Manifesto contra os “mashups” por Márcio Miranda Alves*
Pode me acusar de conservador, mas sou totalmente contra essa onda dos “mashups” literários, que surgiram nos Estados Unidos e lamentavelmente chegaram ao Brasil. A questão não se resume à destruição dos clássicos da literatura brasileira, invadidos de repente por bruxas, vampiros, mortos-vivos e alienígenas. A situação é mais preocupante porque revela mais uma vez a nossa falta de criatividade para conquistar leitores e estabelece uma falsa sensação de que os clássicos são pouco lidos por serem “formais” ou “solenes” demais.
Encomendados às pressas por uma ou duas editoras nacionais para aproveitar a onda de sucesso de “Jane Austen – a vampira”, livros como “Senhora, a bruxa”, “A escrava Isaura e o vampiro”, “O Alienista caçador de mutantes” e “Dom Casmurro e os discos voadores” são mais do que disparates, são lamentáveis. E não é preciso ler para chegar a essa conclusão. Resultado de mais um modismo estrangeiro, por sinal um mal que nos atormenta desde o século 19 e nos impede de termos identidade própria, os mashups levam a literatura ao fundo do poço em nome do sustento de meia dúzia de livreiros oportunistas. Nem podemos culpar os escritores, totalmente desconhecidos, com muita criatividade e pouco talento – caso contrário não se apropriariam de ficções alheias e já consagradas.
Apoiar-se nos cânones para criar histórias fantasiosas – por favor não aceite a classificação de “literatura fantástica” porque isso é outra coisa – e aproveitar-se dos textos quase na íntegra beira ao surreal. Caso de polícia! Nessas horas chego a pensar que o domínio público de obras literárias tem suas desvantagens. E o pior, os autores defendem a destruição dos clássicos como uma forma de despertar o interesse dos jovens, uma vez que a versão original foi escrita para adultos e não encontra receptividade junto ao público adolescente. Descarada mentira. Mashup é uma forma copiada dos norte-americanos – especialistas no campo do marketing e da propaganda – para tentar aquecer a venda de livros a qualquer preço. Neste caso, quem paga caro são os amantes da boa e original literatura. Escritores têm o direito de escrever o que quiserem, e os editores de publicar, mas não têm o direito de re-escrever o que já está muito bem escrito. Por favor, deixem Machado de Assis e José de Alencar em paz!
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo
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Nove fatos marcantes do universo literário de 2010
por Márcio Miranda Alves
É uma prática comum todo final de ano (ou início do seguinte) surgirem listas dos “10 mais”, nas mais diversas áreas. Esse colunista também preparou uma pequena relação de alguns eventos que marcaram 2010 no mundo literário e que merecem ser lembrados neste início de 2011. A lista é pessoal, tem apenas nove pontos (só para contrariar), e não respeita nenhum critério teórico, científico ou empírico. É só mais uma lista!
O romance brasileiro do ano: “Se eu fechar os olhos agora”, de Edney Silvestre. Em um ano de poucas novidades na nossa literatura de ficção, cada vez mais achatada pelos best-sellers estrangeiros, o livro do jornalista Edney Silvestre foi uma agradável surpresa. Mereceu o Jabuti de melhor romance.
O mico do ano: o Prêmio Jabuti de livro de ficção do ano para “Leite derramado”, de Chico Buarque. Foi uma escolha incompreensível em todos os sentidos. Primeiro porque geralmente o melhor romance do ano também recebe o prêmio de melhor ficção e “Leite derramado” ficou em segundo lugar. Não bastasse isso, o romance de Chico Buarque é tão fraco quanto os anteriores. Chego a pensar que não sou capaz de entender os romances do Chico. Mas não estou só: leitores criaram um blog pedindo para Chico Buarque devolver o prêmio, que teria sido resultado de uma grande armação. Até o Grupo Editorial Record anunciou que não vai mais participar da premiação por discordar dos mecanismos de escolha do Livro do Ano. Que vergonha!
A ficção estrangeira do ano: “2666”, de Roberto Bolaño. Não riam nem me condenem, mas ainda não li o livro. Ele repousa na estande e todos os dias me faz lembrar de sua presença. Mas como posso considerá-lo a melhor ficção estrangeira do ano sem tê-lo lido? Baseado nas leituras críticas que fiz e nas experiências anteriores de livros do chileno, todos de alto nível estético. Fica registrado publicamente como uma das metas a serem cumpridas em 2011.
O escritor do ano: o peruano Mario Vargas Llosa recebeu o Nobel de Literatura e encheu os latino-americanos de orgulho. Quem conhece sua obra sabe que o prêmio caiu em boas mãos.
A peça de teatro (baseada em livro) do ano: não assisti muitas, mas dificilmente alguma superou “Policarpo Quaresma”, dirigida por Antunes Filho. Baseada no livro “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, a peça é um conjunto de experimentações e não se prende às teorias teatrais que pautam (e aborrecem) muitas montagens. Antunes Filho, aos 80 anos, mostrou nesse trabalho (que continua em cartaz em São Paulo) que é possível abusar da liberdade sem perder o foco principal, nesse caso a crítica à burguesia, à corrupção e aos políticos.
