RAUL ARRUDA - A voz do detrator

A VOZ DO DETRATOR
(A respeito de "O silêncio do delator", romance de José Nêumanne Pinto)

Raul José Matos de Arruda Filho*

O mundo literário está repleto de ironias. O jornalista José Nêumanne Pinto, que assina uma coluna televisiva − no Jornal do SBT – chamada "Direto ao assunto", provavelmente sonha com o título de romancista mais enfadonho da literatura brasileira. Para comprovar o quanto o ilustre e (i)lustradíssimo escritor está cortejando esse galardão convém (não) ler "O silêncio do delator" (Editora A Girafa, 2004), romance que ganhou, em 2005, o prêmio Senador José Erminio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, como melhor livro publicado no ano anterior.

Interminável e repetitivo calhamaço de 541 páginas, abusando da enxúndia, a narrativa almeja o status de "pièce de resistance" do humor barroco, maneirismo que parece não ter muita graça, sem ser necessariamente desgraçado. O que estraga o projeto é a falta de talento e elegância estilística do escritor – que está a centenas de quilômetros de distância de Guillermo Cabrera Infante, o grande­mestre do gênero. Infelizmente, esse fato elementar não constituiu impedimento (como sói acontecer com todos aqueles que se imaginam tocados pela varinha de condão da genialidade literária) para recusar o imitar dos arabescos que iluminam essa "pequena" transgressão, a apropriação do estilo alheio como justificativa na luta inglória contra a vulgaridade iletrada que ameaça tomar de assalto a cultura a­pós­o­moderno.

Racismos, preconceitos e malogros à parte, o cartapácio escrito pelo autor de outro romance ruim, "Veneno na veia" (Ed. Siciliano, 1994), está intimamente ligado ao desatino desafinado que constitui o inventário de uma geração perdida no deserto da política repressiva (ainda não extirpada totalmente na contemporaneidade) que serviu de trilha sonora para os doces e bárbaros anos 60 no século XX. Exercício literário datado, desses que congelam o tempo e o espaço, o texto acrescenta outras cores pálidas à narrativa quando centraliza os holofotes em um grupo de amigos, todos abestalhados pelo romantismo mela­cueca do roquinho "transgressor" dos Beatles ou das canções pseudo­intelectuais de Bob Dylan. Turbinados pelas folias de cama, mesa e banho, amansados pelos cigarros de maconha, discutindo filosofia, cinema e literatura, todos acumularam monumentais dores­de­corno. Nas horas de folga, alguns desses "lonely hearts" foram perseguidos pelos cassetetes dos meganhas, precisaram fugir das bombas de gás lacrimogêneo, amargaram o horror prisional. A soma dessas imagens resulta em inesquecível chatice, ninguém possui paciência de profeta bíblico para suportar o edulcorar do sempiterno discursinho medíocre, a lata de querosene Jacaré servindo de púlpito. Salvo masoquistas e similares, a vontade do leitor é a de fechar o livro e fugir rápido dessa tortura.

Para quem gosta (e há quem goste!), em qualquer página do romance há miríades de citações, erudição despropositada, desproporcional, irracional, a granel. "Quiet desesperation", diria Thoreau. Ou Franz Paulo Trannin Heilborn. De qualquer forma, tamanha glutonaria resulta em tsunami intelectual, em patrolar os incautos e ignorantes. No intervalo, entre a ira dos caval(h)eiros do após­calipso e o acumular de ressentimentos, há o procurar pelo Aleph no buraco na escada, há a pretensão maior, muito maior, de assumir a identidade do poço onde reside a sabedoria. Ao perceber que esse pesadelo não vai se concretizar resta ao leitor o encontro com versão mirrada (minada, mimada) de Bouvard et Pècuchet. "Tristes tropiques", lembra Claude Levy­Strauss ou Gilberto Freyre, não importa qual, visto que não há diferença entre este ou aquele, tamanha é a voracidade enciclopédica do enredo de escola de samba suburbana com pretensões pequeno-burguesas que emoldura "O silêncio do delator". Como "a revolução se faz no porão, a política se negocia no salão", o romance aproveita a oportunidade e ministra lições (incompletas, parciais) sobre a Revolução Russa (1917), a Revolução Cubana (1959) e o golpe militar brasileiro (1964). Atordoador é adjetivo menor, diante de tamanha grandiosidade histórica (ou será histérica?).

Nos interstícios desse samba do crioulo doido, a narrativa mistura Bob Dylan com Albert Camus, Albert Finney com a primeira epistola aos Coríntios, Wall Street com Muro de Berlim, entre tantas outras manifestações gratuitas de poder, de cultura inútil – dessas que, na melhor das hipóteses, somente servem para ajudar na solução de palavras cruzadas. Tudo conversa mole, biombo a esconder o exercício despudorado da fofoca grosseira, do devassar a vida do outro, expondo fraquezas, vícios e paixões mal resolvidas. Como quem não quer nada e sonha ficar com tudo, o narrador se diverte colorindo o texto com informações de suma importância: fazer crochê é terapia para Milan Kundera, será que Lou Reed foi amante de Andy Warhol?, António Lobo Antunes não aprecia as descrições sexuais na literatura, foi no "Deux Magots" que a amizade entre Camus e Sartre se rompeu. Misericórdia!, implora a vítima, digo, o leitor, ao ver o horror escondido atrás do cenário da Ilha de Taras (versão hard).

João Miguel, o protagonista de "O silêncio do delator", gastou a vida na cansativa tarefa de carregar o máximo possível de mulheres para o tálamo (alcova, cama, leito, quarto de dormir, câmara privada). No início do romance, escorado nas concessões típicas do pacto ficcional, ele se apresenta como cadáver, mortinho da silva, próximo do momento em que irá comer capim pela raiz, os amigos e inimigos rondando o velório, rodando a bolsinha, alimentando o passado perdido, assistindo ao formidável enterro da última quimera. O romance é, guardada as devidas proporções, o Te Deum que ele merece. Para o leitor, difícil esconder o constrangimento.

Estratagema literário arriscado, desses que muitas vezes acabam dando com os burros n’água, porque nem sempre se mostra convincente, o "plot" do romance tempera a gororoba com o verniz retentivo de Machado de Assis e a malemolência picaresca de Jorge Amado. Em outras palavras, mistura Brás Cubas e Quincas Berro d’Água, combinação perfeita, homogênea, união de água e azeite. E o resultado desse experimento alquímico? Desastre? Não, claro que não, imagine só se isso é possível, claro que não! No entanto, para que o horror não marque presença na sala de jantar, na ânsia de obter um mínimo de verossimilhança, o defunto reparte o show com um comparsa na mimese tolinha do diálogo socrático: o narrador. Walter­ego de João Miguel, o narrador toma conta do campinho e, de posse da bola e do jogo de camisas, determina quem está do lado de quem. Intervencionista e intrometido (dono de régua e compasso, não deixa escapar as oportunidades de organizar os passos e as regras narrativas), seu trabalho consiste em dar voz a alguém, calar aqueles que podem estragar a festinha; esconder isso e aquilo, gritar ao megafone sobre outras coisas; enfim, manipular o espetáculo. Para que isso ocorra sem muito prejuízo e razoável eficiência, acrescenta uma cereja no topo do bolo: o texto foi esquartejado em fragmentos, emulando (suprema honra!) os folhetins machadianos da fase realista.

É isso, o romance é uma fraude do início ao fim. E não esconde esse propósito. Aliás, o alardeia. Incomparável master piece, "O silêncio do delator" foi escrito para que seus defeitos (ou qualidades) estejam vinculados com o leitor "ideal" − aquele que, do alto do saber crepuscular, consegue decifrar todos os códigos enterrados no amontoado de papel encadernado.

Seguindo os pedaços de pão espalhados no chão por Joãozinho e Maria, o leitor, ao constatar que não existe pecado ao sul do Equador ou ao norte de Pasárgada, acaba preso na casinha de doces, armadilha preparada pela bruxa má, digo, por Ariadne em dia de TPM. Através de pistas falsas, farsas, pantomimas, comédias, operetas e tragédias, a narrativa induz caminhos, propõe momentos em que perde a direção, o sentido, os sentidos, puro delírio ao ver o corpo estendido no esquife, memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris, subverte a imaginação sem poupar recursos em língua morta (a te fazer companhia, João Miguel!). No universo dos arrivistas, essa tática cultural é chic, très chic, supimpa mermão!

Desabalada balada de trovador provençal (desses que eram enforcados na primeira árvore à esquerda de quem sai de Paris) ou retrato desbotado de época, a saga vai se repetindo no desfilar trânsfuga que festeja. Relato da desumanidade operada pelas lembranças que escoaram (ecoaram) pela ampulheta, a escritura oferecida por Nêumanne Pinto jamais chegará a galo, cocoricós a testemunhar a punheta que não se completa, incompleta pela flacidez produzida pelo pedantismo barato que une na mesma tocata, por exemplo, inúmeros personagens da mitologia grega, Penélope e Helena (de Tróia) na proa de um veleiro destinado ao naufrágio. Comentários meia­bomba acompanham esse momento de constrangimento erétil. Bocejar é inevitável, principalmente se mínima sombra do texto referência passar ao largo − comparando a cópia com o original, o verdadeiro com a imitação.

Claro, tudo isso veste a máscara do engraçado, engraxado pelos trocadalhos pra carilho que fazem a festa semântica consagrada pelo co(r)po e vinho que constituem o texto. Mas, comprovando o que a filosofia sempre discutiu, não basta querer abria a caixa (em lugares mais honestos, a boceta) de Pandora para que o humor monte banca e cartório, exigindo gargalhadas e aplausos. Somente a Literatura, com letra capitular, pode acreditar nessa possibilidade; somente o texto comprometido com "algo mais" é que não capitula diante da vontade de realizar essa proeza. O romance escrito por Nêumanne Pinto não se enquadra nessas categorias. Como ensinam os clássicos imemoriais: muitos são os chamados e poucos os escolhidos.

Enfim, para resumir toda essa bagunça, as múltiplas vozes que o leitor escruta em "O silêncio do delator" (um oximoro pret­a­porter) se confundem com a voz do detrator, com a voz maledicente, difamatória, incorrigivelmente movida pela mágoa de ter passado em brancas nuvens enquanto a vida fervilhava.

Tendo como base um fragmento de Arquíloco, "A raposa conhece muitas coisas, mas o ouriço conhece uma única grande coisa", é possível afirmar que José Nêumanne Pinto esbanja conhecimento, mas lhe falta o "plus" que faz a diferença. Espinhos, talvez.



* No início de fevereiro de 2011, Raul José Matos de Arruda Filho (
raul.arruda@gmail.com), passeando alacremente pelas estantes de um sebo, encontrou exemplar de "O silêncio do delator" perdido na multidão de livros. Sensibilizado pelos ensinamentos budistas, o acolheu na sua cestinha de compras.


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LITERATURA MUSICAL, MÚSICA LITERÁRIA

Raul Arruda Filho*

"(...) faço versos porque não sei fazer música". Foi dessa forma singela, confessional, como se estivesse jogando conversa fora, que Manuel Bandeira, no "Itinerário de Pasárgada", colocou em cena um dos problemas mais perturbadores do mundo artístico. (Perturbador no bom sentido, se é que existe essa "enrolação" que chamam de bom sentido).

Evidentemente, o mestre não estava a dizer que música e literatura são formas artísticas excludentes. A questão fundamental é de outra ordem. Bandeira era um melômano (desculpe pela expressão antiga, definitivamente fora de moda), basta lembrar as diversas parcerias com Jaime Ovalle, Heitor Villa–Lobos, Camargo Guarnieri e Francisco Mignone. Além disso, como possuía excelente senso crítico, aceitou o fato que a poesia possui limitações e, em alguns momentos, se distancia do sonho utópico (e, portanto, irrealizável) de contercompor todos os sentimentos que movem o mundo. Isso não impede que, em algumas dessas tentativas, ocorra uma espécie de milagre, instante em que a poesia se aproxima da música como se quisesse tocá–la (nos dois sentidos). É o que se percebe em alguns versos de John Donne, Jean–Arthur Rimbaud, Anna Akhmatova e Konstantin Kaváfis, por exemplo. No Brasil, a cadência proposta por Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Manoel de Barros e Adélia Prado dispensa a companhia dos sons instrumentais.

Na outra ponta da confusão, a prosa – quando muito – se contenta em retratar as tensões, as brigas que destoam o ensaio de orquestra que compõe o mundo real. E isso significa que – seja para o bem, seja para o mal – ela está, paradoxalmente, mais próxima da música do que a poesia.

Essa tese (tão discutível como qualquer outra) encontra alguns pontos de correspondência quando percebemos que, atualmente, vários músicos estão caminhando na contramão. Por diversas razões e loucuras, muitos daqueles que ganham a vida namorando as confusões sonoras estão colocando no papel, ops, na tela do computador, algumas idéias, quase todas em prosa. Sem ligar para a sensação de peixe fora d’água, assentaram a bunda em uma cadeira (como recomendava William Faulkner aos novos escritores) e contaminaram a festa com outro tipo de beleza.
O resultado desse esforço pode ser comprovado nas crônicas de Aldir Blanc – que oscilam do lirismo mais sublime até o escracho total – ou nos diversos romances escritos por Chico Buarque de Hollanda e Tony Bellotto. Outro estranho no ninho, que resolveu invadir o quintal alheio, foi Zeca Baleiro − que está assinando coluna na revista "Isto É". O engraçado é que a música está quase ausente nesses textos desses "novos" escritores (a exceção está nos primeiros romances de Bellotto, onde o protagonista, Remo Bellini, passa grande parte do tempo ouvindo blues).

Para aqueles que gostam da música e literatura, mas não possuem o ouvido apurado de Arthur Nestrovski (autor de "Ironias da Modernidade – ensaios sobre literatura e música", Ática, 1996) ou de José Miguel Wisnik (que escreveu "O som e o sentido", Cia das Letras, 1989), o desafio alcança outro nível, mais complexo, menos evidente.

Esse impasse ajuda a explicar o porquê de algumas antologias de contos sobre música terem sido publicadas recentemente. Mais do que ações compensatórias para o ego debilitado daqueles que desafinam tocando triangulo ou caixa de fósforos, esses livros abordam a música como elemento integrado aos relacionamentos humanos.

Mas, por que contos? Será que os romances não são musicais?, alguém há de perguntar, ansioso para esgrimir diante de olhos hereges exemplares de "Doutor Fausto" (Thomas Mann), "O náufrago" (Thomas Bernhard) e "Variações Goldman" (Bernardo Ajzenberg). Entre as múltiplas possibilidades de explicação para esses dois fenômenos (a publicação dos livros e dos contos), a resposta talvez esteja no ritmo contemporâneo, rápido, que não permite espaço para o conjunto de sutilezas que integram as sinfonias, por exemplo. Além disso, o conto é uma peça ligeira, sem muitos preconceitos com o andamento (oscila entre o "pianíssimo" e o "allegro vivace").

Particularmente interessantes, como exemplos da interseção entre música e literatura, são os livros "Contos para ler ouvindo música" (organização de Miguel Sanchez Neto, Record, 2005), "Aquela canção – 12 contos para 12 músicas" (diversos autores, Publifolha, 2005 – acompanha CD), "Como se não houvesse amanhã" (organização de Henrique Rodrigues, Record, 2010) e "Essa história esta diferente" (organização de Ronaldo Bressane, Cia das Letras, 2010).

Com exceção do primeiro, que é uma espécie de antologia, ou para quem gosta do jargão técnico, "pot–pourri", ou seja, reúne diversos textos esparsos, escritos ao acaso em diferentes tempos e espaços ("Siempre en la barca pra Paquetá", de Aldir Blanc; "Noites de Bogart", de Luis Fernando Veríssimo; "O moço do saxofone", de Lygia Fagundes Telles; "Show Business", de Tony Bellotto), os outros livros estão conectados com uma proposta muito específica: interpretar, por meio da ficção, algumas canções gravadas no imaginário popular. Mas não é somente isso, há outra diferença: enquanto "Aquela canção" trabalha sem limitações a música popular brasileira (MPB, para os íntimos), a área de abrangência dos outros dois é diferente.

