Lixeiros e garis merecem muito mais que Neymar e cia...
por Leandro Rodrigues
A vergonha não é só a falta de educação, mas o salário.
Quando vejo um profissional mal-educado como o jogador Neymar xingando a todos, fazendo o que bem quer e tendo cada vez mais poder, não me revolto contra ele em especial, mas contra os salários pagos aos grandes jogadores em geral.
O que importa se um jogador é um craque do futebol? São celebridades? Tudo bem, Eu conheço profissionais que são verdadeiras celebridades no ensino, professores maravilhosos, bem como escritores que são craques, escrevem livros mais belos que os mais fantásticos dribles do próprio Neymar, e ninguém, absolutamente ninguém ganha nem 10% do que tal fedelho ganha.
Ou seja, o maior problema hoje não é Neymar brigar e xingar a todos, sentado no trono da arrogância futebolística, mas os salários pagos aos atletas nos dias atuais. Não é porque o fulano faz dezenas de jogadas sensacionais e o sicrano faz centenas de gols que estas pessoas são superiores às outras. Mas o futebol, abominavelmente, faz isso. Paga uma fortuna a quem se destaca como se estes indivíduos fossem reis, deuses, divindades que se julgam até inpuníveis, como o Bruno, do Flamengo, que matou (ou mandou matar, não importa) e achou que tudo ficaria por isso mesmo.
Os grandes jogadores (no mundo todo, não apenas no Brasil, é verdade) ganham rios de dinheiro porque são os responsáveis direto pelo "grande espetáculo", por lotarem os estádios, por enriquecerem ainda mais seus clubes, por atraírem patrocinadores ainda mais milionários para suas camisas, entre outras coisas. Desta forma, por tudo que teoricamente representam, parece bem normal e até justo que ganhem o que que ganhem mensalmente. Só que não é. E exemplifico ainda mais agora mesmo.
Todos os dias (no Brasil e no mundo inteiro também) milhares de lixos são produzidos. Latas, plásticos, pneus, garrafas (sem contar o lixo não-reciclável principalmente) são descartados de casas e empresas a bel-prazer à medida que se come, se bebe ou se utiliza algo – de uso obrigatório ou supérfluo, tudo bem. O fato é que existe lixo que não acaba por onde quer que se ande. Não há um único lugar no país ou na Terra inteira onde a natureza não seja violentamente agredida com tanta porqueira.
Segundo dados de um site da prefeitura de São Paulo: “Só na capital paulista uma pessoa produz 1,5 kg de lixo por dia. No Brasil a produção é de 125 a 130 milhões de toneladas de lixo por pessoa por dia e 45 milhões de toneladas por ano (www.ambiente.sp.gov.br/destaque/301003_wnovaes.htm)
Agora, algumas perguntas: Vemos todo este lixo? Esbarramos com as ruas completamente intransitáveis devido ao lixo acumulado? Tropeçamos em embalagens, restos de comida, frutas podres e todo o tipo de imundícies pelo chão quando saímos de casa? Algumas raras vezes, sim, é fato – dependendo da cidade até com mais frequência que gostaríamos. Mas, de forma geral, na maioria das cidades, isso não acontece. E por que não acontece? Porque existem os profissionais - quase esquecidos, lembrados, às vezes, no Natal quando pedem alguma gorjeta - chamados LIXEIROS (não esquecendo dos garis também, é claro). E é só por causa deles, só por causa destes profissionais dedicados e explorados - que até de madrugada e abaixo de chuva trabalham (como na minha rua) - que não vivemos o caos completo no planeta. E que isso fique bem claro: só por causa deles mesmo, só porque existem homens e mulheres como estas pessoas que se dispõem, por míseros salários, a juntarem toda a sujidade produzida pela humanidade a cada dia que não estamos soterrados na lama, na chafurda, no desasseio incontrolável que impossibilitaria a mobilidade cotidiana e o andar salubre da vida totalmente.
Qual o reconhecimento destes profissionais? Cadê a Nike, a Adidas, a Puma, a Umbro, a Coca-Cola, a Heineken, a Ford, a Samsung desta gente? Cadê? Ah, estas empresas patrocinam esportes e atletas, e não empregados de repartições públicas, né? Hahahahaha! É para rir ou para chorar?
Os lixeiros são muito mais importantes pra mim (e para toda a população burra que contribui diretamente para o salário de Neymar e cia valorizando-os como deuses) que quaisquer craques esportivos, sejam eles do futebol, do vôlei, do basquete, do tênis, de todas as atividades desportivas criadas para passatempo, fanatismo e alienação das multidões. Em suma, até para chegarem ao estádio os grandes craques e todas as torcidas do mundo precisam de ruas limpas para até lá se locomoverem e, ainda por cima, limparem novamente depois as sujeiras que geram a cada novo jogo encerrado.
Entendo que isso não é culpa dos jogadores. Eles até são ' inteligentes' de aproveitarem tantos benefícios. Acho que todos nós (ou a maioria de nós) também aproveitaríamos tanta riqueza. Gosto de esportes também. Se tivesse talento para algum, quem sabe eu não jogasse e estivesse rindo deste texto agora, lendo e pensando:
“Coitados destes pobres cronistas pobres que querem sempre meter o pau no que está bom com inveja do meu talento.”
Sim, se eu ganhasse os mais de R$ 200.000.00 mensais (ou perto disso, como o Neymar ganha) eu pensaria o mesmo, possivelmente.
“Só podem ter inveja de mim, só podem...”
Sem me dar a menor conta (ou pouco ligando para isso) de como meu salário é irreal e não corresponde de forma nenhuma ao tal “grande talento” que possuo porque, se correspondesse, todas as pessoas donas de grandes talentos nos palcos deste país, em todas as artes e em quaisquer profissões neste mundo receberiam o mesmo ou quase o mesmo que recebo. Ou seja, o talento não pode ser uma desculpa esfarrapada para tal mérito salarial e definitivamente nada tem a ver com a “fábrica de milionários” que o futebol e sua máfia poderosa e patife rapidamente produz.
Até tenho time e assisto a alguma partida de futebol de vez em quando. Mas isso não faz eu achar que seus craques abastados merecem mais que os grandes craques da limpeza urbana, que os grandes lixeiros que penduram-se perigosamente em caminhões, correm desamparadamente pelas ruas apanhando sacos de porcarias, arremessando com a presteza de um exímio cestinha receptáculos de resíduos aos veículos das prefeituras, sujando e emporcalhando suas mãos e uniformes em prol do benefício global da limpeza e da saúde.
Aliás, estes profissionais são muito mais dignos que inúmeros jogadores, como um dos tais moleques santistas, por exemplo, que numa discussão pelo twitter com um torcedor, chegou a dizer:
- “Só o que eu gasto por mês para comprar a ração do meu cachorro é o que você ganha como salário no ano inteiro”.
É por causa deste tipo de gente e do absurdo que é vangloriar e prestigiar os indigentes de espíritos uniformizados que eu reivindico:
PATROCÍNIOS JÁ PARA OS GRANDES LIXEIROS E GARIS DO PLANETA TERRA!
Eles são muito melhores, mais úteis (e muitas vezes até muito mais educados) que inúmeros reles ricos-pobres atletas espalhados por aí - verdadeiros lixos disfarçados de luxos, diga-se de passagem....
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
____________________________________________________________________________
Leia abaixo outros textos do autor
* Poucas linhas
* 1 ano de Escritores do Sul
* Quem disse que bons escritores são bons seres humanos?
(A diferença entre os “escritores cults” e os “escritores genuínos”)
* O sorriso do assassino do Glauco
* Saudações às maravilhas que nunca serão
* Eu devo ser uma besta por não querer ser uma besta
* Escritores vegetarianos para um mundo melhor
* Projetos de Incentivo à leitura nas escolas fazem alguém gostar de ler?
* Da arrogância dos escritores, filósofos, intelectuais e afins
* Escrever ou não escrever, eis a questão!
* Os dois (ou mais) lados de todas as coisas
* Pobre país onde até comerciantes de livros são ignorantes
Poucas linhas
por Leandro Rodrigues
Perdão, gente, mas não consegui escrever este mês. Correrias, atividades na universidade, congressos, projeto de mestrado, enfim...Não gosto de escrever qualquer coisa, fica aquela coisa falsa de colunista de jornal diário que fica se repetindo o tempo inteiro só porque tem que preencher o seu espaço. Como a revista é minha mesmo, eu me dou este prazer de ser sincero e só escrever quando quero ou quando tenho idéias....Hehehe! Aproveito o espaço então para agradecer mais uma vez os e-mails recebidos pelo aniversário da revista, os recadinhos no mural do site e indicar também um cantor belga, já falecido, mas que descobri recentemente e me encantei: Jacques Brel, um exemplo de profundidade, emoção, entrega, paixão...Ao meu ver, tudo que se precisa tanto na música quanto na literatura. A música é "Amsterdam"... www.youtube.com/watch
Abraços.
Leandro (leandro@escritoresdosul.com.br)
____________________________________________________________________________________________
1 ano de Escritores do Sul
por Leandro Rodrigues*
A nossa revista completou um aninho (no final de maio passado). Parabéns!
A data acabou passando praticamente sem comemorações, uma vez que nosso site não estava no ar devido a incompetência de uma empresa de Web design de Florianópolis (a qual não posso mencionar o nome para evitar complicações com a Justiça). Porém, tal irresponsabilidade, falta de profissionalismo, atraso e desleixo fez não somente tomarmos medidas processuais como mudarmos de empresa, após termos ficado mais de 50 dias esperando a entrega de uma encomenda que nunca chegou.
Enfim, tudo certo agora com a nova empresa contratada, pedimos desculpas pelo atraso, e utilizo o meu espaço neste periódico para mencionar algumas novidades na revista a partir desta edição de julho de 2010, a décima terceira.
- Design – A revista passa a adotar um design mais “clean” , objetivo e, ao mesmo tempo, moderno, sem utilização de frames e tabelas como no site antigo, buscando um visual com menos cores misturadas, com mais requinte, que tente agradar leitores novos ou velhos, porém, de bom gosto.
- Novos espaços – A revista ganha algumas páginas novas, como a “quem somos”, por exemplo, onde os objetivos do periódico são apresentados como nunca antes ditos. Da mesma forma, “nasce” a seção “Dicas”, onde todos os meses divulgaremos livros de escritores sulistas a fim de darmos espaço a trabalhos, eventos, textos de escritores tradicionais, clássicos e novatos que queiram publicar ou anunciar alguma coisa, por exemplo. A seção “Resenhas” divide-se a partir desta edição. Além das obras já conhecidas, passamos também a ver resenhas sobre “lançamentos”, em geral, de autores que ainda não têm a oportunidade de ver seus livros em veículos de comunicação de grande porte.