A maior perda do ano: sem dúvida a morte do escritor português José Saramago foi a grande perda literária de 2010. O autor de “O evangelho segundo Jesus Cristo” e tantos outros romances magistrais foi o único escritor de língua portuguesa a ser agraciado com o Prêmio Nobel. O que Saramago fez pela literatura portuguesa nenhuma outra personalidade fez e talvez jamais fará. Em cartaz nos cinemas, o emocionante documentário “José e Pilar” (direção de Miguel Gonçalves Mendes) mostra um pouco da rotina do gênio em seus últimos anos de vida e sua relação com a mulher, a jornalista Pilar Del Rio.
O maior evento do ano: a 21ª Bienal do Livro de São Paulo foi o maior evento do ano, pelo menos em relação ao número de visitantes (743 mil) e ao volume de vendas (R$ 49 milhões). No entanto, não deixe para comprar seus livros na próxima Bienal. Os preços dos livros durante o evento são mais caros do que nas livrarias.
A maior discussão do ano: a batalha “digital x impresso” foi a mais comentada, mas ficou apenas no falatório. Passou-se mais um ano e as previsões catastróficas em relação ao fim dos livros impressos não se confirmaram. Eu continuo procurando leitores concentrados em seus livros digitais por todo lugar onde ando, mas até o dia 31 de dezembro não havia encontrado nenhum.
A descoberta pessoal do ano: neste ano que passou direcionei meu interesse para a literatura alemã, atrelado ao estudo da língua. E foi muito bom ter descoberto Heinrich Böll (1917-1985), vencedor do Nobel de Literatura em 1972, e seu “Pontos de vista de um palhaço” (Ansichten eines Clowns). Um grande romance que aborda a hipocrisia religiosa alemã a partir da história de um palhaço decadente. É uma dica (e de graça!).
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo
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Viva Vargas Llosa
por Márcio Miranda Alves
Um dia antes da divulgação do Nobel de Literatura comentei que essa poderia ser a vez de Mario Vargas Llosa. Para minha surpresa, e de tantos que haviam feito suas apostas, o escritor peruano finalmente foi lembrado pela Academia Sueca. Até o próprio romancista já havia deixado de sonhar com a premiação. Diferente do Nobel de Medicina, Economia ou Física, o de Literatura se caracteriza por não admitir favoritos. É fácil imaginar quem vai vencer o Nobel de Medicina porque premia a melhor descoberta científica da área nos últimos meses, assim como o de Física. Já o Nobel de Literatura não vai para o melhor romance, mas pelo conjunto da obra. Sem nenhum critério específico, o prêmio Nobel de Literatura em geral vai para os escritores europeus, que estão mais próximos da academia. Ainda podemos contar nos dedos das mãos o número de latino-americanos que venceram a premiação desde a sua criação, em 1901.
Particularmente nunca considerei o Nobel algo tão importante. Nem o francês Jean-Paul Sartre, o único até hoje a recusar a premiação, em 1964. No entanto, para nós latinos, que vivemos à margem da produção cultural ocidental, o Nobel pode ter um imenso significado quando o tomamos simbolicamente como um termômetro da nossa cultura intelectual. Por isso devemos celebrar, sim, o peruano Vargas Llosa, que junta-se a Gabriela Mistral (Chile, 1945), Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1967), Pablo Neruda (Chile, 1971), Gabriel García Márquez (Colômbia, 1982), Derek Walcott (Santa Lúcia, 1992) e Vidiadhar Surajprasad Naipaul (Trinidad e Tobago, 2001) no rol de escritores latinos agraciados com a distinção.
Llosa merecia o prêmio não por uma obra específica, mas por tudo que escreveu e por sua militância intelectual. Escreveu romances, contos, poesia e ensaios, ainda trabalha como professor universitário, envolveu-se com política (foi candidato a presidente do Peru em 1990) e nunca deixou de se posicionar em relação aos mais diversos temas sociais. É isso que se espera de um premiado com o Nobel, muito mais do que apenas escrever livros. É preciso ser reconhecido e respeitado como uma figura que fala do ser humano e para o ser humano, seja na ficção ou no discurso da realidade.