"Como se não houvesse amanhã" é uma espécie de passeio sentimental da geração coca–cola, a gurizada que passou a adolescência ouvindo a poesia dissonante daquele que deve ter sido o último Peter Pan brasileiro: Renato Russo. Em busca da aquisição de uma linguagem que dissecasse elementos que, de uma forma ou de outra, estavam interditos, a Legião Urbana cantou músicas com a qualidade de "Eduardo e Mônica", "Faroeste Caboclo" e "Pais e filhos". Tendo como tema esses, digamos, novos clássicos, o livro subverte o contexto que gerou as canções e possibilita, através da ficção, outras leituras – mais enriquecedoras, menos dogmáticas. Particularmente criativas são as narrativas escritas por Daniela Santi ("Será"), Tatiana Salem Levy ("Tempo perdido") e Nereu Afonso ("Ainda é cedo").

O mesmo propósito está em todas as páginas de "Essa história está diferente", que virou do avesso a obra de Chico Buarque. Contando com a colaboração de alguns estrangeiros (Mia Couto, Mario Bellatin, Alan Pauls e Rodrigo Fresán), escritores que forneceram um olhar diferenciado para o universo chicobuarquiano, as versões literárias de "Ela faz Cinema" (Alan Pauls), "As vitrines" (João Gilberto Noll) e "Folhetim" (Xico Sá) são, para deixar no barato, da mesma qualidade que as canções que as inspiraram.

Como se estivesse simultaneamente tangendo angenciando abismos e concertos de câmara, a literatura e a música formam um dupla (sertaneja ou de cordas?) capaz de trabalhar em conjunto para escreverdescrever esses afetos que transformam parte da vida em prazer e alegria. Afinal, como canta Zeca Baleiro, "solidão não cura com aspirina".

 


 *Raul José Matos de Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) é Doutor em Teoria da Literatura.

 

 
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IABADABADU!
por
Raul J. M. Arruda Filho *

O Brasil é o país das crônicas – e dos cronistas. Em cada esquina (ou jornal ou revista), alguém está de plantão, pronto para colher, na fonte, as boas (e más) histórias que integram o cotidiano. Nesse caminhar trôpego, “ligeiramente embriagadíssimo”, como repetia mestre Nereu Goss, a crônica é uma espécie de comentário datado sobre algum acontecimento – e que, se não fosse pelo registro fatual, acabaria desaparecendo na seqüência de eventos “maiores” que constituem a vida urbana.

Como nunca foi considerada “a” musa da literatura brasileira, muito antes pelo contrário, não falta quem a classifique como um gênero “menor”, quer dizer, sejamos francos, texto de segunda classe, desses bem vagabundos, que qualquer um (qualquer um!) pode escrever para ganhar uns trocados.

A turma “do contra” costuma usar uma fórmula divertida: dizem que se trata de uma forma híbrida (e o uso da palavra “híbrida” sempre está envolto no papel celofane do desprezo) de literatura e jornalismo, e que só existe para preencher aquele espaço que não foi utilizado com a notícia. Trocando em miúdos, um calhau, cujo futuro é embrulhar o peixe (ou coisa pior) no dia seguinte à sua publicação.

“São os teus olhos”, rebatem os cronistas, toda vez que recebem uma crítica negativa, uma patada amorosa, recalques de quem não sabe (ou não quer) dizer “eu te amo”. Tia Zulmira explica, complica, simplifica, amplifica. Ou deixa pra lá, porque “as amargas, não”, como dizia um velho cronista, Álvaro Moreyra, escritor que, como poderia ser diferente?, ninguém lembra mais, inclusive porque jamais participou de “reality show” ou gozou (!!!) de merecidos 15 minutos de fama na Rede Globo.

De qualquer maneira, a crônica consegue ser refratária à “sua mais completa tradução”. E isso é um desafio para o mundo acadêmico. Basta lembrar que, nessa seara, alguns teóricos não economizaram papel e tinta de impressão para impressionar o distinto público com as certezas do mundo. Esforço em vão, diga-se de passagem, pois o santo Graal – ainda – continua desaparecido. Por isso, entre lamentos e sorrisos colgate (modelo gato de Cheshire), algumas “otoridades”, não podendo eludir o deserto das indefinições, acabaram iludindo a si mesmas com o “embromeichom”. Existem vários estudos refinadíssimos, trezentas notas de rodapé, bibliografias quilométricas, biscoitos finos, sabor quase (quase!) idêntico ao daqueles amanteigados dinamarqueses. Todos concluem em agradável surpresa: tudo continua como dantes, no quartel de Abrantes.

De qualquer forma, alguma coisa se salvou: os comentários sobre a linguagem que a crônica utiliza para se comunicar com o leitor. Transitando entre o relato coloquial e a prosa poética, ela permite aventuras estilísticas que abrangem desde a compreensão do mundo através do particular até o escracho monumental. De fato, a crônica é aquele texto onde você pode soltar expressões como “iabadabadu”, “aiou, Silver”, “o caralho a quatro” ou “fala, amendoeira” no meio da frase e ninguém vai reclamar do conteúdo – ao contrário, são essas situações humanas, demasiadamente humanas (um lampejo daquela cena em que o cara molhava o biscoito no chazinho tépido e entrava em transe para escrever umas 3.000 páginas) que possibilitam ao leitor o reencontro com a ilusão, momento em que é possível acreditar que toda a sabedoria do mundo estava contida nas sagradas páginas do Almanaque Sadol (ou Biotônico Fontoura ou Capivarol). Vai dizer que você não se lembra disso?

Noves fora zero, o aspecto secundário da contradição principal (como lembrava, didaticamente, o camarada Mao Tse Tung) está na constatação de que a crônica, com exceção de alguns clássicos (Rubem Braga, Stanislau Ponte Preta, Fernando Sabino e Luis Fernando Veríssimo), jamais foi convidada para tomar assento no panteão das letras. Nos jornais, tudo bem. Nas últimas páginas das revistas, nenhum problema. No entanto, como ensina a regra que divide a idolatrada salve salve em casa grande e senzala, “é preciso saber o seu lugar”. Inclusive para evitar que a direitinha raivosa reavive as chamas que alimentam a luta de classes ou obstrua o próximo aumento do salário mínimo.

Como a crônica nunca invadiu o latifúndio alheio, tampouco compactuou com o lobo mau (que, ao amanhecer, os caninos sujos de sangue, atende pelo nome de Diogo Mainardi), uma das delícias para quem gosta de se espichar no mundo, é ler boas histórias – inclusive como uma forma de combater a cara feia daqueles que desconhecem a sabedoria proposta pelo poeminha do Eduardo Kac: “Para curar um amor platônico / só mesmo uma trepada homérica”.

Que tal começar com algum Fernando Sabino? Não é preciso escolher, qualquer um dos seus livros está repleto de “quero mais”, o cara sabia das coisas e escrevia como se estivesse conversando com o leitor, aquela mistura de sabedoria e bom humor que só os gênios conseguem reunir.

Ou Aldir Blanc e Ivan Lessa? Aldir Blanc, náufrago de boleros e sambas-canções (“Eu hoje me embriagando / de uísque com guaraná / ouvi tua voz murmurando: / são dois pra lá, dois pra cá”), fez questão de colocar na lâmina do microscópio social a verdadeira tragédia suburbana: churrasco no quintal, cerveja gelada, palavrões e a sadia sacanagem com a vítima que estiver de plantão. E, óbvio, um imenso foda-se para o politicamente correto! Ivan Lessa é um pouco diferente: com um texto mais aristocrático, nunca negou as raízes de quem nasceu em berço de ouro e leu tudo antes dos vinte anos – agora, olhando as ruínas, cospe sabedoria nos menos aquinhoados. Pois é, com esses dois sujeitos todo cuidado é pouco, toda palavra é armadilha, “Você conhece o Lochas?” “Aquele que...”

Ou Antonio Maria e Stanislau Ponte Preta? Nos textos dessa distinta dupla, as dores de corno são passageiras habituais do bonde que leva os cafundós do Judas até o lugar onde o diabo perdeu as botas. Nesse cenário fofo, não dá para evitar a parada obrigatória, algum boteco sórdido, onde, ao final da noite, muitos guerreiros tentam afogar as mágoas com martelinhos de pinga com mentruz, ou, se o sujeito ainda dispuser de alguma força, no corpo de alguma das “certinhas do Lalau”, verdadeiro bilhete de loteria premiado (aquele mesmo que tantas vezes ficou para trás, acenando promessas).

Também é possível ler alguma coisa do Luis Fernando Veríssimo, prato cheio para quem gosta de humor pasteurizado, revestido com o verniz intelectual pequeno-burguês, típico de quem, na infância, sempre teve dinheiro para completar o álbum de figurinhas. Pelo mesmo caminho segue um escritor de qualidade, apesar de chatinho: Rubem Braga. Esbanjando uma lírica que sempre defendeu que o Rio de Janeiro é o umbigo do mundo, o ilustre cronista definitivamente desconhecia o que significa morar em palafita, andar de pés descalços por não ter dinheiro para comprar chinelo ou as delícias de roubar manga (como fez tantas vezes o Carlos Heitor Cony, que, guardadas as devidas proporções, é vinho de outra pipa, safra nobre, item de colecionador).

Há outros cronistas. Claro que há. Um punhado de humoristas, um caminhão de trágicos. Além dos “mais ou menos” – desses há milhares, bilhões. É cronista que não acaba mais, Deus nos acuda! De qualquer maneira, uma seleção de craques poderia ser escalada assim: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, José Carlos de Oliveira, Roberto Drummond, Nelson Rodrigues, Lourenço Diaféria, João Ubaldo Ribeiro, Raquel de Queiroz, Millor Fernandes. Na reserva: Raul Drewnick, Maria Rita Kehl, Zuenir Ventura, Mário Prata, Marcelo Rubens Paiva, Martha Medeiros e Danuza Leão, entre tantos outros.

Por essas e outras, muitas outras, só nos resta lembrar Fernando Sabino, que, em momento ternurinha, parodiou um verso de Manuel Bandeira, e escreveu que queria que as suas crônicas fossem puras como um sorriso. Nunca me pareceu que estivesse pedindo algum absurdo.


*Raul José Matos de Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) é Doutor em Teoria da Literatura.


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LEIA ABAIXO OUTROS TEXTOS DE RAUL ARRUDA:

 


* O medo do escritor na hora do pênalti
* Vampirizando o Vampiro
* Meu irmão, meu inimigo
* Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera
* Vozes da solidão, vozes da ilusão
* Os Espiões, de Luis Fernando Veríssimo
* Caim e Saramago olham para o mundo
* Pornografia, erotismo e outras sacanagens
* Machado de Assis foi o Michael Jackson do século XIX
* Você leu o livro do Chico?
* Não quero mais saber do realismo que não é libertação
* O elefante
* Para início de conversa


 

 

 O MEDO DO ESCRITOR NA HORA DO PÊNALTI
(Futebol e literatura)
por Raul José Matos de Arruda Filho*


Falta um “passe de letra” na literatura brasileira. Por alguma razão muito peculiar, difícil de ser explicada, raros são os livros de ficção sobre o futebol. Talvez seja porque as deficiências da arte de contar uma boa história se mostram ainda maiores quando o assunto é de domínio público, talvez seja apenas o bom e velho preconceito de abordar um tema popular. Muitos escritores sonham com a fama, com dinheiro e com uma vida luxuosa que somente é possível nas miragens produzidas pelo mundo ficcional. Ao mesmo tempo, por uma desses medos que somente 20 anos de psicanálise explicam, as análises políticas causam urticária nos escritores brasileiros. E, talvez esteja ai o “x” da questão, futebol e política são companheiros de viagem, o “ópio do povo” ainda é capaz de causar estragos naquele mundinho “Poliana moça” que foi idealizado pelos setores mais conservadores da nossa sociedade. Desta forma, certos temas (futebol, carnaval, repressão política) são relegados a um segundo plano, como se fossem “menores” ou então destinados aos que não possuem imaginação. Quem procurar por bibliografia ficcional sobre essas questões vai ter que se contentar com migalhas.

No caso do futebol, como se fosse compensação, as prateleiras das livrarias estão cheias de periféricos: biografias de jogadores, histórias dos clubes e alguns ensaios sociológicos sobre o tema.

A coletânea “22 contistas em campo” (Ed. Ediouro, 2006), organizada por Flávio Moreira da Costa, é uma honrosa exceção nesse 0 x 0 de criatividade. Exemplo clássico daquele tipo de criatura que nasceu anoréxica e, com o passar do tempo, foi adquirindo massa muscular (como um desses jogadores de clube grande: no café da manhã, toddy e esteróide), a última versão de um livro que já teve várias edições e nomes, contém vários gols de placa, digo, textos antológicos sobre o assunto: Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Marcos Rey, Edilberto Coutinho, entre outros craques. Infelizmente, como em qualquer seleção, a lista daqueles que não foram convocados induz o torcedor (no caso, o leitor) a acreditar que o desempenho do time poderia ser melhor – e o interessantíssimo “Flamengo”, de Jeferson Ribeiro de Andrade, é uma das ausências mais expressivas.

Comprovando que futebol também é assunto de menina, a jornalista Clara Arreguy não teve medo e aceitou bater uma bolinha com a rapaziada. Seu divertido romance “Segunda divisão” (Ed. Lamparina, 2005) deveria ser eternizado no DVD dos grandes momentos do bravo esporte bretão, digo, da literatura sobre futebol. Escrito em uma linguagem acessível para qualquer pessoa que tenha interesse no tema ou na literatura, “Segunda divisão” brinca com os aspectos mais caricatos do futebol, ciente de que as “figurinhas carimbadas” do espetáculo (jogador, cartola e torcedor) constituem o filão da mina. Em alguns trechos, o romance lembra (ao longe) o primeiro “Boleiros”, belíssimo filme do Ugo Giorgetti.

De alguma forma, para o bem ou para o mal, um romance que está centrado na partida final da segunda divisão do campeonato brasileiro, e o seu entorno, comprova uma das frases ditas por um dos personagens do filme “Invictus”: “Rugby é um esporte de bárbaros, jogado por cavalheiros. Futebol é um esporte de cavalheiros, jogado por bárbaros”. Nesse sentido, “a paixão nacional” (que ecoa o fascismo das torcidas organizadas) é sempre lembrada como um fator atenuante, como uma desculpa, para algumas práticas comportamentais – como comprovou diversos episódios recentes, destaque ao horror que envolveu o goleiro Bruno (Flamengo); com comprovam alguns momentos da vida pregressa de jogadores “exemplares”: Edmundo, Adriano, Eder, Neto, Casagrande, Wagner Love e tantos outros.

Em outro tom de voz, um bom momento literário da combinação literatura de ficção e futebol está no romance “O paraíso é bem bacana” (Ed. Companhia das Letras, 2006). Ao narrar um período da vida de um jogador brasileiro (negro, semi-analfabeto, convertido ao islamismo e, esse é um complicador importante, obcecado por sexo), que está preso a uma cama de hospital em Berlim, André Sant’Anna quase consegui colocar a bola lá onde a coruja dorme. Quase. De qualquer maneira esse romance consegue captar algumas nuanças esportivas particularmente interessantes.

Apesar de parte da torcida protestar de forma veemente, o romance de André Sant’Anna foi flagrado em impedimento. No Brasil, onde o índice de leitura é pequeno, 451 páginas assustam muita gente. Além disso, como se não bastasse, há um agravante significativo: a linguagem. Sant’Anna ambiciona ser uma espécie de James Joyce tupiniquim. Então, fiel ao estilo que o consagrou em outros livros, salpicou o seu romance com vários monólogos interiores, repetições estilísticas, parágrafos editados em bloco maciço e – paradoxo dos paradoxos! – diálogos que mimetizam a linguagem chula, menos instruída do jogador de futebol. O leitor comum vê aquilo e prefere abandonar o estádio, digo, o livro.

No primeiro parágrafo deste texto, afirmei que faltava um “passe de letra” na literatura brasileira. Menti. O conjunto de crônicas de Flávio Carneiro, “Passe de Letra” (Ed. Rocco, 2009), é um passeio sentimental por um tempo que só existe/resiste na memória. Equilibrando-se na corda tênue que divide as lembranças e a invenção, Flávio Carneiro dribla os adversários, descobre espaços para avançar e, como sói acontecer em partidas reais, faz alguns gols. Não é pouco.
Somando tudo, resta-nos a triste constatação de que misturar futebol e literatura não dá samba – nem goleada. Falta ao escritor brasileiro, e aos seus personagens, aquele jeito moleque dos “meninos da Vila”, a ambição de ultrapassar o marcador, uma pedalada, um lençol, um faz que vai mas não vai, pode ir sozinho, o meu caminho é outro, o ideal é você ficar olhando, o meu nome é alegria e, como dizia Garrincha, o teu é “João”. Enfim, o velho Nelson Rodrigues é quem tinha razão: “não há um único e escasso personagem de romance, neste País, que saiba cobrar um escanteio”.