- Reformulação de antigas seções – Todas as seções da revista estão transformadas. As notícias ganham a agilidade e exatidão das datas ao lado, além da praticidade de suas leituras. Os colunistas passam a ter seus artigos publicados na mesma página, com os nomes de todos os outros textos logo abaixo do mais atual, com o recurso de leitura mais dinâmica para os leitores que não mais precisam estar buscando os outros artigos de um mesmo cronista, por exemplo, em páginas diferentes. A seção “Escritores” passa pelas maiores mudanças. Pois além do acrescimo de foto dos escritores no espaço inicial, inserimos a “busca” para que se encontre com mais rapidez os escritores procurados, bem como o link “geral” foi criado, onde cada visitante pode ver - pela ordem alfabética ao invés do Estado – se o autor que deseja encontrar já foi (ou está sendo) cadastrado na revista.
- Novos colaboradores – Além de Carolina Rubin, que estréia nesta edição sua coluna com dicas sobre sites literários, estamos em contato com mais um possível colunista, o qual deverá começar sua participação no próximo mês.
- Mural de recados – Ao inserirmos o “Mural de recados”, estamos dando oportunidade para que os leitores da Revista deixem seus recados, comentários, críticas, sugestões de forma mais rápida e direta que os e-mails, como anteriormente, além de todos poderem dialogar com todos sobre qualquer assunto. (Os recados enviados são publicados no site em até 24h)
- Contatos – Pelo contato também ficou mais fácil se comunicar com a revista. Caso o visitante não queira deixar um recado público, pode utilizar tal espaço sem precisar entrar em sua caixa de e-mail, mandando o e-mail diretamente para a revista através do formulário oferecido.
Enfim, depois de 3 longos meses de espera e lamentável atraso (pensando-se no bem geral, diga-se de passagem) desejamos e torcemos para que tais modificações muito mais agradem cada visitante que o contrário.
Continuemos a jornada!
Cansado com tanta correria, sem mais delongas por hoje.
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
______________________________________________________________
Quem disse que bons escritores são bons seres humanos?
(A diferença entre os “escritores cults” e os “escritores genuínos”)
(Abril. 2010)
por Leandro Rodrigues*
Um dia, quando criança, sonhei com uma profissão onde todas as pessoas fossem boas. Não apenas boas no que faziam, mas boas de caráter acima de tudo. Passados tantos anos desde que apostei que esta profissão era a de escritor (talvez por ter sido – e ainda ser – apaixonado por personagens como David Copperfield e Jean Valjean e imaginar que seus autores - e autores em geral - eram gênios), tudo o que posso confessar aqui é que eu estava equivocado, e nem a carreira literária nem nenhuma outra que já conheci até hoje na vida é composta somente de pessoas boas - no caso, de caráter ou de coração, e nem estou mais levando em conta o quesito “bom na profissão”.
Definitivamente, uma profissão onde todas as pessoas sejam boas de caráter ou de coração é algo que não existe, completamente ilusório, utópico, inocente mesmo, eu diria, bem da criança ou do adolescente bobo que eu era e do adulto tolo que ainda sou um pouco, talvez.
Por mais requinte que uma ocupação mostre, por mais humanismo que alguém dentro de determinada profissão cultue, por mais sapiência que fulano ou beltrano exiba, por mais gentileza que alguém esbanje no dia-a-dia isso não quer dizer absolutamente nada em relação aos seus colegas e à sua área de atuação. Ela é assim por ela mesma, e só por ela mesma, podem ter certeza, nunca pelo fato de estar envolvida em tal meio ou grupo. O diferencial é individual, não coletivo. O coletivo é burro, estúpido, imbecil na maioria das vezes, praticamente sempre. Jamais podemos pensar que a filosofia, por exemplo, é composta somente de “pessoas boas” porque em tal ramo do conhecimento humano existiram Sócrates, Platão, Aristóteles, Confúcio, Osho e outros admiráveis homens notáveis. A filosofia hoje – e logicamente sempre - está repleta de babacas - e falo por experiência própria, vivendo há praticamente 4 anos com professores desta disciplina, filósofos, pseudos-filósofos, sofistas e afins.
Da mesma forma, os escritores. Mesmo uma profissão tida como bela, nobre, sensível, inteligente, humana e “mil etc” como a atividade da escrita presenteia o mundo com grandíssimos energúmenos. Gente feia por dentro, tosca, insensível, desumana, desrespeitosa, arrogante, sem-caráter, exatamente o contrário do que se é esperado de quem exerce tal ofício.
E por que é esperado tanto de quem escreve? Porque quem escreve pode mudar ou mexer (e muito) a cabeça, o coração, os sentimentos, os pensamentos, as emoções, as convicções, as idéias e até mesmo a vida e a morte de uma pessoa. Pode até mesmo determinar o suicídio para alguns - e Goethe, com “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, é, talvez, o maior exemplo disso em nossa história.
Assim sendo, espera-se muito de quem escreve. Ninguém precisa ser um Goethe, mas espera-se que seja uma pessoa com criatividade para elaborar grandes histórias, com inteligência para oferecer um bom desenvolvimento e verossimilhança em suas narrações, com cultura literária e muita leitura, sim, para seguir, inovar ou inventar grandes clássicos, com rico vocabulário e conhecimento gramatical para usar e abusar da língua que escreve com bem desejar, no gênero que optar, com talento para ser um bom profissional no critério qualidade, porém, sobretudo (e SOBRETUDO) com CONSCIÊNCIA, SENSIBILIDADE e INTUIÇÃO (muito mais que razão, como já dizia Clarice Lispector) para colocar no papel valores realmente dignos de seres humanos, valores que os grandes filósofos e escritores (alguns próprios já citados aqui, como Sócrates, Platão, Dickens, Victor Hugo) deixaram claros para a humanidade quais eram e como deveriam ser executados. Se eram os mais certos? Não posso garantir, só sei que os praticando eu sempre senti uma paz na cabeça e uma tranqüilidade no coração que não costumo sentir quando - só para ter a experiência de estar do outro lado - resolvo não ouvi-los. Parece-me sempre o mais correto fazer o bem, ainda que os “escritores cults” materialistas estejam certos e sejam somente “condicionamentos mentais estabelecidos pela sociedade”, para os quais eu resolvi abanar o rabo feito um cachorrinho manso e obedecê-los, quase que cegamente. (É “Cult” criticar quem tem valores espirituais, quem fala em alma, coração, sentimentos...)
E, por falar em “Cult”, tenho absoluta certeza que justamente os “escritores cults” são muito responsáveis, inclusive, pela literatura ter se tornado uma coisa menos pura, menos romântica e muito mais cultural-cerebral que proveniente do âmago do ser (como os personagens de Dickens e de Victor Hugo que citei lá no primeiro parágrafo) o que faz com que os livros percam muito o brilho, já que as coisas mentais jamais são tão belas quanto às do coração. Talvez por isso, até mesmo, que muitos especialistas acreditam que os escritores do futuro – e já do presente – devem ter cada vez mais cursos, graduações, mestrados, doutorados... Claro que existem mestres, doutores e PHDs que escrevem muitíssimo bem, com simplicidade, beleza e grande talento, podendo até mesmo serem naturais, sem a mistura do "ego cult", independente do nível cultural que possuem (sim, "escritores cults" ou muito graduados também podem ser belos escritores, mas isso requer uma inteligência e uma consciência quase sábia para discernir uma coisa de outra - conhecimento cultural dispensável x pureza literária, e não acontece com frequência). Desta forma, a literatura tornou-se algo mental, e daí o império do “Cult”.
Assim, quando olhamos à primeira vista, parece que ser um “escritor cult” é a melhor coisa do mundo. “Escritores cults” são, supostamente, diferentes, mais inteligentes, mais criativos, mais ousados, mais repletos de conhecimento, exatamente de cultura. A questão é que isso é um ledo engano. “Escritores cults” são pura aparência. “Escritores cults” fingem que não, mas gostam mesmo é de jogar para o público. Negam que queiram ser populares (isso é coisa para o Paulo Coelho, logo dizem!) mas vivem jogando para o público que querem atingir, o público “Cult”, no caso, que têm as mesmas ideologias do “escritor cult”, é claro, desprezando o sucesso mas querendo ser sucesso entre os iguais, querendo ser desigual entre os desiguais, percebem? Adoram criticar a todos e tudo que for popular, objetivo, simples ou puro. É como se nada disso tivesse valor. O bom é ser subjetivo, escrever coisas que poucos entendem, ser lido só pela “parcela inteligente da sociedade”. Vivem destas ilusões. “Escritor cult” é sinônimo de orgulho para a grande maioria – excluem-se (sem citar nomes para não ser injusto) alguns que detestam o grande circo.
Ao contrário deles (e GRAÇAS A DEUS NEM TUDO ESTÁ PERDIDO!) existem os “escritores genuínos". Os "escritores genuínos” estão muito além dos “escritores cults”, e para mim são os verdadeiros escritores. Os “escritores genuínos" são, como poderíamos dizer, "escritores de raiz”, como sambistas de raiz, que possuem muito mais talento que os simples pagodeiros, por exemplo. Os escritores genuínos não precisam ser contra a sociedade, conhecerem o que poucos conhecem, serem arrogantes com quem sabe menos que eles, encherem a mente de coisas inúteis só para se exibirem e esvaziarem o coração. Os “escritores genuínos”, pelo contrário, escrevem sempre de dentro para fora, e não de fora para dentro. Os "escritores genuínos" são autênticos até mesmo em suas simplicidades. Os “escritores genuínos” não se importam de não ser uma enciclopédia ambulante nem de não assistirem a filmes árabes, de não ouvirem músicas da Ucrânia, nem de não lerem livros de escritores da Birmânia, nem de não conhecerem os grandes intelectuais do Paquistão. Os “escritores genuínos ” não lotam suas cabeças de bobagens e seus corações de frieza. Pelo contrário, eles são puro coração e coração puro. Os “escritores genuínos” pouco se importam se são ou não "Cults" (pois eles podem ser "cults", mas não se gabam disso) , eles apenas fazem bem feito o que se submetem a fazer guiados pelo seus próprios interiores, pelo suas índoles, intuições e consciências. Os “escritores genuínos” são justamente os escritores que fizeram (e ainda fazem, no fundo) eu acreditar que a literatura é (ou era) a profissão com as pessoas de melhores índoles em toda a face da terra. Os “escritores genuínos” preocupam-se antes em ser (e são) boas pessoas além de serem bons escritores. Eles têm bons valores, como o pensamento e a fala correta – apenas dois valores budistas para exemplificar, no caso, mas universais, eu acredito, e que vão muito além da "escrita correta".
