TÂNIA RAMOS - Onde estão as agendas de meninas?

Onde estão as agendas de meninas?
por Tânia Ramos

O rótulo mais difundido acerca da literatura de autoria feminina – pela historiografia literária tradicional – é aquele que a enquadrou como uma literatura menor, sem valor, sem qualidades geralmente atribuídas à escrita masculina – como se tivéssemos feito durante muito tempo uma ficção doméstica. Uma boa nomenclatura. A ficção doméstica registrava os afazeres corriqueiros do cotidiano, culturalmente atribuídas ao universo feminino: cuidados da casa, preparo dos alimentos, as ordens dadas aos empregados domésticos (predominantemente, mulheres), organização da cozinha, a. limpeza, em geral, armários, roupas de cama, jardinagem, enfim, tudo, ou quase tudo que fosse específico, que estivesse sob o domínio da mulher. Não esqueçamos que a palavra domínio, vem de domus, senhor. Clarice Lispector, Nelida Pinon, Ligia Fagundes Teles e tantas outras escritoras brasileiras do século XX, descreveram isto muito bem. O importante, nessa leitura, é percebermos que as mulheres, ao contrário do que se pensou durante anos, pegaram da pena e fizeram literatura, assumindo o papel a que se propuseram. Assim elas comprovaram e testemunharam um momento importante da história cultural; embora para a historiografia fossem consideradas sombras, destinadas ao silêncio, à submissão.

Hoje alio o meu olhar crítico sobre esta escrita mais canônica, mais editorial, com as escritas de si de pessoas comuns. Ou melhor: as escritas de si e o lugar das memórias de mulheres que escrevem em outros espaços. Quando, para minha tese de doutorado, pesquisei textos memorialísticos na história da cultura brasileira contemporânea, escrevi um ensaio que foi ponto de partida para outras inquietações. O texto se chamava «Meninas atrevidas, o que é que não vão dizer?» . Nele eu fazia a primeira reflexão sobre diários de meninas. Eu me perguntava, já ali, porque continuávamos dando às adolescentes diários com chave? E qual estava sendo a reação das adolescentes no início dos anos 90 sobre esta prática da escrita de diários? Chamava-me atenção uma resistência para este texto silenciado e silencioso e exemplificava com minha sobrinha Fernanda. Aos 12 anos ela me deu um diário seu, para fazer rascunho, acompanhado do comentário: Fica com ele, tia. Odeio ganhar diário. Nem sei onde estão os outros. Perguntei se não se importaria se eu lesse o que nele estava escrito. Ela me respondeu: “Pode ler, se quiser”. Surpreendentemente noto que Fernanda havia me dado um diário vazio até eu encontrar, quase no fim, uma página escrita por ela. Um texto a lápis, o único de seu diário, a letra firme: Querido Diário. Aqui termina meu ANTIGO TESTAMENTO e começa meu NOVO TESTAMENTO. Fernanda.

Fernanda, influenciada pelo seu novo colégio religioso, escreveu uma bíblia sem palavras. A lápis. Não quis ser sujeito. O texto foi o sujeito: o meu Novo Testamento começa.... Todo o resto, silêncio. Um ato político de não querer mais escrever um livro de leitura proibida. Foi a sua geração nos anos 80 que começou a escrever lembretes, citações, poemas, fazer colagens, espécies de videoclips, nas agendas anuais. Quando acabei de pesquisar as agendas de adolescentes constatei a possibilidade de ouvir uma fala fragmentada que saía desse lugar tenso da contemporaneidade: uma nova versão dos diários ou cader­nos, que em tempos passados abrigavam a intimidade inenarrável de jovens a ponto de procurar registrar a descoberta dos primeiros amores ou a angústia da soli­dão. Nas agendas modernas nos anos 90 estão as excentricidades nem sempre reproduzíveis nas (im)possíveis memórias registradas nos diários, gê­nero freqüente na tradição histórico-literária.

O que eram (e ainda são estas agendas)? Um peculiar espaço textual, um objeto do desejo, o mesmo desejo que fazia as garotas consumirem jeans, camisetas, tênis e mochilas, que explicitava o status, perante o grupo social, no uso de certas grifes da moda. Colorida, capa plastificada, emborrachada, de couro, da tribo, ao mes­mo tempo em que assumia uma função social e econômica, esse nem tão obscuro objeto passava a ser extensão do corpo num ir e vir diário, em espaços públicos e privados, transformando-se num depósito de recados, adesivos, recortes, clips coloridos, papéis de bala, ingressos para shows, desenhos cuidadosamente elaborados, palavras e frases multicores numa exposição de criatividade em torno de nomes e especificações aparentemente inúteis. Na ocasião eu afirmava: finalmente a mulher encontra a possibilidade de escrever sua vida em um livro aberto e não mais teria que procurar abrigo para a sua escrita na solidão do quarto.

A leitura das agendas, feitas por mim, foram todas autorizadas pelas autoras. Isso equivale a dizer que, ao me transformar em leitora destes textos da intimidade, ocu­pei um lugar que parecia já estar previsto, porque as agendas não contêm, como os diários, um texto pessoal, íntimo e indevassável. Em outras palavras quero dizer que ao transgredir através da leitura destas intimidades, oferecidas para a minha pesquisa com muita tranqüilidade pelas jovens adolescentes, através da interrupção do silêncio a que esses textos eram submetidos ao término de cada ano, descobri um viés bastante fecundo para compreender uma escrita que se faz à parte da instituição literária e que se quer à margem da instituição familiar. A obrigatoriedade da escrita da agenda não vem nem da família nem da escola.

As agendas selecionadas na pesquisa foram escritas por garotas na faixa dos 13 aos 17 anos, de diferentes contextos econômicos. Mais do que descobrir seus mecanismos de produção, - o que seria a leitura ideal, procurei sistematizar algumas idéias que reforçassem a seguinte hipótese: as agendas fornecem um importante material para o conhecimento de fragmentos de uma história de formação da nova mulher, até porque os limites desse gênero são tão flui­dos quanto necessários para incluir textos como essas anotações de meninas, produzidas em diferentes circunstâncias históricas e sociais: «Diário é coisa muito chata. Tem que colocar tudo o que aconteceu e nem dá para colar nada. Agenda é mais moderno», escreve uma das autoras.

Outro aspecto constatado é que as agendas reve­lavam uma necessidade de se pensar a vida não na forma de um contínuo cronológico e progressivo como os diários, mas de modo fragmentário e disperso. Parece que tudo se torna puro registro, e como uma gaveta desarrumada, repleta de recordações e fragmen­tos, a história de vida fica ali para que um dia alguém jogue fora. Não mais o texto estruturado enquanto narrativa, mas muito papel de bala, de chiclete, muita entrada de show, de cinema, papel de chocolate, muita comida, muita dieta: «comi lazanha, almoçamos na tia Li», «almoço no Diego e eu não vou!!!», «49 kg. Estou me sentindo uma baleia», «Comi cinco Sonhos de Valsa. Vou colar aqui todos os papéis para sentir remorso!!!» (...e coloca as cinco embalagens dos Sonhos de valsa).

No cam­po do literário uma obra pode ser considerada romântica quando valo­riza a subjetividade e a imaginação nos modos de expressão. Mas vai além: um modo de ser romântico está muito mais relacionado à frag­mentação do indivíduo e às formas de expressão. As agendas são feitas desses textos, mas mais do que isso elas parecem querer revelar a impo­tência das palavras. Daí o jogo quase infantil de formas e cores para preencher vazios.

