Quem somos? Difícil questão. Pergunto-me isso desde pequeno, desde que descobri que a morte segue a vida, ou a vida segue a morte, ou ambas são independentes e nada segue nada, sei lá, e somos todos passageiros por esta Terra sem a menor idéia de quando a viagem termina.
Não sei quem somos. Sei quem procuramos ser. Procuramos ser pessoas boas. Procuramos ser pessoas felizes. Procuramos ser humanos alegres, divertidos, queridos. Procuramos gostar de nós mesmos para tornar mais fácil a convivência diária com o nosso próprio ser. Procuramos agradar a maioria das pessoas também. Procuramos ser diferentes dos outros para não sermos considerados medíocres. Procuramos amar e ser amados. Procuramos conhecimento. Procuramos dinheiro e prosperidade. Procuramos saúde. Procuramos sexo, comida, bebida, música, arte, lazer, coisas boas para a mente, para o coração e para a alma – para aqueles que acreditam em alma. Procuramos trabalho para não nos sentirmos inúteis. Procuramos leitura afim de adquirirmos mais conhecimento ou simplesmente para o tempo passar mais rápido. Procuramos escrita para extravasar conhecimentos obtidos, experiências adquiridas, sentimentos acumulados, raciocínios construídos ou puras bobagens por não termos realmente o que fazer. Procuramos sucesso. Procuramos sossego. Procuramos viver plenamente cada instante ou apenas fugir completamente de inúmeros momentos. Somos, talvez, nada mais que uma eterna procura.
No caso da revista Escritores do Sul, uma procura literária-filosófica. Uma procura de escritores, de cabeças supostamente pensantes, de seres humanos, quem sabe, interessantes a se conhecer por estes 3 estados que denominam “Região Sul do Brasil”: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Por que o sul, afinal? Por que a divisão geográfica num mundo cada vez mais globalizado? Por que não uma revista de literatura geral simplesmente?
Porque acredito em algo chamado FOCO. Quando não temos foco, tudo vale, e quando tudo vale, os melhores resultados nunca são alcançados. Até mesmo num ringue de “vale tudo”, cada lutador foca-se e/ou origina-se de um tipo de luta. Isto é, ao mirarmos uma coisa especificamente, ela torna-se muito mais forte (e não é necessário ler “O Segredo” para se saber disso. A dedicação faz uma grande diferença).
Assim, ao definir a “literatura feita no sul” como alvo principal deixando "mais ou menos de lado" o resto da literatura feita no país e no mundo, entendi que podia voltar-me com muito mais profundidade para os escritores nascidos aqui. Não é "separatismo" ou apologia ao mesmo. Ao fazer um “recorte” por região, além de abrir espaço para muito mais escritores (muitos desconhecidos do público justamente porque os meios de comunicação privilegiam, na grande maioria das vezes, somente alguns poucos - e em geral já conhecidos nacionalmente ou internacionalmente), a revista possibilita assim uma abordagem mais ampla dos assuntos e entrevistados, levando conhecimento mais específico e direto ao público que gosta ou admira tais obras, autores e pessoas.
Assim como os biólogos dividem e nomeiam as espécies, assim como os críticos musicais dividem os estilos, assim como os próprios escritores têm suas obras divididas dentro de uma livraria com o intuito de serem mais facilmente encontrados pelos vendedores e leitores, é demasiado válido e imprescindível este ponto de convergência para que a revista Escritores do Sul funcione e desempenhe o papel que deseja desempenhar. Qual é este papel? Ajudar e divulgar as obras e os escritores do sul do Brasil para que tenham merecido espaço país e mundo afora.
A pergunta que surge imediatamente é: Tudo bem, mas, o que é um escritor afinal? Como alguns leitores da revista já me questionaram.