A questão é que hoje, quem isso faz, quem muito se preocupa com valores, corre o risco de virar ou de ser classificado como “escrevinhador de auto-ajuda” ou “criador de metafísica barata”. Já quem aposenta o coração e escreve coisas ininteligíveis com a cabeça (chamada razão) é “Cult”, e isso que importa. Tornou-se muito mais importante ser “Cult” que ter um bom caráter ou coração, que ser um "escritor genuíno" - o que não é para qualquer um. E não que um “escritor cult” não tenha caráter ou coração, mas ele tem que ser frio, racional em suas histórias, aplicar doses de cultura (desnecessária) diversas vezes para mostrar seu grande conhecimento e, preferencialmente, não usar o coração e ainda matar a beleza da bondade pura a cada novo capitulo, a cada novo livro. Pois a bondade pura (ou a maldade pura) parece sempre ser coisa unicamente de maquineístas broncos, de crentes tapados, de teologias enganadoras de religiões exploradoras, de bíblias ultrapassadas, de padres estúpidos, de gente burra em geral, jamais de “pessoas cults”. Desta forma, matando a bondade (ou a maldade) pura a cada nova página para tentar ser “Cult”, a literatura tornou-se reduto para todo o tipo de gente, e por isso, com toda a certeza do mundo, ela ficou igual ou pior a todas as outras profissões, repletas de pessoas boas, mas recheada - demasiado recheada - de pessoas "não tão boas assim".
Então, no "cume da democracia planetária mais plena", pessoas de ótimo ou de péssimo caráter desfilam por aí com seus “livros cults” embaixo do braço, com suas ”obras cults” comentadas nas críticas dos jornais, com seus “best-sellers cults” nas vitrines das grandes livrarias ou simplesmente guardadas nas gavetas da sala para mostrar aos “amigos cults”, conversar com eles sobre tudo o que for considerado “Cult” possível e falar mal (muito mal) dos “não-cults” e até mesmo dos "pobres" genuínos. Não precisam nem mesmo lembrar, definir ou mesmo ter conhecimento do que significam palavras como “alma”, “coração” ou “caráter”. (O que é isso mesmo?...)
Hoje em dia é só escrever “Cult”. Basta. O resto (como a bondade primordial) é, no mínimo, desculpa furada decerto de médiocres “escritores genuínos” aos seus tantos fracassos literários nada "Cults"....
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
___________________________________________________________________________
O sorriso do assassino do Glauco
(Março.2010)
por Leandro Rodrigues*
O sorriso de Cadu, o assassino do Glauco e de seu filho, incomoda - independente dele ser ou não um louco psicótico - porque ironiza o sagrado existencial, a divindade da vida, o sentido (ainda que ilusório) da beleza do ser.
É como se, ao sorrir às câmeras, o criminoso esfregasse na nossa cara que não somos nada de fato, que a nossa realidade é absolutamente tão frágil que qualquer um pode exterminá-la de uma hora para a outra, que tudo que fazemos não vale nada diante do juiz incompetente que decide acabar com a nossa raça sem dar a menor importância para quem somos, que fomos realmente largados soltos no mundo (o ser-aí Heideggeriano) e estamos completamente perdidos porque Deus já foi morto há muito tempo (palmas ao nosso velho "doido" Nietzsche), mensageiros mentecaptos de verdadeiros ou falsos "Jesuses" tomaram o poder (o próprio Cadu, por exemplo) e não importa as orações, as promessas, as clemências, os fanatismos e os apegos às religiões que as insanidades e injustiças terrenas da humanidade sempre prevalecerão.
É como se, ao sorrir às câmeras, o assassino zombasse não só dos religiosos, mas sobretudo do próprio Criador criado, mostrando ao mundo que o livre-arbítrio tornou-se ridículo a partir do momento que Deus, apesar de sua onisciência, permitiu que bandidos – como ele e todos os outros, inclusive os assassinos em massa, como Hitler e Stálin, por exemplo - nascessem, viessem ao mundo para fazer o que bem desejassem, exterminassem o que bem quisessem à vontade.
É como se, ao sorrir às câmeras, Cadu atestasse ao país (quem sabe ao planeta) que alguma coisa está errada não no Reino da Dinamarca, mas no Reino do Céus quem sabe, onde o (s) governante (s) e seus assessores (terrenos) inventaram leis que nunca deram certo aqui embaixo, onde cada um tem os delírios religiosos que bem deseja, cultua o que bem quer, distorce palavras do tamanho que as sua ignorância ordena e impõe na Terra todo o mal que nem a Caixa de Pandora libertou, poluindo o conceito de “homem” de tal maneira que, ainda que somente duas pessoas tenham sido por ele assassinadas, a dimensão da violência contra a paz e a contra a consciência universal a partir do seu ato não tem proporções.
É como se, ao sorrir às câmeras, o delinquente (numa imbecilidade tipicamente Beavis/Buttheadiana) revelasse que é até engraçado vivermos na grande selva de demência que é o mundo, que sempre foi e que sempre será assim, onde pais matam filhos, filhos matam pais, fans matam ídolos, discípulos matam mestres...a única diferença é que alguns são clinicamente constatados normais, e outros, com sorte, não.
E escrevo tudo isso não porque Glauco era famoso, um dos três cartunistas mais importantes do Brasil, mas porque, mesmo que ele nada fosse, era um ser humano que fazia muitos outros sorrirem, e seres humanos que fazem outros sorrirem (de coisas inteligentes, claro) são especiais de alguma forma, possuem um valor a mais porque em geral despertam graça em coisas que nem percebemos ou nunca olhamos com prisma cômico, e precisamos deles para enxergar, fazer pilhéria até ao que é pesado, muitas vezes.
Assim, eis que surge Cadu, e, por ironia do destino, faz o quê? O mesmo que a sua principal vítima (com talento) fazia: Uma pilhéria do que é pesado, uma pilhéria do seu próprio assassinato. Primeiro, com suas alucinações, com seu desvairamento do irmão-Cristo e o diabo a quatro, depois com o sorriso. Mais que um chiste, mais que um deboche, mais que um escárnio, seu sorriso foi uma afronta a todos que amam ou simplesmente ainda acreditam na vida, no bem ou simplesmente no ente. Seu sorriso ataca os que querem ser felizes com reais motivos de felicidade, os que querem sorrir com reais situações de graça e principalmente os que querem esquecer que a morte é triste, ainda que em algumas culturas nem tanto.
Seu sorriso, inclusive, deveria ser responsável por uma punição maior independente do seu grau de loucura, de psicose, de Daime, de droga utilizada ou mesmo – na pior das hipóteses – de normalidade apresentada. (Falando nisso, os Nardoni são normais?). Alguns dizem que seria melhor que fosse de fato tido como um doente e internado num hospício, pois lá sofreria muito mais que numa prisão, onde em poucos anos ainda poderá ser libertado. Mas eu não sei, sinceramente. Por enquanto, tudo o que sei é que seu sorriso realmente incomoda, muito me incomoda, e eu preferia que ele tivesse chorado.
Mas tudo bem. A gente chora por ele e pela humanidade então.
E, assim, que a vida siga para os que ficam, como Deus (?) bem quiser...
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
topo
___________________________________________________________________________
Saudações às maravilhas que nunca serão...
(Fev.2010)
por Leandro Rodrigues*
Recentemente, alguém me escreveu dizendo que eu reclamo demais em meus artigos, e pareço um “moralista azedo” às vezes, tipo um comentarista/colunista, de uma emissora de Florianópolis.
Credo! Eu não sabia que andava esbravejando tanto mal-humor assim! Embora eu tenha dito “cruzes!”, e feito o sinal da cruz em seguida, não me senti totalmente ofendido, porque o tal colunista – apesar do coronelismo repressor repetitivo - escreve bem e fala coisas importantes de vez em quando, então não é de todo ruim ser comparado a ele, exceto por alguns absurdos por ele proclamados, é claro. (Só falta eu começar a escrever aqui: “Na minha delegacia, estes pseudo-escritores-bermudões-vagabundos que ficam o dia inteiro na frente de um computador fingindo que estão trabalhando ao invés de pegar no pesado vão aprender a ser gente...safados!”)
Brincadeiras à parte, eu concordo com a leitora que fez esta observação sobre os meus textos, e o que posso dizer aqui a todos vocês é que é verdade, é bem mais fácil reclamar, criticar, “meter bronca” a fazer alguma coisa mais útil. Encontrar defeitos é a coisa mais normal do planeta, apontar os dos outros ou os do mundo então, nem se fala, é possível até de olhos fechados, não sei como tem gente que ganha tanto pra ficar fazendo só isso. Decidi então mudar um pouco o tom dos meus artigos (pelo menos nesta edição) e elogiar ao invés de julgar ou condenar algo. Ufa!
Só tenho que confessar que pensei, pensei, pensei e custei a decidir o que elogiar, já que não queria elogiar o que já é por todos elogiado ou admirado, principalmente em livros de auto-ajuda, tipo força de vontade, amor, amizade, paz, bondade, virtudes, coisas essenciais que todo mundo gaba, louva, enobrece e venera, pois além de tudo isso já ser muito “batido” e não precisar de mais espaço numa simples crônica, por mais que eu escreva algo “bonitinho” a respeito, não é novidade para ninguém que se aplauda o que já é famigerado.
Decidi então aclamar o que é muito pouco (ou nada) aclamado: As maravilhas (literárias) que nunca serão.
Antes que me ataquem dizendo que “só existe porcaria no mercado dos escritores anônimos”, eu questiono: Vocês já pararam para pensar quantas centenas (ou milhares) de magníficos textos produzidos em todos os idiomas possíveis de autores que nunca ouvimos (nem jamais vamos ouvir falar) devem existir por aí e que nunca (absolutamente nunca) chegarão a nosso conhecimento? Vocês já pararam para pensar que, apesar de um cidadão não ser um Kafka, um Balzac, um Flaubert, um Mozart, um Proust, um Machado, ele (ou ela, lógico) pode perfeitamente ser um bom escritor e ter escrito um, dois (ou mais) belos textos ao longo da vida e nunca ter sido lido nem descoberto por ninguém nem conquistado seu próprio espaço por ser somente um bom escritor, não um bom comerciante/negociador de espaços?
Hoje em dia tanta gente escreve no mundo, tantas pessoas produzem romances, contos, crônicas, poesias que, por incrível que pareça, apesar de todas as facilidades existentes para se ser lido (Internet, por exemplo), tornou-se ainda mais difícil reconhecer, descobrir, apostar, acreditar e admirar um texto quando ele não é de alguém que já tem “nome na praça”, digamos assim. Pois com o grande número de palavras, de parágrafos, de capítulos, de páginas, de livros, de obrigações para ler, as pessoas tornaram-se cada vez mais seletivas, rejeitando, deletando, colocando de lado imediatamente tudo aquilo que parece não ser interesssante (99% do que encontram), e muitas injustiças ocorrem desta forma, muitas coisas boas são jogadas fora sem o menor reconhecimento, como se fosse mais um lixo do dia-a-dia – como todos aqueles lixos que rotineiramente tentam nos fazer engolir, como escrevi no meu artigo do mês passado. Porém, existem raridades, pérolas que não deveriam passar despercebidas e que, infelizmente, são colocadas no mesmo balaio. Textos que as pessoas se negam a ler porque “não têm tempo”, porque “não é de alguém que já foi no Jô Soares ou no David Letterman”, porque “têm coisas mais importantes para ler” ou simplesmente porque “não gostam de ler”, como é o caso da maioria, que já não lê nem os textos dos escritores famosos, muito menos os de autoria desconhecida.