Na ludicidade, no prazer de pintar, recortar, colar e desenhar e na conquista de uma forma de expres­são sobre a qual só a escrita feminina tem controle, as agendas legiti­maram-se como o texto da diferença: «Agenda de garota é a coisa mais inútil que existe. Elas colocam papel de chocolate, de bala, contam todos os detalhes da vida amorosa. Ridículo!». Nessa fala autoritária de um garoto de 15 anos aparece a rediscussão das relações entre o masculino e o feminino, vistos como lugares textuais tensos, e a im­possibilidade da leitura e da interpretação de certos códigos, que deliberadamente marcam a diferença. Uma diferença, aliás, que não é apenas sexual e que não se dá de maneira assimétrica ou contrastante, mas que se processa por um tom, uma cor, uma dicção e um ritmo próprios. Sei que estou caindo na armadilha da oposição binária, homem e mulher, mas não há como não ler aí um sujeito que cria a si mesmo enquanto fala, enquanto texto, à procura de uma linguagem peculiar que marque seu lugar no mundo. 

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC“

_______________________________________________________________________________________

“Aos preconceitos do tempo, pouco afeitas”
por Tânia Ramos


Estamos nos instrumentalizando para reinventar as escritoras brasileiras do século XIX , reunidas por uma equipe de pesquisadoras no final do século XX, sob a coordenação da professora Zahidé Lupinacci Muzart e da Editora Mulheres, de Florianópolis; e para sermos mais contemporâneas, sentimo-nos motivadas e receptivas diante das 55 mulheres elencadas pelas duas antologias organizadas, pelo escritor Luiz Rufatto: 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira e +30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira . Dar visibilidade a elas é evitar que um número significativo de escritoras, na era da massificação, sofra, como suas predecessoras do século XIX, um processo de hibernação. É importante que se procure conhecer escritoras como Luci Collin, Daniela Bersiani, Rosa Amanda Strausz, Ângela Dutra Menezes, Maria José Silveira, Carmen Moreno, Maria Esther Maciel, entre tantas outras boas escritoras. Ao me confrontar, desde 2004, com os 55 nomes reunidos pela Editora Record, em mais uma estratégia mercadológica, sob o crivo de um escritor, masculino, singular, Luiz Rufatto, a primeira idéia que tive foi que estas duas publicações poderiam não ser um tributo às mulheres escritoras do século XIX e à própria pesquisa coordenada por Zahidé Muzart, mas respostas editorais à Geração 90: Manuscritos do Computador e Geração 90: Os Transgressores, antologias, predominantemente masculinas, organizadas, por Nelson de Oliveira , nos anos de 2001 e 2003. Seja o que for, não posso deixar de reconhecer a qualidade dos contos selecionados, pequena amostragem do que tem sido produzido por mulheres no Brasil contemporâneo ou sob o signo de uma autoria feminina. Impossível ficar indiferente diante de contos como “Mãe, o cacete”, de Ivana Arruda Leite, “Gertrudes e seu homem”, de Augusta Faro, “Por acaso”, de Nilza Rezende, “A mulher sem identidade”, de Cynthia Dorneles, “Dos Amores fingidos”, de Maria Esther Maciel e “Xadrez”, de Paula Taitelbaum, entre tantas outras instigantes narrativas.

Por que há uma espécie de orfandade quando lemos estas narrativas? Concordamos com a idéia de Roland Barthes de que a obra é um fragmento de matéria e que ela existe apenas para ocupar alguma porção no espaço reservado aos livros (por exemplo, numa biblioteca) . Vejamos: 25 + 30 escritoras foram elencadas. Há da parte do organizador uma explicação sobre o processo de seleção: ele escolheu aquelas autoras, que começaram a publicar prosa de ficção a partir de 1990, sem limite de idade, tema, ideologia, estilo ou extensão do trabalho. Segundo ele, exigiu-se igualmente ineditismo dos textos . Houve também a preocupação por parte da Editora Record e do organizador de registrar a geografia que percorre seus dois volumes. Fiz o exercício de contabilizar: vinte e uma nasceram no Rio de Janeiro, onze em São Paulo, seis no Rio Grande do Sul, cinco em Minas Gerais, duas na Bahia, duas em Goiás, duas no Paraná, uma em Santa Catarina, uma na Paraíba, uma no Espírito Santo, uma no Ceará, e, paradoxalmente, uma em Portugal e uma na Argentina. Nesta matemática, somando-se estes fragmentos, estes mini-currículos, estas mini-biografias, construímos um painel significante para a história contemporânea da literatura brasileira.

Na economia biográfica nos são informadas as profissões das cinqüenta e cinco mulheres. Elas fazem parte de um universo humanístico voltado para a linguagem, para a palavra e para a expressão artística : 10 jornalistas, 3 funcionárias públicas, 10 formadas em Letras, 2 em Música, 4 publicitárias, 1 pedagoga, 1 psicanalista, 8 professoras, 1 socióloga, 1 roteirista, 3 tradutoras, 1 shiatsuterapeuta, 1 arquiteta, duas editoras, 1 crítica de arte, 1 religiosa .... Dez se assumem escritoras e uma delas é declarada “escritora profissional” . Tão importante quanto este lugar de onde falam ou asseguram a sua sobrevivência é a constatação da produtividade literária destas mulheres (apenas duas ainda são inéditas). Elas escreveram na última década: 7 novelas, 55 livros de contos, 22 livros de poesia, 2 biografias, 53 romances, 23 livros de ensaios, 1 livro-reportagem, 1 livro de auto-ajuda, 1 peça de teatro... São 165 livros. Quem os leu? Onde estão? Quem os publicou? Quando daremos visibilidade a esta produção? Por onde elas transitam? Onde elas estão inscrevendo suas histórias de vida? Que corpo feminino é este? Que visibilidade física tem estas mulheres? Como são seus rostos? Quando faremos a arqueologia destes textos?

Cheguei a algumas constatações. Uma delas é a cartografia que repete a idéia de que a referência à figura da autora pode ser ainda reconhecida por silêncios e interrupções. Para se chegar a ela é preciso ler através das ocultações que evidenciam conflitos sincrônicos entre as representações da mulher e a afirmação pela escrita. Uma outra constatação é que o instrumento de atualização das instâncias de divulgação da literatura, é de certa forma a reprodução da vida social literária, ainda calcada em algumas imagens predominantemente canônicas e excludentes. É só observar que, de certo modo, em relação às textualidades contemporâneas, estamos sempre subordinados à mídia; e ela comanda algumas deliberações. Assim, basta que um jornal ou uma revista de grande circulação insista em certos autores, em certos nomes, em certos títulos, que chegam às livrarias, precedidos de recomendação, para que, muitas vezes de forma acrítica, tornemos obrigatória a leitura dos beneficiados pela publicidade. Nisso reside a dificuldade de se formar um cânone literário outro, derivado de um processo mais espontâneo, mais feminino, conseqüência de leituras dos textos poéticos e ficcionais e de um debate crítico mais sólido. Que caminhos poderemos percorrer para conhecer a vida e a obra destas 55 mulheres, jovens escritoras, profissionais da palavra, que falam literariamente de um presente e de um futuro em Glória, Armadilha; Caligrafias; Teoria freudiana do medo; O Círculo de quatro pontas?

