Leia abaixo grandes e inesquecíveis crônicas de Moacyr Scliar, nosso homenageado de março/2011 (muitas crônicas baseadas em notícias reais publicadas no jornal Folha de São Paulo, o qual Moacyr tinha uma coluna).
De volta ao primeiro beijo (Moacyr Scliar)
TINHA ACABADO de ler a matéria sobre o primeiro beijo, no pequeno apartamento em que morava desde que ficara viúvo, anos antes, quando (coincidência impressionante, concluiria depois) o telefone tocou. Era uma mulher, de voz fraca e rouca, que ele de início não identificou: - Aqui fala a Marília -disse a voz. Deus, a Marília! A sua primeira namorada, a garota que ele beijara (o primeiro beijo de sua vida) décadas antes! De imediato recordou a garota simpática, sorridente, com quem passeava de mãos dadas. Nunca mais a vira, ainda que freqüentemente a recordasse -e agora, ela lhe ligava. Como que adivinhando o pensamento dele, ela explicou: - Estou no hospital, Sérgio. Com uma doença grave... E queria ver você. Pode ser? - Claro -apressou-se ele a dizer- eu vou aí agora mesmo. Anotou rapidamente o endereço, vestiu o casaco, saiu, tomou um táxi. No caminho foi evocando aquele namoro, que infelizmente não durara muito tempo -o pai dela, militar, havia sido transferido para o Norte, com o que perdido o contato -mas que o marcara profundamente. Nunca a esquecera, ainda que depois tivesse beijado várias outras moças, uma das quais se tornara a sua companheira de toda a vida, mãe de seus três filhos, avó de seus cinco netos. E não a esquecera por causa daquele primeiro beijo, tão desajeitado quanto ardente.
Chegando ao hospital foi direto ao quarto. Bateu; uma moça abriu-lhe a porta, e era igual à Marília: sua filha. Ele entrou e ali estava ela, sua primeira namorada. Quase não a reconheceu. Envelhecida, devastada pela doença, ela mal lembrava a garota sorridente que ele conhecera. Consternado, aproximou-se, sentou-se junto ao leito. A filha disse que os deixaria a sós: precisava falar com o médico.
Olharam-se, Sérgio e Marília, ele com lágrimas correndo pelo rosto. - Você sabe por que chamei você aqui? -perguntou ela, com esforço. - Porque nunca esqueci você, Sérgio. E nunca esqueci o nosso primeiro beijo, lembra? Na porta da minha casa, depois do cinema... - Claro que lembro, Marília. Eu também nunca esqueci você... - Pois eu queria, Sérgio... Eu queria muito... Que você me beijasse de novo. Você sabe, os médicos não me deram muito tempo... E eu queria levar comigo esta recordação...
Ele levantou-se, aproximou-se dela, beijou os lábios fanados. E aí, como por milagre, o tempo voltou atrás e de repente eles eram os jovenzinhos de décadas antes, beijando-se à porta da casa dela. Mas a emoção era demais para ele: pediu desculpas, tinha de ir. A filha, parada à porta do quarto, agradeceu-lhe: você fez um grande bem à minha mãe. E acrescentou, esperançosa: - Acho que ela agora vai melhorar. Não melhorou. Na semana seguinte, Sérgio viu no jornal o convite para o enterro. Mas, ao contrário do que poderia esperar, apenas sorriu. Tinha descoberto que o primeiro beijo dura para sempre. Ou pelo menos assim queria acreditar.
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A noite em que os hotéis estavam cheios (Moacyr Scliar)
O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.
— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.
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Infância passo-fundense (Moacyr Scliar)
Tenho um carinho especial por Passo Fundo, onde passei boa parte de minha infância. Isso aconteceu na pré-história, claro, mas ainda lembro de muita coisa: a casa onde morávamos, perto da Avenida Brasil, a antiga Delegacia de Polícia e, sobretudo, o Colégio Notre Dame, do qual fui aluno. Aliás, menor aluno, provavelmente; eu não tinha nem quatro anos e já freqüentava o primeiro ano do curso primário. Devo dizer que era considerado, ao menos por minha mãe (fã entusiasmada do filho) como garoto prodígio. De fato, aprendi precocemente a ler e a escrever, o que seria um motivo de orgulho, não fosse por um episódio que me remeteu de volta à humildade.
Uma manhã estávamos em aula quando passou um desfile militar (se não me engano, em preparação para o Sete de Setembro). Todos, inclusive a professora, correram para as janelas para ver os garbosos soldados. E todos estavam entusiasmados. Menos eu.
Em primeiro lugar, não alcançava a janela: era pequeno demais. Em segundo lugar, estava com um prosaico problema: queria fazer xixi. Era inverno e nessa época o apelo da bexiga infantil se torna mais premente, imperioso, mesmo. Tentei chamar a atenção da mestra, que era uma religiosa, e de meus colegas. Inútil. O desfile os fascinava. Sem licença para ir lá fora, eu não podia sair da sala. Enquanto me debatia nesse dilema existencial, a natureza resolveu o problema da forma mais prática, ainda que pouco conforme às regras de etiqueta: quando vi, tinha feito xixi na calça, a grossa calça de lã que eu então usava.
Foi, como se pode imaginar, uma humilhação. Naquele dia descobri uma coisa importante: se é para urinar nas calças, o melhor é não ser menino prodígio. Para adquirir cultura sempre há tempo. Para se fazer xixi quando se está apertado é que nem sempre se dispõe de tempo suficiente.
Voltei muitas vezes a Passo Fundo para palestras, debates, para as Jornadas de Literatura que hoje repercutem no país inteiro. Cada vez mais admiro a cidade. E cada vez mais me parecem mais gratas as recordações da infância que ali passei, nelas incluído o episódio do colégio. Ocorre-me que deveria ter guardado a calça que usava na ocasião. Pode não valer tanto quanto o vestido de Mônica Levinsky, mas para mim evocaria um momento transcendente. Ainda que molhado.
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Desistindo de Natal (Moacyr Scliar)
Segundo pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pela Associação Comercial de São Paulo, 32% dos consumidores não pretendem fazer compras neste Natal.
Folha Dinheiro, 9 de dezembro de 2005
"Prezado Papai Noel: há uma semana eu lhe mandei uma carta com a lista dos meus pedidos para o Natal. Agora estou mandando esta outra carta para dizer que mudei de idéia. Não vou querer nada. Ontem o papai nos avisou que não tem dinheiro para as compras do fim de ano. Papai está desempregado há mais de um ano. A gente mora numa cidade pequena do interior, muito pobre. No Natal passado, o prefeito anunciou que tinha um presente para a população: uma grande fábrica viria se instalar aqui, dando emprego para muitas pessoas. Meu pai ficou animado. Ele é um homem trabalhador, sabe fazer muitas coisas e achou que com isso o nosso problema estaria resolvido. Agora, porém, o prefeito teve de dizer que a fábrica não vem mais. Não entendo dessas coisas, mas parece que a situação está difícil.
Portanto, Papai Noel, peço-lhe desculpas se o senhor já encomendou as coisas, mas infelizmente vou ter de desistir. Para começar, não quero aquela bonita árvore de Natal de que lhe falei -até mandei um desenho, lembra? Nada de pinheirinho, nada de luzinhas, nada de bolinhas coloridas. A verdade, Papai Noel, é que essas coisas só gastam espaço e, como disse a mamãe, gastam muita luz.
E nada de ceia de Natal, Papai Noel. Nada de peru. Como eu lhe disse, nunca comi peru na minha vida, mas acho que não vai me fazer falta. Se tivesse peru, eu comeria tanto que decerto passaria mal. Portanto, nada de peru.
Aliás, se a gente tiver comida na mesa, já será uma grande coisa.
Nada de presentes, Papai Noel. Não quero mais aquela bicicleta com a qual sonho há tanto tempo. Bicicletas custam caro. E além disso é uma coisa perigosa. O cara pode cair, pode ser atropelado por um carro... Nada de bicicleta.
Nada de DVD, Papai Noel. Afinal, a gente já tem uma TV (verdade que de momento ela está estragada e não temos dinheiro para mandar consertar), mas DVD não é coisa tão urgente assim.
Também quero desistir da roupa nova que lhe pedi e dos sapatos. A minha roupa velha ainda está muito boa, e a mamãe vai fazer os remendos nos rasgões. E sapato sempre pode dar problema: às vezes ficam apertados, às vezes caem do pé... Prefiro continuar com meus tênis e o meu chinelo de dedo.
Ou seja: nada de Natal, Papai Noel. Para mim, nada de Natal. Agora, se o senhor for mesmo bonzinho e quiser nos dar algum presente, arranje um emprego para o meu pai. Ele ficará muito grato e nós também. Desejo ao senhor um Feliz Natal e um próspero Ano Novo."