Gostaria de citar aqui muitos belos artigos, poesias, passagens, páginas de livros de pessoas desconhecidas que já encontrei ao longo de minha vida, mas isso é tão comum para mim que nunca fiz questão de arquivá-los, e não tenho também uma memória tão boa assim para lembrar deles agora para aqui exemplificar o que estou dizendo, até porque são tantos, tantos que estão espalhados por toda a parte que seria injustiça também eu falar em um ou em outro e ignorar outros milhares, talvez até muito melhores que os que lembraria de citar. Então prefiro nada falar e apenas comentar, elogiar e louvar os escritores anônimos que algum dia já escreveram belos textos, mas que, infelizmente, nunca serão nada além disso, de fato.
Penso que merecem, no mínimo, “parabéns”, palmas ou meras saudações todos que já escreveram alguma maravilha, mesmo que não tenham a menor idéia que tais textos eram pequenas maravilhas, mesmo que nunca tenham visto seus nomes em programas de televisão, estampados nas capas de revistas, de cadernos literários ou de sites de autores. Acredito que o importante não é o valor que estes textos receberam, mas o quanto eles foram importantes para a própria auto-satisfação, o quanto eles causaram aquela sensação de “marca registrada”, de “realização pessoal”, de “felicidade interna”, de que não se passou por este mundo em vão, em branco, em profundo vazio...
Claro que existem diversos meios destes bons autores publicarem suas obras-primas (mesmo que únicas) tanto de forma impressa como virtual, mas o que ocorre é que, inevitavelmente, estas publicações acabam se misturando com todo o tipo de ruindade presente (que são a grande maioria, sim!) e ninguém dá a menor importância para elas. Exemplo vivo: O site Recanto das Letras. (www.recantodasletras.com.br )
O Recanto das Letras é um bom "sítio" (como corretamente fala meu amigo Raul Arruda em bom Português). Um sítio onde todos podem publicar. E este TODOS (leia-se “qualquer um”) é o problema, é o que impede que o sítio seja ÓTIMO, e seja apenas bom, interessante, bacana...Todos podem escrever o que bem querem entre ensaios, crônicas, poesias, contos, discursos, enfim, todo o tipo de literatura (e não-literatura) possível, e aí mora o perigo. O site não é (nem quer ser) um crítico literário apurado para saber o que é um texto bom ou um texto ruim, aceita tudo que nele é publicado. Daí vem a grande pergunta: Entre mais de 796.624 poesias, 105.992 pensamentos, 74.471 crônicas, 54.321 contos, 31.415 haikais e outros tantos milhares de escritos (no dia de hoje, 22/2/2010), como descobrir os verdadeiros talentos? Lendo todos um a um? Passando meses e meses, horas e horas por dia na frente do computador tentando encontrar estes belos textos – certamente existentes mas adicionados e infectados direto pelos outros de péssima qualidade? Ou, afinal, o que importa quem tem ou não tem talento? O que importa somente é dar espaço a todos que querem se dizer escritores? Realmente, torna-se algo pior que um trabalho de Hércules descobrir gente boa neste mundo de tanta oferta literária... Isso que falei apenas de um site, nem citei outros tantos onde autores de talento podem estar escondidos, como no Clube dos Autores (http://www.clubedosautores.com.br) ou sites deste tipo onde todos podem publicar e só é impresso o que alguém comprar, ainda que de qualidade duvidosa tanto o texto quanto a impressão. Ou seja, mesmo escritores ruins podem ter seus textos ruins mais lidos que os textos de bons escritores, basta possuírem uma boa rede de amigos, networking, dinheiro para divulgação, etc. Podemos ver alguns bons textos realmente selecionados somente em sites como Releituras (www.releituras.com), mas ainda assim há a preferência pelos famosos, e são muito poucos os bons textos de anônimos - inclusive porque muita gente que escreve coisas boas não necessariamente manda para este ou para qualquer site que seja. Além de tudo, os tais bons textos podem estar em algum destes sites e ainda assim continuarem sendo maravilhas completamente despercebidas, ignoradas, rejeitadas, esnobadas...Como diz o bom e louvável Flávio José Cardozo na entrevista desta própria edição, "o difícil é ser lido, não publicar algo".
Enfim, este artigo, como eu disse lá em cima, não é para criticar, então vou me restringir apenas aos elogios desta vez como estava fazendo, e eles vão a todos que um dia já escreveram coisas que valeram à pena, coisas que não poluíram o mundo, mas pelo contrário, encheram os olhos de quem leu mesmo que uma única e anônima vez; belos textos, que mesmo que não tenham dado nome a seus criadores conseguiram – ainda que por um pequeno tempo – falar de forma mais bonita que o silêncio; belos textos que por mais que não tenham dado fama, dinheiro e oportunidades a quem os escreveu existiram ou existem simplesmente - como uma linda mulher desconhecida da gente que vive no mundo sem pretensões de ser, que nem sonhamos em conhecer, mas que, se um dia esbarramos numa esquina e viemos a vê-la, inevitavelmente enxergamos e admiramos sua notável beleza, só que ficamos quietinhos em nosso canto porque já somos casados, porque temos compromisso com alguém, porque somos covardes, porque há outros em volta olhando, porque ela é "só mais uma entre tantas", porque ela nem é famosa e nem mesmo a desculpa de pedir um autógrafo podemos ter para nos aproximar, enfim...
E então vamos embora calados e como se nada tivesse acontecido, mas mesmo tendo-a visto esta única vez, sempre saberemos que ela era bela, ah, como era!
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
topo
___________________________________________________________________________
Eu devo ser uma besta por não querer ser uma besta....
(Jan.2010)
por Leandro Rodrigues*
Eu simplesmente cansei de engolir.
Cansei de engolir escritores como Dan Brown e Stephanie Meyer vendendo como água; cansei de engolir festivais ridículos de artistas repetidos populares e sub-artistas (como Planeta Atlântida) iludindo ouvidos inocentes ou explorando tímpanos ignorantes que nem sabem o que é música boa; cansei de engolir as propagandas ignominiosas destes mesmos festivais anunciando lixo como ouro; cansei de engolir novas edições de programas imbecis de zoológicos humanos repletas de corpos perfeitos e cabeças imperfeitas (Big Brother, A Fazenda, No Limite e todos os reality shows idiotas do universo); cansei de engolir pessoas medíocres que não têm assunto e apenas se juntam para falar pelas costas de outras; cansei de engolir notícias de tragédias, acidentes, assassinatos, corrupções, esportes, novelas, propagandas das próximas novelas e o diabo a quatro; cansei de engolir as falsas lições de morais de padres, políticos, jornalistas reprimidos; cansei de engolir preconceitos impostos pela sociedade dentada ou desdentada; cansei de engolir mentiras do dia-a-dia com a veemência absurda da hipocrisia declarada. Cansei, em suma, de engolir. Imposições, mandamentos, manipulações, tentativas de controle de minha mente de todo o tipo. Cheguei num ponto, na verdade, que não consigo nem mais ligar a televisão. Cheguei num ponto que não consigo nem mais pisar numa livraria e encarar tantas baboseiras já de cara, nas primeiras prateleiras, vendidas como obras-primas. Cheguei num ponto que pouca coisa consegue fazer eu não me sentir uma besta, e não sei se isso é bom, na verdade.
Ter me tornado crítico demais talvez tenha sido o meu erro, pois faz com que eu seja cada vez mais seletivo, e sendo cada vez mais seletivo sobram cada vez menos pessoas e coisas interessantes na minha vida. Hoje conto nos dedos o que realmente me importa. Se o caminho para a iluminação é a renúncia e o desapego, segundo o Budismo, estou indo pra lá, talvez. Ou quem sabe para o caminho do inferno, para um caminho solitário (ou quase solitário) o qual poucos conseguem achar alguma graça, preferindo mil vezes a boçalidade da massa não-pensante escrava dos caros prazeres baratos a se isolar num mundo onde tudo, quase tudo soa tão idiota e repugnante.
Tal mundo, por mais que duro e chato que pareça para a grande maioria, para mim, ainda assim, é gracioso. É nele que eu encontro grandes seres: Kafka, Dostoievski, Saramago, Gárcia Márquez, Orwell, Noll, Carpinejar, Flávio José Cardozo....Não sei se é um mundo bom, mas é um mundo que me tira da mesmice, e esta saída da mesmice é algo que não tem preço. É um mundo, acima de tudo, onde quase tudo que tentam me fazer engolir é imediatamente vomitado, e nada melhor para a saúde que vomitar o que nos deixa nauseado, engulhado, enojado. Então, por mais que eu levante da cama às 8h da manhã e já, tomando café, comece o dia com alguém (às vezes até alguém eu nem conheço pessoalmente, como alguém da própria televisão ligada em alguma parte da casa que eu não quero nem ver mas acabo escutando por acidente) impondo que eu ouça isso ou aquilo, que eu faça “x” ou “y“, que eu compre este ou aquele produto não tem o menor efeito sobre mim, pois estou completamente vacinado contra toda a metralhadora de porcarias que está sendo lançada aos 4 cantos do planeta a cada segundo. Isto é, meu mundo à parte, por mais asqueroso que seja para muitos, me imuniza da terrível e devastadora doença que a grande maioria da sociedade apresenta: A estupidez.
Só que eu não sei se isso é bom porque a estupidez, já faz muito tempo, tornou-se algo sagrado no mundo, e sendo assim eu não estou respeitando algo sagrado, tendo que ser, é lógico, eternamente condenado. Como ouso querer me afastar da estupidez humana sendo eu próprio um humano? A tal arrogância literária se apossou de mim? A miséria intelectual? A dor de cotovelo cultural por preferirem visitar o site do “Vitor e Léo” ou do “Calcinha Preta” que a este que vos escrevo? Por que, afinal, não consigo gostar de sertanejo ou de pagode, nem ficar louco de porre com qualquer festa e sair dirigindo bêbado por aí, nem gritar feito um maluco quando algum time de futebol faz gol, nem ficar demasiado feliz porque logo vem um feriadão e dá para torrar no solaço de uma bela praia? Por que eu não quero ser uma besta se bestas nem sabem o que engoliram, estão engolindo ou vão engolir no próximo segundo porque para elas tudo é alegria? Por que eu não quero ser uma besta se bestas nem precisam ler, escrever, pensar, criar e podem viver só em função de aparência, de engodo, de ilusão? Por que eu não quero ser uma besta se bestas conseguem amar ou sentir atração sexual por qualquer um sem dificuldade, acreditando que pessoas interessantes, atraentes, de personalidade forte e com “pegada” são as agressivas, com “cara de mau”, com “QI de ervilha” e péssimo caráter? Por que eu não quero ser uma besta se bestas conseguem acreditar que se tornar milionário faz uma pessoa mais feliz, da mesma forma que conseguem ser alegres mesmo na pobreza extrema escutando um funk num rádio à pilha???....