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*Raul José Matos de Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) é Doutor em Teoria da Literatura.


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Vampirizando o vampiro
(Julho/2010)
por Raul José Matos de Arruda Filho*

O mundo literário brasileiro, como comprova recente artigo de Flora Süssekind, “A crítica como papel de bala”, detesta polêmicas, prefere a calmaria. Nos últimos séculos, houve, aqui e ali, algumas trocas de insultos, rusgas, discordâncias; mas, na média, imperam os tapinhas nas costas e os sorrisos festivos. Todos são amigos de todos e ninguém denigre (em público) o trabalho alheio. Somos cordiais, amáveis, carinhosos.

Somos? Talvez. O escritor, crítico literário e professor universitário Miguel Sanchez Neto discorda. O romance “Chá das cinco com o vampiro” foi o pretexto que ele encontrou para acertar contas com o mundo literário paranaense.

Nas primeiras páginas, uma descoberta desconcertante: Dalton Trevisan, também conhecido como o “vampiro de Curitiba”, detesta sangue e adora chocolate – a imagem de filetes de cacau escorrendo pelos caninos do Drácula brasileiro é, talvez, a melhor piada, entre as tantas que estão esparramadas em um livro sem graça. Não necessariamente desgraçado, apenas amargo. Há quem goste.

Fundindo memória e ficção, confundindo o real e o imaginário, sem saber se escreveu biografia ou romance, Miguel Sanchez Neto resolveu publicar o livro que muita gente acreditava tratar-se de uma lenda literária. Utilizando-se de um axioma de Aaron Ninzowitsch, o célebre campeão de xadrez, “a ameaça é mais forte do que a sua execução”, durante algum tempo a alegria de Sanchez Neto foi causar insônia nos outros. Agora, abertas as portas do castelo mal-assombrado, o que parecia desagradável revelou-se pesadelo.

Construído com um misto de “bildungsroman” (romance de formação) e roman à clef (formula utilizada por quem quer tratar de questões pessoais utilizando nomes fictícios para acontecimentos e/ou pessoas reais), cerca de um terço de “Chá das cinco com o vampiro” está centrado na amizade que Roberto (Beto) Nunes, digo, Miguel Sanchez Neto, cultivou com Geraldo Trentini, digo, Dalton Trevisan. O segundo terço se ocupa do esforço do rapaz talentoso, que, para vencer na vida, precisa ir morar na capital. No último segmento, breve descrição da vida literária em Curitiba.

Sob o ponto de vista da construção narrativa, o romance está dividido em dezenas de capítulos, onde avanços e recuos no fluxo temporal contribuem para a dinâmica do texto. Quem contou diz que o recurso foi utilizado 41 vezes.

Ciente de que o mundo em que vivemos, “a sociedade do espetáculo’, como gostava de dizer Guy Debord, tem especial preferência por fofoca, ingratidão, maledicência, vida pessoal mal resolvida, Miguel Sanchez Neto, ao escrever o romance, não economizou nesses ingredientes. Depois, jogou tudo em um caldeirão fervente e serviu a gororoba para a plebe ignara como se fosse “haute cuisine”. Nenhuma novidade, o mundo literário está cheio de... deveria escrever “charlatões”, não vou, prefiro usar outro adjetivo: espertos. Afinal, vampirizar o vampiro é, no mínimo, uma ironia interessante.

De qualquer forma, somando as qualidades e diminuindo os defeitos, o texto não passa de uma metáfora banal desses joguinhos perversos protagonizados por adolescentes que, em ritmo “Gossip girls”, adoram falar mal uns dos outros, fazer intrigas e se meter na vida alheia. Se fosse criado no formato multimídia, provavelmente o romance teria “link” para vídeos escabrosos postados no You Tube.

O romance de Miguel Sanchez Neto é fluído, possui qualidades e, embora pareça paradoxal, é fácil de ser esquecido. Extraída a presença (e o entorno) de Dalton Trevisan, o texto resulta vazio, sem propósito, inclusive porque a Literatura, com “L” maiúsculo!, está aquém da descrição de picuínhas provincianas. Infelizmente, é exatamente por isso, pelo ressentimento e pelo desfile das vaidades, que “Chá das cinco com o vampiro” jamais acumulará poeira nas estantes. Se depender daqueles que estão retratados no livro, o texto há-de ser queimado em praça pública – o corpo do autor fazendo companhia para 285 páginas de puro veneno.

Valério Chaves, Valter Marcondes, Orlando Capote, K, Uílcon Branco e Antonio Akel são as máscaras onde o autor escondeu Valêncio Xavier, Wilson Martins, Fábio Campana, José Castelo, Wilson Bueno e Jamil Snege, respectivamente. Somente o “Turco” recebe palavras agradáveis. Para os demais, o rigor da lei, ou melhor, do julgamento literário de um crítico cítrico que se recusa a compactuar com as “panelinhas” e, que, do alto de seu inflado ego, acredita poder separar o joio do trigo. Similar a um feitor de escravos, chibata na mão, Miguel Sanchez Neto não perdoa os desafetos. Delata a vaidade daquele que enche a casa de livros e não consegue escrever uma linha de valor. Ridiculariza com “o jornalista que se acha escritor experimental por fazer colagens com desenhos e fotos de velhas revistas e escrever sob elas um amontoado de asneiras”. Lembra que fulano e beltrano são assíduos freqüentadores de saunas homossexuais. Sem saber controlar a fúria, atropela a tudo e a todos, inclusive o garçon da confeitaria Schaffer – prova inequívoca de que a mentalidade neurótica não consegue separar o opressor do oprimido.

No que se refere ao Dalton Trevisan, a diversão é garantida – inclusive porque o Mestre, quando soube da existência do romance, escreveu um poema mal-educado sobre o discípulo (ver abaixo). Algumas das idiossincrasias do “vampiro” causam no leitor aquela compulsão de acidente rodoviário: as imagens são horríveis, mas ninguém consegue desviar o olhar. Distribuindo o elogio de praxe (“broinhas de fubá mimoso, que se derretem na boca”), comprando enredos para os seus contos (“– Já paguei para um rapaz colher as histórias deles”) ou contratando alguém para roubar os seus livros da Biblioteca Pública (“Um livro só fica pronto quando o autor morre. Até lá, vamos escrevendo e todas as edições anteriores são apenas rascunhos”), Trevisan emerge do texto como um velho aflito que odeia fotógrafos, que alimenta vaidades masculinas sonhando com mulheres jovens e que vive saudoso de um passado que, assim como as máquinas de escrever, não pode mais ser recuperado.

“Se você despreza o pai, a adolescência fica mais fácil”, observa o narrador, quase repetindo aforismo de Jean-Paul Sartre: “o homem que escreve para se vingar, sabe muito bem que não se vinga, mas é o desejo de vingança que o faz escrever”. Desde os gregos ninguém contesta que alguns filhos desejam a morte do Pai. Como o pai “real” de Beto Nunes é, guardadas as devidas proporções, tão tirânico quanto o pai “simbólico” (Geraldo Trentini), ninguém fica surpreso quando Miguel Sanchez Neto, (procurando se libertar da herança familiar) descreve o declínio físico e moral daquele que se recusou a pronunciar a declaração de amor que todo filho sonha ouvir. Em outras palavras: como essa tolice de carência afetiva, típica de quem é incapaz de resolver problemas psicológicos elementares, não dá direito à medicação tarja preta, Sanchez Neto escreveu e publicou “Chá das cinco com o vampiro”.

Na parte mais pessoal do romance, pouca coisa se salva. A descrição da vida familiar de Beto Nunes, antes de Curitiba, poderia ficar fora da narrativa, pois pouco acrescenta – principalmente nos trechos em que o narrador (encharcado de constrangedor sentimentalismo suburbano) faz questão de proclamar a sua potência sexual (emulando o estilo dos contos de Dalton Trevisan; contrastando a virilidade do jovem protagonista com a decadência física do velho escritor). Para total constrangimento do leitor, existe, entre tantas páginas supérfluas, uma simulação de cena clássica do filme “American pie”. Éca!


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Hiena papuda necrófila
traveca de araponga louca da meia noite

mente na vírgula mente no pingo do i
mente de bico fechado mente na carta aberta
chorrilho merdoso de intrigas e falsidade

caráter sem jaça de escorpião
filho adotivo espiritual de Caim

delator premiado informa dedura
a desonra, ó cagueta, é o teu butim
fora, traidor de um amigo! rua, olheiro maldito!

no teu coração pesteado
rondam lobos de inveja
na tua alma leprosa
uivam os chacais da infâmia

Judas que se vendeu por trinta lentilhas
uma corda uma figueira seca

se não for à figueira seca
a figueira e o laço da corda
fatal virão logo até você

(poema publicado em 2006, quando Dalton Trevisan descobriu que Miguel Sanchez Neto estava escrevendo o romance “Chá das cinco com o vampiro”)

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*Raul José Matos de Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) é doutor em Teoria da Literatura.

 
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Meu irmão, meu inimigo
(Abril 2010)
por Raul Arruda*

Cenário: Rio de Janeiro. Enredo: irmãos gêmeos, de profissões e posições políticas diferentes, disputam o amor de mulher doente. Esta é uma história que se repete – embora muita gente não lembre exatamente onde a viu pela primeira vez.

Escondida atrás do aviso que consta de alguns livros ou filmes (“Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, localidades e incidentes são produtos da imaginação do autor ou são usados de forma ficcional. Qualquer semelhança com acontecimentos reais ou lugares, ou pessoas, vivas ou não, é mera coincidência”), uma das tramas paralelas da novela “Viver a vida”, da Rede Globo de Televisão, está centralizada na “reinterpretação” de um dos grandes temas humanos: a rivalidade fraterna. Embora o enfoque do triângulo amoroso Miguel, Luciana e Jorge não seja original, nem pretenda sê-lo, é interessante contrastá-lo com uma observação de Jean-François Lyotard: “As relações familiares são os lugares privilegiados da tragédia”.
Talvez pensando no poder explosivo (e, ao mesmo tempo, aglutinador) das tragédias, o autor da trama televisiva adota uma posição contraria ao famoso conselho da Consulesa Elizabeth Kröger Buddenbrook, personagem do romance “Os Buddenbrook”, de Thomas Mann, “É até possível que irmãos se odeiem e se desprezem; isso acontece, embora pareça horroroso. Mas não se fala nisso. Ninguém precisa saber dessas coisas”.

Ao mostrar o conflito entre os gêmeos de uma forma brutal, beirando o desagradável – como convém a um folhetim que almeja ser realista, quase fotográfico –, a trama televisiva, com um pé nas questões essenciais da modernidade, revela atrelamento com algumas “rupturas” (que não rompem com nada, embora estejam embrulhadas em papel para presente “diferenciado”). Como ninguém se engana com os interesses que movem a indústria televisiva, o objetivo maior da novela (de qualquer novela) é o índice de audiência – e isso explica, em parte, o porquê do clichê irmão bonzinho versus irmão malvado ter sido retirado de cena – a idéia é mostrar que os dois personagens são “humanos”, e isso quer dizer que são passíveis de falhas e de acertos. Unidos pela genética e separados por interesses divergentes, Miguel e Jorge, de forma ostensiva, ignoram o “Outro” e se utilizam do “amor” que sentem (ou que acreditam sentir) por Luciana para justificar ações que, em outras circunstâncias, seriam condenadas de forma veemente.

Como contraponto ao espetáculo apresentado na tela pequena, a literatura brasileira aborda a rivalidade fraterna entre gêmeos em dois grandes romances: Machado de Assis publicou “Esaú e Jacó” em 1904; Milton Hatoum retornou ao tema em 2000 com “Dois irmãos”.

Em “Esaú e Jacó”, os irmãos Pedro e Paulo são antagônicos desde o útero materno. Inteligentes, sabem que contrariar um ao outro pode render bons dividendos. Na infância, manipulam a família: “Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir à cara um do outro, na primeira ocasião. Isto que deveria ser um laço armado à ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele dia, mas também satisfação de um desejo intimo, profundo, necessário”.
Como Machado de Assis (provavelmente influenciado por Thomas Hobbes) estava convicto de que os laços sociais não são resultantes dos afetos, mas existem apenas para tornar possível a convivência social, colocou na trama um personagem para “controlar” a rebeldia dos gêmeos. José da Costa Marcondes Aires, diplomata aposentado, cavalheiro de “algumas virtudes e quase nenhum vício”, além de mentor dos rapazes, é também um esforçado professor da gentil arte da dissimulação (“... lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dois verbos parentes”). Sob a supervisão do Conselheiro Aires, Pedro e Paulo aprendem que a educação e as boas maneiras são a continuação da violência por outros meios e que quanto mais sutil for a forma com que se pratica a destruição do Outro, maior é o grau de civilização. Como o amor e o ódio são vasos comunicantes, o exercício pedagógico e socrático sofre um desvio: os gêmeos se apaixonam por Flora, típica donzela de narrativa romântica. A moça, embalada pela doce indecisão sobre a qual dos gêmeos entregaria a sua virtude, adoece, morre e deixa a todos na saudade. Desaparecido o objeto do desejo, os irmão sublimam a dor na política (na juventude, Pedro era monarquista; Paulo, republicano). Esse novo interesse mútuo proporciona combustível para outros confrontos, para reavivar velhas brigas – e para promover o entendimento.

No romance de Milton Hatoum, a gramática é de outra ordem. Yaqub e Omar, filhos de cristãos maronitas, moradores de Manaus, rompem com a farsa fraterna aos 13, 14 anos. Em uma sessão de cinema improvisada, uma pane no gerador elétrico resulta na abertura das janelas da sala. Omar vê Lívia beijando Yaqub. Tomado pela fúria, o Caçula quebra uma garrafa e, com caco de vidro, golpeia o irmão no rosto. Os pais dos gêmeos, sem saber como resolver o problema, enviam Yaqub ao Líbano. Durante os cinco anos em que passou no exílio, como em uma versão deturpada do mito do filho pródigo, o irmão mais velho foi privado do mundo familiar. Ao voltar ao Brasil, além da cicatriz no rosto, trazia no corpo e na mente as marcas do abandono. Ciente de que precisava construir um entorno afetivo que o protegesse, depois de concluir os estudos secundários, mudou-se para São Paulo. Casado com Lívia, estudou engenharia na Politécnica da USP.

Enquanto isso, em Manaus, no início dos anos 60, Omar metia-se em confusões, freqüentava bordéis, amanhecia na rua depois de bebedeiras intermináveis.

A incompatibilidade e o ódio entre os irmãos são semelhantes a meteoritos em rota de colisão. E se intensifica quando as questões ideológicas afloram. Na analise de Arthur Nestrovski, “Yaqub, por certo, não é o único descendente de libaneses formado na Escola Politécnica da USP, com vínculos com a ditadura e fazendo negócios escusos com empreiteiros”. Em contrapartida, destoando do hedonismo que pratica, Omar percebe que há algo de errado com o país. E, de uma maneira pouco ortodoxa, talvez consequente às lições que recebeu de seu amigo Antenor Laval, reage ao militarismo, à ordem e ao progresso.

Em resposta a uma carta que a mãe lhe enviara, pedindo tolerância, Yaqub escreve que “o atrito entre ele e Omar era um assunto dos dois, e acrescentou: “Oxalá seja resolvido com civilidade; se houver violência, será uma cena bíblica”. Ao ameaçar reviver o episódio Caim e Abel, Yaqub confirma que o ressentimento e a cicatriz na face estão ardendo. Por outro lado, Omar, que nunca foi um adepto da sutileza, rompe com a trégua na primeira oportunidade: em uma das visitas que Yaqub faz a Manaus, ciente de que sangue é a única forma de pagamento que aceitará para diminuir o ódio que sente, dá uma surra no irmão. O troco não demora: acusado de conspirar contra o governo militar, Omar precisa fugir. Preso, é condenado a quase três anos de prisão.