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Felicidade não se compra. Nem mesmo pela internet (Moacyr Scliar)
"Sofá de dois lugares, seminovo: produtos como esse podem sair de sua casa e serem vendidos com a ajuda da internet.".
Folha Informática, 23.mar.2005
Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living. Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, se instalava para assistir a TV até altas horas. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, o marido se instalava para assistir a TV até altas horas. E, vendo TV, o marido não queria fazer programas, não queria passear, não queria nem conversar. Em desespero, ela ameaça vender o sofá por qualquer preço.
O marido não acreditava. Porque a mulher não tinha jeito para negociar. Não sabia falar com as pessoas, não sabia apresentar seu produto. Se dependesse de sua habilidade para a venda, o sofá de dois lugares permaneceria no living por muitos e muitos anos. De modo que ele ficou muito surpreso quando, voltando do trabalho, não encontrou o sofá. Vendi, disse a mulher, triunfante. Ele não quis acreditar, achou que fosse brincadeira. Ela explicou: graças à internet, tinha vendido a uma pessoa que nem conhecia, que enviara um portador para entregar o dinheiro e levar o sofá.
Aquilo deixou-o furioso. Queria o seu sofá de volta e exigiu da mulher o nome do comprador. Ela simplesmente se recusou a revelar esse segredo.
Brigaram e, naquela noite, ele dormiu no outro quarto do apartamento, vazio desde que a filha tinha casado. De madrugada, uma idéia lhe ocorreu. Correu a verificar os e-mails da esposa e, de fato, ali estava a mensagem enviada pela compradora, com nome, endereço, telefone.
No dia seguinte, ligou para essa mulher, disse que precisava vê-la com urgência: assunto ligado à compra do sofá. Ela relutou, mas consentiu em recebê-lo. Ele foi até a casa, num bairro afastado. E ali estava a mulher, ainda jovem, a esperá-lo. No living, diante da TV, o sofá de dois lugares.
Que ele quis comprar de volta. Ela recusou; gostara do sofá, não o venderia. Ele recorreu a todos os argumentos, sem resultado, quis até pagar o dobro da quantia que ela havia despendido. Nada, ela mostrava-se irredutível, e ele acabou desistindo.
Antes de ir embora, porém, resolveu perguntar quem sentava ao lado dela no sofá.
Ninguém, foi a resposta. Divorciada, estava sozinha havia algum tempo. Comprara um sofá de dois lugares porque tinha esperança de, um dia, arranjar um companheiro.
Ele tem ido à casa da nova proprietária do sofá. Senta-se ao lado dela para ver TV, coisa que adora. No começo, ela gostava da companhia.
Mas agora já não acha o arranjo tão bom: o homem não quer fazer programas, não quer passear, não quer nem conversar.
Ela pensa seriamente em vender o sofá. Não é muito hábil nessas coisas, mas tem certeza de que, através da internet, resolverá o problema.
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A volta do filho pródigo (Moacyr Scliar)
"Cerca de 30 mil crianças e adolescentes fogem todo ano no Brasil. Oitenta por cento voltam para casa. Dificuldades com a família e busca de independência são as causas mais freqüentes das fugas. A volta é acompanhada de arrependimento".
Folhateen, 28.mar.2005
Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa, eram freqüentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas, das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos, aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora de mostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botou algumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou um ônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos.
Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso. Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue à própria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco, foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandou um e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãe era uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como "Filho Pródigo".
Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como já não tinha chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa.
O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer o conhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio, disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em uma imobiliária:
- Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram.
A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio:
- Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizando o outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De sua mãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual.
Fábio não agüentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele, abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhe mostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa.
A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lhe ensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, é por uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Mais tarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aí levará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.
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Continente e conteúdo (Moacyr Scliar)
Uma frase pronunciada pelo presidente Lula durante um jantar na embaixada do Brasil em Tóquio quase provocou outra tensão diplomática entre Brasil e Argentina. O principal jornal do país vizinho, o "Clarín", reproduziu informações da coluna do jornalista Fernando Rodrigues, na Folha, de que o presidente brasileiro disse a interlocutores que "temos de ter saco para aturar a Argentina". A frase, entretanto, foi traduzida pelo diário como "hay que tener bolas para bancar a los argentinos", o que pode ser interpretado não no sentido que tem a expressão em português, de ter paciência, mas sim algo parecido com "temos de ser machos para agüentar os argentinos".
Folha Brasil, 31.05.2005
Como atesta qualquer tratado de embriologia, os testículos nascem em um recôndito lugar do abdome, mais precisamente junto aos rins. Ali poderiam ficar, desempenhando tranqüilamente sua função de gerar os espermatozóides que darão continuidade à espécie. Mas, por alguma razão, os testículos (e nisso, como no resto, embora sendo dois estão sempre de acordo) não se resignam com tal posição anatômica, por eles considerada incompatível com a dignidade de órgãos que, afinal, representam a masculinidade. Junto aos rins, junto às tripas? Jamais. De modo que trataram de migrar. Num movimento tipo invasões bárbaras, começaram a descer abdome abaixo. Queriam mais luz. Queriam visibilidade, queriam exposição. Queriam criar uma imagem própria, porque, como se sabe, imagem é tudo.
Para desagradável surpresa de ambos, contudo, não ficaram à mostra como acontece com os seios. Foram dar, literalmente, num "cul-de-sac", num fundo de saco, e, pior ainda, num engelhado saco de pele conhecido como escroto, palavra de óbvia conotação pejorativa.
A fúria de ambos foi enorme, e eles a despejaram no alvo mais próximo e mais inerme, exatamente o tal saco escrotal. Você é um saco, diziam sem cessar, você não passa de um medíocre desmancha-prazeres. O pobre escroto nada respondia. Estava acostumado a um papel subsidiário na anatomia; apenas obtinha algum consolo quando o seu dono -mas só quando não tinha o que fazer -coçava-o distraidamente (e nisso, ao contrário do que diziam os testículos, parecia obter certa satisfação).
De dentro do seu modesto invólucro, os testículos continuam se gabando: somos muito machos, repetem a todo instante, não temos paciência com os perdedores. E prometem que um dia virão à luz, proclamando ao mundo seu poder hegemônico sobre o continente.
Haja saco para aturar esses caras, pensa o escroto. Pensa, apenas. Saco, como se sabe, não fala.
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Os dilemas da Fortuna (Moacyr Scliar)
Uma americana de 55 anos ganhou duas vezes na loteria no espaço de cinco meses no Estado da Pensilvânia -uma coincidência cuja chance de acontecer é de 1 em 419 milhões. Donna Goeppert ganhou US$ 1 milhão (R$ 2,43 milhões) em cada vez que foi premiada pela loteria da Pensilvânia.
Folha Online, 16.06.2005
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a chance de acertar duas vezes na loteria não deve ser muito maior. Quando isso aconteceu, ela ficou simplesmente estarrecida, mesmo porque não era uma pessoa particularmente afortunada: ao contrário, ela e o marido levavam uma vida modesta, no interior, lutando com dificuldades. Agora, porém, tudo mudava: 1 milhão de dólares, e mais 1 milhão de dólares -duas vezes milionária ela podia pensar em se aposentar, em deixar de trabalhar, em passar o resto de seus dias gozando a vida.Não era o que pensava o marido.
Logo depois da notícia do prêmio ele ficara muito contente. Em seguida, porém, começou a se mostrar inquieto. Homem dado a certas especulações esotéricas, acreditava que aquilo não era acaso, mas sim um desígnio do Destino. Há um recado aí, repetia constantemente à mulher. Um claro recado, para ele: a mulher deveria apostar de novo. Quem tinha ganhado duas vezes seguramente ganharia uma terceira vez. Mais: ele passou a acreditar que a mulher, para quem aliás nunca dera muito bola, era uma criatura especial. Aquele tom meio esverdeado de sua pele, aqueles olhos esbugalhados, os cabelos que - por causa do curioso penteado - pareciam duas antenas, aquilo não apontaria para uma certa origem misteriosa? Não seria ela uma alienígena, uma Supermulher, deixada ainda bebê na maternidade do lugarejo, em lugar de outra menina qualquer? Ela deveria jogar na loteria, sim. Jogaria e ganharia. Mesmo porque, como ele deixava claro, não se tratava só de dinheiro. Ganhando três vezes na loteria ela deixaria de ser apenas uma pessoa de sorte, passaria a ser uma mulher abençoada, prodigiosa. E aí mil possibilidades surgiriam: ela poderia, por exemplo, dar início a uma nova seita (para a qual ele já tinha até um nome: a Falange dos Afortunados). Poderia fornecer franchising para videntes e adivinhos. Poderia começar uma carreira política, chegando, sem dúvida, à Presidência da República: quem deixaria de votar numa mulher capaz de prever o resultado de qualquer guerra?