Putz, eu devo ser uma besta mesmo por não querer ser uma besta!
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
topo
___________________________________________________________________________
Escritores vegetarianos para um mundo melhor
(Dez.2009)
por Leandro Rodrigues*
Não gosto de levantar bandeiras de partidos políticos, religiões, times de futebol ou mesmo de quaisquer causas. Mas não posso deixar passar em branco este tema tão importante pra mim e para toda à humanidade, ainda mais depois que assisti a um filme /documentário bastante chocante. Trata-se de “Olhe nos Olhos”, uma obra forte, real, que mostra o grande absurdo dos “bastidores” da Indústria da carne no Brasil. Pois, como todos sabem, para que uma pessoa coma carne, milhares de animais, todos os anos, são mortos da forma mais cruel possível, não se levando em conta o sofrimento causado à estas criaturas.
No filme podemos constatar que a humanidade fez um grande erro ao escolher o boi como fonte de alimentação. Ele é um péssimo conversor de energia e necessita de uma grande destruição do solo para que seja criado. Desperdiçamos água e alimento para engordar animais enquanto milhares de crianças morrem de fome diariamente.
Fica claro que se tudo o que é gasto com pecuária fosse gasto com o investimento em plantação, a fome no mundo já teria acabado. A fome não é uma questão de falta de alimentos no planeta, e sim de redistribuição, como diz um dos profissionais entrevistados.
Alguns dados: Os recursos naturais do planeta estão sendo levados à exaustão, como a água. Cada boi produz 500 litros de metano por dia, poluindo o ar de um modo 15% responsável pela destruição do ozônio. O Cerrado é o sistema mais destruído no Brasil para a criação de bovinos. Prevê-se que em 2030 não mais existirá tal área. A amazônia será a próxima vítima.
Os alimentos que consumimos são produzidos em fábricas de sofrimentos, longes das grandes cidades para que o homem nem pense de onde vem a carne que consumiu.
O absurdo ocorre com todos os tipos de animais: Quanto aos frangos, por exemplo, as luzes das granjas ficam acesas 24 horas por dia, os frangos são presos em cubículos e comem a mesma comida diariamente. Surge então o canibalismo, e então os homens cortam os bicos das aves. As galinhas chegam a pôr 250 ovos por dia e ficam doentes, muitas morrem com ovos trancados ou das doenças causadas devido ao demasiado uso de remédios e hormônios para produzirem muito mais que podem.
No matadouro, os frangos que ainda estão vivos são colocados em água escaldante. Muitos permanecem vivos, e só depois tem o pescoço cortado. Os bezerros são tirados da mãe assim que nascem, não podem nem mesmo mamar e já são destinados à prisão, para que alguns meses depois sejam mortos para a produção da carne de vitela, o famoso "baby bife".
O ser humano é um o único animal na face da Terra que rouba de outro leite e proteína. Claro que algumas vezes vemos uma cadela alimentando uma gatinha sem dono ou coisa do tipo, mas isso – além de ser raro – não é roubo, nem industrial, foi algo "cedido pela dona da teta", digamos assim.
Até mesmo o que sobra nos matadouros é lançado para o consumo, para a indústria do lucro que vivemos, destinado à fabricação de sabonetes, cosméticos, porcarias de todo o tipo.
Por causa disso também, originou-se a doença da vaca louca. Esta doença teve seu início na tortura que o homem impôs a este animal, dando-lhe como comida até mesmo restos repletos de bactérias de outros animais mortos (também nos matadouros) como cérebros de carneiros. O que ocorreu é que como a vaca é um animal herbívoro, passou a sofrer deste mal terrível pela precária alimentação que o homem lhe serve antes do abate. Explica-se no filme que tal fato deu-se porque “na década de 80, produtores de ração para gado (que normalmente era feita de derivados de farinha de carne e ossos de carneiros) mudaram a forma de produzir ração. De certa forma, a mudança permitiu que o agente da doença “scrapie” sobrevivesse ao processo de produção de ração para gado. Desta forma, o alimento contaminado foi dado ao gado, que contraiu EEB (encefalopatia espongiforme bovina)”.
Já, com os porcos, depois de algumas semanas em suas pequenas prisões de solo acimentado aguardando o cruel abate, eles nem mais conseguem andar. Suas patas são para a lama, não para solos duros, e arrebentam de uma forma que o animal começa a ficar somente deitado por não mais poder se mover. Irritados, machucados, sofrendo com isso, muitas vezes eles brigam entre si, mordendo os outros companheiros deitados próximos, e o homem então aparece para acabar com as brigas e lhes torturar ainda mais, cortando seus dentes.
Até mesmo com a pesca o homem destrói o sistema marinho do globo terrestre. Quem foi que disse que os peixes não sofrem? Ao destruir um animal aquático, o homem não destrói apenas aquela vida, mas sim a sua própria harmonia com a natureza, com o todo, com o universo, com tudo que é constituído para viver em harmonia. Ninguém precisa da proteína de um peixe, as pessoas comem somente por hábito, por gula, por desejo a apreciação, mas é completamente desnecessário. Alguém precisa comer osso para ter osso? Alguém precisa comer músculo para ter músculo? Um outro entrevistado questiona no documentário. Há inúmeros alimentos repletos de todas as vitaminas que (supostamente) só os peixes podem nos dar.
As doenças, como a obesidade, são causadas pela má alimentação das pessoas no dia-a-dia. Quando uma pessoa come um pedaço de carne, será que ela sabe que uma vaca (da criação até ao abate) teve cerca de 2500 medicamentos inseridos no organismo? Antibióticos, hormônios, remédios para um maior desenvolvimento, enfim...Ao ingerir carne, as bactérias os donos de clínicas de estômago agradecem. (Lembrando-se que praticamente também não há vegetarianos gordos no mundo.)
Cereais e frutas que a natureza nos dá têm muito mais energia e vitaminas que qualquer alimento à base de carne. Alimentos encontrados na natureza são muito mais abençoados e saudáveis que os originados com sangue, dor, tortura, sofrimento e crueldade.
"ANIMAIS SÃO AMIGOS, NÃO COMIDA!" pessoas mais sensíveis têm vontade gritar ao assistir um filme como este. Mas o homem, em geral, não quer saber, e se defende dizendo que “é a lei do mais forte”, que “na natureza também um come ao outro cruelmente”, que “faz parte da vida”. Ao ficar cego para este problema o homem torna-se responsável diretamente pelo tingimento de sangue no mundo.
É triste, mas não podemos fugir desta realidade. A indústria da carne é assassina, criminosa, cruel, pusilânime, vergonhosa à humanidade. Nem a tal defesa que os homens arrumam, “de que os animais mais fortes também matam os outros e se alimentam de carne alheia” tem validade, porque estes animais carnívoros não criam indústrias nem produções em série, nem são ladrões de leite ou proteínas alheias. Eles simplesmente precisam matar para sobreviver, mas matam um ou outro na lei da selva, na caça de quando em quando, na própria selva, em seu habitat natural, não prendendo as outras espécies e impondo sofrimentos em jaulas, gaiolas minúsculas e todo o tipo de tortura até o abate. Caçam só por necessidade, não por lucros, por ganância, por ambição. Não possuem redes de supermercados igualmente.
Afinal, como diz o filme, quase em seu final, “a Terra provê tudo que o homem necessita, menos a sua ambição e sua busca desenfreada por prazer.”
Esta, sim, só leva aos Karmas negativos e à agonia e padecimento de outros seres. Uma vergonha para a humanidade...
Abaixo, uma lista de escritores vegetarianos (e filósofos também) nesta causa tão importante para o planeta e para o universo:
ESCRITORES VEGETARIANOS:
Aaron David Gordon (escritor hebraico)
Alan Moore (escritor)
Alexander Pope (poeta)
Alter Kaczayzne (escritor judeu)
Annie Besant (escritora)
Brigid Brophy (escritora)
Charlotte Brontë (escritora)
Daniel A. Drombrowski (escritor)
Debra Wasserman (escritora)
Diane Fairechild (escritora)
Edwin Arnold (poeta)
Edward Carpenter (poeta)
Ellen G. White (escritora adventista)
Émile Zola (escritor francês)
Francis Moore Lappe (escritor)
Franz Kafka (escritor)
Gloria Steinem (escritora)
Henry Salt (escritor)
H.G. Wells (escritor britânico)
Hesiodos (poeta grego)
Henry David Thoreau (escritor)
Isaac Bashevis Singer (escritor)
Jean Jacques Élysée Reclus (geográfo e poeta francês)
Jon Gregerson (escritor)
Jonathan Safran Foer (escritor)
John Gay (escritor)
John Milton (poeta)
Joseph Ritson (escritor)
Leo Nikolayevich Tolstoy (escritor russo)
Linda MacCartney (autora de livros de culinária)
Lisa Dorfman (escritora)
Louisa May Alcott (escritora)
Luigi Cornaro (escritor)
Mark Twain (escritor)
Martha Grimes (escritora)
Martinus (escritor)
Mary Wollstonecraft Shelley (autora inglesa)
Maurice Maeterlinck (escritor belga)
Moses Maimonides (escritor)
Oliver Goldsmith (poeta britânico)
Percy Bysshe Shelley (escritor)
Philp S. Chen (escritor)
Philostratus (escritor grego)
Rabindranath Tagore (poeta)
Rafael Bán Jacobsen
Ralph Waldo Emerson (poeta)
Richard Schwartz (escritor)
Ron Kaufman (escritor)
Rynn Berry (escritor)
Sappho (poetisa grega)
Shmuel Yosef Agnon (escritor hebraico)
Susan B. Anthony (autora de "Womens Sufragge")
Suzanne Havala (escritora)
Thomas Tryon (escritor inlgês)
Upton Sinclair (escritor)
Valerie Hardin (poetisa gótica/escritora)
Virginia Messina (escritora)
William Blake (escritor)
VEGANOS:
Alice Walker (escritora)
Carol Givner (autora de best-sellers)
Howard Lyman (escritor)
John Robbins (escritor)
Kerrie Saunders (escritora)
Peter Singer (escritor)
Reed Mangels (escritor)
Steve Brill (escritor)
Vesanto Melina (escritor)
Filósofos VEGETARIANOS:
Albert Schweitzer
Amos Bronson Alcott
Anna Kingsford
Apollonius de Tyana
Crates de Tebas
Diogenes
Edward Carpenter
Empedocles de
Agrigento
Epicetus
Epicurus
Henry David Thoreau
Henry Salt
Iamblichus
Jean Jacques Élisée Reclus
Jean Jacques Russeau
Jeremy Bentham
Lucius Annaeus Seneca
Metrokles
Mohandas Karamchand Gandhi
Martin Buber
Moses Maimonides
Musonius
Rufus
Philolaus de Croton
Pitágoras
Platão
Plotinus
Plutarco
Porfírio
Publius Ovidius Naso (Ovídio)
Theophrasteos
Thomas Taylor
Voltaire
Zenão
Fica a pergunta: Tantos homens tão inteligentes podem estar errados?
