Morto prematuramente, Luiz Sérgio Metz deixou uma obra marcada pelo incondicional apego ao Sul
Era a noite em que principia o inverno. Fria, chuvosa. A noite do solstício. Um dia simples findava.
Num leito de hospital, em Porto Alegre, um homem perdia sua batalha derradeira. Havia passado as últimas quatro semanas lutando contra o desfecho do qual ninguém escapa, mas contra o qual – tristemente – todos lutam. Já estava calmo. Último, e único, varão de uma família recheada de mulheres, tinha 44 anos. Dois livros publicados. Um filho. Uma filha. Uma obsessão: o Sul. E uma mãe que morreu na mesma madrugada que ele, depois de passar quatro semanas em coma sem saber do destino do filho.
O destino. Luiz Sérgio Metz, ou simplesmente Sérgio Jacaré, morreu há dez anos. Havia acabado de publicar um romance, Assim na Terra (Artes & Ofícios, 1995), que marcaria uma espécie de revolução na quase sempre bem comportada prosa local. Romance pouco lido, mas efusivamente saudado pela crítica num momento particularmente efervescente da literatura gaúcha. Jacaré morreu sem ver o seu segundo livro – a estréia havia sido quase 15 anos antes, com um volume de contos que não teve a merecida atenção – entrar para o rol dos clássicos, ainda que tenha feito uma modesta carreira comercial nas livrarias. "Ele morreu na plenitude da forma literária", lamenta o crítico, professor e amigo Luís Augusto Fischer. Se serve de consolo, Metz já virou dissertação de mestrado. E também nome de rua em Porto Alegre, embora pouca gente saiba onde fica a antiga 7903 do loteamento Chapéu do Sol, extremo Sul da cidade. Outra ironia do destino.
É bom lembrar, entretanto, que Metz não foi apanhado pela morte ao acaso. Boêmio, intenso em tudo o que fazia, o jornalista e escritor passava noites em claro proseando com os amigos, como forma de exercitar uma observação crítica da realidade que ia parar diretamente nos seus textos. Além disso, fumava compulsivamente. Numa dessas, desenvolveu um câncer de pulmão. Que, não satisfeito, transmutou-se em metástase no cérebro do escritor. No cérebro. O desesperado procedimento de retirada do tumor se revelaria fatal. "Ele tinha uma prosa única. Porosa, como diria o Leminski (Paulo Leminski, poeta curitibano). O texto do Metz respirava", pontua Fischer, mais uma vez brincando com os caprichos do destino. Foi dele, naquela noite chuvosa de 21 de junho de 1996, a difícil missão de abrir o Centro Municipal de Cultura para o velório do escritor. "De certa forma, ele apagou a fronteira entre vida privada, literatura e política", avalia Fischer.
Metz nasceu em Santo Ângelo, mas fez boa parte de sua formação intelectual em Santa Maria. Lá, formou-se em Jornalismo e deu os primeiros passos em outra de suas paixões, que o acompanharia vida adentro: a política. "Aquele ambiente universitário foi um choque", lembra o historiador Tau Golin, contemporâneo do escritor nos bancos escolares da cidade, em meados da década de 70, e parceiro em aventuras como a cavalgada de 13 dias e 600 quilômetros que empreenderam entre Santa Maria e Jaguarão. Publicada no antigo suplemento literário de sábado do jornal Correio do Povo, no dia 20 de setembro de 1980, a reportagem, com texto final do escritor, vai virar livro em agosto (2006).
FONTE: por FLÁVIO ILHA (Revista Aplauso, 2006)