Os argumentos do marido deixavam-na apreensiva. Por ela, nunca mais chegaria sequer perto de uma lotérica. Mas sabe que ele ainda dá as cartas. Não escapará, portanto: um dia terá de apostar de novo. Se isso for realmente inevitável, sabe o que fazer: usará seus 2 milhões de dólares para comprar bilhetes de loteria. Um deles forçosamente terá de ser premiado. O Destino não pode ser tão ruim assim.
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Biocombustível (Moacyr Scliar)
Cientistas de Cingapura criaram uma bateria que gera eletricidade a partir da urina.
Folha Online, 17 de agosto de 2005.
Quando leram sobre a bateria inventada pelos cientistas de Cingapura, os quatro ficaram alvoroçados. Cientistas amadores, eles se reuniam há anos para discutir projetos e inventos que em geral nunca saíam do papel. Mas a idéia da bateria de urina parecia sensacional. Como disse um deles, o mais entusiasta do grupo, tal invento revolucionaria o nosso mundo: uma fonte de energia completamente alternativa que poderia figurar com destaque ao lado do biodiesel e do álcool. Seria também uma colaboração para o saneamento básico. Por último, e não menos importante do ponto de vista simbólico, recuperaria um produto do organismo sempre desprezado. "Sai na urina" era uma frase que ninguém mais diria. Lançaram-se, pois, ao trabalho.
A bateria de Cingapura na verdade era um microchip, para uso em equipamento médico miniaturizado. A bateria que eles pretendiam era outra, uma fonte de energia capaz de mover um carro elétrico, por exemplo, assim ajudando a acabar com a crise do petróleo. Depois de muita pesquisa e depois de muitos esforços conseguiram fabricar a tal bateria. Com uns 50 centímetros de altura e outros tantos de largura não era pequena; além disso, tinha acoplado um tanque onde seria depositada a urina que, através de uma reação química, produziria a eletricidade.
Os primeiros testes se revelaram satisfatórios e eles estavam muito contentes, mas aí se depararam com um problema. Como era de esperar, a bateria consumia urina. Mas não era pouca urina. Para mantê-la funcionando, os quatro tinham de fazer generosas contribuições, e mesmo assim não era suficiente. De modo que se viram diante de uma questão - como aumentar a produção de sua própria urina? Foi aí que um deles se lembrou da cerveja, da qual todos gostavam. Cerveja, como se sabe, faz urinar; e graças às enormes quantidades que tomavam, urinavam muito. Ficaram alegrinhos, também, mas isso só fazia aumentar o otimismo deles.
Logo se deram conta de que cerveja não era suficiente. Precisavam de mais urina. Há substâncias que fazem urinar, os diuréticos, mas aí eles teriam de correr a toda a hora para o banheiro e corriam o risco da desidratação. Isso sem falar na relação custo-benefício: com o que já tinham gasto em cerveja e com o que gastariam em diuréticos, provavelmente a bateria deixaria de ser rentável.
Acabaram abandonando o projeto. A bateria ainda está lá, no banheiro do escritório que eles partilham. Cada vez que um deles entra para fazer xixi, a geringonça solta umas faíscas. É, por assim dizer, uma manifestação de esperança, de confiança na imaginação criativa dos cientistas amadores.
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Como vencer o jogo da corrupção (Moacyr Scliar)
Corrupção na política vira jogo. Empresário lança "Escândalo!", que traz parlamentares como personagens. É um jogo recheado de fraudes e chantagens.
Folha Brasil, 15.09.2005
Um novo jogo está sendo lançado no país e, ao que tudo indica, logo terá muitos aficcionados. Não é fácil de disputar, mas está na ordem do dia. Aqui vão algumas dicas para aqueles que estão interessados. Veja como vencer o jogo da corrupção:
1. Posicione-se adequadamente na estrutura política. Para dirigir o tráfico de influências, é imprescindível estar por cima. Quanto maior a altura, maior o tombo? Talvez. Mas também quanto maior a altura, maiores as oportunidades.
2. Descoberto, negue. Negue com veemência, com convicção, com indignação, se possível. Fale em armação, fale em provas forjadas, fale até em conspiração. Descreva-se como vítima, como perseguido, como mártir.
3. Aperfeiçoe sua cara-de-pau. Você deve ter completo e absoluto domínio sobre seus músculos faciais. É preciso, por exemplo, olhar fixamente para a câmera de TV. Não pisque. Qualquer bater de pálpebras pode ser uma evidência contra você.
4. Crie suspense. Anuncie que você tem um documento secreto, sensacional -mas que só vai exibi-lo no momento adequado. Enquanto todos ficam aguardando o momento adequado, você aproveita o tempo para ganhar fôlego e pensar em algum outro truque.
5. Não confie em ninguém. A corrupção não gera amigos, gera sócios -e é uma sociedade transitória, pronta para ser desmanchada quando as tramóias vêm à luz.
6. Se nada mais der certo, parta para a solução extrema: defenda a corrupção. Isto mesmo: defenda a corrupção. Você dirá que para tanto é preciso uma boa dose de cinismo, mas às vezes o cinismo é a única alternativa que resta a quem está contra a parede. Sustente que a corrupção não passa da continuação dos negócios por outros meios, que é o único recurso contra a pesada burocracia estatal, que tantos problemas tem causado à economia. Descreva a corrupção como uma espécie de lubrificante social, criado exatamente para facilitar as coisas àqueles que têm o senso de oportunidade. Retorne ao argumento do "rouba mas faz", evocando políticos que enriqueceram ilicitamente mas que não deixavam de ser grandes empreendedores. Descreva a propina e a comissão como retribuição informal de serviços prestados, muitas vezes por pessoas cujos salários não estão à altura de seu talento e de sua esperteza. Pondere que no orçamento de uma obra que custa, digamos, R$ 100 milhões, 1 milhão a mais ou a menos não fará muita diferença; o importante é que a obra seja realizada (e inaugurada). Enfim, tenha convicção. E confie no inesperado. É um elemento sempre presente no jogo da corrupção.
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Contra a pirataria (Moacyr Scliar)
Dupla assalta joalheria e escolhe marcas de relógio para levar. Um dos ladrões abordou uma vendedora de uma joalheria que inspecionava a vitrine; o assaltante levantou sua blusa, mostrando uma arma à vendedora. Dentro da loja, outras vendedoras foram rendidas e obrigadas a recolher relógios das marcas Breitling, Omega e Mont Blanc da vitrine.
Folha Online, 18 de outubro de 2005
Os dois assaltantes, um alto e robusto, outro baixo e magrinho, eram experientes e organizados. Sabiam exatamente as marcas de relógio que queriam; coisa fina, nada de despertadores baratos. Examinavam cada relógio que era trazido da vitrine pelas vendedoras, antes de colocá-los numa valise. Lá pelas tantas surgiu um problema. Olhando um caríssimo relógio Breitling, o alto e robusto, que aparentemente era o chefe, teve uma súbita suspeição:
- Acho que este aqui é falso.
Mostrou ao colega, que ficou em dúvida: podia ser falso ou não. Na dúvida chamaram a vendedora-chefe. Que ficou indignada:
- Falso, em nossa relojoaria? A loja mais famosa da cidade? Uma loja que está há 30 anos no ramo, que tem clientes famosos? Ora, façam-me o favor, amigos. Assalto, sim; ofensa, não. Levem tudo, mas nos respeitem.
Os assaltantes não se deixaram impressionar pela retórica. Afinal, como disse o baixinho, a pirataria campeava. Se CDs eram pirateados, por que não relógios, mercadoria mais valiosa e cobiçada? Queriam provas de que o Breitling era verdadeiro. A vendedora-chefe pediu licença, foi até o escritório e voltou com um documento escrito em inglês. - O que é isto, perguntou o alto.
- É um certificado de autenticidade. Acompanha o relógio.
Os dois miraram o papel com desconfiança. Não sabiam inglês; além disso, quem lhes garantia que o certificado de autenticidade era autêntico, e não uma falsificação? Resolveram convocar o dono da relojoaria para esclarecer a questão. A vendedora-chefe resistiu o quanto pôde, mas, com um revólver encostado no crânio, não teve outro jeito: ligou para o dono, que aliás morava ali perto, pediu que viesse para atender "dois clientes muito importantes".
Vinte minutos depois o homem chegava, esbaforido. Apesar da visível perturbação das vendedoras, não desconfiou de nada, mesmo porque os assaltantes, bem vestidos, e com as armas agora ocultas, pareciam mesmo clientes, e clientes muito cordiais.
- Eu tenho este relógio Breitling -disse o alto- que estou pretendendo trocar. Queria sua valiosa opinião: é falso ou verdadeiro?
Para o dono da loja, um veterano no ramo, bastou um olhar: é falso, proclamou. E aí mostrou o relógio que tinha no pulso:
- Este, sim, é verdadeiro.
Escusado dizer que os assaltantes levaram o Breitling verdadeiro. E o fizeram com absoluta tranqüilidade. Deve-se confiar na palavra de quem entende do assunto.