Vegetarianismo é a melhor opção para à Terra e para todos os que amam de verdade os animais.
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
topo
___________________________________________________________________________
Projetos de incentivo à leitura nas escolas fazem alguém gostar de ler?
(Nov.2009)
por Leandro Rodrigues
Embora a educação seja algo muito importante e a todos, é sabido - principalmente no Brasil - que muitas crianças e adolescentes a rejeitam, e estudam somente por obrigatoriedade. Obrigatoriedade dos pais, que impõem aos filhos o dever de estudar; obrigatoriedade da sociedade, que deixa muito claro que somente aqueles que estudam têm (supostas) condições de chegar a cargos mais elevados – ainda que, na realidade, isso não seja um fato concreto, é claro -; obrigatoriedade de si mesmos, que se submetem a "x" horas de aula por dia visando justamente um diploma, uma ascensão futura profissional e pessoal. A questão é que, justamente por ser algo tão associado a obrigatoriedades, o "ensinar e aprender" tornam-se "coisas chatas" na visão de um grande número de estudantes, que não assistem às aulas com prazer nem com vontade, estando em sala ou mesmo na escola unicamente pelos resultados (igualmente supostos) que podem obter a curto ou a longo prazo, como o canudo, por exemplo, a motivação exclusiva de alguns.
Sabendo disso, ainda que enfrentando muitas vezes situações adversas como baixo salários e desrespeito, os professores frequentemente procuram elaborar planos de aula diversificados e criam dinâmicas onde tentam contentar a todos ou, no mínimo, a grande maioria. De qualquer forma, isso não é nada fácil, e muitos alunos continuam indo às aulas com o único intuito de passar de ano rapidamente e com qualquer nota que seja para logo se formarem e assim se verem livres do colégio, dos professores, dos livros, os quais nunca mais darão atenção a partir deste momento.
Por mais que se tente mudar, todos os anos é a mesma coisa: Alunos desinteressados em aprender e professores desmotivados em ensinar. E o assunto se repete. Tanto nas discussões entre os profissionais do assunto entre eles mesmos como com os pais de alunos, como com quem não é da área (população em geral, por exemplo) e futuros profissionais, igualmente estudantes ou não, jovens, adultos ou idosos interessados na melhoria do sistema somente.
O que muitos se perguntam, como uma questão filosófica que não quer se calar, é se é possível fazer com que alunos que, como diríamos na linguagem popular, "levam tudo nas coxas”, isto é, não querem nada com nada, se interessem de fato pelo ensino e queiram aprender alguma coisa na vida além de simplesmente passarem de ano?
É uma questão muito difícil de ser respondida. Assim como muitas pessoas trabalham apenas pelo dinheiro a vida inteira, muitos alunos estudam apenas por estudar a escola toda. Se isso é reprovável? Quem sabe? Isso, no mínimo, cria outras questões, tipo: Vale a pena ensinar quem não quer ser ensinado? Até quando o professor deve fingir que ensina e o aluno deve fingir que aprende só para dar satisfação à sociedade? Se o sistema de ensino for drasticamente mudado, a vontade de ser ensinado de verdade surgiria (ou mesmo aumentaria) nesses alunos? É possível ensinar literatura, por exemplo, a quem não gosta de ler nem quer gostar?
Digamos que um professor tenha profundo conhecimento de literatura. Ele adora a disciplina, graduou-se numa boa universidade e tem até mesmo “brilho nos olhos” quando ele fala do assunto. Ele tem satisfação em ensinar e fazer projetos literários, levar escritores na escola, por exemplo, pois acredita que o contato com o autor pode despertar interesse pela leitura de seus livros e de outros tantos escritores a partir daí. Ocorre, no entanto, que quando este professor e escritor vão para a sala de aula eles se defrontam com outra realidade. Por melhor que ensinem, por mais conhecimento que tenham do assunto, por mais interessantes que os assuntos e os livros discutidos sejam, eles percebem que metade da turma (ou mesmo a maioria dos seus alunos) têm pavor de ler. Tão apaixonado por Moacyr Scliar, Amílcar Neves, Alcides Buss, Martha Medeiros, Alice Ruiz, Paulo Leminski o professor é que nunca imaginou que alguns pudessem ter tanta ojeriza à literatura, que jamais enxergariam a beleza latente que ele sempre viu em seus livros. E, por mais que se esforce, não é possível motivar quem nada quer com a sua “amada literatura”, quem não vê formosura alguma em autores, livros, livrarias, bibliotecas, intelectualismos, enfim, no autor que está ali na frente, pois quem odeia tal matéria prefere fazer qualquer coisa a ter que gostar do assunto ou mesmo tomar conhecimento que ele existe.
O professor, evidentemente, se frustra muitas vezes, mas acredita que é possível ainda assim que um aluno aprenda mesmo não querendo ser ensinado sobre isso, mesmo detestando o que ele venera, que é uma coisa diferente de aprender. "Ser ensinado" e "gostar do que é ensinado" são duas coisas diferentes realmente? Ele se pergunta. Possivelmente, quando os alunos gostam do que é ensinado, aprendem com mais facilidade, e quando não gostam simplesmente fazem o que tem que ser feito de qualquer jeito, para terminarem logo, ganharem uma nota mediana, se possível, ou apenas suficiente para serem aprovados, e não mais pensarem naquele tema. Porém, ensinar é muito mais que isso, ele sabe! Para ensinar alguém de verdade não basta se apresentar um conteúdo, dar notas, aprovar ou reprovar os alunos. É preciso despertar um amor nesse aluno para que ele igualmente se apaixone pelo que este professor, certamente, já é apaixonado. Pois talvez o segredo para que se aprenda alguma coisa de verdade seja se ter amor por esta "coisa", tanto profissional, como pessoal, como em tudo na vida. Mas daí, igualmente, surge outra pergunta? Uma pessoa só aprende mesmo com amor? Uma pessoa só se permite ser ensinada sobre aquilo que ama? É possível despertar uma motivação diferente daquela que uma pessoa já tem em relação a algo e fazer com que ela mude e "se abra" para aprender aquilo que antes não lhe despertava a menor atenção?
O fato é que alunos desmotivados com o que é ensinado contribuem diretamente para a mediocridade da educação. Pois, como foi dito antes, os professores, ao verem que não estão conseguindo o resultado esperado, frustram-se ou simplesmente fingem estar ensinando, e vice-versa, ocasionando uma escola precária, com baixas média, êxito e péssimos profissionais no futuro, dando continuidade ao "fazer por fazer" por onde quer que passem.
No livro “O Mestre Ignorante”, o autor, Jacques Rancière, sugere a emancipação dos alunos do professor. Ao invés de ensinar, o aluno deve ser emancipado e aprender por conta aquilo que precisa ser aprendido. Este talvez seja o caminho. Não é à-toa que muitos nunca se interessaram em aprender surfe, vôlei, alemão, fotografia, música, etc, tendo todas as possibilidades para isso, bastando estarem vivos para tomar a atitude de aprenderem por conta sobre tais coisas, mesmo que algum professor se disponibilize. Assim, não havendo interesse na questão, será que um aluno, mesmo emancipado, pode vir a ter interesse por uma matéria que lhe desagrada? Ou ele não irá aprender de jeito nenhum, estudando somente o suficiente para ser aprovado no fim do ano?
Ainda que isso suscite dúvidas igualmente, para muitos a emancipação pode ser uma boa forma para que os alunos se sintam mais à vontade em freqüentar à escola, em assistir aulas, em ganhar algum conhecimento. Este conhecimento pode ser ínfimo inicialmente, mas com o apoio e a condução do professor (que, neste caso, como diz Rancière, deixa de ensinar para ser o “mediador”) a aprendizagem pode ser facilitada para o aluno, e – ao longo do tempo – este aluno até passe a gostar do que antes não gostava por puro preconceito ou pelo sistema antes submetido - leia-se a autoridade de um professor que se coloca (ou melhor, colocava-se) num nível superior a de seus pupilos.
Com a emacipação, mesmo para um aluno que, aparentemente, não queira ser ensinado, as coisas podem mudar completamente, pouco a pouco ou rapidamente, inclusive.
O papel do professor é muito importante nisso tudo. Um professor de português, de literatura (ou mesmo de qualquer outra matéria) deve incentivar a leitura, sim. Não sei se levar escritores à sala de aula adianta, mas dar aulas criativas, onde livros possam ser trabalhados já é uma boa forma de começar a familiarizar suas turmas com os livros, afinal, muitos não tem contanto nenhum em suas casas ou em lugar algum com qualquer obra, e a escola deve servir para que, pelo menos, quem lá se encontre descubra que o mundo é muito mais rico, culto, inteligente e saboroso para quem tem o hábito da leitura – ainda que o estudante decida ficar de fora deste mundo para sempre, apenas escutando seu funk ou pagode tradicional de cada dia....
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
___________________________________________________________________________
Da tola arrogância dos escritores, filósofos, intelectuais e afins...
(Out.2009)
por Leandro Rodrigues*
O dicionário Aurélio define a palavra "ARROGÂNCIA", entre outras coisas, como "orgulho que se manifesta por atitudes altivas e desdenhosas".
Penso que o dicionário poderia tranquilamente acrescentar ao fim da significação algo como: "Vaidade ridícula e estúpida facilmente encontrada em escritores, filósofos, intelectuais e afins metidos a sabichões". Pois, depois de alguns anos circulando por este meio, o que eu mais vejo, sem dúvida alguma, é a presunção, a soberba, a falta de simplicidade de grande parte desta gente.
Chego ao ponto de ficar me questionando sobre algo que jamais deveria me questionar: “Quem é mais insolente? Escritores ou pretensos filósofos?” “Intelectuais em geral ou doutores munidos de alguns títulos e certificados?” “Ou a altivez ignorante é apenas algo inerente à classe letrada inteira em uma mesma medida?” Que contradição, não?! Eruditos e ignorantes ao mesmo tempo?
Bom, eu não tenho respostas prontas a estas perguntas. O que eu vejo é que a simplicidade que era para ser encontrada nestas pessoas é muito rara. Talvez, inclusive, fosse uma grande ilusão romântica minha imaginar quando criança que escritores, por exemplo, eram seres melhores, mais evoluídos, inteligentes além de intelectuais. Porque, convenhamos, intelectualidade e inteligência são coisas bem diferentes. Intelectualidade é simplesmente uma soma de conhecimento despejado. As pessoas munem-se de informações extraídas dos livros, das bibliotecas, dos professores, dos cursos que fazem ao longo da vida, dos diplomas que colecionam e pronto. Depois vão citando aos quatro ventos os pensadores que estudaram, as frases de efeito que muitas vezes nem elas mesmas entendem, enfim, disseminando as instruções emprestadas que adquiriram por aí.