Fiz esta resenha como um exercício de leitura, pela síntese, ora usando a primeira pessoa do singular, ora a do plural. Compartilho a minha vida acadêmica com um grupo que lançou o olhar para escritoras brasileiras do século XIX, que ainda não se debruçou como deveria sobre as mulheres do século XX, que está prematuramente procurando compreender as escritoras para o século XXI. Não se pode prescindir do conhecimento do passado literário, pois é na tradição que um texto se cristaliza; e nem prescindir do intercâmbio cultural com informações mais recentes sobre mulheres escritoras, de tal modo que as contribuições externas da vida literária seja enriquecimento e não submissão, um exercício de despojamento da consciência forjada por um cânone masculino e previamente determinado. Deve-se deslumbrar sim com a presença de parcas biografias e bibliografias destas mulheres escritoras, a ponto de poder vislumbrar qualidade na quantidade, naquilo que nas antologias se apresenta como a diferença, como o novo ou como um outro mesmo.

Por que procurá-las, como fizemos, livro por livro, nome por nome, nas possibilidades da Internet? Porque não é difícil encontrá-las em comunidades virtuais, fotologs, fotoblogs, revistas, currículo Lattes, fotosites, imagens como presentação, apresentação e representação, suporte apto e suficiente a um intercâmbio de informações, que possibilita uma outra construção biográfica destas mulheres..Ao ir além, nesta procura de um plus biográfico, encontro, por exemplo, umas das 55 escritoras se dando a ler autobiograficamente através do pseudônimo: Índigo em sua página na Internet :

“Falo pouco. Sou virginiana. Especialidade: literatura infanto-juvenil. Estilo agridoce com humor levemente doentio. Livros: Saga Animal, pela Editora Hedra; Caixinha de madeira, pela Editora Altana e Festa da mexerica, pela Editora Hedra. Jornalista de formação, vivo de publicidade, comercializo meu trabalho literário; nasci em Campinas, moro em São Paulo e meu e-mail é índigo@uol.com.br

Assim a minha pesquisa: “Ficções Contemporâneas: Verdades no plural”, que objetiva uma saudável procura de novas vozes narrativas, convive ainda com um certo silêncio das escritoras brasileiras, mas quando as páginas virtuais se abrem, se encontram estrelas e notícias do “show business” da literatura. As escritoras brasileiras estão ainda sendo formalmente apresentadas por fragmentos, por excertos em antologias, por linhas biográficas agrupadas como ilhas de edição. Mas é inegável que muito mais do que 165 livros, multiplicados pelas suas edições, se tornaram fragmentos de matéria em algumas estantes, prateleiras, vitrines e cabeceiras, e o nome na capa, a assinatura, deve potencializar a busca das mulheres escritoras que, “aos preconceitos do tempo, pouco afeitas”, buscam o diálogo e desejam, como a poetisa Izabel Gondin, em 1863, mostrar seus talentos e, por que não? - , suas formosuras.


* Tânia Regina Oliveira Ramos é professora de Literatura Brasileira na UFSC.

 

 

 LEIA ABAIXO OUTROS TEXTOS DA AUTORA:


* Aquela que fica, aquela que sai
* Fazendo Gênero 9
* Encontros, lembranças, leituras: As memórias de Salim Miguel
* Para 2010: O que é ser professor de literatura?
* Dois livros saídos
* Dedicatórias
* Uma casa sem cor
* Por um portal Catarina
* Alguns dedos de prosa
* SimplesMENTE Cascaes

 

 

 

 

 





AQUELA QUE FICA, AQUELA QUE SAI:
DELMINDA DA SILVEIRA E MAURA DE SENNA PEREIRA
por Júlia Telésforo Osório

 (Pela originalidade da aproximação de duas importantes escritoras catarinenses, abro este espaço mais uma vez para o PROJETO CNPq FAPESC UFSC, sobre o qual aqui escrevi em agosto de 2009: o Portal Catarina.
Júlia Telésforo Osório, a autora do texto, aluna do Curso Letras Português, da UFSC, e o apresentou na sessão destinada a alunos de graduação no Seminário Internacional Fazendo Gênero 9, realizado na UFSC entre os dias 22 e 26 de agosto de 2010.) 


Os núcleos de pesquisa nuLIME (núcleo Literatura e Memória) e NUPILL (Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística), vinculados ao Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC, através do PRONEX, Programa Núcleos de Excelência, FAPESC e CNPq, desenvolvem, desde 2008, um projeto que objetiva disponibilizar, em rede, Acervos Digitais de Escritores Catarinenses, um Portal Catarina. O trabalho com os acervos dos escritores catarinenses Ernâni Rosas, Delminda da Silveira e Cruz e Souza já foram concluídos e, atualmente, o acervo de Maura de Senna Pereira está sendo restaurado, catalogado e digitalizado.


A leitura dos manuscritos, dos éditos e inéditos de Delminda da Silveira (1854- 1932) e Maura de Senna Pereira (1904-1991), duas mulheres escritoras em uma história literária predominantemente masculina, remete ao conceito diaspórico, descrito por Stuart Hall em Da Diáspora, como forma de entendimento dessas produções da última década do século XIX e primeiras décadas do século XX: a poética daquela que sai, Maura de Sena Pereira, e daquela que fica, Delminda Silveira.

Essencialmente, presume-se que a identidade cultural seja fixada no nascimento, seja parte da natureza, impressa através do parentesco e da linhagem dos genes, seja constitutiva de nosso eu mais interior. É impermeável a algo tão “mundano”, secular e superficial quanto uma mudança temporária de nosso local de residência. A pobreza, o subdesenvolvimento, a falta de oportunidades – os legados do Império em toda parte – podem forçar as pessoas a migrar, o que causa o espalhamento – a dispersão. Mas cada disseminação carrega consigo a promessa do retorno redentor. (HALL, 2006p. 28)

Florianópolis não singulariza, apenas, como dado biográfico. A ilha de Santa Catarina, além de origem, aparece como uma constante temática em suas escrituras. Se a identidade cultural de um sujeito é, supostamente, fixada pelo local de origem, como pensar possíveis convergências nas poéticas dessas autoras?

Maura de Senna Pereira foi a primeira intelectual, no sentido proposto por Roland Barthes, a pertencer a uma Academia de Letras no país. Com uma intensa mobilidade geográfica, saiu de Florianópolis ainda jovem e morou em Porto Alegre e Rio de Janeiro, cidade escolhida como um exílio em idílio na maior parte de sua vida. Fora da ilha, construiu uma poética comprometida com a militância política, jornalística e literária, comprovada em seu extenso acervo: recortes, fotos, artigos, livros, correspondências. É, pois, no uso da liberdade poética, caracterizada por diversas imagens eróticas em seus versos, que se manifesta o feminino libertador de sua escritura, como no poema Ilha e mulher:

Abraçada ao Universo
tenho as raízes em ti

Quando me deito nos teus canteiros mornos,
Jurerê-mirim, Isla de los Patos, Santa Catarina,
não me basta a alegria telúrica
de ter nascido em ti
nem o pensamento quase bíblico
de que sou feita do teu barro.