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Parada obrigatória (Moacyr Scliar)
"1.000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer", best-seller mundial da americana Patricia Schulz lançado no Brasil pela Sextante, traz cerca de 20 paradas obrigatórias no país.
Mônica Bergamo, 23 de abril de 2006
Tão logo ele tomou conhecimento dos mil lugares imperdíveis no mundo, decidiu: seria o primeiro brasileiro a conhecê-los todos. Homem muito rico, recursos para isso não lhe faltariam. Pretendia, inclusive, realizar este périplo em tempo recorde, em primeiro lugar para dar à façanha ainda maior destaque e depois porque, pela idade, já não podia fazer planos a longo prazo.
Assim, tudo o que faria era entrar nos lugares mencionados na obra, tirar uma foto e seguir adiante. Consultou um amigo, dono de uma grande agência de turismo. Sim, era possível fazer aquilo em um ano, desde que ele alugasse um jatinho particular. O que sem demora foi feito, e assim ele partiu, disposto a visitar pelo menos três lugares por dia. Era difícil, mas ele o conseguiu e assim pouco a pouco foi riscando os lugares de sua lista.
Deixou o Brasil para o fim. Em nosso país eram cerca de 20 lugares, a maioria deles em São Paulo, cidade onde nascera e onde morava. Os amigos esperavam que ali se encerrasse a gloriosa trajetória, mas seus planos eram diferentes. Queria terminar com o Copacabana Palace, no Rio.
Havia uma razão para isso, uma razão muito especial. Anos antes ele se apaixonara por uma mulher, uma jovem e linda carioca. Paixão tão fulminante, tão avassaladora, que ele decidira largar tudo, esposa, filhos, empresas e viver com a moça no Rio. Para tanto, haviam marcado um encontro no Copacabana Palace.
Encontro ao qual ele não compareceu. Chegou a viajar para o Rio e, no aeroporto, tomou um táxi para ir ao famoso hotel, mas no meio do caminho desistiu: não, não abandonaria tudo que havia conquistado por causa de uma aventura amorosa. Voltou a São Paulo sem ir ao Copacabana Palace -no qual, aliás, nunca entrara.
Agora, finalmente, adentraria o hotel. Não mais para uma aventura, mas para gozar seus 15 minutos de fama. Seus assessores haviam avisado a imprensa, que lá estaria para registrar o clímax da aventura, a chegada ao último dos mil lugares.
Já era noite quando o jatinho pousou no aeroporto. Ele tomou um táxi. Nervoso: já estava atrasado. E, para cúmulo do azar, havia um congestionamento em Copacabana. Decidiu completar o trajeto a pé, apesar das advertências do motorista.
Já estava a uns 200 metros do famoso prédio da avenida Atlântica, quando o assaltante lhe apontou o revólver. Ele fez um gesto - um gesto que queria dizer leve tudo, mas não me retenha, tenho um encontro com o Destino - mas foi mal interpretado: o homem achou que ele tentava reagir e disparou.
Caído no chão, agonizante, tinha apenas uma mágoa: havia um lugar, um único entre mil outros lugares, que ele não veria antes de morrer. O problema, concluiu antes de expirar, é que a gente não pode ter tudo o que se quer na
vida.
***
Namoro e vestibular (Moacyr Scliar)
Namorados disputam vaga na USP. Fuvest leva casais a testarem não só o conhecimento mas também sua relação afetiva.
Fovest, 22 de novembro de 2005.
Esta história aconteceu há muito tempo, numa época em que a fiscalização da prova não era muito rigorosa. E só porque não era rigorosa que a história pôde acontecer.
Júlio e Francesca foram fazer vestibular para medicina. Eles eram namorados, amavam-se muito e, porque se amavam, tinham decidido seguir a mesma profissão, que ambos, aliás, admiravam muito. Naturalmente, estudaram juntos para o exame; mas aí havia uma diferença. Francesca, que era inteligente, aprendia as coisas com facilidade. Júlio, que tinha um raciocínio mais lento, não conseguia acompanhá-la. Mas, afinal, eram namorados e Francesca tratava de ajudá-lo como podia, garantindo que no fim tudo correria bem e que seriam ambos aprovados.
Veio o dia da prova, realizada no salão nobre da faculdade de medicina local, que funcionava num antigo e majestoso prédio. O local não era grande e as mesas não ficavam muito separadas. Júlio e Francesca sentaram-se juntos para realizar a primeira prova, que era então a de química. Foram distribuídas as questões. Todos puseram-se a trabalhar.
Júlio estava apavorado. Ele não sabia nada do que fora perguntado. Era como se o conhecimento tivesse sumido de repente de sua cabeça. Notou então que o único fiscal da prova olhava distraidamente pela janela. Aproveitou e, em voz baixa, perguntou a Francesca qual era a resposta da primeira questão. Sem nem sequer olhá-lo, ela respondeu, em tom baixo, mas firme, que colar no vestibular era proibido.
Júlio não podia acreditar no que estava ouvindo. Francesca, a sua Francesca, negava-se a ajudá-lo naquele instante de angústia? Aquilo representava um duplo choque e ele ficou ali, imóvel, atarantado, sem saber o que fazer ou o que pensar.
Ao lado dele estava sentada Luciana. Amiga de ambos, ela nutria por Júlio uma paixão secreta. Percebendo o que acontecia, e num impulso, sussurrou ao rapaz a resposta da primeira questão. E depois a resposta da segunda, e a resposta da terceira.
Júlio e Francesca foram aprovados, Luciana não -muito boa em química, ela era fraca em física, e este exame acabou por excluí-la. Seu único consolo era ter ajudado o amado.
Júlio e Francesca formaram-se há vários anos. Ambos são cirurgiões. Ah, sim, e estão casados. O trabalho no campo operatório acabou por reaproximá-los. São muito felizes. E nunca mencionam o dia em que fizeram o exame de química no vestibular.
***
O carro com paixão (Moacyr Scliar)
Garagem na sala. Pode até parecer loucura, mas alguns motoristas cobiçam tanto um veículo que, quando conseguem comprá-lo, colocam-no dentro de casa.
Classificados/Veículos, 6 de novembro de 2005
Apaixonado por carros ele era, e desde criança. Sabia tudo sobre automóveis antigos. O Ford modelo A? Dizia em que ano havia sido projetado, quantos automóveis haviam sido vendidos na primeira leva. O Oldsmobile Ninety-Eigth 1957? Descrevia a grade do motor, o painel, o estofamento. O Chevrolet 1937? Sabia até a potência do motor e onde, exatamente, ficava o botão do arranque.
Se pudesse, ele se tornaria colecionador. Compraria lendários modelos, levaria para sua casa, montaria uma exposição permanente. Mas isso não podia fazer. Em primeiro lugar, porque não tinha dinheiro. Auxiliar de escritório, mal ganhava para sustentar a si próprio e à mulher. Em segundo lugar, não tinha espaço para tais carrões: morava numa casinha de subúrbio, sem garagem, sem quintal.
Mas aí o destino interveio. Através de um amigo ficou sabendo do falecimento de um famoso colecionador - cuja esposa, que detestava a paixão do marido, estava se desembaraçando dos carros por preços relativamente acessíveis. Esperançoso, foi até lá. Mas chegou tarde: todos os antigos modelos haviam sido comprados. Com exceção de uma enorme limusine, daquelas usadas em Nova York para transportar celebridades e que ninguém comprara, exatamente por causa do tamanho.
- Sabe de uma coisa? - disse a senhora. - Se você quiser, pode levar esse trambolho de graça. Já estou farta dessa coisa.
Quase sem acreditar no que ouvia, ele entrou na limusine e deu a partida. A mulher abanou para ele e entrou na casa, aliás um palacete. Tripulando o carrão (e chamando a atenção de todo mundo) foi para casa.
A mulher se desesperou. Onde colocariam aquilo? Dentro de casa, disse ele. Naquele fim de semana demoliu a parede da frente, introduziu a limusine no recesso do lar e tornou a edificar a parede. Mas o veículo era tão grande que tiveram de retirar todos os móveis da sala-quarto, inclusive a cama. O que não seria um problema: ele deu o jeito de transformar a limusine em quarto e em sala. A esposa, que nunca reclamava de nada, aceitou o arranjo. E, assim, realizaram um sonho dele: moravam num automóvel, aliás com bastante conforto.
Poderiam ter sido felizes para todo o sempre, se não fosse o mecânico que ele chamou para consertar um pequeno defeito no carro. A mulher se apaixonou pelo homem, aliás muito bonito, e fugiu com ele.
O colecionador viu os dois saindo, ela de mala na mão. Pensou em ir atrás deles, na limusine. Mas para isso teria de usar o carrão para demolir a parede da frente. E ele jamais arranharia uma pintura tão bem conservada.