Já, inteligência, é algo bem mais rico e belo. Não são necessários os conceitos, a ciência, as referências em geral. Basta uma boa resposta de acordo com o momento, um “fluir” de acordo com a situação, com a condição que o momento exige, em suma, "um dançar" em ritmo com a vida, eu diria. Um camponês analfabeto pode ser inteligente, por exemplo. Desde que saiba viver e não seja um camponês arrogante, por exemplo – o que, cá entre nós, é bem difícil de acontecer. A arrogância não é uma coisa camponesa, é uma coisa versada.
Muitos estudantes, professores de filosofia e escritores que eu conheço são peritos em petulância por julgarem-se, com certeza, doutos. A empáfia, no entanto, mal sabem eles, não é sábia. Pelo contrário, os verdadeiros sábios são desprovidos de vaidade. (Não citarei nomes porque este texto já está sendo intelectual demais para fazer menções, ainda por cima).
O fato é que a própria Filosofia (= amor à sabedoria), tornou-se algo para poucos devido ao academicismo barato, estúpido e excludente que se transformou há, pelo menos, alguns séculos. Não é mais amor à sabedoria que se vê, e sim amor ao ego, à aparência, à impressionabilidade no discurso, ao Currículo Lattes gigante, mesmo que “oco de alma”.
Aliás, falando em alma, quando eu era pequeno eu acreditava (como li mais adiante) que escritores eram “médicos de almas”. Homens e mulheres capazes de curaram a si mesmo e aos outros com seus escritos, penetrarem no espírito, na mente e principalmente no coração das pessoas e extraírem o que é ruim para colocar o que é bom, mas isso é algo escasso no mundo de hoje. Há muitos textos magníficos, é claro, mas para mim eles perdem muito a beleza quando conhecemos a ufania de seus autores. É como se perdessem a pureza imediatamente, pois soam como um presente de alguém que só queria algo em troca – no caso, o louvor, a veneração, o carinho no seu topete. Não é bonito.
Desde quando prepotência e jactância são bons remédios para alguém? Mas são as receitas que eu mais encontro por aí, e o que me machuca é que muitas vezes são ditadas pelos ditos “grandes escritores”. Às vezes até acontece de eu gostar de alguns livros destas pessoas, mas basta conhecê-las depois para acabar com qualquer respeito ou consideração na mesma hora. São muito mais dignas de pena que de apologias. Pois a presunção é uma característica típica dos covardes. Vangloriam-se porque assim fazendo podem, teoricamente, esconder as suas fraquezas. De mim, porém, não conseguem esconder. Bando de boçais que se auto-intitulam maiores que os outros por serem especialistas em algo ou simplesmente por escreverem melhor que uma grande maioria! Esquecem que um papel escrito não é nada. Um página de um computador digitada não é nada. Um livro impresso pronto não é nada. A vida não é nada - ou quase nada. Ninguém é nada. Muito menos quem se acha tudo...
Mil vezes a simplicidade de um anônimo camponês analfabeto que a soberba antipatia de um famoso escritor iludido! Aliás, muito em breve eu acho que farei um site ou uma revista sobre camponeses analfabetos. E que bom que a maioria deles não tem computador (nem sabe ler, é lógico) para ficar se gabando por aí...
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
topo
___________________________________________________________________________
Escrever ou não escrever, eis a questão!
(Set.2009)
por Leandro Rodrigues*
Conversando com uma prezada professora de Letras, a colunista deste site Tânia Ramos, soube de algo que já imaginava: A maioria dos estudantes de Letras têm medo de escrever, deixam de escrever, resolvem apenas lecionar, pesquisar, fazer qualquer coisa menos literatura. Isso acontece, entre outras, pelas cobranças que se fazem em relação à língua, à gramática, às concordâncias a serem utilizadas, à escolha das melhores palavras, enfim, diversos fatores linguísticos que bloqueiam o processo criativo e o seu fluxo.
Lógico que muitos escrevem bem, formam-se, fazem mestrado, doutorado, pós-doutorado, o diabo a quatro e publicam boas obras – o próprio entrevistado do site deste mês, Renato Tapado, é um exemplo. Mas, leiam novamente o que eu escrevi no primeiro parágrafo, e que agora ratifico aqui em letras maiúsculas: A MAIORIA deixa de escrever. E, se a maioria deixa de escrever, é sinal que uma graduação em letras não é o melhor caminho para quem deseja escrever seus sonhados best-sellers, é bom dizer. Nem sei, na verdade, se existe "melhor caminho" para se escrever algum best-seller, mas o que quero dizer é que aqueles que imaginam que a faculdade de Letras fará com que virem exímios Saramagos, Kafkas, Clarices, Éricos, tirem o "cavalinho da chuva". Não é por aí.
Se eu, que não faço Letras, fico me perguntando todos os dias a frase-título desta crônica ("escrever ou não escrever, eis a questão!") imaginem os que se graduam! Tantos exames fazem, tantas livros clássicos maravilhosos (ou trechos) lêem, tantas regras encaram, tantas exigências e cuidados para não maltratarem a língua possuem que abdicam até mesmo de tentar fazer uma boa literatura. “É melhor não tentar a fazer uma porcaria”, pensam, com certeza. De porcarias o mundo já está cheio mesmo, basta visitar a seção de mais vendidos das livrarias, por exemplo, ou criar um site de literatura como este e ver isso ainda mais de perto...
Todos os dias novas porcarias são publicadas. Graças a Deus, criariam a Internet e, desta forma, muitos pseudo-escritores puderam criar seus blogs e escreverem bobagens por lá ou nos fóruns das comunidades de relacionamentos, por exemplo. Se não fosse a Internet, teríamos mais destruições de milhares de árvores por aí para fabricação de papel para produção de mais lixo literário, o que é um atentado contra a natureza, que deveria ser punido como qualquer outro crime. Destruição da natureza para a produção de lixo literário é um absurdo que eu abomino! Viva a Internet!
Aliás, sou a favor de algo tipo "exame de OAB" para alguém poder ser declarar escritor (uma “OEB” – Ordem dos Escritores do Brasil), pois mesmo que estes exames não necessariamente formem bons advogados, pelo menos ninguém pode sair se declarando advogado por aí porque cursou um ou dois anos de Direito ou mesmo terminou a faculdade. É necessário mais que isso para ser considerado um advogado, bem como deveria ser necessário mais que um ou dois livros de poesias para alguém ser chamado de escritor. E falo não somente em relação à quantidade, pois há autores de um livro só muito bons, logicamente, mas sim em relação à qualidade, visto que da mesma forma há quem escreva quinze, vinte livros ruins e, portanto, não deveria ser chamado de escritor.
Na Bienal do Livro de Curitiba até livro do Alexandre Frota eu encontrei. Acho que ele ainda não se disse “escritor”, mas muitos que escrevem como ele se dizem. Sem contar os autores sem-noção e sem-talento que ficam enviando e-mails coletivos quase todos os dias (ou semanas) divulgando um monte de coisas desinteressantes que estão fazendo à espera de alguma atenção, elogio ou notoriedade.
Quero ressaltar então que se a faculdade de Letras é ruim pelo bloqueio criativo que ela pode trazer, o bom é que pelo menos ela dá para muitos esta noção de que é melhor não escrever para que depois não fiquem se ridicularizando por aí que nem estes autores que estou comentando, os divulgadores inconscientes de ruindades próprias. Pois acredito que é melhor não se dizer um “jogador de futebol” a ser um futebolista medíocre, que fica no banco de reservas ou nem no banco de reservas de um timeco da quarta divisão tem lugar.
Claro que muitos escrevem só pelo prazer de escrever, publicam só pelo prazer de publicar, bem como muitos jogam futebol nos campinhos de várzeas nos fins de semana com os amigos apenas porque gostam do esporte - fazendo uma pequena comparação, já que trouxe a questão do futebol. Só que não é por causa disse que podem se dizer “escritores”. Penso que o ideal seria dizer: “Eu escrevo”; “Eu gosto de escrever”, “Eu aprecio brincar de literatura”, mas não se identificar como “Escritor”.
“Eu sou escritor”, como alguns adoram dizer por ego ou sei lá o quê, é ofensivo, virulento e machuca a verdadeira e boa literatura.
Não tenho preconceito contra quem sabe que não é escritor, contra quem escreve por brincadeira, por prazer, por contentamento interno ou por julgar que só é feliz mesmo quem planta uma árvore, faz um filho e publica um livro. Tenho preconceito apenas contra quem escreve mal e afirma ao mundo que é escritor, mas mesmo assim seus nomes (muitos nomes) estão até mesmo neste site que edito porque não gosto de discriminações. Se dizem que são escritores e não há exames de “OEB” para dizer o contrário, quem sou eu para contestar? Por que tiraria um doce da boca de uma criança?
Meu maior preconceito, no entanto, é contra quem escreve bem mas decide não escrever devido às regras, bloqueios e exigências que passou a ter na faculdade, sobretudo na faculdade de Letras. Estes, sim, são até piores que os que escrevem mal e gritam ao mundo que são escritores, porque, como diria Kant, "não usar um talento que se tenha é uma das piores coisas que alguém pode fazer contra si mesmo." – é bonito citar Kant, mesmo que uma das poucas coisas claras realmente nele, algo quase inconfessável, é verdade, para a maioria dos estudantes de filosofia).
Mas, voltando à literatura, para terminar, escreva independente de alguma graduação se você de fato tem talento (mas não faça esta pergunta à sua mãe e a seus amigos, é lógico). E faça urgentemente uma faculdade de Letras se você não tem talento porque, desta forma, você se desencatará e não escreverá - ou pelo menos publicará lixos com algum requinte, disfarçados de "formosos" - o que é até aceitável, pois a beleza é sempre admirável, ainda que de palavras, frases soltas ou unicamente da capa...
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
topo
___________________________________________________________________________
Os dois (ou mais) lados de todas as coisas...
(Aug.2009)
por Leandro Rodrigues*
Com tanta mídia ao nosso dispor - leia-se variedade de canais de televisão a cabo, de jornais, de revistas, de sites de relacionamento, etc - algo ficou muito explícito, escancarado, diria gritante para mim nos últimos anos é que tudo realmente tem, no mínimo, dois lados, dois pontos de vista, duas opiniões, duas "alguma coisa", mesmo que "pseudos-alguma coisa".
Não há mais como negar. Basta olhar, nem precisa ser uma análise profunda, as comunidades do Orkut, por exemplo. Olhem a quantidade de pessoas que encontramos nas mais diversas comunidades. "Eu sou conservador", "Eu sou comunista", "Eu acredito em Deus", "Eu não acredito em Deus", "Eu amo o Inter", "Eu odeio o Inter", "Bandido bom é debaixo da terra", "Sou contra a pena de morte", enfim...Só pra citar um mínimo de discordância, porque se fosse citar todas passaria dias e dias na frente deste computador e não listaria a metade.