O narrador dessa tragédia é Nael, filho de Domingas, a empregada. E um dos principais motivos da rivalidade fraterna: um dos gêmeos é o seu pai. Para o desenvolvimento narrativo, esse é um ponto crucial: enquanto Omar é egoísta demais para querer um filho, Yaqub é casado com uma mulher estéril. No jogo de contrastes entre o aparente e o escondido, e sem grandes expectativas de revelar os segredos que se escondem nas dobras familiares, Nael, ao relatar o drama familiar, emoldurada nos desdobramentos políticos dos anos 60, tenta evitar que o esquecimento tome conta do passado – mesmo nos momentos em que a história que está contando se mostra opressiva, violenta, pouco racional.

Seja entre filhos da pátria, seja entre irmãos (gêmeos ou não) que se odeiam, todo conflito fraterno é, guardadas as devidas proporções, uma forma de negar o “Outro”, de não aceitar o “Outro”, aquele que destoa da “normalidade”, pois é diferente, estranho, incômodo. No entender de Susan Sontag, “o outro, mesmo quando não se trata do inimigo, só é visto como alguém para ser visto e não como alguém (como nós) que também vê”. Para alguns segmentos sociais, aceitar que o Outro também consegue ver (as vezes melhor ou de forma mais acurada) e interagir no contexto, inclusive com posições divergentes, contribuí para ampliar o desconforto e o conflito.

A isso se acresce um dado particularmente aterrador. O ambiente familiar, na maioria dos casos, não está estruturado para entender as relações fraternas. Quando o assunto é o relacionamento afetivo entre os filhos, os pais raramente conseguem perceber sinais de turbulência. Em nome da “família”, toleram pequenas transgressões, incentivam a competitividade e ignoram que o perigo pode estar escondido em lugar bem visível. Esquecem que os filhos podem aprender a odiar – e que, por serem incapazes de aceitarem de forma natural a diversidade, inventam o inimigo. Na maioria das vezes, a paternidade/maternidade alimenta a fantasia de que os desentendimentos fraternos são jogos criados para passar o tempo, para diminuir o tédio. Assim como a Consulesa Buddenbrook, preferem esconder a sujeira debaixo do tapete; assim como o Conselheiro Aires, preferem mascarar os conflitos.

Enfim, a fraternidade é um campo de batalha, onde qualquer descuido detona minas, reaviva ressentimentos, coloca exércitos em marcha, destrói a estabilidade – e, em última análise, possibilita excelente material para os estudos literários (cinematográficos, teatrais, televisivos,...).

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P.S.: Considerando que a cordialidade é uma das melhores qualidades da brasilidade, não será surpresa se a solução machadiana fosse adotada ao final da novela “Viver a vida: reconciliação entre Jorge e Miguel e morte de Luciana. Afinal, a unidade familiar sempre se mostrou mais importante do que um romancezinho barato. 

*(Raul Arruda Filho (
raul.arruda@gmail.com) é o autor de “Inventando o inimigo: fraternidade e literatura” (Florianópolis, UFSC, 2008. [Tese de doutorado]. Orientadora: Profª. Drª. Tânia Regina Oliveira Ramos).


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Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera
(Março 2010)
por Raul Arruda*

1

Embora a certidão de óbito ainda não esteja disponível para download na Internet, circulam (on-line and off-line) boatos sobre a morte da poesia. Chamadas para investigar o caso, as autoridades competentes (alegando necessidade profissional de perder tempo com outras tarefas) tornaram público, em nota oficial, que não farão declarações sobre o assunto. O mesmo procedimento administrativo foi adotado pelo Instituto de Medicina Legal: o cadáver ainda não foi encontrado, não é possível atestar a “causa mortis”.

Independente dos irresponsáveis por essa espetacular mentira, também chamada nas mesas de bares, restaurantes e similares de “a” verdade, a tragédia anunciada se cumpriu, basta abrir os olhos e ver: a poesia foi comer capim pela raiz. Artigos em jornais e revistas jamais alterarão a triste realidade – também não impedirão oportunistas de decretar luto oficial por três dias ou um minuto de silêncio antes do início de jogos de futebol. Órfãos e carpideiras, munidos de coragem, poemas e solidariedade, pronunciarão épicos discursos em saraus emotivos, sabedores de que a poesia cumpriu com a sua missão na Terra – não adianta choro nem vela, a poesia bateu com as botas.

Não é brincadeira: a poesia está versejando em outras paragens, em outras pastagens. Com o rosto oscilando entre a sisudez e a gargalhada, em razão do mundo litero-alcoólico em que habitamos estar repleto de burros e capim, não é possível deixar de constata o óbvio, o inequívoco, o reles e o comum: a poesia se transformou em banquete dos vermes.

Inutensílios a ocupar o espaço do home teather, todos os livros de poesia estão sendo despejados das estantes e, hoje ou amanhã, compartilharão a vala comum com as novas bugigangas tecnológicas (e-book, Kindle, Sony Reader – além de milhares de gadget similares, destinadas a distraírem as “crianças”).

Vendidos como papel para reciclagem, “Estrela da vida inteira” e “Claro enigma” terão o mesmo destino dos escritos de João Cabral de Melo Neto, Francisco Alvim e Gonçalves Dias. Quase nos fundos da sala, abandonado sobre uma mesa, um exemplar de “Poesia Reunida”, de Orides Fontela, aguarda que o destino se cumpra.

2

Nessa área pastosa que os teóricos chamam de a-pós-o-moderno, quem é o leitor de poesia? Eu não sou! Faz séculos que não compro poesia. De vez em quando me pego folheando velhas antologias, livros maltratados pelo tempo e pelas minhas mãos. No embalo lírico, vou lembrando oportunidades tolas em que tentei “dentro da tua orelha fria / dizer segredos / de liqüidificador”, Vinícius de Moraes era tiro-e-queda quando se estava de olho em alguma namorada em potencial. Mais tarde, com as mesmas más intenções, o caminho das pedras era decorar Adélia Prado e, entre um gole de vinho (sim, o padrão das alucinações também tinha melhorado) e o declamar de verso “na medida”, o mundo parecia ser um imenso parque de diversões. Hoje, salvo as raras exceções que confirmam a regra, não compro nem mesmo aqueles livros artesanais, sínteses do encontro da necessidade com a beleza, vendidos de mão em mão, em mesas de botecos, no meio das ruas, o autor, travestido em cidadão de segunda (ou terceira) classe que não se alimenta a uma semana, e, sem jeito, implora por ajuda ou por prato de comida.

“Meu amor, minha flor, minha menina / solidão não se cura com aspirina” e você também não lê poesia! Não tente me enganar. Gosto disso não. Os versos vibram ao alcance do ouvido, no te olvides, basta prestar atenção, o ar entrando nos pulmões com suavidade, “a espinha ereta e o coração tranquilo” dizia aquela velha canção que tocava no rádio, confundindo música e poesia, embora todo (o) mundo soubesse que Chico Buarque e Caetano Veloso eram de outra galáxia.

O olhar passeando pela estante, descobrindo a distância intelectual entre o conhecimento e os livros que não estão lá, recupera a frase-desculpa das livrarias: “não vende”, diz o funcionário. No trânsito, ninguém se importa em atropelar versos de pé quebrado. Nos corredores dos shoppings centers nunca encontrei um pentâmetro elegíaco. Na manicura, longas conversas sobre o último capitulo da novela e nenhuma epicédio. Será que, em nova imagem do corpo em decomposição, a poesia se opõe ao “mercado”?

Se não for muito complicado, gostaria de saber quem está consumindo (a, com a) poesia? Para quem escrevem os poetas?

3

Não importa a opinião dos “politicamente corretos” (que, na falta de uma ação mais efetiva, tentam colocar culpa nos amantes dos livros de papel, enquanto fazendeiros, garimpeiros e especuladores derrubam e queimam milhares de hectares de florestas), a poesia perde parte da graça na tela do computador. Falta a possibilidade do contato táctil, olfativo e visual: abismos que abrigam a morte do pensamento, transformando a emoção em letras fosforescentes e mortas.

Outro dia, recebi mensagem eletrônica com parte daquele pastiche praticado pelo Fabrício Carpinejar. Não me empolguei, me pareceu coisa de quem (naquela hora neutra da madrugada em que todos os segredos são revelados) gostaria de ficar rico escrevendo livros de auto-ajuda. Gosto do Fabrício Corsaletti – apesar de acreditar que ele escreve prosa melhor do que poesia (leiam “Golpe de ar”!). Gosto de um ou outro contemporâneo, mas tenho vontade de rasgar (ou, em bom português, deletar) todos aquelas bobagens sentimentais ou herméticas que os sem imaginação costumam chamar de poesia.

4

Morta, a poesia não possui futuro. Aliás, nem no presente a poesia está presente. Somente o passado retém algumas informações sobre o poetar, esse verbo sem substância, sem sentido ou direção, um passo para a emoção, não importa se rimar tesão e coração for prova de falta de criatividade ou de inventividade. A poesia não tem utilidade – se tivesse, ah, se tivesse, estaria sendo vendida nas gôndolas dos supermercados, logo ali, ao lado da farinha, da massa de tomate, dos eletrodomésticos.

Cheio de nostalgia, lembro de outros tempos, a poesia não era preservada de participar da vida cotidiana, do meu, do teu, do nosso mal-estar/bem-estar. Era um altar onde todos se ajoelhavam e rezavam, os mistérios mais gozozos eram cultivados no jardim das delícias, frutos e frutas sumarentos, água na boca, o pecado ao alcance de um verso, sempre é mais gostoso quando desafiamos deus ou o perigo.

5

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável / enterro de tua última quimera”, afirma, envolta em chamas, a fênix, prevendo, de uma maneira muito pessoal, que – contra tudo, contra todos – a poesia ainda é ponto/ponta de resistência, forma pouco espessa/expressa de dizer não ou sim ou talvez ou manifestar sentimentos ou revelar a nudez do rei ou inventar amores, dores e lesões, suspiro diante do inefável ou, entre o sossego e a ansiedade, perguntar: “Posso comparar-te a um dia de verão?” (“Shall I compare thee to a summer’s day?”, Shakespeare, soneto XVIII). De alguma maneira, no lento escoar dos sons fracos e francos da (des)humanidade, com o mesmo de entusiasmo de Ana Cristina declarando que “estou bonita que é um desperdício”, chegará um alento, bandeira a ser hasteada no céu límpido: “Assim eu quereria o meu último poema // Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais”.

*Raul Arruda Filho (
raul.arruda@gmail.com), poeta aposentado, sonha com tempos melhores.

 

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Vozes da solidão, vozes da ilusão
(ou uma leitura de “Sinuca debaixo d’água”, de Carol Bensimon)
(Fev.2010)
por Raul Arruda*

Uma das matérias-primas da literatura é a dor. Ou melhor, a manipulação sofisticada do sofrimento. E o uso das palavras “manipulação” e “sofisticada” na mesma frase não é acidente ou descuido. Seguindo o conselho clássico de André Gide, “não se faz literatura com boas intenções”, em alguns momentos (ficcionais ou não) há a necessidade de “inventar” incômodos, inquietações e suplícios. Mesmo nos casos em que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, como cantou Caetano Veloso, parte da tarefa literária consiste em transitar por patamares resultantes de situações limítrofes. Essa é uma das muitas formas com que o ser humano contorna a repressão emocional e transforma o tédio e a mediocridade em aventura épica. 

Histórias felizes raramente resultam em literatura de boa qualidade. Por outro lado, finais felizes são aceitáveis (de vez em quando). Como sabe qualquer aprendiz de filósofo, a infelicidade está rodeada pela esperança: mesmo que o “refresco” não dure mais do que um abrir e fechar de olhos, é com esse cobertor que se atravessa o inverno/inferno formado pelo medo.

O romance “Sinuca debaixo d’água”, de Carol Bensimon, descreve as nuanças de um desses momentos cruciais: a impossibilidade de superar o luto. Apegados a um contexto que foi subtraído pela morte, todos os personagens da narrativa alimentam visões deformadas de um passado insepulto. Como se estivesse cultivando jardim, para poder brincar de esconde-esconde entre as muitas adversidades do existir, o romance coloca em destaque a precariedade da vida, o mundo em ruínas, lugar onde todos se sentem desprotegidos. E isso resulta em um texto emocionalmente ambíguo, incapaz de atrair simpatia do leitor: ao enfatizar o significado da perda, “Sinuca debaixo d’água” potencializa a inutilidade de procurar por algum alívio.

Carol Bensimon (que havia publicado, em 2008, um livro de contos muito acima da média nacional, “Pó de parede”) provavelmente se sentiu desconfortável para contar uma história longa, dessas que precisam ter começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem). Seja como fuga, seja como esforço criativo, escolheu um formato pouco ortodoxo de estrutura narrativa para o seu primeiro romance. Com a ajuda de sete narradores diferentes (Bernardo, Camilo, Polaco, Helena, Gustavo, Lucas e Santiago), que se alternam nas chamadas dos capítulos, alguns aparecendo um pouco mais do que outros, a narrativa reconstrói o entorno de Antônia e o acidente automobilístico que a vitimou. O romance é construído por depoimentos em primeira pessoa, muitas vezes na forma de monólogo interior. Desta forma, o empilhamento de detalhes pessoais dos personagens/narradores não ajuda no desenvolvimento do tema. Muito pelo contrário, o tom adotado por todos os personagens/narradores é sombrio, pesado, cheio de autocomiseração, como se a própria dor anulasse o sofrimento. O que deveria ser intensidade, em alguns momentos é apenas deprimente.

Além disso, o fluxo contínuo de lembranças, tentativa pífia de fornecer alguma explicação para a insensatez da morte, se assemelha a uma redoma de vidro, construída para separar mundos ou histórias. O envenenamento progressivo da mente faz com que cada um dos personagens/narradores centralize a sua visão no mundo alienado da perda. Solitários, sem nenhuma disposição para a solidariedade ou para a ternura, concluem que não há possibilidades de redenção e que a dor é um sentimento intransferível. Sintomaticamente, os personagens/narradores raramente conversam entre si. Como se estivessem jogando sinuca contra o destino, os personagens/narradores “matam” as bolas em caçapas inexistentes.

Evocando posturas filosóficas antagônicas, o existencialismo (diluído em doses maciças de niilismo) e o sadomasoquismo, “Sinuca debaixo d’água” não consegue obter empatia: é difícil gostar da dor em excesso. Entre o flagelo masoquista das recordações e o olhar desesperançado dos personagens/narradores, o leitor precisa sobreviver a uma narrativa desconectada com qualquer coisa que não seja o sofrimento.

No plano teórico, o romance de Carol Bensimon contém um problema significativo: embora o livro seja divido em capítulos, onde personagens/narradores diferentes apresentam ou complementam o enredo, quase todos eles possuem formação intelectual da classe burguesa, discutem a razão afetiva com argumentos similares e, salvo em questões muito pontuais, são todos a mesma pessoa. Falta diversidade entre os personagens, falta uma marca que os diferencie. Todos os personagens/narradores cospem frases elaboradas (inclusive Lucas, que é um menino de menos de dez anos: “Todos os pais adoram praticar o famoso toque de recolher, e óbvio que são eles que controlam a hora e os filhos nunca ganham relógio de pulso no Natal, o que me faz pensar que os pais trapaceiam o ano inteiro”), pequenas jóias espalhadas pelo texto como se fossem banalidades que fornecem um novo colorido ao real, esse mesmo que a narrativa persegue, imaginando-o fotográfico, verossímil, mas que não se completa, porque não é a peça que está faltando no quebra-cabeça narrativo.

Mas não é apenas a questão da verossimilhança que está em discussão. “Sinuca debaixo d’água” é incapaz de resolver uma das questões elementares da Teoria da Literatura: a posição do narrador. Para o leitor que não se deixa manipular pela pirotecnia técnica, a estrutura escolhida não passa de puro artifício/artificialismo de carpintaria literária. A escolha de vários narradores para o andamento textual, em lugar de apresentar um posicionamento oblíquo para o enredo, mascara a existência de um super-narrador, escondido por trás das diversas vozes (os personagens/narradores), e que, semelhante a um deus onipresente, onipotente e onisciente, manipula a vazão do fluxo de informações.