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OUTROS GRANDES TEXTOS :
*Como destruir uma ilha em 20 lições
*Mal Rompe a Manhã - Walter Galvani
*10 grandes textos - Paulo Leminski
*Não há mais nada a se escrever sobre o Natal - Luis Fernando Veríssimo
*O rei e o menino - Haiti - Urda Alice Klueger
*O homem e as coisas - Carlos Nejar
*Luto (os cães enterrados vivos) - Rubens da Cunha
*Vassoura Bruxólica - Franklin Cascaes
Como destruir uma ilha em 20 lições
por Fábio Bruggemann
Existem pessoas que constroem cidades, outros preferem destruí-las. Como em breve haverá um novo plano diretor, vai aqui minha sugestão para facilitar a destruição, mesmo que já tenha iniciado o processo.
1) Habite uma ilha, mas de costas para o mar. Afinal, você ficará cego de tanto vê-lo, que continuar olhando para ele será um suplício. Depois de alguns anos, “se faça de moderno” e transforme toda a orla urbana - inclusive a das lagoas - em estacionamentos para automóveis, e vá tomar café nos postos de gasolina.
2) Esqueça de forma solene a cultura produzida pelos moradores, a começar por destruir todo seu patrimônio material e imaterial, colocando abaixo todo o casario histórico (para quê, né, manter casa velha?) e construa prédios funcionais, e “modernos”. Deixe que intelectuais, arquitetos, urbanistas e especialistas falem o que quiserem, eles costumam não entender nada disso.
3) Como essa gente faz muita porcaria, construa um imenso merdário bem na entrada da cidade, para que turistas e a própria população sinta todos os dias o cheiro daquilo que sabem fazer muito bem.
4) Depois encha a cidade de estátuas extemporâneas e esquisitas, como aquela em homenagem à Polícia Militar, carinhosamente apelidada de “No meu não”, e, ao lado do merdário, finque bandeiras enormes.
5) Gaste uma fortuna na construção de um complexo - mas complexo mesmo - de terminais urbanos que fazem a viagem ficar mais lenta do que antes da construção deles. Não dê ouvidos àqueles malas que insistem em achar que investir em transporte marítimo, só porque se habita uma ilha, dará resultado.
6) Aterre todas as orlas, pelo mesmo motivo já citado. Afinal, é muito mar que tem por aí. Precisamos mesmo é de terra e espaços para os automóveis, razão essencial de nossas vidas.
7) Depois de aterrar orlas e baías, convide um dos urbanistas mais importantes do mundo, como Burle Marx, para que faça um projeto de urbanização do aterro. Quando estiver tudo pronto, destrua tudo e coloque ônibus, muitos ônibus, para fazer “não” funcionar aquele complexo citado acima. Para acabar de vez, construa um Centro de Eventos cuja arquitetura, além de tapar a pouca vista do mar, é bem parecida com a do merdário citado antes.
8) Asfalte todas as ruas do centro histórico. Afinal, o turismo depende apenas de bundas, sol e areia, fazendo, ainda, ampliar a velocidade dos carros, aumentando a poluição sonora e os acidentes. Ninguém vai à Europa para ver sua cultura e sua história, ou seus museus. Essa gente gosta mesmo é de ver carros, muitos carros.
9) Reconstrua apenas os pilares do mítico Miramar, pinte de cor de rosa e deixe inacabado. Afinal, aqui também tem construção que já é ruína.
10) Construa centros de compras (e os chame colonizadamente de shopping, pois somos ingleses ao que parece) bem em cima dos mangues. Ninguém precisa daquele ecossistema cheio de garças, carangueijos e que de nada serve na hora de comprar roupinhas de 200 reais, vindas do Bom Retiro, em São Paulo, por apenas 25.
11) Construa casas penduradas nas encostas das lagoas e dos morros próximos ao mar e desmate tudo em volta, para que tenha mais visão da natureza, antes que outro construa a sua também e desmate e tire a sua visão privilegiada.
12) Desmate, aterre e negocie com a Câmara de Vereadores a ocupação de áreas de preservação permanente por empreendimentos que privatizam a paisagem e os acessos à praia.
13) Evite o incentivo aos esportes adequados ao clima e geografia, tais como o vôo livre, a pesca, a vela, etc, e permita a ocupação de áreas de abastecimento de lençol freático por empreendimentos imobiliários voltados a esportes praticados há anos na Ilha e adorados pelos seus habitantes, como o golfe, por exemplo.
14) Como a Ilha dos Aterros já tem parques demais, doe os parques municipais de preservação para a iniciativa privada explorar os recursos naturais a serem protegidos e as áreas de terra para especulação imobiliária, assim como o Parque Sapiens e o Parque do Rio Vermelho.
15) Ignore os argumentos de técnicos e ambientalistas que só querem impedir o progresso da cidade e utilize as estruturas de instituições públicas para persegui-los até que abram mão das bandeiras preservacionistas e se mudem de cidade e Estado.
16) Construa novos e luxuosos prédios, cada vez mais perto do mar, sem saber pra onde vai o esgoto, venda pra milionários de qualquer lugar do mundo, e depois coloque a culpa nos que vêm de fora pela ocupação desenfreada.
17) Deteste quem pensa um pouco no futuro e que - mesmo ciente de que um dia vai morrer - acha que seus filhos e netos merecem uma ilha um pouco melhor.
18) Seja moderno e diga de boca cheia Ecochato. É muito chique ser contra os ecochatos. Prefira ser ecoburro, que é também muito moderninho.
19) Asfalte ruas que não têm nem nome ainda, nem esgoto. Afinal, o que não aparece não dá voto.
20) Vá embora e não lute contra.
(O artigo foi publicado em duas partes no caderno Variedades do Diário Catarinense, onde o escritor assina coluna aos sábados. A primeira parte foi publicada em 28/10 e a segunda 04/11/2006.)
Clique aqui para ler a biografia do autor
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“Mal rompe a manhã...”
por Walter Galvani
Por força das circunstâncias e uma longa atividade jornalística, acabei formatando (como diriam os viciados em informática) um estilo que se caracterizava por deitar tarde e levantar tarde. Depois a corrupção de costumes foi completada com o trabalho em um vespertino (sonho e glória de muitos jornalistas, mas hoje quase completamente expurgado do mercado pelo advento das televisões e as confusões do trânsito) que me propiciava a chance de dormir cada vez menos e misturar cada vez mais os horários.
O tempo foi fazendo seus habituais estragos, ventos de mais de cem quilômetros passaram a se tornar presentes em nossas vidas e meus relógios revolutearam também enlouquecidos. Hoje, levanto na hora em que antes ia deitar... E então, depois de um bom café à moda dos hotéis brasileiros, sento-me diante do computador. Tomo conhecimento do correio eletrônico, recebo e respondo as mensagens mais urgentes ou mais caras e começo a dedilhar em busca do primeiro texto ou da continuação do que venho transacionando comigo mesmo.
Como diria o velho e insubstituível Drummond: “A luta com as palavras/ é luta vã/ No entanto lutamos/ mal rompe a manhã!”
Hoje um texto curto, amanhã um artigo para uma revista, depois o romance, ah sim, o romance, desafiador, que ressurge sempre, estocado na memória do computador e que a um simples toque deixa seu esconderijo virtual e perpassa minha tela à espera da continuidade, ou para sofrer pacientemente as retificações. Entusiasmo-me e levo adiante, aproveitando o momento propício que se criou e que se repete todo o santo dia, menos aquele que sou obrigado a excluir para devotá-lo integralmente à incineração diante das necessidades prosaicas de vida bancária ou profissional jornalística, algo que me dá um prazer sofrido e condenado.
Certa vez, perguntaram a Pablo Picasso se ele acreditava em inspiração. “Sim, claro - foi sua resposta imediata. Sempre que ela chega me encontra trabalhando”.
E assim é, como foi hoje mesmo e como será amanhã. Cercado por livros, amigos e necessários apoios, com os dicionários alinhados à minha espera, e as fotos da minha mulher e das minhas filhas, como ícones capazes de me garantirem a tranqüilidade, sigo martelando com vigor datilográfico (velhas máquinas Remington e Olivetti) o teclado onde deveria pousar levemente a polpa dos dedos, num exercício de balé eletrônico. Minha digitação acompanha com o seu ritmo o progresso do meu pensamento, que, naturalmente por vezes ultrapassa a velocidade da sua conversão em matéria.
Vá lá, vá lá, ando para trás e para diante, retomo e súbito, um gesto desastrado destrói o que já se acumulava, é preciso recomeçar e eis que o telefone toca.
O recomeço é sempre mais difícil, é como descer um patamar do sonho, é um recuo e aos poucos vou deixando a minha identificação com o vôo. Os cães latem. Há uma nova retomada. Agora reviso o que fiz, retoco, reescrevo, ponho a dourar, reservo e estoco no fundo do misterioso computador. Amanhã, quando a manhã começar, descongelo e retomo o ritmo, procurando rapidamente acertar o passo, antes do mergulho.