Bom, o que quero dizer é que por mais que se tente fazer valer o que se acredita, a verdade particular de cada um sobre alguma coisa, sempre haverá outras pessoas que, se assim quiserem, podem fazer valer os seus lados, as suas verdades, as suas opiniões, basta terem bons argumentos. Argumento é tudo, afinal o mundo é sofista. (Sofista, para quem não lembra, eram os "falsos filósofos" pré-socráticos ou mesmo socráticos e pós-socráticos que cobravam pelos seus ensinamentos e convenciam as pessoas de inverdades usando unicamente argumentos, mesmo que ardilosos).
Hoje eu não sei mais se existe alguma verdade absoluta. Essa proliferação dos meios de comunicação e a vasta diversidade onde todos podem dar suas opiniões sobre tudo nos coloca cara a cara com milhares de opostos, milhares de pensamentos diferentes, milhares de pessoas dizendo "a" enquanto outras milhares dizem "b" - ou mesmo "c", "d", "e"....
O que demorei a aceitar, mas concluí com absoluta certeza com tudo isso é que nunca haverá harmonia, paz, igualdade no mundo. E não só porque as pessoas pensam diferentes, são diferentes, agem de formas opostas, mas porque a natureza do mundo é mesmo desigual. Ninguém jamais poderá provar que "o vermelho é mais bonito que o azul", que "o sol é melhor que a chuva", que "amar mais de uma pessoa não é trair", enfim, tudo tem o lado bom e o lado ruim, ninguém pode dizer com toda a certeza do mundo que está mais certo que o outro.
Em todos os assuntos e fatos discutidos no mundo, sempre haverá discordâncias. Basta encontrar as pessoas certas para estas discordância. Num tribunal, por exemplo. Lá estão dois advogados mostrando na prática o que estou escrevendo aqui: O cara pode ter cometido o pior crime do mundo, mas o advogado 1 lhe defenderá e tentará provar que aquele crime não foi o pior do mundo, que ele merece ser absolvido, enquanto o advogado 2 estará fazendo de tudo e arrecadando provas e mais provas, argumentos e mais argumentos, para declarar que tal sujeito é um bandido perigosíssimo, atroz, incivilizado e deve ser preso, sim, o quanto antes.
"Toda a unanimidade é burra", já escreveu Nelson Rodrigues. Eu não sei se toda a unanimidade é burra porque para mim não existe unanimidade no mundo. E me apontem um concurso, uma votação onde todos os jurados, onde todos os eleitores elegem por unanimidade alguém, eu retruco instantaneamente dizendo que esta unanimidade é meramente ilusória, pois os que não elegereriam esta pessoa simplesmente não estavam lá naquele momento, só por isso houve a unanimidade. Ou seja, pra mim sempre haverá pessoas que pensarão o oposto do que foi dito, que dirão o contrário sobre o que está sendo enaltecido ou mesmo criticado, e a unanimidade só ocorre porque estas pessoas não estiveram presentes, entendem?
Os dois (ou mais) lados de todas as coisas e de tudo, porém, é muito válido, tenho que dizer. No meu caso, faz com que eu não tenha nenhum fanatismo por nada, que eu aceite as opiniões de todos sem julgar ou odiar alguém pelo que pensa e sobretudo não fique alucinado em busca de uma perfeição que não existe - já que sempre aparecerá alguém pra dizer que está imperfeito e ruim, por mais que se esforce e se faça com amor algo. Não que agora eu tenha me tornado desleixado, mas me tornei consciente que pode haver muita beleza na imperfeição também, e a vida fica mais leve assim, logicamente, fazendo de acordo com o que está bom pra mim, não tentando agradar a todos, algo - como diz o velho ditado - que nem Jesus conseguiu.
E o que posso dizer para encerrar esta crônica, caro leitor, é que neste mundo onde a harmonia se faz com a desarmonia, tudo o que eu desejo a você, é que você consiga ser valente suficiente para sustentar pelo menos o que é e a convicção do que quer, mesmo que apareçam milhares para dizer que tudo que você faz - ou mesmo você - são grandes porcarias...
...pois pode ser uma mera opinião de alguém que "odeia o Inter", por exemplo...
...eu gosto.
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
topo
__________________________________________________________________________
Pobre país onde até comerciantes de livros são ignorantes
(Jul.2009)
por Leandro Rodrigues*
Numa manhã qualquer, visitando um sebo em Santa Catarina, vivi uma história chata e interessante que nem mesmo acreditei.
Enquanto paginava livros pelo tal local, escolhendo algum ou mesmo olhando sem compromisso caso não encontrasse nenhum que me interessasse, entrou uma garota tentando comercializar alguns livros de sua propriedade que não tinha mais interesse, ou pelo menos que precisava vendê-los para arrecadar algum dinheiro.
Pelo que pude perceber de onde estava, sentado num banquinho quase junto ao chão, próximo à estante de literatura internacional e do balcão de atendimento que ela chegou para negociá-los, eram 4 livros, um de "pensamentos da sabedoria milenar" inclusive, bastante novo, que numa livraria de livros "zero kilômetros", podemos dizer, custaria bem caro.
Ela se dirigiu à tal proprietária pedindo para que avaliasse quanto eles valiam, quanto pagaria por eles. Sem vergonha nenhuma na cara, sem qualquer dignidade, sem um pingo de justiça com a moça, a tal dona do estabelecimento rapidamente passou os olhos desmerecidamente sobre as obras, dissimilou olhares desinteressados, como se tratassem de reles porcarias, deu um sorriso cínico para ela e ofereceu uma ninharia vergonhosa à garota, absolutamente ridícula, de R$ 5,00. A menina ainda perguntou:
- "O que?" "Como?" "Sério?"
O que ela ratificou, dizendo que "era aquilo mesmo que escutou", que "os livros não tinham grande estima", que "tal quantia estava muito bem paga".
Chocada, a adolescente não aceitou a oferta, evidentemente, e pediu que lhe indicasse um outro sebo onde pudesse vender tais publicações, pois precisava de mais dinheiro.
Julgando-se muito esperta, a dona da lojinha indicou-lhe um na próxima esquina (sem dizer-lhe, é claro, que era outra filial sua), e que lá lhe proporiam o mesmo preço ultrajante ou até pior, uma vilania de sua parte, conforme previamente já combinado com seus funcionários das outras lojas, logicamente.
Inocente, a menina já ia saindo da loja e se dirigindo para lá quando me levantei de onde estava e resolvi chamá-la com um "psiu".
Pedi para olhar o livro de sabedoria, o que mais havia me atraído. Para a minha surpresa, porém, a tal proprietária na mesma hora se meteu dizendo: "Vocês não podem negociar na minha loja. Ei, rapaz" - dirigindo-se à mim:
- "Você estuda? Que curso você faz? Sabe o que é ética?"
- "Não lhe interessa que curso eu faço", respondi. "Sei muito bem o que é ética. Tanto que esperei a senhora terminar de fazer a sua proposta a ela para chamá-la, quando ela já estava indo embora".
- "Não se faz isso. Não se intrometa no que não é chamado, entendeu?"
- "Um dos livros que ela tem me interessa, e a senhora que desperdiçou a oportunidade de comprá-lo, então agora eu vou comprar porque nem um preço justo a senhora foi capaz de oferecer a ela..A senhora sabe o que é exploração alheia?"- indaguei-a
.
Ela quase saltou da cadeira, já gritando...
- "Ora, ora, quem você pensa que é para falar assim comigo dentro da minha loja! Você não tem ética, meteu-se na minha negociação, atrapalhou tudo, posso até chamar a polícia, se eu quiser".
Eu ri.
- "Chame a polícia, então!", desafiei-a, enquanto a garota vendedora dos livros apenas observava tudo, contendo um certo sorriso também da situação.
- "Não tem ninguém roubando ninguém aqui, nem atrapalhando negociação nenhuma. A senhora ofereceu um valor "x" pelos livros, a menina não aceitou porque não é burra, é claro, e estava indo embora da loja já." - relatei novamente, imparcial, exatamente como foi.
A mulher não se continha na sua estupidez:
- "Ela ia voltar. Ia até o outro sebo, ia ver que lá pagariam menos que eu e viria aqui negociar de novo, você não tem ética, portanto, você atrapalhou tudo dentro da minha loja, do meu estabelecimento...é muito feio fazer isso...eu vou lá pegar um dicionário para você aprender o que é ética, rapaz!."
- "Sim, sim" - concordei - "Pode pegar o dicionário e já aproveite e já olhe o significado de algumas palavras, tais como 'exploração', 'ganância' e 'ignorância', porque é exatamente tudo o que a senhora mais apresenta, isso, sim, é feio, muito feio", retruquei, pagando ainda assim o livro da loja dela que tinha na mão, que estava lendo por cima antes da menina chegar e que sabia que não encontraria em outro lugar porque era bem antigo, e, infelizmente, ela tinha o domínio dos sebos da cidade, como sabia, o que era, a propósito, uma vergonha, visto que quem trabalha com livros deveria ser proibido de ser tão ignorante.
- "Ora, eu ainda sou legal de comprar este livro mesmo com todo o desrespeito que a senhora me proporcionou hoje aqui", - acrescentei.
- "Você é gaúcho, você só pode ser gaúcho!", disse ela, sem argumentos, trazendo algo nada a ver com a situação, dando-me o troco do dinheiro do livro, apenas munida de seu preconceito burro, obsceno, gritante, que me fez imediatamente chegar a conclusão sobre uma frase que tinha até lido num livro velho, por sinal: "Não vale à pena discutir com idiotas!"
Lembrei desta frase e resolvi sair do tal lugar, sem mais responder-lhe, sem olhar para trás, apenas atravessando a rua com a garota-vendedora - uma estudante do cursinho do prédio da frente - para comprar (a um preço justo, agora, sim) o livro de sabedoria que a menina, tão doce menina, iria vender para a mercenária mal-caráter, que queria tanto falar de ética mas era mestre ou doutora de fato unicamente em tolice, usura, azedume e infâmia.
Fico chateado com tudo isso não porque nunca mais pisarei lá, pois posso retirar livros nas bibliotecas ou comprá-los em outros sebos - mesmo que não sejam tão grandes quanto aos dela, ou mesmo em livrarias maiores e mais caras (mas com bom atendimento) - mas sim porque é muito triste ver que uma pessoa trabalha há tantos anos com livros, têm tantas lojas, tantos livros ao seu redor e nunca aprendeu nadinha com eles. A pergunta que fica é: "Se nem as pessoas que vivem de livros lêem, o que pensar do resto da população?"
Pobre país onde até comerciantes de livros são ignorantes...
*Leandro Rodrigues (leandro@escritoresdosul.com.br ) é um editor de revista e um estudante de filosofia meio louco, rebelde, metido a escritor. É um cara feliz e amoroso (na maior parte do tempo), que ama os animais e gosta das pessoas em geral, mas quase sempre tem vontade arrebentar a pau quem lhe critica injustamente. Julga-se sincero.
*********