Como o livro foi financiado pela Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária, a necessidade de cumprir prazos talvez não tenha contribuído para um acabamento mais preciso/precioso. Se a escritora tivesse deixado o romance “dormir” na gaveta por uns seis meses (no mínimo), provavelmente o texto ganharia uma boa revisão, e isso resultaria em substancial diferença – para melhor! Da forma com que foi publicado, o que deveria ser um romance polifônico se transformou em algarávia romanceada.

De qualquer maneira, voz literária com timbre diferenciado, Carol Bensimon encanta. E promete. Ao lado de Ana Paula Maia, Paloma Vidal, Beatriz Bracher, Tatiana Salem Levy, sem esquecer Zulmira Ribeiro Tavares, Elvira Vigna (que é ótima, apesar de quase desconhecida!), Ana Miranda, Nélida Piñon, e outras, participa da revolução que está ocorrendo na literatura brasileira. Aguardar – com ansiedade – por novos livros, por novas surpresas, não será tempo perdido.

Raul Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) é Doutor em Teoria da Literatura.

 

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“Os espiões”, de Luis Fernando Veríssimo
(Jan.2010)
por Raul Arruda*

A frase inicial de uma narrativa é tudo – ou nada. O leitor, se gostar da frase ou se for motivado pelas questões que o início do texto desperta, dificilmente abandonará o livro – sejam 50 ou 800 páginas. Se a abertura for insípida ou tola, o livro será fechado rapidamente, condenado a acumular mofo e poeira pelo resto de seus dias, provavelmente em alguma caixa, depositada no fundo da garagem, ao lado de outros objetos que ninguém quer. 

Considerando-se algum possível valor para essa tese, “Os espiões”, o último romance de Luis Fernando Veríssimo, está fadado a se tornar um best-seller. E isso quer dizer que não será surpresa se camelôs e donos de sebos começarem a vender cópias piratas, multiplicando o acesso do povo letrado a essa, na falta de melhor expressão, obra-prima. Além disso, como um pequeno acréscimo na mecânica comercial, há o risco de Paulo Coelho se fechar em copas, recusando doutos comentários sobre tão expressivo sucesso – inveja, pura inveja!, dirão os jornalistas culturais, pagos para comentar essa nova polêmica literária!

“Os espiões” começa assim: “Formei-me em letras e na bebida procuro esquecer”. Paráfrase escrachada de um verso de “O ébrio”, música de Vicente Celestino, a engraçadíssima declaração, além de revelar que o narrador está embebido em ressentimento profissional, também identifica o público a que se destina.

Depois de ler 142 páginas, o leitor se pergunta: o que sobra além da primeira frase? Pouco, muito pouco. Exemplo típico de narrativa que não consegue superar a primeira frase, “Os espiões” resiste ao senso crítico se escondendo atrás de uma daquelas fórmulas mágicas que caracterizam o romance policial de “grife” (Raymond Chandler, Dashiell Hammett). Como essa esperteza não possibilita o resultado esperado, em ritmo gourmet das letras, o autor temperou o texto com o que imagina ser o azeite extra-virgem do thriller modernoso (John le Carré, por exemplo). Como o texto ainda continuava insosso, o toque final, ou melhor, o toque que deveria ser “genial” está na salada que resulta das várias formas narrativas articuladas com lugares-comuns, frases coloquiais, diálogos televisivos e texto profissional.

Sobre esse último item, convém lembrar que Veríssimo é um escritor talentoso, que não poupa esforço criativo em seus textos. Mas..., desta vez, o resultado final está escorado em uma série de personagens caricatos (muitos aparecem e desaparecem sem muita explicação), que se movem de maneira insensata no meio de uma série de bobagens – e que não dizem nada ao leitor mais exigente, exceto que deve fechar o livro em qualquer página e ir fazer algo mais produtivo.

Veríssimo é um escritor datado, que escreve para a classe média média, quase envelhecida, e que ainda mostra pretensões em ascender aos paraísos do consumo capitalista. Pensando especificamente nos leitores dessa faixa etária e social, Luis Fernando costuma rechear os seus textos com citações superficiais, gotículas de “alta cultura”, momento mágico de cumplicidade com um leitor que (nesses tempos em que o Google e a Wikipedia achatam a cultura) abastece a sua ignorância “pesquisando” na Barsa ou no Tesouro da Juventude. Referências sobre Henry James, Sylvia Plath ou os mitos gregos fazem parte do arsenal de truques com que o ilusionista literário diverte a platéia. E assim, embriagado por imaginária cumplicidade intelectual, o leitor devora o texto rapidamente, sem perceber a manipulação, ou se sentindo “o rei da cocada preta” porque está entendendo “tudo”.

“Os espiões” é apenas mais um texto de entretenimento, cujo maior defeito está em se parecer com o que Veríssimo faz melhor: crônica. No meio da narrativa, o leitor é tomado pela sensação de “dèjá vu”, o retorno a algo que é familiar e que, por alguma razão inexplicável, não se consegue identificar com claridade. Talvez isso seja uma tradução da evidente frustração do Luis Fernando Veríssimo: a incapacidade para escrever um romance policial “sério”. Como se estivesse condenado ao sofrimento de Sísifo (carregar eternamente uma pedra morro acima), Veríssimo repete “ad aeternum” temas que ele desenvolveu anteriormente (“O jardim do diabo”, “Clube dos anjos”, “Borges e os orangotangos”, além de centenas de textos ligeiros, com ou sem o Ed Mort).

Além disso, como uma falha grosseira em um escritor que ganha o pão com as risadas de seus leitores, falta humor. Contrastado com o romance mais divertido do ano, “Pornopopéia”, do Reinaldo Moraes, “Os espiões” não passa de tolice infanto-juvenil. Enquanto o texto de Reinaldo Moraes é iconoclasta, politicamente incorreto e agressivo, o texto escrito por Veríssimo é quase carola, como se flertar com fantasias amorosas, mitos de salvar a dama em perigo, resultasse em algo engraçado – esquecendo que outros humoristas (ou o próprio Veríssimo) trabalharam essas situações em outras oportunidades, e de uma forma mais interessante.
“Os espiões” atinge o seu ponto máximo de inconsistência quando, sem nenhuma explicação razoável, o narrador resolve cultivar uma inoportuna abstinência alcoólica – mostrando que “a sério” o mundo não tem graça!

A grande lição que surge ao final da leitura é fornecida por um dos inúmeros personagens de “Os espiões”, o professor Fortuna: “... em vez de endeusar escritores, deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco”.
Resumo da ópera: presentearei algum desafeto com o meu exemplar de “Os espiões”.

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Essa é para quem gosta de histórias sobre as maneiras com que o capitalismo se apropria dos bens culturais, visando, sem o mínimo escrúpulo, obter lucro imediato: a editora Leya publicou uma nova edição de “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë. Neste país, onde os analfabetos funcionais são maioria esmagadora, “A história de uma paixão selvagem” (na definição de Anthony Burgess), estava merecendo uma nova edição. O que surpreende é a recomendação impressa na capa: “Livro favorito de Bella e Edward, da série Crepúsculo”. Dá vontade de chorar.

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*Em 2010, Raul Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) deseja para todos os leitores de www.escritoresdosul.com.br uma imensa e diversificada biblioteca, pois, como escreveu o Nelson de Oliveira, “Os livros, se não fizeram de mim um sábio, pelo menos não me deixam recuar nem esquecer que tenho uma missão a cumprir. A trilha da reta ignorância passa por incalculáveis leituras”.

 

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Caim e Saramago olham para o mundo
(Dez.2009)
por Raul Arruda*

Toda vez que o gajo resolve aprontar alguma, desafinando o coro dos contentes, saem faíscas, raios e trovões – tempestades esfarelam a atmosfera outrora pacífica, coisa pequena, uns oito pontos na escala Richter, nada que a mothernidade não consiga agüentar, viver no século XXI é para os fortes (e para os fracos).
Mas, tropeçando aqui ou ali, José, também conhecido como Saramago, é uma pessoa singular, modelo de bondade, como se fosse o equivalente humano dos pandas, modelo de agressividade, como se fosse uma representação dos ursos cinzentos. Comunista por opção, ateu convicto, escritor do primeiro time, intelectual, humanista, para surpresa geral, depois de ter publicado uma obra-prima (“A viagem do elefante”), Saramago voltou à carga com “Caim”. Será que esse cara não descansa? Ou está a fazer hora, antes do “descanso final”?

Por certo, depois que os analfabetos funcionais (e religiosos) conseguirem ler (ou colorir) as 172 páginas da versão publicada deste lado do oceano, haverá manifestações maléficas – por conta dos que detestaram. Por errado, depois de se divertirem à larga com a pilhéria, alguns fãs queimarão fogos chineses.

Além disso, sem economizar emoção, sem esconder o rosto, sem medo da vida ou da morte, Saramago, através de “Caim”, fez questão de mandar ao mundo literário (e religioso) um imenso phoda-se (“com pê agá e dois dês de toddy”, segundo a alegria alcoólica do Aldir Blanc). Aos 87 anos, chama de lampião a se extinguir por falta de querosene, o escritor continua a manifestar que levará o desentendimento que mantém com deus para a eternidade – se houver essa tal de eternidade. Talvez esteja ai o motivo de ter tornado pública a sua última bravura (bravata também é bom adjetivo). Em ritmo de farra, nesses tempos em que poucas coisas parecem ter alguma importância (descontadas as sujeiras da política, as relações espúrias de produção e consumo, os rituais da barbárie), o Saramago fez questão de esclarecer que ainda sabe brincar, que ainda sente vontade de puxar o rabo do gato só para ver o tamanho do miado.

Pois é, o pandego portuga escreve como gente grande, muitos aprendizes – quando crescerem – gostariam de ser igualzinho a ele, a possibilidade de escolher com denodo e talento verbos, substantivos e conjunções em tal ordem que só restará ao leitor esboçar um sorriso maroto, aplauso sem som, o reconhecimento de que a pena é mais poderosa que a espada (como balbuciou aquele sujeito ao sentir que a lâmina estava atravessando o seu estômago).

Saramago nasceu lá nos confins do Ribatejo, quase que ninguém encontra aquele fim de mundo nas garatujas cartográficas, tão longe fica, e que sequer seria lembrado se ele lá não tivesse sido depositado pela cegonha, perdão, se os genitores, em doces agarramentos papai-e-mamãe ou “dog style”, não houvessem fornicado à grande e de tal modo que, segundo os princípios elementares da biologia, outro resultado não poderia ocorrer (quer dizer, se olharmos para a tradição religiosa, não é possível excluir a participação do arcanjo Gabriel – ou do açougueiro – na confecção do infante. É para dirimir estas questiúnculas que a ciência evoluiu, dá-lhe exame de DNA e interrogatórios em Abu Ghraib, a verdade há de aparecer a qualquer minuto – embora saiba aquele outro José, o marido fiel da “virgem” Maria, “pai é quem cria”).

Tão logo Saramago viu-se senhor de si neste mundo imenso, cheio de salamaleques e vaidades vãs, foi logo agarrando a oportunidade, não se deve brincar em serviço, pois, que chato, alguns serviços não são brincadeiras, foi logo despejando uma série de impropérios contra esse senhor vingativo e impiedoso que os tolos chamam de deus. Distribuídas pelos livros que escreveu, um pouco mais aqui, um pouco menos ali, as acusações são interessantes, algumas clamam por boas gargalhadas, outras, conseqüência de ranço doutrinário político, permitem, no máximo, uma aquiescência branda, coisa de quem não quer perder o amigo por motivo frívolo.

“Caim” é um romance simples, quase linear, de vez em quando o narrador intrometido aparece para dar algum palpite, uma observação maldosa, uma alfinetada, nada muito sério, nada que tire (muito) sangue, anedotas estão espalhadas pelas páginas do texto, quem procurar encontrará, talvez ali ao lado, em alguma frase despretensiosa, talvez lá, lá onde somente os que dominam os artifícios da tecnologia de ponta podem localizar.

Desconstruindo o gênesis, livro inicial da mitologia católica, Saramago sente prazer em tocar – com força – a ferida, o dedo a cutucar exatamente onde dói mais. Por isso, com paciência, com determinação, vai construindo “uma espécie de palácio rústico de dois pisos, nada que se pareça a mafra, a versalhes ou buckingham, em que se afadigam dezenas de pedreiros e ajudas, estes carregando adobes às costas, aqueles assentando-os em fieiras regulares”. Na primeira parte da edificação está o firme propósito de se opor ao catolicismo, ao cristianismo, aos cultos incultos da religião, a esse senhor, deus, que “não suporta ver uma pessoa feliz” e freqüentemente abandona os seus filhos ao deus-dará. Na segunda, temos o percurso histórico, sátira pontilhada por referências aos contos da carochinha, um mais tolo do que o outro, pois é fácil “comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar”, basta lembrar a sandice que foi mandar Abraão, “tão filho da puta como o senhor”, imolar Isaac, transformando o menino em cordeiro, pois, como já havia sido comprovado anteriormente no episódio Caim e Abel, deus é carnívoro, detesta dietas vegetarianas. “Santo sacrilégio, Batman!”, disse, ou melhor, não disse, entre dentes, Saramago, sabedor que ele, Saramago, jamais deixaria escapar esse tipo de citação pop, mácula capaz de estragar a reputação do velho comunista, homem sério, sóbrio, escondido atrás daqueles óculos fora de moda, sempre pronto a disparar uma frase marxista bem calibrada.

Seguindo um conceito democrático (tratar mal a todos, indistintamente), Saramago promove em seus romances um oceano de vírgulas, ondas a espera do surfista (ou do leitor) que tenha fôlego e capacidade para extrair beleza do que é, a primeira vista, apenas perigo. Além disso, para não perder a mão herética, grafa os nomes de todas as personagens em minúsculas, como se continuasse, por conta própria, uma daquelas brincadeiras elaboradas pelo e. e. cummings (outra raridade, cromo carimbado e assinado, o pedal da bicicleta, poeta/poema a nos presentear com a sensação, digo, com a angústia de que nunca, nunca, conseguiremos completar o álbum de figurinhas).

Da mesma forma que Prometeu (ou Harry Potter), aquele que escreve precisa, de uma forma ou de outra, conviver e/ou esconder a marca na testa, vingança inequívoca do apetite desse deus que se diverte torturando os habitantes da terra. Errante, o escritor viaja pelo mundo (seja real, seja inventado), contando histórias, intercambiando experiências (como escreveu o Walter Benjamin), tentando, de acordo com as suas poucas possibilidades, desrespeitar o sagrado, triturar os dogmas, transformar o amargor em piada, distinguir a vida com um pouco de criação artística. Nesse sentido, como se fosse um herói sem pátria, Caim, a bordo de um “vulgar jerico e sem guia michelin”, transita por algumas passagens/paragens do mundo bíblico, para, entre tantas coisas, descobrir que “a vida de um deus não é tão fácil quanto vocês crêem, um deus não é senhor daquele contínuo quero, posso e mando que se imagina, nem sempre se pode ir direto aos fins”.

Comprovado que deus não possui todos os poderes que se imagina, Caim, nas páginas finais do livro, passageiro da arca de Noé, aposta em um novo apocalipse. A possibilidade de extinção da vida é, segundo os parâmetros políticos, um ato ingênuo, rebeldia adolescente, pois deus, se assim lhe apetecer, há-de criar novo ciclo humano. De qualquer forma, seja pelo anarquismo de Caim, seja pela prepotência divina, o aviso é inequívoco: “memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris” (lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás).

*Raul Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) levou um susto de bom tamanho com a literatura portuguesa quando leu, aos 15 anos, “A relíquia”, do Eça de Queiróz. Nunca conseguiu se recuperar.

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Pornografia, erotismo e outras sacanagens
(bisbilhotando a sexualidade feminina na literatura brasileira do século XXI)
(Nov.2009)
por Raul Arruda*

A literatura (e a vida, em geral) encontra um significativo impasse nas distinções básicas entre pornografia, erotismo e narrativas com conteúdo sexual. Embora essas classificações sejam fluídas (muitas vezes dependentes do sistema ideológico e cultural dominante e/ou de observações subjetivas – o que significa algum tipo de vínculo com as distorções produzidas pela história pessoal de cada leitor), surpreende constatar que a ignorância supera o esclarecimento.

Luisa Coelho, no prefácio que escreveu para o livro “Intimidades”, que reúne contos de cinco portuguesas e cinco brasileiras, adota critérios clássicos para definir pornografia e erotismo: “O discurso pornográfico é aquele que torna o ato sexual transparente, revelando aquilo que na sexualidade do dia-a-dia é invisível, numa estética hiper-realista, onde as cenas descritas são mais reais que o próprio real (acumulando uma grande quantidade de sinais que acabam por afastar a realidade), e em que o sexo surge sem relação com o sujeito, sem intimidade e sem alteridade”.