Meu corpo é o teu imenso corpo de ilha
e minha alma invade as tuas entranhas
participando da tua febre criadora.
Meu sangue é o rasgão líquido dos teus rios
a linfa nervosa das tuas cachoeiras
a água matuta das tuas lagoas.

Plantas rebentam de tuas carnes, de meus chãos,
(em mim agora nascem grumixamas,
cachos de uva, brincos de princesa)
e sinto-me carregada da tua seiva e do teu pólen,
da glória dos rebentos
e do teu halo de conchas.

Quando me levanto
a sacudir a tua poeira morena
e ungida com o perfume de vinte lírios novos
e mulher e terra deixam de ser uma unidade pagã,
ainda sinto me prender e me abraçar
e envolver, implacável, a tua existência cósmica
e abraço varonil do mar.
(PEREIRA, 2004, p. 88)
.
Para a poetisa e jornalista exilada, porque lá se permitiu o exercício profissional da escritura, o espaço não é relatado, mas transfigurado. Stuart Hall pontua como uma das conseqüências do ato de migrar o espalhamento e a dispersão, que, no caso poético, potencializam e extrapolam a noção significativa do que caracteriza um espaço geográfico denominado “Florianópolis”.

A poética de Delminda Silveira, que residiu na capital catarinense durante toda a sua vida, aborda aspectos do cotidiano em uma ótica subjetiva. Diferente daquela que saiu em um outro tempo, a poetisa que ficou construiu ― em seus manuscritos, nos cadernos guardados e encadernados, na letra redonda quase desenho ― uma história como mulher, professora, poetisa e intelectual de seu tempo uma identidade feminina que se afirmou no convívio diário do eu com o seu local de origem e seus espaços mínimos. A viagem e o deslocamento vão se dar pelos recursos figurativos e metafóricos presentes em muitas de suas narrativas e poesias, Lizes e martírios e Instantes. Interessa-nos mostrar no acervo deixado por Delminda Silveira, em breve disponibilizado na rede, que se uma viagem física não acontece, se um deslocamento geográfico não se efetiva, o exílio se dá pela consciência lírica de sonhos não realizados - que esperanças, meu Deus! E que esplendores – e pelo registro poético de impasses como mulher do século XIX, voltada à solidão, ao lar e à família.

O meu lar

Rico de afetos, cheio de doçura,
foste, ó meu lar — jardim de meigas flores;
minha mãe era o anjo dos amores,
e minha irmã a flor mais bela e pura.

Tanta paz, tanto amor, tanta ternura
os meus dias tornavam sedutores;
e que esperanças, meu Deus! e que esplendores
no meu porvir mostrava-me a ventura!...

Mas, foi tudo ilusão! tudo deixou-me!
e todos que amei despareceram,
só a lembrança vívida ficou-me !...

E eu, entre as saudades que nasceram,
choro na solidão que atroz restou-me,
O meu lar — os meus sonhos que morreram!...
(SILVEIRA, 1908)

A poética dos manuscritos encadernados de Delminda é tão diaspórica quanto às publicações esparsas e diversificadas de Maura, pois é perceptível na materialidade dos dois acervos ― cadernos com capas duras ou caixas repletas de recortes textuais dispersos e variados ― uma potencialização que recriou e extrapolou as concretudes significativas da mulher escritora em um determinado espaço e tempo: Florianópolis, como origem e como lugar, lida por aquela que sai e por aquela que fica, é o espaço simbólico e erótico de fechamento e de abertura seja como desterro, seja como alegria telúrica.

 

 

Bibliografia

BARTHES, Roland. “Escritores, intelectuais e professores”. In: O rumor da língua. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.
BORDINI, Maria da Glória. Manual de organização do Acervo de Érico Veríssimo. In: Cadernos do centro de pesquisas literárias da PUCRS. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
PEREIRA, Maura de Senna. Poesia reunida e outros textos. Florianópolis: Academia Catarinense de Letras, 2004.
RAMOS, Tânia Regina Oliveira. Encaixotados para (o) presente: Este Portal Catarina. Anais do II Simpósio Mundial de Língua Portuguesa, Universidade de Évora Portugal.06 a 11 de outubro de 2009 http://www.simelp2009.uevora.pt Acesso em 30 de julho de 2010.
RICHARD, Nelly. A Escrita tem Sexo?. In: Intervenções críticas. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2002.
SILVEIRA, Delminda. Lizes e martírios. Florianópolis: 1908. Disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/arquivos/texto/0006-03114.html. Acesso em 17 ago 2010.

 

Fazendo Gênero 9:
UFSC, em 23, 24, 25 e 26 de agosto de 2010.
Um espaço para tod@s
por Tânia Ramos*


Joan Scott, em seu ensaio intitulado “Experiência”, depois de historicizar o conceito experiência e de mostrar como ele é centrado na capacidade que temos de em nome dela – da experiência - reproduzir e transmitir já que ela faz parte da linguagem cotidiana, esta tão imbricada nas nossas narrativas, que seria em vão querer eliminá-la. Experiência, diz ela, “é, ao mesmo tempo, já uma interpretação e algo que precisa de interpretação. O que conta como experiência não é nem auto-evidente, nem definido; é sempre contestável, portanto, sempre político”.

Assim sendo, eu me sinto à vontade de escrever em nome da experiência. Ou da experiência vivenciada no projeto Fazendo Gênero que reúne na Universidade Federal de Santa Catarina, situada em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, a cada dois anos, pesquisadoras e pesquisadores do Brasil e de universidades estrangeiras na América Latina, Estados Unidos e Europa com pesquisas e publicações no campo dos estudos de gênero e dos estudos feministas.

A tradição da UFSC na área dos estudos de gênero e feminista é bastante longa. Em 1984 foi criado, na UFSC, o Núcleo de Estudos da Mulher, que, a partir de 1989, com o I Encontro de Estudos sobre a Mulher, reestruturou-se como Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero, reunindo pesquisadoras de diversas áreas acadêmicas, como Literatura, Antropologia, Psicologia, Sociologia, História, Enfermagem e Nutrição, entre outras. Também em 1989 foi realizado na UFSC o 3º Encontro Nacional de Mulher e Literatura, que marcou o nosso salto qualitativo na consolidação dos estudos de gênero e feministas na universidade brasileira. Nos últimos vinte anos, esse campo cresceu significativamente na UFSC, com a abertura de disciplinas específicas em cursos de graduação e de pós-graduação, a criação de linhas de pesquisa em mestrados e doutorados, e uma vasta produção acadêmica que inclui dissertações, teses, artigos, livros monográficos e coletâneas publicadas pelas pesquisadoras da área. Atualmente, com um espaço físico garantido no Centro de Filosofia e Ciências Humanas consolidou-se institucionalmente o IEG-Instituto de Estudos de Gênero.

Com este breve histórico quero reforçar a comprovação de que com uma produção acadêmica de vigor teórico, amplitude temática e diálogo transdisciplinar e transnacional – incluindo pesquisas, publicações, formação de pesquisadoras/es e projetos sociais – os estudos de gênero e feministas já estão consolidados no Brasil. Particularmente a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) teve e tem hoje um papel importante na construção e na consolidação desse campo de estudos no país, contando atualmente com mais de trinta professoras doutoras que fazem pesquisa na área, situadas em diferentes programas de pós-graduação e que se dedicam, entre outras atividades, à orientação de dissertações, teses, projetos de iniciação científica e monografias de conclusão de curso. Além disso, desde 1999, um núcleo de professoras tem sido responsável pela edição da Revista Estudos Feministas, considerada a principal publicação com escopo nacional e internacional dessa área, indexada nos principais bancos e fontes de referência científicas internacionais.