Meu primeiro contato com a obra de Llosa foi com o romance “A Guerra do fim do mundo”, comprado por mim numa Feira do Livro de Porto Alegre, há quase 15 anos. Eu não sabia do que se tratava a história, mas fiquei impressionado quando comecei a ler e descobri que o romance recontava a guerra de Canudos. Ainda hoje esse é o meu romance preferido do escritor, com todo respeito a “Conversa na Catedral” e “Pantaleão e as visitadoras”. Desde a premiação de José Saramago (1998), por escrever magicamente em português, e de Orhan Pamuk (2006), que eu não conhecia e fiquei comovido ao ler “Neve”, eu não ficava tão propenso a rever meu conceito em relação à importância do Nobel. Num mundo em que as listas, os rankings, os recordes e as eleições servem de parâmetro para uma interpretação histórico-social, o Prêmio Nobel vai muito além. Devemos encarar o gesto da academia não como um afago nas nossas ilusões, nem como um prêmio consolação, mas como uma lição: estamos carentes de homens como Mario Vargas Llosa que justifiquem ser lembrados. Por quê? Talvez porque estejamos valorizando demais os heróis do esporte e do mercado financeiro. Mas isso é outra discussão.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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História para todos
por Márcio Miranda Alves
Talvez “nunca antes na história desse país” o passado do Brasil despertou interesse de tanta gente como nos últimos anos. Tudo graças a alguns escritores que inovaram na produção de livros de divulgação da história. Falo de Laurentino Gomes e Eduardo Bueno, dois jornalistas que conquistaram o público com obras que combinam dados pitorescos com perfis de pessoas, sem abdicar de análises mais profundas. Milhares de pessoas que aprenderam a odiar as aulas de história ensinadas nas escolas, com aquelas sucessões de datas e nomes de heróis pouco convincentes, agora voltaram a ler (com prazer) sobre os grandes eventos da história brasileira. Podemos ampliar esse grupo com nomes como Jorge Caldeira (“Mauá”), Fernando Morais (“Olga” e “Chatô”) e Ruy Castro (“O anjo pornográfico”, “Carmen” e “Estrela solitária”), embora puxem mais para a biografias.
Laurentino Gomes esgotou em duas semanas os 100 mil exemplares do seu livro “1822” (Nova Fronteira), que conta a história da Independência nos mesmos moldes do anterior, “1808”, (Planeta) outro sucesso de vendas. Bueno tem números mais discretos para o seu “Brasil – Uma história” (Leya), de 1997, que vendeu os 20 mil exemplares iniciais e caminha para outros 20 mil. São números impressionantes, se consideramos que a maioria dos compradores estão interessados em histórias de vampiros ou dicas espirituais.
Laurentino e Bueno foram entrevistados pelo jornal “Folha de S.Paulo” na edição do dia 18 de setembro, reportagem que me instigou a escrever uma suíte sobre o tema. Sempre polêmico, Bueno afirma ao jornal que “o meu é um livro de história para ler, não para aprender”. Evidentemente Bueno faz uma provocação aos que consideram esse tipo de livro uma banalização da história do Brasil. Apesar de muitos historiadores reconhecerem que esses títulos ajudam a divulgar e não a banalizar, a crítica em geral vê com certo desprezo os best-seller. Afinal, esses últimos estão acostumados a se relacionar com a história produzida para uma minoria intelectual, geralmente restrita ao âmbito acadêmico, onde a grande massa não consegue ascender.
O grande mérito de Bueno e Laurentino foi terem percebido que havia uma demanda reprimida ávida por livros de história menos sisudos. Com linguagem mais acessível e abordagem do tema por ângulos diferentes, esses autores fisgam seus leitores desde a primeira página. O conteúdo de suas obras não é suspeito de ferir a veracidade, nem questiona outros autores, apenas relata detalhes que a historiografia já sabia e preferia ignorar por considerá-los desprezíveis.
Extremamente humilde e ainda surpreso com o sucesso alcançado, Laurentino também tem visão do presente. Um dos motivos que o levaram a trocar a editora Planeta pela Nova Fronteira foi porque a primeira não conseguiu atender uma de suas exigências: ampliar a distribuição do livro em produtos como e-books sem terceirizar o serviço. “1822” em formado de e-book deve chegar ao mercado em dezembro. Seja no papel ou no formato digital, o importante é que o público leia mais sobre a história do Brasil. Afinal, sem saber sobre o passado fica mais difícil entender o presente e imaginar o futuro.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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LEIA ABAIXO OUTROS ARTIGOS DO AUTOR:
* A Bienal e o livro digital
* Histórias do Cometa Halley (parte II)
* Histórias do cometa Halley (parte I)
* Lembranças de Wilson Martins
* Dom Quixote na avenida
* Cronicamente inviável
* O fato literário do ano
* A ilusão literária
* A poesia de Carpinejar
* O presidente e os livros
* O ano de Euclides da Cunha
* A história viva da República do Sacramento
* Perseguição em São Paulo
* Conheça um pouco do nosso colunista, doutorando em literatura pela USP
A Bienal e o livro digital
por Márcio Miranda Alves*
O livro digital foi um dos quatro principais temas da 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada em agosto com grande sucesso de público. Considerada a terceira maior do mundo, com a participação de 350 expositores do Brasil e exterior, representando 900 selos editoriais, a bienal refletiu algumas contradições que alimentam o debate em torno das “metamorfoses do livro”. O assunto, claro, não é uma novidade. Há pelo menos 15 anos os profetas do mundo digital pregam o fim do livro em papel e a sua substituição pelas versões eletrônicas.
Por outro lado, intelectuais que consideram o livro como uma extensão de seus corpos argumentam que a invenção de Gutenberg não deixará de existir. Umberto Eco, por exemplo, que acaba de lançar uma obra intitulada “Não contem com o fim do livro”, chegou a comparar o livro à roda e à colher, objetos perfeitos que nunca serão superados.