Defendendo que o discurso erótico faz “uma representação verbal mais completa de Eros, com todos os seus componentes, e não apenas como uma exploração grosseira e gratuita da libido”, Luisa Lobo mostra que existe uma preocupação literária crescente para que o olhar feminino remova parte da camada de pó que está assentada sobre a literatura. Ao promover um novo foco de análise, uma maneira menos óbvia de compreender e expressar as emoções, o feminino, além de libertar a literatura de algumas de suas amarras mais fortes, coloca em xeque uma questão cultural não resolvida: os homens acreditam, inclusive por razões históricas, ter o poder de expressar qualquer opinião sem criar escândalos, além de insistirem, de forma veemente, que a pornografia e o erotismo estão adstritos ao território masculino – e isso significa que ficam “constrangidos” quando a voz com carga libidinal mais intensa é a feminina. Seja por uma questão de disputa de poder, seja por inveja (da vagina ou do poder da palavra?), o masculino sucumbe ao velho fantasma fascista e não mede esforços para sublimar as vozes menos pudicas através de rótulos expressivos, pejorativos, pouco amistosos.

Ainda no plano teórico, uma das melhores distinções sobre o tema foi publicada, nos anos 80, na revista “Primeiro toque”, da Editora Brasiliense: “erótico é tudo que excita; pornográfico é tudo o que assusta”. Entre o que assusta e o que excita corre um filete muito tênue (como comprovam as narrativas góticas e os filmes de terror), mas a vida é assim mesmo, um pouco estranha, quase contraditória, muito confusa, agradavelmente complicada.

De qualquer forma, como um adendo a este tipo de pensamento, cabe lembrar que as narrativas rotuladas como pornográficas, obscenas, licenciosas, fesceninas e eróticas estão proibidas de freqüentar as “altas literaturas”. Com as famosas exceções de sempre (Marquês de Sade, George Bataille, Henry Miller, além de uns dois ou três outros pornógrafos eméritos), a tendência geral é a de se considerar como secundária toda literatura que evoca fantasias não-verbais de caráter sexual.

A literatura brasileira, encharcada pela água e o vinho do catolicismo, também prima pela adoção desse sistema de valores. E isso, muitas vezes resulta em grandes contradições, em equívocos lamentáveis e em gargalhadas muito saborosas. Uma situação muito interessante está no fato de que, atualmente, não existe mais espaço para “marchas por deus, pela pátria e pela família”, onde eram exorcizados os demônios mais perigosos, mais tentadores. Em lugar desses rituais públicos de contrição e fervor espiritual, a modernidade adotou como mascotes, uma quantidade assustadora de aprendizes de pastores evangélicos, que, em maior ou menor grau, sempre estão dispostos a proclamar que a pornografia é o equivalente ao fim dos tempos.

Sem entrar no mérito de quem considera os “catecismos” do Carlos Zéfiro uma representação de Sodoma e Gomorra, sem esquecer que algumas mulheres sempre escreveram sobre o erotismo (ver, entre tantos, “A casa da paixão”, de Nélida Piñon, ou “Sudário”, de Guiomar de Grammont), não é possível ignorar que esse tipo de interpretação possibilita o surgimento de uma “sacanagem” muito divertida: o rótulo “pornografia” como um trampolim para (in)certas “celebridades instantâneas”. Um exemplo clássico, na linha escândalo moderado, imitação barata de “Na cama com Madonna”, foi protagonizado pela cantora Syang (quem?), que publicou, em 2003, “No cio”, um livro de contos eróticos. Apesar do título provocativo e da cara-de-pau, a moça não teve o reconhecimento público que sonhava. E isso ocorreu, provavelmente, por um pequeno detalhe: Syang escreve muito mal.

Em oposição, o livro/depoimento “O doce veneno do escorpião”, “escrito” por Bruna Surfistinha, pode ser considerado um best-seller – e, para espanto geral, a sua versão cinematográfica não será um pornô hard-core, mas um filméco “família”! Elaborada inicialmente em um blog da Internet, a narrativa contou com a ajuda de um jornalista, que a transformou em livro. E o livro se transformou em sucesso comercial. Com uma linguagem acessível aos fãs do sexo manual, a ex-garota-de-programas alterna descrições gráficas bastante verossímeis de sua vida pessoal e profissional. Sem alimentar a ilusão de que, ao final de cada noite, vai encontrar o príncipe encantado e ciente de que caiu na “maioria das armadilhas do mundo”, Bruna não quis escrever um manual sobre o aprendizado sexual ou qualquer coisa do gênero (embora cometa o pecado de dar algumas dicas). Sabe que uma história de vida vale pelo que apresenta e não pelo que ambiciona representar. No teatro que constituí o mundo “real”, poucos têm talento para representar o mundo real.

De qualquer maneira, com centenas de problemas de estrutura, inclusive o infindável número de lugares-comuns, há algo de bom no livro de Bruna Surfistinha: sem se deter em análises sociológicas ou puritanas (apesar de, em um recurso que beira a ingenuidade mais medíocre, nomear as áreas sexuais apenas com a letra inicial da palavra, seguida de reticências), descreve a falta de glamour do mundo da prostituição. Simultaneamente, reafirma em diversos momentos que a existência humana precisa estar sintonizada com a diversão e o prazer. Esse movimento de adensamento entre a experiência concreta e a negação da ilusão romântica é o que faz de “O doce veneno do escorpião” um livro interessante. Ruim, mas interessante.

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As narrativas ficcionais femininas que, de uma forma ou de outra, descrevem um pouco da vida sexual das mulheres estão se multiplicando, algumas assim assim, outras um pouco piores. Exemplos não faltam: “Meus queridos cavalheiros” (Sonia Manski), “Amadora” (Ana Ferreira) e “A dama da solidão” (Paula Parisot) são boas leituras sobre o assunto. Mas, sem negar a qualidade de outras narrativas, duas merecem ser destacadas em separado. Em “A vida sexual da mulher feia” (Claudia Tajes), o poder corrosivo do humor destrói todos os fetiches sexuais, todos os sonhos românticos. Embora a narrativa seja muito engraçada, também é muito triste – há um quê de piedade excessiva que faz mal ao leitor nesse jogo-de-gato-e-rato que é a procura de parceiro(s).

“ Calcinhas no varal” (Sabina Anzuategui) tem proposta diferente: mostrar o horror em sua forma mais primitiva, o amor. Embora haja certa semelhança com textos mais desesperados (e lembrar “Quarta-feira de cinzas”, do Ethan Hawke, não é exagero), o texto de Sabina mergulha naquele ambiente em que a mulher se submete aos caprichos sexuais do amante, ato de submissão que traz em si o desapontamento, a insatisfação, a perda do prazer. Belo texto.

Raul Arruda raul.arruda@gmail.com

 

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Machado de Assis foi o Michael Jackson do século XIX
(Out.2009)
por Raul Arruda*

Joaquim Maria Machado de Assis foi o Michael Jackson do século XIX – e, sem exageros, em diferentes níveis. Nasceu negro (as almas mais caridosas, como se isso amenizasse a situação!, costumam afirmar que ele era mulato) e tentou – de todas as maneiras possíveis – mudar a cor de pele que a natureza lhe forneceu.

Considerando que as cirurgias “cosméticas” não existiam na época e que não precisou superar os traumas psicológicos causados pela despigmentação (vulgo vitiligo), Machado usou doses cavalares de alvejante literário para diminuir a sua aflição. Escreveu crônicas, poemas, romances, teatro, e, em um gesto típico de alpinismo social (que não passou desapercebido ao mundo que ele estava invadindo), fundou a Academia Brasileira de Letras. A sociedade remanescente do II Império, saudosa das ilusões literárias civilizadas que a corte dos Alcântaras nunca propiciara, aclamou a idéia como genial – pouco se importando com um fato elementar: era (ainda é) uma cópia miserável do modelo francês.

Algum tempo mais tarde, em uma das primeiras eleições da Academia, Machado mostrou que o embranquecimento social estava ligado com questões ideológicas: firmou posição inabalável contra a candidatura de Lima Barreto (que, entre tantos defeitos/qualidades, era alcoólatra e escritor brilhante – ah, também não era branco). Em outra ocasião, defendendo posições pouco literárias, Machado articulou a candidatura e a eleição de Mário de Alencar. Quem? Pois é, até os arqueólogos da literatura brasileira terão dificuldade para encontrar algum texto de qualidade do filho de José de Alencar. Questões de compadrio literário à parte, cabe lembrar que o moço era jovem e bonito – e Machado gostava de sua companhia.

Para eliminar boatos pouco respeitáveis (reabertos com a recente publicação de alguns ensaios do John Gledson) e compor uma imagem adequada às suas aspirações de intelectual, em determinada fase de sua vida Machado precisou casar. Apesar de inexistirem registros de patuscadas machadianas nos mais sifilíticos bordeis cariocas (o que fornece uma incerta credibilidade à tese especulativa de que o artista não era um grande adepto das artes praticadas nas alcovas), há quem diga que o “Bruxo do Cosme Velho” não foi uma espécie de Henry James (segundo alguns biógrafos mais bisbilhoteiros, morreu virgem dos dois lados). De qualquer forma, registre-se que Machado manifestou grande euforia quando conheceu a sua cara-metade. Carolina, moça não muito moça, cinco anos mais velha que o escritor, trazia como dote um bônus especial: na época, sabores finos para paladares refinados somente poderiam ser obtidos na Europa e a eleita para dividir o tálamo conjugal era recém-chegada de Portugal.

Essa história de amor/humor (que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado de sua miséria) está retratada em diversos poemas, crônicas, cartas e depoimentos de quem conheceu o casal – comprovando que os contos de fadas podem avançar na realidade, substituindo o pessimismo realista pelas maravilhas românticas. Ou seja, eles foram felizes para sempre, digo, até o derradeiro dia da separação (ver o soneto “À Carolina”, tributo poético de um viúvo inconsolável). Paralelo a toda essa fortuna conjugal, existem várias versões sobre um “drama de família” que parece ter sido o motivo da viagem de Carolina ao Rio de Janeiro. Os mais maldosos insinuam que a juventude da senhora fora repleta de fornicações em alguns prostíbulos de Lisboa. Décio Pignatari, em “Céu de lona”, sugere um aborto (o causador da infâmia seria um homem casado). Passeando entre a verdade e a mentira, todos os biógrafos “oficiais” de Machado são taxativos em afirmar que esses rumores não passam de calúnia de invejosos, nunca ninguém conseguiu provar coisa alguma, inclusive porque o comportamento de Carolina, ao lado do fidelíssimo consorte, foi irrepreensível.

Resolvido o problema das aparências e disfarçando a sua condição de eu-já-não-sou-o-que-eu-era-antes-de-me-tornar-branco, Machado aproveitou as circunstâncias e criou o seu próprio “moon walking”: escreveu vários romances, imersos em uma aura literária particular. Em capítulos curtos, cheios de interrupções por histórias paralelas (em que se misturam humor britânico, elegância francesa e o sempre bem-vindo tempero da cultura helênica), as narrativas são apresentadas ao leitor semiletrado do fim do século XIX e do início do século XX como algo divertido, fácil de ser digerido. Em alguns momentos, a prosa machadiana apresenta uma fluidez nunca antes vista (ou repetida) no Brasil. Machado escreve como se estivesse respirando. É algo que lhe é natural. Apesar disso, cabe ter cuidado com o canto da sereia – que nunca é saudável. Ficar maravilhado com a técnica do escritor não significa ignorar que Machado de Assis optou por defender (ou não defender, como dizem alguns hagiógrafos) posições muito “claras”: monarquista nos tempos do Império, sem demostrar sentimentos anti-republicanos nos tempos da República, camaleão sempre que surgiam dificuldades. São raros os momentos em que encontramos em seus livros discussões políticas sobre a época em que vivia (salvo questões muito pontuais). Sobre a abolição da escravatura, nem com microscópio se encontra uma opinião significativa. Em “Esaú e Jacó”, os primeiros anos da República são descritos como se tivessem a mesma importância de um vaso de flores a decorar a sala.

Escondido no ritmo fragmentário do folhetim, suporte em que todos os romances de Machado foram publicados originalmente, o estilo do Mestre possibilita boas alavancas para idéias maiores, muitas vezes situadas em lugares insuspeitos, talvez em uma frase perdida no meio do parágrafo, talvez em um título de capítulo que somente as mentes mais atiladas conseguiam/conseguem perceber. Ou melhor, é possível que esses momentos de brilhantismo talvez sequer existam, mas a possibilidade de haver algo sempre alimentou a suspeita de que a genialidade (esconder o banal atrás de inúmeras pistas falsas) não é para qualquer um. Por isso, mesclando a dissimulação e a esperteza, tentando proteger algumas deficiências, Machado foi construindo uma estratégia literária similar a uma teia de aranha: fios suspensos no ar a espera de alguma mosca desprevenida. Descoberto a receita do bolo, o Machado nunca mais passou fome.

Inclusive, porque, como membro amestrado da “working class”, vítima de várias enfermidades (gagueira e epilepsia, entre outras) e pouco predisposto a heroísmos militares (talvez por sentir ligeiro mal-estar ao ver sangue, principalmente o próprio sangue), preferiu ingressar no serviço público, profissão em que foi bem sucedido durante o II Império, não se sabe se por ter bons padrinhos ou por ter puxado o saco de algum membro da “nova nobreza” (que, na falta de “berço”, se sentia elevada socialmente gerenciando alguma sinecura estatal). Enfim, Machado teve uma trajetória profissional exemplar, modelo para o feijão-com-arroz que a pretensa intelectualidade brasileira (seja por ser menos aquinhoada, seja por ser mais indolente) aceita com a desculpa de que precisa sobreviver.

O mundo (e a literatura brasileira, em especial) é uma opereta e Machado de Assis, que construiu um mundo diferente daquele em que viveu, antecipou o grande espetáculo: Michael Jackson dançando e cantando “They don’t care about us” (suprema ironia abolicionista!, com o Olodum!) nas ruas das favelas cariocas.

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Uma das características que mais surpreende na análise literária brasileira é a ataraxia crítica. Salvo circunstâncias muito especiais, a hipocrisia impera e tempera o mundo das aparências, dos salamaleques e dos beija-mãos. Envoltos no incenso da mediocridade, raros são aqueles que enfrentam as questões cruciais ou os pontos nevrálgicos. Talvez essa seja uma das possíveis explicações para um interessante anacronismo: os dois mais importantes interpretes da obra de Machado de Assis não são brasileiros de nascimento – Roberto Schwarz nasceu na Áustria e John Gledson é inglês.

Mais do que de bons escritores, a literatura e a crítica brasileira precisam é de coragem. Enquanto isso não existir, os nossos romances, contos, poemas e ensaios críticos continuarão fornecendo carga para uma frota de caminhões com as figuras de linguagem que caracterizam o escapismo (metáforas, metonímias, elipses e hipérboles).

*Raul Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) sente particular apreço por dois dos romances “menores” da fase “maior” de Machado de Assis: “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”.

 

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Você leu o livro do Chico?
(Set.2009)
por Raul Arruda*

A pergunta está envolta por uma redoma retórica, mas admite o sempre bem-vindo exercício da conversa fiada, aquele que fica mais saboroso em mesa de bar, os olhos brilhando com o (ou por causa do) desfile das garrafas de cerveja, os tira-gostos que se renovam como se fossem banquetes imperiais, umas moças bonitas que entram e saem de nossas vidas sem pedir licença, o final da tarde que não tarda nem oprime. 

Então, para que essa crônica obtenha algum sentido, façamos de conta que estamos em um boteco e... perguntas possibilitam a tessitura das hipóteses, passos que damos na direção das respostas. O narrador de uma novela (quase homônima ao título acima) do Márcio Moraes Valença lança uma possibilidade: “[...] não leu. Comprou e não leu, como o livro do Jô, do Caetano e tantos outros. Sua estante está cheia de livros nunca lidos”. É uma perspectiva interessante, que nos revela o quanto é engraçada a natureza humana. Por exemplo, esse hábito, raramente salutar, de adiar projetos. Seja por convicção, seja por brincadeira, as nossas histórias pessoais estão repletas de situações em que “deixamos para mais tarde” o que, de uma forma ou de outra, não gostaríamos de fazer nem agora nem nunca. Um amigo (que odeia a indústria cultural e a contemporaniedade) costuma dizer que é preciso esperar, no mínimo, uns dez anos para saber se um livro merece ser lido. E, com essa desculpa (ou, quem sabe?, filosofia existencial), vai estabelecendo vínculos afetivos com o envelhecimento, sabedor de que a vida é muito curta para perder tempo com algumas bobagens e certos livros.