Durante o restante do dia, viajo. Entrego-me a outras atividades, sinto que preciso fazer algumas anotações, faço exercícios de memória, mas o texto está lá, distante, ainda não o imprimi para que possa senti-lo, cheirá-lo e mostrá-lo quem sabe a alguém que possa perceber o que estou pretendendo dizer e confirmar-me que recebeu a mensagem, totalmente.
Perco minhas lembranças durante o dia, envolvido na movimentação, nos contatos, nos telefonemas, no trabalho e nas leituras. Os jornais, com textos tão dispersos e tão pouco inspiradores, ou os artigos retirados e reservados para leitura posterior. Há, sim, os livros que estão sendo lidos, religiosamente. Salto de um para o outro, vejo pouquíssima televisão, um pouco mais antes de preparar o sono, e diante de mim, outra vez a manhã.
E puxo então novamente da memória do computador o texto que dormiu o sono justo do esquecimento e lá está ele, implacável, a me cobrar a continuidade. Não, hoje não, ainda não está maduro, a digitação só vai perturbar o que está consolidado, mando-o de volta para sua caverna eletrônica.
Quando termino aquela jornada, alinho a nítida impressão de que desperdicei um dia de minha vida e com este sentimento venenoso faço todo o giro habitual, novamente o sono e outra vez o despertar com a expectativa de que, hoje sim, farei ressurgir do poço fundo do esquecimento, em todo o seu esplendor o que estou buscando botar de pé. Vejo e revejo os erros, hoje mais claros do que anteontem. Refaço, registro, faço o salvamento necessário para que seja aproveitado e sigo adiante. Outra vez o mesmo sofrimento, mal rompe a manhã...”
Portanto, de hoje em diante, “nenhum dia sem uma linha”.
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O mulherão
por Martha Medeiros
Peça para um homem descrever um mulherão.Ele imediatamente vai falar do tamanho dos seios,na medida da cintura,no volume dos lábios,nas pernas,bumbum e cor dos olhos.Ou vai dizer que mulherão tem que ser loira,1,80m,siliconada,sorriso colgate.Mulherões,dentro deste conceito,não existem muitas:Vera Fischer,Leticia Spiller,Malu Mader,Adriane Galisteu,Lumas e Brunas.Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um mulherão e você vai descobrir que tem uma a cada esquina.
Mulherão é aquela que pega dois ônibus por dia para ir ao trabalho e mais dois para voltar,e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome.Mulherão é aquela que vai de madrugada para a fila garantir matricula na escola e aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco para buscar uma pensão de 100 Reais.
Mulherão é a empresária que administra dezenas de funcionários de segunda a sexta, e uma família todos os dias da semana.Mulherão é quem volta do supermercado segurando várias sacolas depois de ter pesquisado preços e feito malabarismo com o orçamento.Mulherão é aquela que se depila, que passa cremes, que se maquia, que faz dieta,que malha,que usa salto alto, meia-calça,ajeita o cabelo e se perfuma,mesmo sem nenhum convite para ser capa de revista.Mulherão é quem leva os filhos na escola,busca os filhos na escola,leva os filhos para a natação,busca os filhos na natação,leva os filhos para a cama,conta histórias,dá um beijo e apaga a luz.Mulherão é aquela mãe de adolescente que não dorme enquanto ele não chega, e que de manhã bem cedo já está de pé, esquentando o leite.
Mulherão é quem leciona em troca de um salário mínimo,é quem faz serviços voluntários,é quem colhe uva,é quem opera pacientes,é quem lava roupa pra fora,é quem bota a mesa,cozinha o feijão e à tarde trabalha atrás de um balcão.Mulherão é quem cria filhos sozinha, quem dá expediente de oito horas e enfrenta menopausa,TPM,menstruação.Mulherão é quem arruma os armários, coloca flores nos vasos,fecha a cortina para o sol não desbotar os móveis, mantém a geladeira cheia e os cinzeiros vazios.Mulherão é quem sabe onde cada coisa está, o que cada filho sente e qual o melhor remédio pra azia.
LUMAS,BRUNAS,CARLAS,LUANAS E SHEILAS:Mulheres nota dez no quisito lindas de morrer, mas MULHERÃO É QUEM MATA UM LEÃO POR DIA.
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10 grandes textos de Paulo Leminski:
1)Epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
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2)Um Poema
Um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
**********
3)Amor, então também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
Que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
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4)Bem no Fundo
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
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5)Erra...
Erro uma vez
nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
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6)Quando eu tiver setenta anos
Quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.
**********
7)Desencontrários
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
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8)A lua no cinema
A Lua foi ao cinema,
Passava um filme engraçado,
A históra de uma estrela
Que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
Uma estrela bem pequena,
Dessas que quando apagam,
Ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
Ninguém olhava para ela,
E toda a luz que ela tinha
Cabia numa janela.
A Lua ficou tão triste
Com aquela história de amor,
Que até a Lua insiste:
-Amanheça, por favor!
**********
9)Pareça e desapareça
Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parecia mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
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10)Amor bastante
Quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só intante
basta um instante
e você tem amor bastante.
Clique aqui para ler a biografia de Paulo Leminski
TOPO
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Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.
Clique aqui para ler a biografia de Helena Kolody
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Natal é uma época difícil para cronistas. Eles não podem ignorar a data e
ao mesmo tempo não há mais maneiras originais de tratar do assunto.
Os cronistas, principalmente os que estão no métier há tanto tempo, que
ainda usam a palavra métier – já fizeram tudo que havia para fazer com o
Natal. Já recontaram a história do nascimento de Jesus de todas as formas:
versão moderna (Maria tem o bebê numa fila do SUS), versão coloquial ("Pô,
cara, aí Herodes radicalizou e mandou apagá as pinta recém-nascida, baita
mauca"), versão socialmente relevante (os três reis magos são detidos pela
polícia a caminho da manjedoura, mas só o negro precisa explicar o que tem
no saco) versão on-line (jotace@salvad.com.bel conta sua vida num chat sitc),
etc.
Papai Noel, então, nem se fala. Eu mesmo já escrevi a história do casal
moderno que flagra o Papai Noel deixando presentes sob a árvore de Natal,
corre com o Papai Noel e não conta nada da sua visita para o filho porque
querem criá-lo sem qualquer tipo de superstição várias vezes.
Poucos cronistas estão inocentes de inventar cartas fictícias com pedidos
para o Papai Noel: patéticas (paz para o mundo, bom senso para os
governantes), políticas ("Só mais um mandato e eu juro que acerto, ass.
Fernando") ou práticas ("Algo novo para escrever sobre o Natal, por amor de
Deus!").
Já fomos sentimentais, já fomos amargos, já fomos sarcásticos e
blasfemos, já fomos simples, já fomos pretensiosos – não há mais nada a
escrever sobre o Natal! Espera um pouquinho. Tive uma idéia. Uma reunião de
noéis! Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel. Acho que sai alguma coisa.
Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos... onde? Na mesa
de um bar? Papai Noel não freqüenta bares para não dar mau exemplo. Pelo
menos não com a roupa de trabalho. No Pólo Norte? Noel Coward,
acostumado com o inverno de Londres, talvez agüentasse, mas Noel Rosa
congelaria. Não interessa onde é o encontro. Uma das primeiras lições da
crônica é: não especifica. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos
em algum lugar. Os três conversam.
Noel Rosa – Ahm... Sim... Hmm...
Noel Rosa diz o quê?
Noel Rosa – E então?
Noel Coward e Papai Noel se entreolham. Papai Noel cofia a barba.
Ninguém sabe, exatamente, o que é "cofiar", mas é o que Papai Noel faz,
enquanto Noel Coward olha em volta com evidente desgosto por estar em
algum lugar. Preferia estar em outro. A todas essas eu penso em alguma coisa
para eles dizerem.
Noel Roas (tentando de novo) – E aí?
Papai Noel – Aqui, na luta.
Noel Coward – What?
Esquece. Não há mais nada a escrever sobre o Natal.
Salvo isto, se dão vênia: que seu Natal em nada lembre o da Chechênia.
Que suas meias se encham de metais vis desde que não sejam guaranis.
Que sob a árvore enfeitada o grande embrulho com seu nome seja...
Meu Deus, a Paola pelada!
Que em nenhum momento do rebu alguém faça piada com o tamanho do
peru.
Que em alegre bimbalhada os sinos anunciem ao mundo que está saindo
a rabanada.
E cantem os anjos, a capela que o Cristo vai nascer assim que acabar a
novela.
Clique aqui para ler a biografia de Luis Fernando Veríssimo
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O rei e o menino – HAITI -
por Urda Alice Klueger
(Para Didier Dominique e o povo do Haiti)
(e para meu pai, Roland Klueger, que faria 88 anos hoje.)