Primeiramente, o que me chamou a atenção em relação ao tema é que nos corredores da bienal não se viu ninguém portando um e-book. Nenhum estande vendendo o produto! Também é curioso que num país apaixonado por tenologias – veja-se a quantidade de celulares e afins, televisores de LCD e reprodutores digitais de música – não vemos as pessoas lendo os tais livros eletrônicos. Estamos em 2010, mas na cidade mais rica do Brasil o livro digital ainda não deu as caras. Eu procuro na rua, no metrô, no ônibus, nos cafés da Avenida Paulista, mas não o encontro.
Os organizadores da bienal acreditam que o sucesso de evento está relacionado ao grande momento do livro no país, muito provavelmente uma relação direta com o aumento da renda da população. Então qual será o futuro de eventos como esse se as previsões se confirmarem? O norte-americano Jeff Bezos, presidente da Amazon, afirmou em julho deste ano que as vendas de e-books para o aparelho Kindle ultrapassaram pela primeira vez as vendas de livros no formato tradicional. Segundo ele, de cada 100 livros vendidos no segundo trimestre do ano, 143 e-books chegaram aos consumidores norte-americanos. No entanto, o doutor em sociologia pela Universidade de Cambridge e um dos convidados a falar sobre o tema na bienal, John Thompson, alertou que apesar do entusiasmo da Amazon – que fabrica o parelho Kindle e tem interesse no marketing otimista – os e-books ainda representam menos de 2% do total de vendas do mercado editorial dos Estados Unidos. Thompson lembra das previsões feitas no início dos anos 2000 em relação aos e-books e adverte sobre os “perigos das profecias”, uma vez que algumas consultorias conceituadas fizeram previsões muito além da realidade.
O preço do livro digital é apontado como o principal empecilho para a difusão da tecnologia no Brasil, já que o leitor precisa de um investimento inicial alto para usufruir de seus benefícios. Outro problema – opinião minha – pode estar no próprio mercado editorial, que ainda não encontrou uma maneira de explorar o uso das plataformas digitais sem perder dinheiro e por isso evita incentivar a novidade. De qualquer forma, de nada vale discutir se o livro de papel vai desaparecer ou não. Afinal, a fotografia não matou a pintura, a televisão não fez sucumbir o rádio e o CD não eliminou por completo o vinil. Tudo se completa e se renova ao gosto de cada um. Neste momento seria mais interessante acreditar que o livro digital pode ampliar o acesso à leitura, tornando possível que as pessoas tenham em casa muitos títulos e paguem o preço justo por eles. Ao que parece, as gerações que foram educadas com livros de papel não pretendem abandoná-los, como se essa relação fosse uma “questão ideológica”. Quanto às próximas gerações de nada sabemos. Podemos fazer nossas previsões e dar alguns palpites, mas convém sermos comedidos em nossas certezas.
* Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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Histórias do cometa Halley (parte II)
por Márcio Miranda Alves*
(Julho/2010)
Na última edição da revista Escritores do Sul lembramos, através da literatura, os 100 anos da passagem do cometa Halley. Voltamos agora ao tema para tratar do processo de criação literária do escritor Erico Verissimo em relação ao tratamento do evento no romance O Tempo e o Vento.
Embora tivesse apenas cinco anos quando o Halley passou próximo à Terra, em 1910, o fato não passou despercebido ao curioso guri de Cruz Alta. Na construção do quadro histórico da trilogia, muitos eventos da “realidade” observada pelo autor são transpostos para a ficção, entre eles esse fenômeno que tanto despertou medo e aflição na população. Apoiado em fontes de jornais e almanaques, de sua imaginação e de recordações armazenadas no seu “computador”, o romancista recria em detalhes o suspense que antecedeu o dia do temido apocalipse. Como vemos nessa extensa e reveladora passagem do episódio “Chantecler”: “Homens que estavam projetando viagens por aqueles dias, adiavam-nas. Os que se achavam fora de Santa Fé, apressavam-se a voltar para casa. Nas lojas, escritórios e repartições públicas já não se trabalhava direito, e o cometa de Halley (a que Liroca insistia em chamar “cometa do Alves”) era o assunto permanente de todas as rodas (...). O Padre Kolb nos seus sermões dizia não acreditar em que Deus estivesse mesmo com tenções de “liquidar sua opra maknifka”, mas aconselhava os crentes a que, pelas dúvidas, se fossem preparando para o pior. Assim, naqueles dias teve um número desusado de fiéis nos confessionários. Mulheres piedosas acendiam velas para os santos de sua devoção, fazendo as mais extravagantes promessas. Outras começavam as visitas de despedida, corriam às casas de amigos e parentes (...). Alguns homens procuravam-se para liquidar dívidas ou desfazer negócios; houve até mesmo uns dois casos de inimigos que se reconciliaram”.