Uma outra possibilidade é a estratégia clássica do atordoamento, que começa com o iniludível “não li e não gostei”. Em seguida, cabe acrescentar alguma explicação tola, o valioso recurso de passar um pouco de anestésico sobre a ferida, “eu só gosto do Chico músico, principalmente naquela fase em que ele esbanja sensibilidade, decifrando a alma feminina”. Antes que alguém reclame ou faça sugestões, deve-se aproveitar o momento e cantarolar (bem desafinado – senão não tem graça!) algum sucesso antigo, “Ah, se já perdemos a noção da hora / Se juntos já jogamos tudo fora / Me conta agora como hei de partir”. O encerramento do espetáculo deve contribuir para o exorcismo dos maus espíritos. Ou seja, com algum comentário canalha, “Você viu como aquela garçonete é gostosa?”

Claro que o livro do Chico está em um outro patamar. Há toda uma tradição intelectual familiar que não devemos ignorar. Os livros do Sergio (pai do Chico) são monumentos de interpretação sociológica, “biscoitos finos da modernidade” em um país que muitas vezes adora virar as costas para si mesmo. O filho, por sua vez, quando não está jogando futebol, dedilha umas frases musicais no violão e... como direi?, compõe umas cançonetas. Nada demais, é claro. Nada que não possa ser usado como mapa da alma lírica brasileira.
Mas não é só isso, como se não bastasse ser um protegido dos deuses, o Chico é um bom-moço, um modelo a ser seguido, e, com a ajuda de um par de olhos verdes, esbanja talento natural para atrair as mulheres – o que não evitou, depois de alguns anos de desgaste afetivo, que a mãe dos seus filhos aplicasse um glorioso pé-na-bunda do artista!

Pois é, o Chico vive cercado de fãs de carteirinha, aqueles que guardam a chama da fidelidade, da devoção e do respeito ao autor. São esses mesmos que atravessam as madrugadas devorando obscenamente o último livro do cara, suspirando, como se fosse o prenúncio de um orgasmo, diante de cada frase ou parágrafo que consideram mais interessante. São esses mesmos que, em um exame anti-doping, acusarão níveis altíssimos de intolerância à crítica e ao bom-senso.

“Ó falso Leitor, / amigo meu, meu igual, meu irmão!”, juro que guardo o teu segredo, não vou contar para ninguém, diz só para mim: você leu o livro do Chico?

Sei que você anda desencantado com a literatura, que não suporta olhar para as vitrinas das livrarias (ou para as listas dos mais vendidos). Em pilhas com trinta exemplares da mesma nulidade, destacam-se as explicações sobre como ganhar mais dinheiro, recordações sobre “os velhos tempos” e que o autor imagina terem sido inesquecíveis, recomendações sobre o caminho da felicidade, plágios diversos das idéias de Aristóteles, Platão, Sócrates, Freud, Proust e outros menos cotados, e, lá no meio da mesa, como se fosse um ingresso ao Olimpo, os olhos do leitor encontram algumas edulcoradas lições de ética – que ninguém segue, mas que sempre são citadas como paradigmas de comportamento social.

Enfim, faltam nas livrarias a leveza (no sentido empregado por Italo Calvino) de histórias que sejam convites ao prazer do texto (no sentido empregado por Roland Barthes). Em versão shakespeareana, falta “A tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”. Ou melhor, significando tudo, porque é com as artimanhas da ficção que enfrentamos os conflitos desiguais que marcam a luta diária que a razão cultural precisa travar contra a razão utilitária (que, com a desculpa de que “é isso que vende”, abre um distanciamento abissal na intimidade que existe – ou deveria existir – entre o livro e o leitor, entre a tesão e a imaginação).

Nesse cenário apocalíptico, com um livro na mão, qualquer livro, todos nós parecemos anacrônicos, figuras que destoam do anti-intelectualismo vigente e das ilusões gozosas (gasosas) produzidas pelo capitalismo selvagem. Além disso (quando efetuamos esforços para considerar as demandas do mercado livreiro), corremos o risco de acreditar que entrar em uma dessas discussões sobre leitura, sobre o que ler ou deixar de lado, em vez de procurar pelo ideal iluminista de romper com a idade das trevas estamos colidindo com uma retomada da barbárie, momento em que ler, pensar e interpretar o mundo que nos cerca é uma maldição. Ou uma perda de tempo.

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Apesar das dúvidas produzidas pelas imposições ideológicas do “deus capital” (e das compensações fugazes do consumo), o livro do Chico espera pela minha leitura – e pela tua. Bem seguro entre as mãos, o volume (capa branca ou laranja, escolha você) é uma forma de anunciar o momento em que o humanismo transita entre a liquidez da retina e o pensamento concreto. Então, talvez como uma demonstração de resistência, talvez como uma forma de reforçar a esperança de que a modernidade ainda possuí espaço para a diversidade, essa é a hora de iniciar a leitura: “Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. [...]”.

*Raul Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) leu o livro do Chico.

 

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Não quero mais saber do realismo que não é libertação
(Agosto 2009)
Por Raul Arruda*

Apesar das tapeações contemporâneas e/ou dessa coisa amorfa que é o a-pós-o-moderno, o realismo ainda está vivo. Sim, o bom e velho realismo, com os seus melhores vícios e virtudes, ainda consegue enganar muita gente fabricando contextos, descrevendo em grandes detalhes a terra devastada, aplicando todas as suas forças em enredos cheios de ausências (sim, ausências de ternurinhas familiares, ausências de amores/dores, ausências de estímulo para aqueles que estão em conflitos, ausências de histórias que terminam em sucesso profissional), como que a dizer o que não diz, sabedor de que não pode estar onde jamais esteve, mas, como sempre, como é de costume entre criminosos, deixa pistas, provas esquecidas na local do crime, evidências de que algo não está a ocorrer com a adequada dinâmica.

Enfim, não mais é possível negar o óbvio: o realismo ainda está ditando moda nas passarelas brazucas (entre as múltiplas e siliconadas Fashions Weeks e as private partys em Paraty Beach, uma chusma de pedintes, todos na busca de um autógrafo redentor, prova inequívoca do “eu estive lá”).

Driblando as puxadas de tapete que a vida presenteia aos incautos e o esforço sobrenatural de alguns coveiros (que gozam – literalmente – ao manipular pás e enxadas do politicamente correto, do feminismo militante e dos livros de colorir prêt-à-porter), o gênero mais nocivo (há quem discorde, fazer o que?) da literatura brasileira conseguiu resistir bravamente ao seu destino histórico (a lata de lixo) e (feito uma fênix extemporânea ou um zumbi gótico) nunca deixou de induzir a crença de “que nosso acesso ao real e à realidade somente se processa por meio de representações, narrativas e imagens”, como afirma, catedrática, parecendo séria, Beatriz Jaguaribe.

Foi nos tempos em que Machado de Assis sonhava escrever com o mesmo estilo e qualidade dos ingleses e franceses que o realismo (auxiliado por seu primo enfermiço, o naturalismo) aportou em solo brasileiro, mala na mão, olhos cheios de esperança e a vontade de viver os novos tempos. Como um imigrante ingênuo, desses que acreditam na felicidade ou no Papai Noel, ele veio para ficar. Ficou. Fincou estandarte no Pico da Neblina, aproveitando o fog tropical e as chuvas que, pela graça divina de Tupã, são espargidas sobre a terra em que se plantando tudo dá. Fez mais: siderado pelas explosões de magnésio, posou para a fotografia que, logo depois, com moldura vagabunda, foi pendurada na parede da sala, ao lado do calendário com a imagem do sangrento Sagrado Coração de Jesus. Abençoado pelo sincretismo religioso e pela amarga, digo, doce constatação de que não existe pecado ao sul do Equador, o realismo-naturalismo foi desbravando território, engravidando nativas e fugindo da responsabilidade de prover os bastardinhos que foram nascendo pelo caminho. Como sói acontecer em terras brasilis, a (ir)Real Academia Brasileira de Letras o aceitou como manifestação legítima da literatura nacional.

Depois de algum tempo, por diversos motivos, nenhum particularmente importante, o realismo quase foi retirado de cena. Resistiu através de um de seus sucessores, o chamado “realismo socialista”, que era de uma chatice espetacular. Mesmo assim, ao longo da aventura, houveram “picos de audiência”, basta lembrar, entre tantos exemplos, o ciclo nordestino (em que a descrição emocional, fundamentada nas diferenças sociais, políticas e econômicas, fez o país chorar uma Foz do Iguaçu de culpa e sofrimento). Na mesma época, o menos amado dos jorges, quando não estava deitado na rede, vítima de alguma recaída de romantismo tardio (por exemplo, sonhando que era ele, Jorge, e não Nacif, quem estava dormindo com Gabriela), escreveu algumas narrativas interessantes (“Cacau”, “Suor”, Capitães da Areia”).

O chamado “realismo mágico”, que é super mágico e pouco realista, fez menos sucesso. Enquanto o mundo era varrido pelo “boom” latino-americano, no Brasil somente o Murilo Rubião e o José J. Veiga conseguiram extrair ouro desse filão. As outras tentativas foram pífias, escoradas no propósito de criar cortinas de fumaça, o velho esquema de fugir da responsabilidade na denúncia ou na sátira, por isso precisavam de metáforas, metonímias, eufemismos, elipses, fábulas e outras variações, o usual nessas circunstâncias, sabe como é que é, falar daquilo mas escrevendo o contrário, e todos foram felizes para sempre.

Foi lá pelos anos 60 do século XX que o Rubem Fonseca (ironicamente, um egresso das forças policiais que oprimiram o país depois da quartelada de meia-quatro) forneceu um upgrade no panorama. Talvez cansado da inércia daqueles que não gritavam “ah... que preguiça!” por preguiça, talvez para impor a presença concentrada de todas as ausências de que ainda hoje se ressente a literatura brasileira, talvez aproveitando o momento histórico para dar um golpe (mais um!) literário, Rubem Fonseca encontrou a fórmula mágica, garantia de sucesso imediato, milhares de exemplares vendidos em segundos, uma máquina de fazer dinheiro. Bastou fingir que a violência urbana era o seu Santo Graal, o tema maior de uma vida, a oportunidade de colocar o preto no branco, o branco no preto, a suruba racista/fascista/positivista que todos nós compartilhamos e negamos (pelo menos, em público). Centrado nas classes baixa ou média baixa (como que a dizer que os ricos estão imunes a esses desvios de comportamento) e mostrando as maravilhas dos aparelhos repressores do Estado (um eufemismo “educado” para o exercício diário da truculência da polícia, esse braço incansável da Lei!), Rubem Fonseca retrata, em contos e romances (em que se misturam o mais abjeto dos moralismos provincianos com espo[r]rádicas descrições gráficas de sexo), as anomalias humanas, as promiscuidades portáteis e os sado-masoquismos compensatórios (despidos de qualquer roupa ou análise sócio-política). Todos esses excelentes artigos de consumo passaram a ser servidos no sempre interessante embrulho da linguagem coloquial, cheia de palavrões, mediocridades e carências.

Para alguns “chutadores”, perdão, “especialistas”, essas cenas e diálogos (que antecipam um provável roteiro cinematográfico) das personagens de Rubem Fonseca apenas tornam público o que nós, os leitores, dizemos e sentimos diariamente na intimidade. Pura bobagem, baseada na conversa “pra-boi-dormir” de que a prosa precisa ser verossímil, crível, plausível, momento em que todos se reconhecem como seres humanos ou como personagens.

Comprovando mais uma epidemia da síndrome “me engana que eu gosto”, professores universitários, jornalistas, leitores e lacaios diversos se curvaram ao estupro intelectual, ignorando uma outra lição da Beatriz Jaguaribe: “o paradoxo do realismo consiste em inventar ficções que parecem realidades”.

Na mesma direção, e sempre guiados pela necessidade de integrar o país através da literatura, algumas almas bem-intencionadas, porém sem muito talento, usaram a “receita de bolo” fornecida por Rubem Fonseca e começaram a dar voz aos despossuídos, aos humildes, aos marginalizados pelo sistema (e, portanto, sem assistência ou proteção social), aquela coisa judaíco-cristã-ocidental da responsabilidade social com “o sal da terra”. O que ocorreu então foi uma epidemia de narrativas comprometidas com “a causa”, embora poucos soubessem determinar o que era “a causa” – e a sua legitimidade.

Em outras palavras: a mistura de política de quinta categoria com ingenuidade literária resultou em um estrago monumental. Nos anos seguintes, a literatura nacional foi invadida por centenas, ou melhor, milhares de romances em que o histerismo semi-analfabeto faz parceria de sucesso com “sangue e porrada na madrugada” (nos versos imortais de Bernardo Vilhena). Além disso, essa literatura, se é que podemos chamá-la assim, conseguiu (de forma muito competente, é necessário observar e elogiar) amalgamar muitos sentimentos e ações nobres (desrespeito à vida, misoginia, homofobia, além de saudável culto aos carros e às armas). Freud explica.

Rubem Fonseca, eleito o santo protetor do realismo nacional, tornou-se um ponto de referência, o divisor de águas, o maior de todos, o fodão. E esses elogios sempre estão destacados nas orelhas dos livros, nas contracapas ou nas resenhas fáceis que as revistas semanais publicam para encantar os olhos dos leitores fáceis. Ou seja, a razão capitalista (que sempre está a espreita de uma oportunidade para faturar) aproveitou o momento favorável e garantiu uns trocados com um grupo de escritores da menor qualidade: Patrícia Melo, Paulo Lins, Ferréz, Luis Alfredo Garcia-Roza, Joaquim Nogueira, Nelson Motta, Jô Soares, Tony Bellotto (para citar os mais óbvios, aqueles que, de uma forma ou de outra, um pouco mais um pouco menos, prestam vassalagem, digo, tributo ao estilo comercial criado pelo Mestre).

Pois é, então ficaremos nesse cenário desgraçado (literal e literariamente: sem a menor graça), como se o mundo estivesse em crise ou às avessas, condenados a beber o veneno que o “mercado” fornece como se fosse remédio? NÃO! Não, senhor! Um punhado de escritores, dispensando a usual requisição em momentos de crise, isto é, o surgimento de um “salvador da pátria” (talvez um novo Pedro de Alcântara, nossa versão tragicômica de Dom Sebastião, aquele mesmo que desapareceu em Alcácer Quibir), está reagindo contra esses parasitas da literatura.

(Perdoem-me a interrupção, mas não posso deixar de observar, em separado, que o bravo guerreiro, misto de herói da independência e herdeiro do trono português, sempre me pareceu uma metáfora interessante para a história da literatura brasileira. Imaginem o drama: o gajo, às margens do Ipiranga, calças arriadas, contorcido em cólicas intestinais, sem saber se limpava as partes pudendas ou se acertava as contas com Laio. Acabou fazendo duas coisas, é verdade. Mas, depois, alguns anos depois, como somente é possível nas estruturas farsescas, descobrimos que o príncipe não se esmerou na faxina. Politicamente, a rebeldia contra a Corte Portuguesa foi no máximo uma manifestação avant-la-lettre da fórmula proposta por Lampedusa, em “O Leopardo”: “Tudo mudar para que nada mude”).