Visando consolidar este espaço de debate e troca interdisciplinar mais ampliado, a partir de 1994 começou-se a organizar um evento bienal denominado Fazendo Gênero. Os oito encontros do Projeto Fazendo Gênero, realizados respectivamente em 1994, 1996, 1998, 2000, 2002, 2004, 2006 e 2008 resultaram na publicação de diversas coletâneas, números especiais de revistas acadêmicas com artigos inéditos de autoras nacionais e estrangeiras.

Exatamente, enquanto escrevo este histórico, estamos organizando o Seminário Internacional Fazendo Gênero 10, que acontecerá entre os dias 23 e 26 de agosto de 2010. O evento terá o seu foco em temas que sugerem movimento tanto pela dispersão dos povos e culturas através de espaços geográficos quanto pelo desejo de realocações em espaços imaginados e pelo encontro com identidades plurais. Um evento que sugere assim três dimensões – nos seus três D temáticos: Diásporas, Diversidades, Deslocamentos - para se discutir algumas das mais significativas experiências dos sujeitos contemporâneos, em sua permanente demanda de cruzamento de fronteiras:

Com este panorama quis, acima de tudo, mostrar essa nossa cartografia, que cruza, entrelaça, tece, amarra pessoas e pensamentos em torno da categoria gênero. Os nomes dos livros publicados, que deles resultaram, talvez representem melhor o que aqui temos discutido em uma amplidão de perspectivas e com uma participação que tem chegado a aproximadamente 4000 pesquisadoras e pesquisadores: masculino, feminino, plural; falas de gênero; cultura e poder; genealogias do silêncio; poéticas e políticas feministas; saberes e fazeres locais e globais; preconceitos e gênero em movimento. Mas é do título de nosso último livro - Leituras em rede - que tiro a metáfora-síntese desta trajetória de dezoito anos: a rede remete a cordéis com aberturas regulares e sua estrutura lembra um tecido reticulado, articulado por nós (no amplo sentido) e é diretamente ligada à geografia deste lugar de onde falamos: Florianópolis, uma cidade de tradição açoriana que nas questões de gênero não quer ser apenas a ilha de Santa Catarina, mas também arquipélago.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC


topo

Encontros, lembranças, leituras: “as Memórias de Salim Miguel”
(Fev.2010)
por Tânia Ramos*

Eduardo Portella, professor e crítico literário, em um dos textos pioneiros sobre o assunto, “Problemática do Memorialismo”, define memórias como entidades literárias autônomas, que se situam no meio caminho entre a autobiografia e a história. Teoricamente o lugar parece evidenciar-se realmente no não-lugar. A definição esvazia-se por si só, em todos os sentidos. Não há mais como situar isto e aquilo. Há sim que se considerar a possibilidade de ser isto e aquilo. As memórias articulam duas práticas significantes na revitalização das histórias de vida: as referências concretas e o ato de lembrar, o que implica em marcas autobiográficas. Assim, posso dizer que as memórias não se situam no meio de caminho, mas ocupam um lugar, ainda que problemático para a teoria da literatura. Quem escreve memórias em tempos de crise? A resposta toma como base a reflexão de Machado de Assis sobre o historiador e o contador de histórias e a conseqüente receptividade do documento e do monumento: “Um contador de histórias é justamente o contrário do historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias”. Todo texto memorialístico arrisca-se à condição de documento. Mas a elaboração textual pode subverter este estatuto. Escreve suas memórias aquele que recordando a vida vê na literatura um instrumento objetivo de ação. Quem lê memórias? Os pares daqueles que as escrevem? Os curiosos? Leitores de narrativa de si, de biografias? Não me cabe aqui descrever um possível leitor, mas reconhecer que todo leitor de memórias abriga-se sob a autoridade confortante de uma voz confiável. Toda palavra é memória e toda memória do outro detona no leitor a sua própria memória. É nesse ponto que quero registrar aqui um livro em minhas leituras de férias. O livro de Salim Miguel “minhas Memórias de Escritores” foi uma experiência enriquecedora para mim que sente uma explícita sedução por histórias de vida. Salim abre um espaço em seu universo ficcional para nos falar de suas leituras, de seus encontros e suas amizades literárias. São textos breves que podem ser lidos aleatoriamente como eu o fiz.

Comecei por Marques Rebelo. Reencontrei Pedro Nava, um dos objetos de minha tese, conheci Flávio Costa, revisitei Carpeaux e Drummond, busquei Barão de Itararé, me senti próxima dos catarinenses. Quando vi tinha lido todos os escritores. Melhor: todo o livro, publicado pela Editora da Unisul em 2008, mais um livro deste intelectual que fala e publica sua fala: Salim Miguel. Um homem de letras, um leitor. E a capa revela no “minhas” minúsculo, humilde, o intelectual , contador de histórias. O que importava para ele eram as memórias de escritores. As minhas memórias se tornam as nossas memórias poderia pensar, Salim Miguel, o intelectual que escreve com delicadeza uma significativa fatia da vida literária brasileira.

*Tânia Regina Oliveira Ramos ( taniaramos@floripa.com.br ) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC]

 

topo

___________________________________________________________________________

Para 2010: o que é ser professor de literatura?
(Jan.2010)
por Tânia Ramos*

Mais um semestre letivo acaba. E reservo este espaço do “Escritores do Sul” para mais uma vez, como professora de Literatura Brasileira na UFSC, lançar uma série de perguntas, especialmente aos meus pares: o que significa hoje ser professor de Letras, mais especificamente de Literatura? As incertezas que afligem a universidade são apenas institucionais? Por que nos encontramos envolvidos nessa crise de identidade de nosso objeto.? O que é a literatura? Literatura é mesmo tudo o que se ensina? Podemos também perguntar: serão as expectativas dos alunos ou da opinião pública com relação à atuação da Universidade o ponto ao qual devemos nos render enquanto pesquisadores e docentes universitários? O que ler? Qual a nossa atuação no espaço local, na cultura regional frente às novas tecnologias?

De que lugar posso falar neste exercício quase diário de pesquisa, da atenção aos lançamentos, às entrevistas televisivas, à leitura dos suplementos culturais, das resenhas publicadas em revistas semanais ou especializadas, dos muitos caminhos virtuais, às feiras dos livros como a Feira do Livro de Porto Alegre, que recentemente visitei à convite da FCC, das viagens possíveis pelo caminho da WEB? É este o caminho para identificarmos com crítica e criatividade o eixo de todo um processo ideológico de canonização da produção cultural, dentro do qual estamos condenados a exercer a nossa lucidez? Por outro lado, como levar os alunos, de forma sistemática, a não ignorar hoje o poder dos novos recursos disponibilizados pela mídia? Será que todos nós concordamos que a Internet hoje toma para si funções que já foram da escola, dos professores e da própria universidade, e que ela tem um papel decisivo na formação destas novas gerações com uma linguagem veloz e atraente? É essa cultura que impõe novos condicionamentos e formas de percepção e conhecimento. A questão é saber como nós e eles, os alunos, nos relacionamos com esse novo cenário. Ao pensar sobre o contemporâneo, Boaventura Souza Santos, filósofo português, sintetiza a dimensão de nossa atual responsabilidade: “ é cada vez mais importante fornecer uma formação cultural sólida e ampla, quadros teóricos e analíticos gerais, uma visão global do mundo e suas transformações”.