Era uma vez um rei e um menino. Fico pensando se há alguma palavra que signifique, ao mesmo tempo, exaustão, terror, desespero e desesperança, tudo isto somado e elevado a décima potência, mas não encontro tal palavra. Só que era bem assim que estava o menino: tinha dois anos, encolhia-se de olhos catatônicos no vazio de uma calçada logo depois do terremoto do Haiti, e apareceu na televisão. Eram tantos em desespero em torno dele, eram tantos... Eram tantos os mortos em torno dele, eram tantos... Quem conseguiria prestar atenção em mais aquele menino dentro de tanta desgraça, a não ser aquele olho malicioso de uma televisão, que pegou o menino e o jogou no meu colo, sem que eu soubesse o que fazer com ele?
Era uma vez um rei e um menino. O rei era pura saúde, garbo e fidalguia: vestido com trajes tribais, tinha no rosto e no corpo os mesmo desenhos em branco, preto e vermelho que também estavam no escudo de couro que segurava na mão esquerda, pois na direita segurava a lança segura e certeira que o tornara rei tamanha a sua perícia ao caçar o leão. Ele era grande e espadaúdo, mas maior ainda era a sua fama, pois não só ao leão enfrentava: quando seu povo tinha fome, ele afrontava até os grandes elefantes, e todos viviam felizes no seu reino, bem alimentados e saudáveis, e o rei era feliz também.
Certo do poder da sua felicidade e da sua lança, o rei nunca entendeu como lhe caíra em cima aquela rede que o despojara do seu escudo, da sua lança, da sua força e da sua liberdade – como tantos outros da sua terra, teve que se curvar à chibata do traficante, aceitar a gargantilha e as algemas de ferro, resistir à longa caminhada da coleante corrente feita de gente e de ferros, viver a aviltância do navio negreiro.
A saúde antiga deu-lhe forças para chegar vivo àquela terra de degredo, de escravidão, e cruéis homens brancos de outra fala, à força de chicote, subjugaram-no e ele teve que se curvar, sem lança, sem pintura, sem escudo, e cultivar a cana que produzia o açúcar, o rum e a riqueza daqueles usurpadores da sua liberdade. Nunca mais ele foi feliz; nunca mais soube do seu povo e seu povo nunca mais soube dele, e só o que havia de belo era o mar daquela terra, todo verde, azul e transparente. Houve, também, uma mulher que reconheceu nele a fidalguia conspurcada, e antes de morrer prematuramente, o rei teve um filho, negro e lindo como ele, e que na verdade era um príncipe – mas foi um príncipe que nunca teve uma lança e que não conheceu os desenhos e as cores tribais – ao invés de leões, só houve para ele o látego do algoz.
Outros príncipes foram gerados na descendência do rei, naquela terra que parecia incrustada num mar de turmalinas, e todos tiveram a vida miserável de escravo, enquanto seus senhores tinham as vidas nababescas dos poderosos.
Um dia, já não dava mais de suportar. Eles eram mais de 500.000 negros, e os senhores eram 32.000, certos que a força do látego manteria aquela situação indefinidamente. E junto com os demais escravos os descendentes do rei lutaram e lutaram e venceram – desde 1791 a 1803 – nesse último ano venceram até o exército que Napoleão Bonaparte mandara da França. E conquistaram a liberdade!
O Haiti foi o primeiro país da América dita Latina a ser livre, a fazer a independência, isto lá em 1804, antes de todos os demais. É de se imaginar o frio que correu na espinha de tantos outros colonizadores brancos: uma república, e de negros? E se a coisa pega? Olha que escravo está tudo cheio por esta América de meu Deus! Que se faz, ai ai ai?
De modo geral, o que se podia fazer eram independências rápidas, feitas por brancos (e elas aconteceram uma depois da outra) e muita matança de negros, para evitar que a coisa trágica se repetisse e sujasse o bom nome da dita civilização européia! Sei bem como foi tal matança no Brasil: foi na guerra do Paraguai, foi na revolução Farroupilha... – não estou inteirada de como foi nos outros países, mas que a matança foi grande, lá isso foi. E a “civilização” branca quase pode respirar, aliviada – só que havia aquele pequeno país, aquele maldito pequeno país lá incrustado naquele mar de ametista, o tal do Haiti, que era um país de negros – e nunca que a tal “civilização” branca poderia deixar aquilo lá florescer de verdade – era afronta demasiada.
E nos dois últimos séculos o Haiti sofreu tudo o que é possível sofrer-se para que sua crista se quebrasse: invasões, ditaduras, golpes de Estado, o bedelho dos brancos sempre indo lá e tentando botar tudo a perder, mas a valentia daquele povo parecia indomável, e o Haiti, mesmo não conseguindo florescer como deveria, era exportador de café, de arroz, era o maior produtor de açúcar do mundo, era um país que tinha seus filhos bem alimentados a arroz, a banana, os porcos abundavam e produziam pratos deliciosos, acompanhados de banana frita, iguaria tão caribenha...
Foi agora, agorinha, no tempo da violência do neoliberalismo, o que nos leva a 1980, que o complô dos brancos resolveu que já não dava mais, que era muito absurdo em plena América ver um país de negros sobrevivendo e sobrevivendo impunemente... Então foi programada a tomada definitiva do Haiti. Foi daquelas coisas mais malévolas que as mentes doentias podem programar visando lucro: aos poucos, introduziram-se as pragas necessárias na ilha incrustada num mar de safira, e morreram todos os porcos, e depois todo o arroz, e depois toda a banana, e depois veio a praga do café.. . Aqueles negros corajosos não sobreviveriam, ah! La isso não poderia acontecer! Viveriam apenas para voltar à condição de escravos, e igualzinho como os europeus, em 1885, no Tratado de Berlim, dividiram o mapa da África à régua, causando as milhares de desgraças que estão acontecendo até hoje, os brancos do neoliberalismo pegaram o território do Haiti e o dividiram em 18 futuras zonas francas onde não haveria lei, onde o Capital imperaria, e onde, as pessoas tão famintas que estavam assando biscoitos de argila para poderem ter algo no estômago trabalhariam, de novo, em regime de escravidão. Pode parecer que tal coisa é distante de nós, mas não é. O próprio vice-presidente do Brasil, José Alencar, é alguém tão interessado no assunto que até mandou seu filho para lá para cuidar dos seus futuros interesses imperialistas. E o execrável outro dia ainda saiu do hospital, depois de mais algumas cirurgias, sorrindo para as câmaras das televisões e declarando que poderia perder tudo na vida, menos a honra. Que honra pode ter um homem assim?
(Não consigo me furtar de contar de que forma a nefanda honra do vice-presidente atingiu diretamente minha família, recentemente. Numa só tarde, uma das empresas dele, aqui na minha cidade de Blumenau/SC/Brasil, a Coteminas, demitiu 600 empregados, assim sem mais nem menos. Três primos meus, lutadores pais de famílias, perderam o emprego sem entenderem muito bem por quê – o porquê é fácil: nas novas fábricas que o “honrado” vice-presidente anda montando lá nas zonas francas do Haiti, os novos empregados trabalharão pela décima parte do salário que os meus primos ganhavam – e o salário dos meus primos já não era grande coisa.)
Bem, então tínhamos um Haiti em petição de miséria, e daí veio o terremoto. Que poderia ter acontecido de melhor para o Capitalismo e o Imperialismo dos EUA? Até o palácio presidencial do governo títere ruiu – daqui para a frente é apenas tomar posse – já não há barreiras. Ao invés de ajuda humanitária (que eles não deram nem aos flagelados do furacão Katrina, em seu próprio território) os Estados Unidos estão, descaradamente, diante de todo o mundo, fazendo a ocupação militar do Haiti com o seu exército, e tudo parece bonitinho, com a Hilary indo lá para ver como é que estão ajudando... ajudando uma ova! Alguém já viu os Estados Unidos ajudar alguém de verdade?
Não deixo de louvar as tantas e tantas equipes de tantos e tantos países que lá estão, realmente levando ajuda humanitária para aquele povo quase que nas vascas da agonia – mas a semvergonhice do Capital está lá, também, sorrindo de felicidade com sua cara de caveira.
E então o olho de uma televisão espia lá aquele menino de dois anos arrasado pela exaustão, pelo terror e pelo desespero, encolhido num vazio de uma calçada, e o joga brutalmente no meu colo – e quando tento acalmá-lo acolhendo-o junto do meu coração, ele me conta do rei, seu antepassado – aquele menino moído pelo Capital e pelo terremoto é nada mais nada menos que um príncipe, e seu antepassado que foi rei e livre caçava leões e elefantes e alimentava um povo – o menino sabia, a família sempre contara adiante o seu segredo.
Céus, céus, o que fizeram com as gentes livres da África, que quiseram apenas continuar vivendo com dignidade naquela ilha de onde já não podiam sair? Quem vai cuidar daquele menino antes que ele retorne à condição de escravo de onde seus antepassados tanto tentaram sair?