Rodrigo Cambará, personagem que centraliza as atenções da trama de O Retrato, cita leituras da revista francesa L'Illustration (a mesma que Erico lia quando criança na biblioteca do pai Sebastião Verissimo) para tentar explicar o fenômeno aos outros personagens. Rodrigo lê nesta revista um artigo de Camille Flammarion (1842-1925), astrônomo francês muito popular na época, que por sinal colaborou para manter o suspense em torno dos supostos perigos do cometa, e age como uma espécie de professor em meio aos iletrados de Santa Fé. Segundo o que lera na revista, “o nosso planeta atravessará a cauda do cometa como uma bala de canhão atravessaria uma cerração de inverno, com uma velocidade de 160.000 quilômetros por hora (...). Mas esse encontro só se dará se a cauda do cometa tiver uma extensão de mais de 23 milhões de quilômetros”.
Rodrigo também procura convencer os amigos de que há muita superstição em relação aos cometas, citando histórias que provavelmente foram fisgadas por Erico Verissimo em algum almanaque. Uma delas trata da morte de César, que teria sido anunciada por um cometa, e outra das legiões bárbaras de Átila durante a invasão à Europa. “E vocês querem saber duma coisa engraçada? Lá por meados do século XV um grande cometa surgiu no céu com um brilho extraordinário. Sua Santidade, o Papa Calixto terceiro ou segundo, não me lembro bem, mandou que todos os católicos do mundo começassem a rezar em público, pedindo a Deus para poupar a humanidade da catástrofe que o cometa podia estar anunciando. E vocês sabem que cometa era esse? O de Halley, o mesmo que vai aparecer em maio do ano que vem”. Apesar de os argumentos de Rodrigo Cambará, baseados nos artigos da imprensa, não refutarem de todo a possibilidade de o cometa atingir a Terra, pessoalmente o personagem não acredita que isso possa acontecer. Esse posicionamento está mais de acordo com o momento glorioso e fantasioso em que Rodrigo vive do que por uma interpretação correta da ciência astronômica.
No amplo painel da história retratado pelo escritor em O Tempo e o Vento, a passagem do cometa Halley consiste em um acontecimento singular da época retratada, repercutindo no ritmo social dos personagens de Santa Fé. Muitos outros fatos históricos pinçados da “realidade” são aproveitados pelo autor na composição de seu principal romance. Cada um deles revela, no campo da ficção, possibilidades de interpretação da história brasileira e universal, seja por meio dos meios impressos de comunicação ou pela memória coletiva.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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Histórias do cometa Halley (parte I)
(Abril.2010)
por Márcio Miranda Alves*
Faz exatos 100 anos que o mundo parou em clima de suspense para ver a passagem de um cometa que, acreditava-se, poderia destruir a vida no nosso planeta. Foi em maio de 1910, mais precisamente na madrugada do dia 19 de maio, que o Halley apareceu no céu e encantou a todos com um belo espetáculo astronômico, mas sem risco algum para a humanidade. Apesar dos cientistas garantirem que não haveria perigo, a imprensa sensacionalista alimentava os boatos de que a Terra poderia ser envolvida pelos gases letais da cauda do cometa, o que envenenaria a atmosfera e mataria todos os seres vivos.
O pânico se alastrava e, segundo registros em jornais da época, nunca houve tantos fiéis nos confessionários das igrejas, todos querendo garantir uma morte sem dívidas com o divino. De corações amaciados, endinheirados fizeram muitas doações e os mendigos comeram e beberam fartamente naqueles dias que antecederam o aparecimento do astro. Para os pedintes, atônitos com tanta bondade repentina, o paraíso já havia chegado. Em Paris, centro cultural e científico em plena Belle Époque, muitas pessoas se desfizeram de suas fortunas, esbanjando-as em festas e viagens, enquanto outros foram levados ao suicídio.
Certamente quem era vivo nesta época não esqueceu o grande acontecimento, também porque o cometa permaneceu várias noites no céu. Essa foi a primeira vez que o Halley foi fotografado e as condições de visualização do espetáculo cósmico foram as melhores em muitos séculos. Não há comparação com o que vimos em 1986, a dizer a verdade apenas uma mancha nebulosa no céu que frustrou quem ficou acordado de madrugada. Pelo menos dois escritores brasileiros presenciaram o grande evento de 1910 e registraram isso em suas obras. Monteiro Lobato, em “Serões de Dona Benta”, lembra numa passagem curta a expectativa do fim do mundo e, na voz didática da personagem Dona Benta, critica a ignorância do povo. Erico Verissimo, por sua vez, foi mais a fundo na reconstrução do acontecimento histórico no episódio Chantecler, em “O Tempo e o Vento”.
Erico tinha cinco anos quando a órbita do Halley passou próximo à Terra em 1910. O escritor comenta isso rapidamente no livro de memórias “Solo de Clarineta I”. Na construção fictícia do espetáculo na trilogia, no entanto, o romancista recria em detalhes o ambiente que antecedeu o temível espetáculo. Rodrigo Cambará, personagem que centraliza as atenções da trama de “O Retrato”, cita leituras da revista francesa L'Illustration (a mesma que Erico lia quando criança na biblioteca do pai Sebastião Verissimo) para tentar explicar o fenômeno aos outros personagens. Rodrigo não acredita que o cometa possa acabar com a vida terrena, mais pelo momento glorioso e fantasioso em que vive do que por interpretação da ciência astronômica. Recém chegado de Porto Alegre, formado em medicina e vestindo roupas impecáveis, Rodrigo Cambará tem muitos sonhos humanistas e progressistas e considera-se acima da vida e da morte. Tanto que marca a data de seu casamento justamente para o dia do surgimento do cometa, fazendo com que Santa Fé esteja mais preocupada com a festa do que com os gases do cometa.