Usando a primeira pessoa, quero não mais fazer perguntas para me posicionar a partir da experiência de tantos anos: o espaço da literatura é aquele onde o professor mais do que nunca tem que se comportar como leitor, como um desbravador do espaço virtual, como um crítico a superar crises, tentando exercer a força interpretadora e o potencial criativo no salutar exercício de manter a existência do prazer da leitura. É isso que deve nos motivar para as salas de aula em 2010, pois para a literatura é necessária a permanência do verso de Carlos Drummond de Andrade: “O tempo é a nossa matéria” ou a frase do escritor português José Cardoso Pires, síntese das possibilidades que só o texto literário nos permite: “Isso não aconteceu, mas eu estive lá.”

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC



___________________________________________________________________________

Dois livros saídos.
(Dez.2009)
por Tânia Ramos

Dia 04 de outubro fui a Portugal, mais precisamente a um evento sobre Memória Literária e Cultural da América Lusa na bonita e instigante cidade de Évora, um dos patrimônios da humanidade. Na volta um dia em Lisboa, entre a tradição e a modernidade, coberta por um céu azul, imensamente azul. Foi tudo muito bom, desde as discussões sobre o (des)acordo ortográfico, as apresentações de novos estudos de Língua Portuguesa até os quinze trabalhos apresentados no meu simpósio que passaram por João do Rio, Lima Barreto, Silveira Martins, Silvio Romero, Revista Ilustrada, neorrealismo, José de Alencar, Caramuru, acervos literários e culturais, locais, regionais, nacionais, onde me incluí. Quero, neste espaço, registrar, porém, o e-mail que recebi de meu ex-aluno Rafael Miranda, nascido em Portugal e que veio para a UFSC em 2008 como intercambista. Jovem, inteligente, culto, poeta. Conheceu Marilha (assim mesmo este nome tão Florianópolis) no Curso de Letras, casou e ficou cá entre nós. Ao saber que eu estava indo para Portugal me escreveu mais do que uma mensagem, um guia turístico, sensível, tocante, pontual. Lá pelas tantas me disse: “Aproveite para comprar a revista Ler (mensal), é a nossa revista mais fresca e jovem sobre literatura. O JL (Jornal de Letras, quinzenal) estava um pouco decadente - de pesado, cinzento - quando eu saí de lá, mas é também interessante. Há também uma outra revista, Os Meus Livros, que eu não conheço tão bem”. A primeira coisa que fiz, na caminhada inaugural por Évora, numa das esquinas da Praça do Giraldo, perto do Hotel Santa Clara, onde fiquei hospedada (ao lado da igreja com o mesmo nome) foi comprar a Ler. Bonita revista (lembra em alguns momentos a CULT em seu início) com o subtítulo “Livros & leitores”. Cada noite, cada tempo que eu tinha, eu ia me encontrando com os heterônimos de Eduardo Lourenço, com Mia Couto, com o mundo vertiginoso de Roberto Bolaños, entre resenhas, crônicas, cartas, entrevistas. Além do evento na Universidade de Évora onde falei sobre literatura e as complexas questões locais, mergulhei minimamente nas letras portuguesas contemporâneas. Uma viagem em outra viagem. Na volta a vontade de saber o que aqui ocorria antes de ir para o cotidiano da UFSC. Li meus jornais, os diários, os suplementos amontoados no escritório. Alimentei, assim, esse desejo que tenho de estar sempre querendo saber quem escreve, quem publica, quem está lançando livros. E nesse retorno as boas notícias: “Sopé” e “Saber não saber” os novos livros de dois dos melhores escritores desse sul catarina: Flávio José Cardozo e Alcides Buss. Aqui se diria dois livros lançados, mas hoje vou optar em dizer como se diz em Portugal: dois livros saídos. Saídos das mãos e da imaginação de um excelente narrador e de um excelente poeta. Dois livros se dando a LER. 

*Tânia Regina Oliveira Ramos (
taniaramos@floripa.com.br ) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

topo

Dedicatórias
(Out.2009)
por Tânia Ramos*

Se a palavra “presente” pode remeter tanto ao tempo e às suas convenções, quanto à doação, à oferta, ela se aplica como uma luva ao que hoje aqui escrevo. Dois livros encontraram-se hoje na minha bolsa: “Borges e outras ficções” de Gabriel Gómez (Design Editora, SC, Jaraguá do Sul, 2009) e “O Sexo Vegetal (SP, Iluminuras, 2009). O primeiro me foi ofertado em 2008; o segundo nesse 16 de setembro de 2009. Duas dedicatórias. No primeiro: “Tânia, este é o segundo livro do Gabriel, que está crescendo como escritor. Acho que vais gostar! Regina” (a Regininha Carvalho, da UFSC, das singelas e inteligentes histórias de sapos e de tantas coisas). No segundo: “Para a Tânia, estas imagens catarinenses e sul-matogrossenses. UFSC, 2009, Sérgio Medeiros” (o próprio autor, meu colega, meu amigo, professor de Teoria da Literatura, da UFSC). Por que eu resolvo falar deste encontro inusitado? Porque ontem, na minha aula do Curso de Pós-Graduação em Literatura, li com meus alunos um conto-crônica-ensaio de Gabriel Gómez (por isso o livro ainda na bolsa), onde ele descreve e interpreta com muita graça e inventividade uma dedicatória feita por Bioy Casarez a uma mulher. Com meus alunos discuti a questão da assinatura, do nome próprio, da biografia. Com meus alunos falei do livro anterior de Gabriel Gómez, um argentino radicado em Santa Catarina, autor de um dos mais empáticos livro sobre livros, “A culpa é do livro”. Com meus alunos falei deste “catarinense-argentino-catarinense”, um dos maiores pesquisadores e colecionadores da obra do escritor Jorge Luiz Borges no Brasil. Outras ficções, Gabriel Gómez, a dedicatória de Regina e a dedicatória de Bioy no livro de Borges, ficaram ali à espera de um outro. E este outro foi exatamente “O Sexo Vegetal”, deste matogrossense de Bela Vista, catarinense por opção e por afetos, poeta-professor, professor-poeta, criativo, erudito, transgressor, teórico do inumano Sergio Medeiros. Sobre “O Sexo Vegetal”, suas imagens vegetais, olhares para um cenário “quando e onde”, opto por usar aqui, “décor”, como o quer o poeta, as palavras tão certeiras de Marcelo Coelho (http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br): “Esses pequenos “cenários” se alternam, ao longo do livro, com curtas narrativas que ilustrariam casos daquilo que o autor chama de “sexo vegetal”; geralmente, as relações epidérmicas entre um ser humano e plantas de qualquer tipo”. A dedicatória interpretada por Gabriel Gómez, de quem quero ainda muito ouvir falar pela sua capacidade narrativa e criativa - suas “10 pequenas ficções”, no livro de que aqui falo, espécies de haicais narrativos, são para mim de uma qualidade ímpar - , me remeteu assim - quando os dois livros se encontram na bolsa e se tocam - à segunda dedicatória quando o poeta-prosador escreve para mim: “Para a Tânia, essas imagens catarinenses e matogrossenses”. Lanço, então, a pergunta diante destes dois excelentes escritores contemporâneos: seriam eles bons representantes de uma nova geração de “escritores do sul” sobre os quais este site nos fala? Seriam eles dois bons escritores catarinenses, de Santa Catarina ou em Santa Catarina? Prefiro a geografia poeticamente falada por eles para responder. De Gabriel Gómez: “E chegou a onda na costa, depositando o corpo que se atreveu a desafiar os segredos do mar”. De Sergio Medeiros: “as nuvens estufadas afundam o Continente, ou o consomem, elevando-se como espessa fumaça”.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