É outra questão difícil de responder. Perguntamo-nos: Escritores são somente aqueles que escrevem bons livros? Escritores são somente os que conseguem viver da venda de seus livros? Escritores são somente aqueles que são reconhecidos pela mídia? Escritores são somente aqueles que fizeram (ou não) sucesso em suas épocas e passaram a ser imortalizados mais adiante? Enfim, o que é um escritor? Pessoas que escrevem literatura e têm 8, 9, 10 livros lançados (e nenhum de sucesso) não podem ser consideradas escritoras e devem ser tidas como "medíocres" só porque nunca foram reconhecidas? Temos que qualificá-las como “medíocres” porque não escreveram grandes clássicos nem tornaram-se fundamentais à literatura ao longo do tempo? Um médico não pode ser considerado um médico simplesmente porque não é um Dráuzio Varela? Um arquiteto não pode ser considerado um arquiteto porque não é um Oscar Niemeyer? Um ator não pode ser considerado um ator porque não é um Paulo Autran? Um músico não pode ser considerado um músico porque não é um Tom Jobim? Uma modelo não pode ser considerada uma modelo porque não é uma Gisele Bundchen? Seriam todos esses médicos, arquitetos, atores, modelos, enfim profissionais destas outras profissões “moedeiros falsos” por não terem produzido nada de tanto valor assim em suas carreiras? Enfim, um escritor não deve ser considerado um escritor porque é “medíocre” diante de tantos grandes nomes?
Tal questão nos suscita igualmente uma nova questão, que seria o oposto (e o complemento) desta simultaneamente:
“O que não é ser um escritor?”
Um não-escritor é quem tem uma outra profissão e escreve um livro por hobby? Um não escritor é quem escreve por mera brincadeira, como um empresário que joga futebol nos fins de semana, por exemplo, unicamente para se divertir sem nunca ter desejado tornar-se jogador realmente? Um não escritor pode, afinal, “divertir-se” muitos fins de semana e escrever – apesar de tudo - muito bem vários livros (não apenas um) e não ser um escritor por quais razões? Por que não publica? Por que não escreve literatura? Por que é medíocre? Por que não vive disso? (Não esqueçamos, no entanto, meus amigos, que tanto o fator “brincadeira” como “mediocridade” jamais foram determinantes para que uma pessoa não fosse considerada profissional de alguma área, senão não teríamos tantos engenheiros, advogados, administradores, psicólogos, jornalistas, professores medíocres ou simplesmente "brincando" de serem profissionais por aí com suas devidas carteiras e títulos, não é mesmo? Aliás, com atividades muito mais sérias - ou melhor dizendo, perigosas - que a da escrita. Ou seja, mesmo "medíocre" ou "brincando" (ou ambos), alguém, ainda assim, pode ser um escritor, eu penso).
Desta forma, a revista Escritores do Sul tenta procurar e destacar os “escritores de verdade”, focalizar a boa escrita, as boas obras, os bons textos, os bons colunistas e nomes que por aqui surgem. E ainda que, no fim das contas, não importe onde fulano ou beltrano nasceram e sim o que escreveram, que o que de fato vale é ser um “cidadão do mundo”, a revista desempenha um papel essencial e único até mesmo quando nos referimos ao Brasil inteiro, visto o fato de tratar, estudar, pesquisar e reportar tantos autores da região sul em todos os tempos como podemos ver nas matéria e biografias aqui exibidas terem se tornado tão relevantes, marcantes e fundamentais na história do país, tais como Érico Veríssimo, Mário Quintana, Cruz e Sousa, Cristovão Tezza, Paulo Leminski, Fernando Amaro para citar somente alguns entre inúmeros outros que elevaram a literatura sulista ao mais alto nível literário nacional/mundial.
Do mesmo modo, a revista procura revelar novos talentos, dar dicas sobre fatos, eventos e obras atuais interessantes, proporcionar um contato mais sincero, profundo e intenso de cada entrevistado com seu público leitor, enfim, divulgar o que há e o que já houve de melhor pela região desde o começo.
O editor que vos escreve, no entanto, tem a consciência, que não é possível agradar a todos, e nem deseja isso realmente. Apenas sabe que edita tal periódico com todo o amor do mundo, buscando oferecer a seus leitores ou simplesmente visitantes o melhor que pode.
E isso - como tudo o que se faz com amor na vida - já é mais que suficiente pra ele, independente que falem bem ou mal...
Muito obrigado e boa leitura!
Leandro Rodrigues