Eu choro, Haiti, choro por ti, e por teu menino, e por aquele rei. Não sei fazer outra coisa além de chorar.
Clique aqui para ler a biografia de Urda Alice Klueger
TOPO
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O Homem e as Coisas
por Carlos Nejar
As coisas não se submetem
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.
Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?
Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?
Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?
Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.
Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.
As coisas não se submetem
à nossa vestidura.
Clique aqui para ler a biografia de Carlos Nejar
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Enterraram cães vivos na minha cidade. Resolvo escrever sobre o assunto. Não é fácil. Torna-se árduo usar a linguagem e a consciência sobre a morte – justamente os elementos que nos diferenciam das vítimas – para falar de um ato que ultrapassa, ou melhor, assassina esses elementos. Que palavra qualifica enterrar cães vivos? Para que todos os séculos de discussão filosófica e religiosa a respeito de moral, ética, bondade, empatia, se a barbárie ainda é nossa melhor ferramenta para a manutenção da vida e do nosso iníquo poder sobre a terra?
Alguns afirmam que há um certo exagero em toda a celeuma provocada pela denúncia. Eram apenas cães. Pessoas estão sendo maltratadas e enterradas vivas a todo minuto e ninguém faz nada. A minha indignação está justamente aí: eram apenas cães. Era apenas a inocência, apenas o bicho destituído de qualquer malícia, apenas o animal todo confiante, todo entregue à mão do homem, eram apenas cães vítimas da empáfia humana. Se nós nos destruímos é problema nosso. Faz parte da nossa espécie, junto com a linguagem e a consciência, gostar muito de nos matarmos mutuamente, mas o problema é que a vontade de destruição ultrapassa os limites da espécie, vai até os outros animais, e claro vai até ao reino vegetal e mineral. Talvez seja uma compensação pela nossa inferioridade na natureza: justamente a única espécie que se dizimada de uma vez só não faria a mínima falta, é aquela que dizima tudo ao seu redor.
Enterraram cães vivos na minha cidade. Não é ficção, não é cinema, não é performance, é apenas a vida cotidiana mais uma vez expondo suas misérias. Outros ainda chamam o ato de desumano. Penso ser um erro: nada mais humano do que enterrar cães vivos. Nada mais próximo da nossa condição do que esse exercício de maldade concentrada. Outros cães e gatos envenenados, enterrados vivos, mutilados, devem estar reclamando porque morreram sem que ninguém visse, asfixiaram-se sozinhos sem que ninguém lhes desse espaço para o grito. Não foram parar nos jornais, não foram motivo de pena de alguns, nem de crônica de outros. Anônimos morreram e seus anônimos assassinos, muito provavelmente, foram à missa ou ao culto, pediram a Deus uma vida melhor, alguns até agradeceram a bela vida que estão tendo. Nada lhes pesa. São pessoas limpas, por isso mantém seu espaço na terra também limpo de animais imundos. E, diariamente, abastecem-se de veneno e paz.
Por outro lado, existe a notória incompetência do poder público corroborando com a matança. O caso aqui narrado é específico porque foi denunciado e quem enterrou os cães foi um funcionário público com uma patrola. O discurso oficial, como sempre, já veio cheio de desculpas e providências. Como sempre, desculpas e providências paliativas. Mas e todos os outros crimes cometidos no silêncio da ignorância?
Enterraram cães vivos na minha cidade. Estou de luto, pois minha crença no humano foi enterrada junto.
Clique aqui para ler a biografia de Rubens da Cunha
(A notícia real sobre o fato comentado acima)
fonte: CLICRBS
http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default.jsp?uf=2&local=18§ion=Geral&newsID=a2806488.xml
Cães foram enterrados vivos em Joinville, confirma laudo (11/02/2010)
Exame de veterinário aponta que animais morreram por asfixia
A Secretaria Municipal de Saúde de Joinville encaminhou, na tarde desta quarta, ao gabinete do prefeito Carlito Merss o laudo do exame feito nos dois cães enterrados em área da Secretaria Regional do Costa e Silva na terça-feira passada. O laudo, assinado pelo veterinário Alceu José Athaide Júnior, confirma que os animais morreram por asfixia e que não havia indícios de intoxicações.
Esta é uma evidência de que os cães foram mesmo enterrados ainda com vida, conforme denunciaram funcionários do Pronto-Atendimento Norte. O laudo foi encaminhado para a Procuradoria Geral do Município, que enviará cópias para a Secretaria de Gestão de Pessoas e para a delegada Ana Claudia Pires, responsável pela investigação do caso.
Diante da evidência, a Secretaria de Gestão de Pessoas decidiu abrir processo administrativo disciplinar, sem precisar concluir a sindicância administrativa aberta na semana passada.
O processo administrativo vai apurar a participação dos servidores públicos no caso e apontar as punições dentro do que prevê o Estatuto do Servidor.
Na semana passada, o Gabinete do Prefeito exonerou o servidor comissionado Alexandre Kniess, gerente de Conservação e Manutenção da Secretaria Regional do Costa e Silva, que havia autorizado o enterro dos cães na área da repartição.
Na manhã desta quinta, a delegada Ana Claudia Pires ouvirá o gerente exonerado e o maquinista que operou a escavadeira e que ainda não teve o nome divulgado.
Os dois cães viviam há mais de dois anos nas ruas do bairro Costa e Silva. Eram alimentados e cuidados por funcionários do Pronto-Atendimento e da Secretaria Regional.
Pela legislação, praticar abuso, maus tratos ou ferir animais é crime sujeito à pena de três meses a um ano de prisão.
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"Eu ouvi muitas histórias, também, de mentirosos, e aprendi a ser mentiroso."
(Franklin Cascaes)
Vassoura Bruxólica
É, neste mundo de Deus, há muitos mistérios e esta gente simples aqui da Ilha vive estas coisas quase como uma realidade. Meus lobisomens, bruxas, demônios e boitatás existem". Sempre foi crença do povo hospitaleiro desta Ilha dos famosos bois de mamão que, na Sexta-Feira-Santa, não se deve tomar instrumentos de trabalho para usá-los, seja qual finalidade for.
É também costume tradicional deste povo, descendentes de colonos açorianos, que, na Sexta-Feira-Santa, a partir de zero hora, devem banhar-se nas ondas do mar, levando consigo animais domésticos, para purificarem-se e protegerem-se de todos os males do corpo físico e espiritual. As águas colhidas nesta hora servem para todo o tipo de cura. É a fé, longínqua dos tempos, aliada a superstição, ao medo e ao amor pela conservação do corpo físico, na cura dos males que atacam o homem em franca vivência espiritual e física com o seu Deus. As forças atuantes de práticas religiosas freiam os instintos animalescos do homem, encaminhando-o, espiritualmente, para viver com bons modos junto com o seu Deus, com a cultura, na sociedade e consequentemente com o seu próximo.
Entrementes, sempre aparecem nos meandros desses cenários fantásticos, e outros moderados, pessoas que se arrojam contra os poderes divinos, maltratando esses conjuntos de sociedades freadoras, veículos insubstituíveis de abrandamento de sofrimentos que martirizam e açoitam a criatura humana.
Um caso de desrespeito espiritual aconteceu há muitos anos passados, lá pras bandas do sul da Ilha de Santa Catarina. A Maria Vivina, moradora da praia dos Naufragados, fez uma aposta com a Carrica, de que, na Sexta-Feira-Santa daquele ano, ela tomaria uma vassoura e com a mesma, varreria o quintal de sua casa e,certeza tinha, nada lhe aconteceria de extraordinário. Apostaram um par de tamancos contra uma botina. E firmaram a promessa da aposta, casando-a. Quando a Vivina deu a primeira varredela, a vassoura soltou-se de suas mãos qui nem um relâmpago, metamorfoseou-se em bruxa, ganhou altura sobre o morro do Ribeirão da Ilha e desapareceu, num repente, no espaço sideral das alturas incomensuráveis da quimera.
A Maria Vivina caiu de joelhos no terreiro, rezou e pediu perdão aos céus pelo ato impensado que havia cometido contra as ordens divinas, chorando copiosamente. A Carrica abraçou-se com ela e ambas choraram e sentiram o amargo do néctar da desobediência humana. Nenhuma das duas era bruxa, porque a vassoura, que é um instrumento de montaria de bruxas, foi embora, viajar pelo espaço sideral, sozinha.
Oh! Minha querida Ilha de Santa Catarina de Alexandria, és a graciosa sereia que repousa sobre brancas areias de cômoros errantes, sambaquis seculares, banhada pelas ondas acasteladas do oceano, perfumada pela brisa acariciante dos ventos e enxuta com as toalhas felpudas dos raios solares que beijam calorosamente teu corpo mitológico.
Clique aqui para ler a biografia de Franklin Cascaes
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