Não me ocorre no momento se outro escritor levou para a ficção esse fato esquecido pela história. Mas, graças ao Google, descobri algo curioso e passível de averiguação. Diz-se que o conhecido escritor americano Mark Twain nasceu duas semanas depois da passagem do cometa no século 19. Segundo essa nota, Twain afirma em sua biografia que “veio” com o cometa Halley em 1835 e que “iria” com ele na sua próxima passagem, em 1910. Twain morreu nesse mesmo ano e no dia seguinte à altura em que o cometa esteve mais próximo da Terra.
PS: Esse artigo continua na próxima edição da Escritores do Sul.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com ) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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Lembranças de Wilson Martins
(Março.2010)
por Márcio Miranda Alves*
Nunca é tarde para homenagear alguém que merece. Por isso, mesmo após quase dois meses de sua morte, continua sendo oportuno reverenciar a contribuição do crítico Wilson Martins para a literatura brasileira. Nascido em São Paulo em 1921, Martins vivia há muitos anos em Curitiba, capital paranaense, onde faleceu depois de passar por uma cirurgia aos 88 anos de idade, no dia 30 de janeiro. Sempre polêmico em suas declarações, Wilson Martins dizia ser “o último crítico literário em atividade”. Talvez um pouco exagerado nesta afirmação, mas não de todo errado se refletirmos sobre qual crítica estamos nos referindo.
Em mais de 50 anos de atividade crítica, Wilson Martins sempre se destacou por sua audácia em analisar as obras literárias no instante de sua publicação, nas colunas dos jornais para os quais colaborou, como O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo. Diferente dos colegas acadêmicos, que em geral esperam décadas antes de se manifestar sobre uma obra, Martins não hesitava em tomar uma posição, apontando os pontos fortes e fracos de um texto narrativo. Desta forma podia apontar o bom e o ruim na produção literária de sua época, assumindo uma postura que podemos chamar de “militante”. Com essa tática de julgamentos apressados cometeu muitos equívocos, mas também muitos acertos. Um deles foi reconhecer a grandeza de “O Continente”, primeira parte de “O tempo e o Vento”, de Erico Verissimo, num tempo em que o escritor gaúcho era encarado com ceticismo pela crítica (e de certa maneira continua sendo). Em sua coluna publicada em O Estado de São Paulo no dia 22 de outubro de 1950, Wilson Martins afirma que “O Continente” seria “um romance que vai ficar não só como sua obra mais importante, mais bela, mais inesquecível, mas, ainda, como uma das criações mais significativas da ficção brasileira”. Ele estava certo! Um “caso” mais recente foi sua desaprovação a O Fotógrafo, de Cristóvão Tezza, autor que o crítico admirava, mas cujo romance dizia conter excesso de palavrões. Muita gente protestou, mas a verdade é que O Fotógrafo não se compara a “O filho eterno”.
Extremamente rigoroso em suas leituras, Wilson Martins acreditava que a crítica somente tem efeito quando encontra um leitor interessado no tema e que seja conhecedor o suficiente para tirar suas próprias conclusões. Partindo do pressuposto que o leitor de suas críticas conhecia a literatura, o crítico não abria mão de comparar a obra analisada às dos cânones. Isso pode até parecer injusto quando se compara um autor brasileiro mediano a Balzac ou Tolstoi. No entanto, Wilson Martins defendia que essa comparação permitia interpretar a “verdadeira” qualidade da obra, traçando paralelos na expressão estilística, na estética ou na forma romanesca. Neste sentido, a contribuição do crítico para a literatura brasileira é imensurável, uma vez que seus comentários serviam de parâmetro para milhares de leitores (o que não ocorre com os livros de crítica, restritos a uma minoria).
Apesar de assumir uma postura diferente da maioria dos acadêmicos, de sempre dizer o que pensava acerca de uma obra no “calor da hora”, Wilson Martins também teve uma carreira brilhante na universidade. Foi professor de Literatura Francesa na Universidade Federal do Paraná e lecionou durante 26 anos em Nova York. Sua atividade de pesquisa permitiu que produzisse livros importantes como “História da inteligência brasileira”, que contém 12 volumes e lhe rendeu dois prêmios Jabuti, “A ideia modernista” e “Crítica literária no Brasil”, entre outros.