topo

__________________________________________________________________________

Uma casa sem cor
(Set.2009)
por Tânia Ramos*

Entre1999 e 2009, mais de mil páginas chegaram literalmente pelas mãos de Zahidé Muzart às estantes individuais, às bibliotecas e às livrarias. Falo das coletâneas Escritoras Brasileiras do Século XIX, volumes I e II (o volume III encontra-se no prelo) uma belíssima e primorosa edição da Editora Universidade de Santa Cruz do Sul e da Editora Mulheres, de Florianópolis (www.editoramulheres.com.br) . Nele, a força de trabalho, manual e intelectual de algumas pesquisadoras contemporâneas, somando a essa empreitada, as escritoras (re)descobertas, a planejadora, a organizadora, as editoras, a prefaciadora: mulheres amarrando as pontas de dois séculos, integrando norte, sul, leste, oeste, as Américas. Em outras palavras, esta é uma cruzada, comandada pela professora, pesquisadora e editora Zahidé Lupinacci Muzart, para dar a ler a sua história da literatura, aquela que ainda não foi contada. Escritoras Brasileiras do Século XIX é, em síntese, não somente o resultado de uma pesquisa integrada, mas uma demonstração de um trabalho de equipe e de uma sinfonia ou sintonia de múltiplas vozes em um tempo datado: escritoras brasileiras do século XIX, pesquisadoras brasileiras do século XX, literatura brasileira para o século XXI, que possibilitam reavaliar nossa história cultural. Esta minha leitura, porém, não vai ser centrada na editora, dona da internacionalmente conhecida Editora Mulheres, Zahidé Lupinacci Muzart, na pesquisadora do CNPq Zahidé Lupinacci Muzart, na professora e orientadora do curso de Pós-Graduação em Literatura da UFSC, mas vai ser centrada na escritora Zahidé Lupinacci Muzart, que nos brindou agora em julho de 2009 com seu primeiro livro autoral, um bonito texto endereçado ao público infantil e juvenil intitulado “Uma Casa sem Cor”, publicado pela sua Editora Mulheres e ilustrado por Márcia Cardeal e sua sensibilidade de leitora e de pintora de. São poucos aqueles e aquelas que conseguem falar de dor e morte para crianças e do ponto de vista de uma menina de 8 anos com a sutileza e a delicadeza das imagens linguísticas e pictóricas. A saudade de um pai que desaparece sem explicação. A mãe e seus olhos vermelhos. A avó e a menina na casa sem cor. Do outro lado da história Dona Zefa. Um nome velho, um velho nome e, no entanto, a transformação da história acontece exatamente aí. Não posso contar mais. A narrativa perderia o misterioso encanto de uma história vivida por cada um de nós. Ou a viver. Todas nós, e todos nós, em algum momento habitamos ou habitaremos uma casa sem cor. 

*Tânia Regina Oliveira Ramos (
taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

topo

Por um portal catarina
(Agosto.2009)
por Tânia Ramos*

Aproveito este espaço para falar de alguns projetos que a UFSC tem feito para estabelecer um diálogo com a produção literária de Santa Catarina. Em 2007, dois núcleos de pesquisa da UFSC, o NUPILL, núcleo de Pesquisa em Literatura e Informática e o nuLIME, núcleo de Literatura e Memória, o primeiro coordenado pelo prof. Alckmar Luiz dos Santos e o segundo coordenado por mim, tendo nele a participação ativa dos professores doutores Lauro Junkes, Zahidé Muzart e Zilma Gesser Nunes, decidimos concorrer ao edital do PRONEX, Programa Núcleos de Excelência, FAPESC e CNPq, para organizar um Portal Catarina como um esforço de organizar digitalmente acervos literários tutelados e preservados pela UFSC e pela Academia Catarinense de Letras. 

Com o Portal Catarina, pretendemos colocar à disposição dos interessados, pela internete, obras literárias, críticas e informações de e sobre autores catarinenses de todas as épocas, além de dar início à importantíssima tarefa de organizar e dar ao público a possibilidade de consultar e conhecer acervos de escritores do Estado, atualmente sob a guarda da ACL.

O Portal Catarina, então, deverá proporcionar também a todos os interessados um dicionário de autores e de obras catarinenses, nessa parceria reunindo o NUPILL, o nuLIME, junto a grupos de pesquisa de duas outras universidades catarinenses, UNIVALI e UNIVILLE e a Academia Catarinense de Letras. É nesse sentido que propusemos a digitalização e a colocação no Portal de uma série de periódicos literários catarinenses (Terra, Sul, Litoral e O Moleque), além da obra de importantes autores no contexto local e nacional. E todas essas informações também estarão totalmente integradas à biblioteca digital do NUPILL - http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/ , o que vale dizer que as ferramentas de ensino e aprendizagem lá desenvolvidas (e ainda a desenvolver, como os mecanismos de anotações, para pesquisadores nos arquivos das obras digitalizadas e colocadas na internete) poderão ser utilizadas também por quaisquer usuários interessados, seja em leituras individuais, seja em projetos de ensino e aprendizagem de literatura catarinense desenvolvidos na rede pública de ensino do Estado. Finalmente, é parte importante desse projeto a catalogação e a organização de acervos de alguns escritores catarinenses, cujo material está sob a guarda da Academia Catarinense de Letras (cujo presidente, Prof. Dr. Lauro Junkes, professor titular da UFSC é participante desta nossa equipe): Ernâni Rosas, Maura de Senna Pereira e Delminda Silveira, além do acervo de Cruz e Sousa, cuja posse é da Fundação Casa de Rui Barbosa e do Arquivo Harry Laus, que se encontra no núcleo Literatura e Memória, nuLIME, da UFSC. Ressalte-se que tais acervos são majoritariamente em papel e sofrem todo tipo de ameaça a sua preservação. Apenas um esforço consistente de digitalização, como esse que estamos procurando fazer, através de alunos de graduação e de pós-graduação, extremamente dedicados ao trabalho , poderá preservá-los para pesquisas futuras e para conhecimento do passado literário nem sempre acessível aos interessados.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (
taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

topo

__________________________________________________________________________

Alguns dedos de prosa
(Jul.2009)
por Tânia Ramos

Em sua terceira edição, a Semana Acadêmica de Letras da UFSC apresentou um leque de boas opções aos alunos e professores. Uma delas foi a mesa Redonda intitulada Três Dedos de Prosa realizada no dia 28 de maio de 2009 no Auditório Henrique Fontes, do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC, um auditório repleto de olhares e ouvidos curiosos, interessados, e que, entre todos os observadores, contou também, neste ano, com a participação de uma centena de alunos de Letras UFSC Ensino a Distância. Os alunos EAD, como se fazem reconhecer, foram uma importante presença na Semana. 

