, nem uma boa champanhe.
Quais seus próximos lançamentos, etc?
Um infantil: Semente de gente. Um romance: Os Getka.