Infelizmente críticos como Wilson Martins não existem mais. Principalmente por que o espaço que ele ocupava na imprensa lentamente se evapora. Os cadernos de cultura de hoje apenas “apresentam” a obra e raramente publicam uma crítica mais profunda, salvo dois ou três jornais num país do tamanho do Brasil. Aguardemos que a “geração on line”, com seus milhões de autores invisíveis e conteúdo impalpável, possa suprir essa falta num futuro breve.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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Dom Quixote na avenida
(Fev.2010)
por Márcio Miranda Alves*
Não gosto muito de carnaval, prefiro observar a folia à distância (de preferência com uma cerveja por perto), mas fiquei feliz e parei para ver na televisão alguns momentos do desfile da escola de samba União da Ilha, do Rio de Janeiro, que levou neste ano para a avenida o enredo “Dom Quixote de la Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis”. Famoso personagem de Miguel de Cervantes (1547-1616), Dom Quixote é sem dúvida um dos mais conhecidos da literatura universal. Seguramente até o mais humilde dos homens, pelo menos aqui no Ocidente, já ouviu falar de Dom Quixote e sabe o que significa a expressão “quixotesco”.
É curioso pensar que um romance publicado no início do século XVII possa ser tão familiar do público em geral para justificar um samba-enredo do carnaval do Rio. Considerada a obra fundadora do romance moderno, Dom Quixote (publicado em duas partes, em 1605 e 1615) é mais do que um clássico, é a síntese da magia e da grandeza da literatura enquanto arte. Dom Quixote entrou para o imaginário coletivo e mesmo quem nunca leu uma página sequer do livro sabe contar pelo menos uma das aventuras do fidalgo cavaleiro e seu fiel escudeiro Sancho Pança.
Li Dom Quixote duas vezes em português, ainda na adolescência, e tenho uma edição em espanhol que há cinco anos cobra de mim uma nova leitura. Toda vez que olho para a estante vejo aquele belo exemplar de capa branca (edição do quarto centenário, editada pela Real Academia Espanhola), lembrando-me de não esquecer daquela lista de obras a revisitar. Toda vez que penso nos dez mais importantes livros da minha vida, Dom Quixote está sempre no topo. Quem ainda não leu não sabe o que está perdendo!
Para ser sincero, fiquei até surpreso quando soube que a União da Ilha apostaria na literatura em seu samba-enredo. Isso não é muito comum, mas posso estar enganado, pois não sou conhecedor da história dos carnavais do Rio de Janeiro. De qualquer forma, acho que foi uma aposta interessante da escola, que aceitou correr o risco de homenagear um personagem da literatura e não ficou apenas nas imagens tradicionais dos moinhos de vento. Até artistas que fizeram algum tipo de referência ao herói da ficção, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, o músico Raul Seixas e o pintor Cândido Portinari foram lembrados na avenida.
O diretor de carnaval da escola, Márcio André, disse ao jornal Estado de São Paulo que as empresas procuradas para ajudar a financiar o desfile “ficaram só na promessa”. Com um custo estimado em R$ 1,5 milhão, mais os recursos destinados pela Liga Independente das Escolas de Samba, o desfile da União da Ilha deve ter sido um dos mais econômicos deste ano. Provavelmente isso não esteja relacionado ao tema, mas sim à pouca tradição da escola, que estava fora do grupo especial desde 2001. Mais importante do que levantar discussões sobre a necessidade de se gastar tanto dinheiro num desfile de carnaval é, neste momento, pensar que no imaginário coletivo Dom Quixote continua sendo lembrado e muitos curiosos podem ter decidido encarar a longa e contagiante narrativa de Miguel de Cervantes após assistir ao espetáculo.
Por fim, a própria vida do autor, bem menos conhecida que a de seu personagem, mereceria um artigo. Mas isso fica para outra ocasião. Por hora, indico uma excelente biografia que esclarece muitos pontos sobre a nebulosa história de Cervantes e das circunstâncias da escrita de sua obra-prima. Trata-se de “As vidas de Miguel de Cervantes”, de Andrés Trapiello (José Olympio Editora, 2005). Nesta biografia, descobre-se que a história de Cervantes é tão fascinante quando a de Dom Quixote.
*Márcio Miranda Alves ( marciomir@hotmail.com ) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo
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Cronicamente inviável
(Jan.2010)
por Márcio Miranda Alves*
Há muito tempo deixei de ler crônicas. Eu e ela tivemos uma espécie de saturação, como um casal que não tem mais nada a descobrir um no outro e passa apenas a se tolerar, quanto mais distante melhor. E tenho certeza que não sou o único a viver essa experiência de abandono das crônicas, mais especificamente aquelas produzidas em série, diariamente, nos jornais e sites deste país. A verdade é uma só: a crônica virou produto de consumo rápido, encaixando-se no nosso estilo de vida e reproduzindo muito superficialmente os pequenos e grandes acontecimentos cotidianos.
Claro que não considero a crônica um gênero literário de menor grandeza. Afinal, ela nos legou cronistas como Machado de Assis e Rubem Braga. O que me afastou da crônica foi, em primeiro lugar, uma simples questão de prioridade nas leituras do dia a dia. Quando folheio um jornal, prefiro ir direto às resenhas e às novidades do circuito cultural. A crônica, apesar de ser teoricamente nova, cheira a coisa velha, e raramente encontramos uma que nos surpreenda. Além disso, o tempo necessário para se ler uma crônica é praticamente o mesmo para se ler um conto. Neste caso fico com a narrativa de ficção.