. Dedo de prosa foi um projeto do Centro de Comunicação e Expressão que durante algum tempo deu voz e vez a escritores contemporâneos que tinham, de alguma maneira, vínculo com Santa Catarina. Nessa III Semana de Letras, com a iniciativa do Curso de Pós-Graduação em Literatura, recuperou-se o projeto para dar a conhecer ou a (re)encontrar três escritores em diferentes momentos de suas carreiras literárias: Emanuel Medeiros Vieira, Maicon Tenfen e Carlos Augusto de Negreiros. Três escritores, alguns leitores e três dedos de prosa. Em outras palavras, quem escreve sabe, que a palavra sobre o papel, também fala.

Emanuel Medeiros Vieira, Maicon Tenfen e Carlos Augusto de Negreiros foram apresentados pela coordenação da sessão que leu suas biografias, destacou suas obras, deu relevo à formação acadêmica dos autores e que também preparou uma seleção de fragmentos das obras dos três autores para que fosse feita uma pequena homenagem aos convidados. Os trechos foram lidos por três alunas doCcurso após a apresentação de cada escritor, que conversaram sobre o ato de escrever, os motivos que os fizeram escrever, falaram de suas produções e trajetórias e no que acreditam que seja necessário para o ato da escrita. E não só: a luta pela publicação, o confronto com os editores, o desejo de escrever para não morrer.

Por que a escolha de Emanuel, Maicon e Augusto de Negreiros? Para que o público ali presente conhecesse e ouvisse a voz de três momentos literários: um escritor com uma obra sólida qualitativa ou quantitativamente, como Emanuel Medeiros Vieira; um jovem escritor, mas com um nome já reconhecido tanto pela mídia quanto pelos seus muitos livros já publicados, Maicon Tenfen e um escritor inaugural, Carlos Augusto de Negreiros, lançando seu primeiro livro. Os três estiveram alipara apresentar a seus convidados Olhos Azuis ao sul do efêmero, um instigante livro que mescla memória e ficção; Casa Velha Night Club, uma sucessão de histórias que brincam com o cotidiano, uma festa de personagens galhofeiros, brincalhões; e João, papéis e outras estórias, uma série de contos que buscam na linguagem e pela linguagem o fazer literário. Emanuel, Maicon e Carlos Augusto, os autores presentes e tendo na platéia e no lançamento, além de alunos e professores da UFSC, presenças de tantos bons escritores catarinenses.

Terminamos esse registro destes “três escritores do sul”, registrando que para os alunos conhecer um escritor em presença é comprovar que é possível ouvir uma fala a ser literatura. Cada vez mais a crítica literária se depara com a necessidade de voltar a discutir a distância entre a fala e a escrita, entre vida e obra. A rostidade dos escritores é também uma representação. É possível um corpo autoral, mesmo que as falas pareçam sempre uma inconclusão, um vazio instalado, onde o diálogo não preenche. Mas conhecer um escritor na sua transitividade - Roland Barthes nos apresenta o escritor como intransitivo a partir da idéia “o escritor escreve” - é uma oportunidade só possível quando acontecem estes dedos de prosa. Que venham outros e outras.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

topo

Eu ouvi muitas histórias, também, de mentirosos, e aprendi a ser mentiroso."
Franklin Cascaes

(Jun.2009)

Os artistas que permanecem são aqueles que grandes sistemas estéticos acompanham as suas obras. A cultura produzida na Ilha de Santa Catarina possui algumas marcas e alguns marcos. Hoje eu não temo dizer que há uma literatura antes e depois de 13 Cascaes , uma antologia que reúne treze leitores de Franklin Cascaes, em treze narrativas que, evitando o naturalismo, o puro simulacro da realidade que não se repete, criam uma seqüência de histórias fantasmais, aventuras da mente, no que estas cinco letras – MENTE - têm de carga semântica. Cérebro, sufixo de advérbios de modo e terceira pessoa do singular do verbo mentir. Assim cada MENTE, dos treze convidados para este revival de Cascaes, MENTE verdadeira e poeticaMENTE.

A epígrafe deste meu ensaio faz uma homenagem a estes falsos mentirosos , arrolados alfabeticamente: Adolfo Boos Junior, Amílcar Neves, Eglê Malheiros, Fábio Brüggemann, Flávio José Cardozo, Jair Francisco Hamms, Julio de Queiroz, Maria de Lourdes Krieger, Olsen Junior, Péricles Prade, Raul Caldas Filho, Salim Miguel e Silveira de Souza. Numa mistura de memórias de leituras e memórias ficcionais, onde o fantástico é sempre evocado, somos encantados pelas histórias que as autoras e os autores nos contam, especialmente porque em cada narrativa há uma presença ou uma essência de Franklin Cascaes como um fantasma que, sem cair no fetichismo da tradição, assombra a cultura moderna. Daí a cumplicidade dos autores às genealogias (Talvez a primeira e última carta); aos lugares próximos e distantes (O presépio; Uma noite de profunda insônia solitária); aos espaços míticos e místicos (O “Minha Querida”; O Abençoado; Mistério no Miramar); ao tempo transgressor (Dois bandolins; O diário da virgem desaparecida); ao humanismo (Branco assim da cor da lua; O folheto); às referências reais ou simbólicas em histórias mescladas de verdade e de poesia (História praiana; Ao entardecer; Noites de encantamento), que conseguem elaborar um universo rico em contradições, especialmente porque todos os enredos passam pelo poder da linguagem, da palavra contada, da história inventada, e não apenas pela preocupação teórica da verossimilhança.

O fascínio da alteridade – deste outro inexplicável – é uma das marcas das narrativas fantásticas. Outras dimensões, outros mundos narrados, as ilustrações de Tercio da Gama, o prefácio, as notas do editor, os créditos estatais, que remetem e dialogam com os traços e com os desenhos bruxólicos de Franklin Cascaes, não desglamourizam a fantasia das letras e das palavras. Pelo contrário. Servem como complemento e suplemento. Complemento que Gelci José Coelho, o Peninha, é no livro com seu depoimento factual, de quem conviveu e viveu com Franklin Cascaes. Suplemento na Invocação feita por Dennis Radunz, numa leitura auricular, profunda, pontual, do significado deste que “não é apenas um livro, mas treze lugares da linguagem”. Complemento e suplemento obtidos pela organização e apresentação destes dois escritores, leitores sempre, Flávio José Cardoso e Salim Miguel.

Denise de Castro em sua bonita canção-homenagem diz que a festa hoje é pra Cascaes . No refrão ela alegremente canta que na freguesia do Ribeirão é vento, é fogo, é caldeirão; eu vi passeando na clareira, uma misteriosa reunião. Poderíamos dizer que era essa misteriosa reunião de cascaes. Na festa do livro que agora li entraram cabalisticamente treze cascaes. Mas se passam no ar vassouras voadoras, que dão gargalhadas pelo ar; aproveitando a lua cheia; em coro começando a cantar , não haverá mistérios se daqui a pouco encontrarmos mais cascaes continuando a contar. Porque, como sabemos, temos muitos falsos mentirosos. Logo, verdadeiros. SimplesMENTE cascaes.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

topo