Voltando à literatura, é possível (sem a menor sombra de arrependimento!) afirmar que ainda há vida inteligente no realismo brasileiro. Sim, temos escritores fantásticos e livros de boa qualidade! Eis alguns nomes e textos (há outros, muitos outros!) que, contemporaneamente, “desafinam o coro dos contentes”, seja por que trabalham com uma outra estética realista, seja porque se opõem a tudo que não seja libertação: Luiz Ruffato (“Eles eram muitos cavalos”), Francisco Dantas (“Coivara da memória”, “Os desvalidos”), Zulmira Ribeiro Tavares (“O nome do bispo”, “Jóias de família”), Ronaldo Correia de Brito (“Faca”, “Livro dos homens”), Milton Hatoum (“Relato de um certo Oriente”, “Dois irmãos”), Ivana Arruda Leite (“Falo de mulher”, “Ao homem que não me quis”), Bernardo Carvalho (“Nove noites”, “Mongólia”), Marçal Aquino (“Faroestes”, “O amor e outros objetos pontiagudos”), Nelson de Oliveira (“Naquela época tínhamos um gato”, “A maldição do macho”), João Anzanello Carrascoza (“Duas tardes”), Antonio Carlos Viana (“O meio do mundo”, “Aberto está o inferno”)

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O bom leitor é aquele que lê além do que está posto diante de seu olhar. E o realismo precisa desses leitores para separar a “qualidade literária” (seja lá o que isto for!) dos livros de auto-ajuda, dos besta-selleres pasteurizados e do exercício das vaidades dos escritores medíocres.

*Raul Arruda Filho (
raul.arruda@gmail.com), um grande fã do realismo, teve uma infância feliz (pai ausente, mãe autoritária, desentendimentos diversos com os irmãos).

 

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O Elefante
(Jul.2009)
por Raul Arrruda*

Às árvores pintadas não caem as folhas”, diz o narrador intrometido de “A Viagem do Elefante”, romance de José Saramago, e que talvez seja uma demonstração elementar daquilo que, em tempos distantes, as más línguas, digo, as deliciosas línguas, chamavam de “o canto do cisne”, a antevisão da finitude da vida, o último degrau na direção da biblioteca eterna (como gostava de brincar o Jorge Luis Borges) ou do encontro com a “indesejada das gentes” (como gostava de brincar o Manuel Bandeira). Talvez seja pouco alvissareiro mencionar esse assunto, vaticínio sobre o futuro de um escritor que ainda pode arrancar da cornucópia criativa um novo manancial, aquele que somente conseguimos encontrar quando passeamos no bosque da ficção, água límpida a escorrer pelo riachinho na direção exata de nossa sede, outras trezentas ou quatrocentas páginas em que a beleza estará eternizada como resistência contra a desintegração do intelecto ou da vida, o mundo que se desfaz por entre os dedos como farelos, embora a vida e a morte sejam a mesma coisa ou coisa nenhuma. De qualquer forma, é preferível pensar nele, Saramago, vivo, cheio de energia, com aquela voz de quem está cansado de ver diariamente a insensatez humana, exemplo mais do que expressivo da paisagem vista do alto do Himalaia. 

“Às árvores pintadas não caem as folhas”, diz o inverossímil narrador, pouco preocupado em produzir um “trompe-l’oeil”, ou melhor, um curto-circuito no fluxo narrativo, o absurdo se instalando como ponto de inflexão para a cena, o inútil deslocar de um elefante pela Europa, conseqüência tola dos capricho da coroa portuguesa, que ofertou o animal ao arquiduque de Áustria. Paradoxalmente, algumas folhas caem, como metáforas das páginas pintadas com tinta e que, de uma forma ou de outra, compõem a narrativa, o livro aberto nas nossas mãos, forma moderna e modernosa com que o leitor compartilha dessa aventura, a viagem do elefante, glorioso paquiderme que poucos conhecem ao vivo e em cores, o normal é vê-los em gravuras ou em filmes ou então, gloriosa exceção, em uma dessas poucas e rápidas visitas ao zoológico, as feras em jaulas, isoladas de uma vida que poderia ter sido e que não foi, como diria, outra vez, o Manuel Bandeira, esse pescador de ilusões, que elaborou toda uma fauna, mas, dói constatar essa desgraça poética, falta-lhe um elefante em Pasárgada, lá onde ele, Bandeira hasteada sobre a imensidão humana, era amigo do rei.

Pois é, quem andou escrevendo, em terras tupiniquins, sobre essas massas imensas e brutas, que provavelmente seriam mais felizes se continuassem vivendo na savana africana ou nas lonjuras de Índia, foi o Carlos Drummond de Andrade, um daqueles poema que as vezes pesam sobre os ombros dos estudantes secundaristas, amostra inevitável de um ensino pouco preocupado com o exercício do livre arbítrio na leitura e que prefere impor um gosto, uma estética, afinal de contas quem é que leva em conta as preferências do povo, essa gente acostumada a se curvar ao catálogo do refinamento aristocrático da insuperável perversidade que nos oprime a cada instante, seja com elefantes ou com coelhinhos?
(Caros, ilustres e raros leitores: desculpem-me a interrupção, mas, todo texto que se preze precisa ser espargido com alguma citação hermética, uma espécie de deleite para as inteligências privilegiadas, que, como dizia o Nelson Rodrigues, “babam na gravata”, como se fossem “os reis – ou rainhas – da cocada preta”! Em outras palavras, no andar desta carruagem, com os riscos de haver algum acidente rodoviário ou do desarrumar das abóboras, urge abrir um parênteses questionador: coelhinhos? De onde é que surgiram esses adoráveis e deliciosos futuros ensopados? Cabe reflexionar e, em nome da ordem e do progresso, relembrar todas as situações literárias onde apareceram exemplares da família dos leporídeos. Ou, para parecer ainda mais pedante, Oryctolagus cuniculus. Por exemplo, será que foi uma alusão às aventuras devassas de Harry “Rabbit” Angstrom? Ou, “Santa erudição, Batman”, uma sutil referência aos devaneios pedófilos de Lewis Carrol, que preencheu [no bom sentido, é claro!] as lacunas de Alice com coelhos e lebres? Não é possível ignorar que, talvez, não me comprometam, por favor, poderia ser uma citação relativa aos onze minutos em que um tal de Paulo, também conhecido como “o ridículo escriba ridículo”, calcula ser a média humana do tempo utilizado numa foda bem dada. Enfim, na ausência de alguma lógica para esse devaneio poético, vá lá, pouco poético, um aviso aos navegantes: “Sorry, periferia! O fillet está nas coelhinhas – da Playboy”! E, em nome do decoro público, fechem rápido o parênteses.).

“Fabrico um elefante / de meus poucos recursos. / Um tanto de madeira / tirada a velhos móveis / talvez lhe dê apoio. / E o encho de algodão, / de paina, de doçura. / A cola vai fixar / suas orelhas pensas. / A tromba se enovela, / é a parte mais feliz / de sua arquitetura.” Eis a primeira estrofe do poema, forma criativa e lúcida de construir e desconstruir esse elefante “em que amo disfarçar-me”, como diz o poeta umas duas páginas depois em contracanto com o Fernando Pessoa, esse heterônimo fingidor, que finge que é dor a dor que finge, ex-finge, esfinge, o segredo talvez esteja em perceber que ao fim e ao cabo, “A cola se dissolve / e todo o seu conteúdo / de perdão, de carícia, / de pluma, de algodão, / jorra sobre o tapete, / qual mito desmontado.”, e se isso não bastar, pois, como constata o narrador de “A viagem do Elefante”, “Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades”, então há que se reconhecer que a solução do enigma talvez seja mesma o que prenuncia o último verso do poema do Drummond de Andrade: “Amanhã recomeço”.

Infelizmente, o elefante que é conduzido por Subhro (mas que, no meio da narrativa, foi denominado Fritz por ordens de Sua Majestade, o arquiduque Maximiliano, que considerava impronunciável o nome com que o cornaca recebeu ao nascer), não pode ser desmontado e colocado em uma caixa ao final do dia, como um brinquedo “ad hoc”. O elefante, levando o cornaca em seu dorso, precisa continuar sua esfalfante caminhada na direção das tirolesas terras geladas, bem longe de Índia e Portugal. É preciso continuar a viagem, inclusive se ajoelhando diante da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, que vive sonhando com milagres, forma sobrenatural de recuperar o poder que um dia fez a glória do Vaticano, mas que há muito entrou pelo cano, os tempos e a moral são outros, ninguém mais está interessado em correr perigo roubando vinho doce nas sacristias: “E então é provável que algum dos que ali vão reconheça, finalmente, que o pobre elefante não passa de um cúmplice inocente neste grotesco episódio da história contabilística da igreja e que o cornaca não é mais do que um produto insignificante dos corrompidos tempos que nos calharam viver. Adeus, mundo, cada vez a pior.” É preciso continuar a viagem, um pé diante do outro, toneladas se deslocando pelo chão sem fim, como se fossem ondas que mergulham na direção da praia, o desejo sempre frustrado de que acabe o suplício. Como o nome do elefante não é Sísifo, um dia, depois de muito tempo, diante do desconhecido, uma festa antecipa que a viagem terminou, Viena é o novo sinônimo de lar, a Índia se tornou apenas um retrato dolorido, colorido, na parede, ou, em uma outra versão, esta mais prosaica, portanto mais passional, toda viagem, mesmo quando as folhas caem dos quadros, é mais bonita que a [história] de Robinson Crusoé.

*Raul Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com) já publicou três livros de poesia – bobagens de que se arrepende alegremente.

 

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Para Início de conversa
(Jun.2009)
por Raul Arruda*

Ventos alienados e alienígenas hasteiam bandeiras na idolatrada salve salve, como se os caminhos adotados pela literatura brasileira contemporânea (salvo melhor definição) fossem uma cicatriz que dói no peito a cada ameaça de tempestade. Simultaneamente, a prostituição, perdão, o positivismo dos profissionais especializados em quaisquer coisas (também chamados de cri-cri-ticos literários), trêmulos e faceiros, caprichando na elaboração da perplexidade, perguntam: está acontecendo alguma coisa significativa com a lixeratura brasileira?

Depende. Sim, queridinho(a), depende. Primeiro, é preciso definir o básico: de que lado você está? Se a sua resposta for aquela que agrada o mercado de consumo, provavelmente ninguém discordará que a crise é mínima, que estamos em plena expansão criativa e que a vida é bela. Se por outro lado, você é daquele grupo que acredita que os otimistas sempre estão mal informados, então o buraco é mais embaixo e o gozo, lamento afirmar, está suspenso até segunda chamada.

Pois é, o retrato da geração zero zero zero (ou 2.0 ou século 21 ou qualquer outro qualificativo que for aplicado para vender um pouco daquela mercadoria que, de outra forma, mofará estocada no quartinho dos fundos) está além/aquém/acolá do que, em grandes manchetes, é (ou não é) notificado, resenhado, publicado nos jornais, revistas e internet.

É phoda, meu (minha) camarada, basta fazer um rápido resumo da história literária (recente ou pré-diluviana) para concluir que, em um país onde a história política está completamente alijada da constructo literário, um sorriso irônico deveria estar desenhado na face dos críticos das “belas-letras” – sintomaticamente, ele sequer existe. Todos se julgam sérios, catedráticos da mesmice, carregadores do turíbulo encantado pelas espórtulas do capitalismo.

Antes que aceitemos que a literatura brasileira se decompõe em anedotas de (des)gosto duvidoso, por favor, no entrecruzamento entre política e literatura, alguém poderia esclarecer qual foi a herança que recebemos dos anos 60? Qual é o romance (a novela, o conto) representativo dos “anos de chumbo” (também chamados, pela Folha de São Paulo, de “ditamole”)? Claro que não vale citar meia dúzia de volumes semi-autobiográficos ou semi-ficcionais (Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis, Roberto Campos, Silvio Frota, Carlos Chagas, Elio Gaspari), e uma meia dúzia de narrativas muito contidas, repletas de parábolas, elipses e auto-censura (“Reflexos do baile”, do Antonio Callado, “A festa”, do Ivan Ângelo e “Zero”, do Ignácio de Loyola Brandão). Mas, aos olhos de hoje, que é que se salva literariamente nesse amontoado de fofocas e calúnias e difamações? E o governo Collor de Mello? Onde é que está a literatura “cara-pintada”? E, por favor, se alguém tentar citar o José Nêumanne ou o Luiz Gutemberg, com aquelas bobagens pseudo-besta-sellers, arremedos de posicionamento político-literário, me segura que eu vou ter um troço! Os governos Fernando Henrique e Lula, mostrando que conhecem o tamanho do bolso (da bolsa) dos escritores, negociaram um pouco de silêncio artístico. Nenhuma novidade, basta seguir a tradição herdada do colonialismo português, parte do funcionalismo público adora escrever para fora, digo, para alegrar os chefes e o povo.

Como se isso não bastasse, é preciso/precioso consultar o tarô ou o I-ching para descobrir em que lugar a literatura brasileira escondeu os negros, os índios, os trabalhadores (Luis Ruffato é a exceção que confirma a regra) e, principalmente, os pobres (por favor, neste item, evitem citar Ferréz, porque o cara, desculpem fãs da marginalidade, o cara não conhece o mínimo da técnica literária!). No mesmo tom, cabe lembrar que a literatura homossexual (salvos João Gilberto Noll, Marcelino Freire e... desculpem-me, não lembro de mais ninguém) é de uma po-bre-za rí-dí-cu-la!

Uma outra característica se soma a esse contexto: o Brasil literário não gosta de mostrar a sua cara – a verdadeira, é claro. O Brasil é o Outro, no outro lado do mundo, bem longe, bem longe dos problemas – e pouco importa se o Haiti é aqui. No início era só o Bernardo Carvalho (fazendo pose de Bruce Chatwin ou Cees Nooteboom ou J. M. G. Le Clézio) que mostrava distanciamento ao solo pátrio. Escrevendo romances pretensiosos, ambientados em lugares exóticos como o Xingu, a Mongólia ou o Japão, Bernardo Carvalho, em versão farsesca, reproduz Carlota Joaquina, que, antes de embarcar no navio de volta à Europa, limpou os sapatos e disse: “desta terra não quero levar nem o pó”. Atualmente, em agradável surpresa para a globalização, uma editora está pagando os nossos melhores (sic!) talentos para escrever “histórias de amor” – dos textos publicados até o momento, duas surpresas: Daniel Galera foi para a Argentina e não conseguiu sequer se aproximar de tangos e boleros; em compensação, o Bernardo Carvalho saiu do armário em São Petersburgo.

Por falar em preferências pessoais, relatos sexuais vendem como pão quente. Embora constituam prova de indigência literária, quem é que não quer saber o que acontece na cama ao lado? Você, ilustre leitor(a), vai negar que nunca imaginou a Bruna Surfistinha enlouquecida entre lençóis de linho egípcio, prometendo loucuras que mimetizam aventuras que nenhum de nós viverá?

Somando erros e acertos, sacanagens e pilhérias, alguns “ishpertos” conseguiram encontrar uma solução para parte dos problemas que afligem a literatura brasileira: “plagiar”, desculpe, plágio é uma acusação leviana, é preciso pegar mais pesado, compor uma nova versão de um dos temas machadianos, na vã esperança de que o “bruxo do Cosme Velho” esteja acima do bem e do mal, imune às críticas invejosas e ao humor pouco espesso daqueles que, incompetentes para criar, denigrem o trabalho alheio!

Noves fora, na República do Bananão, o único setor que avançou em coragem e qualidade foi o da literatura escrita por mulheres. Sem exagerar, mas forçando um tantão, Carola Saavedra, Ana Paula Maia, Paloma Vidal e Tatiana Salem Levy (entre outras) estão encabeçando uma revolução silenciosa, ninguém está percebendo o perigo, quando a turma que acredita ser a dona do campinho abrir os olhos será tarde demais.

Enfim, para não me alongar muito nessas considerações preliminares (embora, do ponto de vista masculino, as “preliminares” sejam, quase sempre, uma perda de tempo), esta é, reconheço, sem muita profundidade, a minha visão de como tropeça a literatura brasileira. Enquanto algumas almas mais puras sonham com a retomada de um tempo que já se esgotou, os que estão ancorados na mothernidade, demonstram absoluta falta de coerência, postura política e, nas horas vagas, caráter (“É preciso viver malandro / a cana tá brava a vida tá dura”, dizia o Bernardo Vilhena em priscas eras, mas com uma atualidade estonteante). Para não se comprometerem com certas questões (ou será, com as questões certas?), olham para o lado, fingindo (fugindo?) que a consciência de classe, de raça e de sexualidade não são bons temas literários. In other hands (como diriam o Conselheiro Acácio e/ou o José Dias, abusando de escorreito português castiço), “ideologia, eu quero uma para viver”.

*Raul Arruda Filho (raul.arruda@gmail.com ) é escritor, pai do Dmitri, e, quando lhe falta o que fazer, Doutor em Teoria da Literatura.

 

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