Aqui chegamos ao ponto crucial deste argumento. A crônica imita a vida, mas esta vida não nos basta. Procuramos na literatura ficcional o mesmo que leva os escritores a escreverem suas obras, ou seja, um prolongamento da existência, um algo a mais que não conseguimos experimentar de segunda-feira a domingo, ano após ano. Queremos viajar no espaço e no tempo, conhecer novos mundos e personagens excêntricos, perscrutar o imaginário alheio. Queremos a fantasia, pois a realidade é dolorosa. Estamos fartos de fome, guerra, desastres, sofrimentos e mensalões. No entanto, quando lemos uma crônica estamos revendo os mesmos temas que nos afligem, uma interpretação (irônica, crítica ou engraçada) daquele cronista sobre um instante captado de sua vida. Nada escapa ao olhar do cronista na feira de frutas, na rua, no ônibus, no elevador, no Congresso Nacional, no programa de televisão ou no estádio de futebol. A questão é que o leitor da crônica também observa tudo isso e participa das mesmas bizarrices, a diferença é que ele não tem como métier transformar essa observação em um texto.
No entanto, retomando o primeiro parágrafo, o ponto decisivo que me afastou das crônicas foi o gênero ter se desgastado por conta de sua produção massiva. É humanamente impossível um cronista diário (seja no jornal ou na internet) encontrar matéria-prima suficiente para manter uma produção de alto nível. Há dias em que o cronista não tem uma boa ideia, tem um problema qualquer que lhe tira a concentração, está de saco cheio ou de ressaca, mas a edição do dia seguinte cobra uma crônica inspiradíssima. Sem contar os que nem saem de casa para conhecer o bairro vizinho. Por isso muitas crônicas são chatas e aborrecidas, não conseguimos vencer o segundo parágrafo. A crônica como está pode agradar a muitos, e é bom que haja leitores, mas quanto a mim, estou noutra.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com ) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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O fato literário do ano
(Dez.2009)
por Márcio Miranda Alves*
No Sul do Brasil, o fato literário deste ano que termina não foi um romance nem um escritor. Foi a perda do acervo literário de Erico Verissimo (1905-1975), cedido pela família do escritor em contrato de comodato por 10 anos ao Instituto Moreira Salles. Quem quiser consultar um dos 10 mil documentos do acervo terá que se deslocar até a Gávea, no Rio de Janeiro, onde o instituto ainda trabalha na acomodação do material. O acervo foi criado em 1982 por iniciativa da viúva do escritor, Mafalda Volpe Verissimo, e esteve hospedado até 2007 na PUCRS. As professoras Maria da Glória Bordini e Regina Zilberman foram as organizadoras do acervo, constituído por originais manuscritos e datilografados, correspondências, artigos e anotações do autor, além de teses, ensaios e referências jornalísticas sobre Erico e sua obra. Com o afastamento das professoras do quadro da universidade, a família, em solidariedade às docentes, resolveu reaver os documentos.
É simplesmente inaceitável que o governo gaúcho tenha deixado escapar de seu solo os originais do autor que projetou o imaginário do Estado, sem dúvida o seu principal representante artístico. Imagine os originais e objetos de Machado de Assis trocando o Rio de Janeiro por Brasília. Não faz sentido. No ano passado, Santa Catarina finalmente conseguiu, após décadas de negociações, recuperar os restos mortais do poeta Cruz e Sousa, que estavam no Rio de Janeiro e agora descansam em Florianópolis. O Rio Grande do Sul, no entanto, faz o contrário, entrega a memória de seu escritor ilustre aos cariocas.
O cronista Luis Fernando Verissimo, filho do escritor, afirmou em maio deste ano ao jornal Zero Hora que a decisão de ceder o acervo ao Moreira Salles foi de ordem técnica, pois o instituto tem todas as condições de preservar e restaurar os documentos, que até então estavam guardados na famosa residência da família, na Rua Felipe de Oliveira, em Porto Alegre. Mas todos sabem que essa não foi a principal razão. O que aconteceu foi que a Secretaria de Estado da Cultura não aplicou corretamente os R$ 4,5 milhões liberados em 2001, através da Lei de Incentivo à Cultura, para o projeto de restauração do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo e instalação do acervo no local. No entanto, em 2008 o prédio ainda estava em obras e não havia qualquer indicação de que realmente receberia o acervo. Cansada de esperar, a família resolveu agir. Não cabe a mim julgar se essa foi a melhor saída, uma vez que não sei tudo o que se passou nos bastidores.
O que muda com a transferência do acervo do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro? Em primeiro lugar, a imagem do Governo gaúcho, que ficou com a fama de dar pouca importância à manutenção da memória de seu ilustre escritor. Em segundo, o orgulho dos gaúchos, ferido com esta inesperada decisão da família Verissimo. Muitos se perguntaram: por que não Cruz Alta, terra natal do escritor? Ou até mesmo qualquer das outras universidades gaúchas. No entanto, os questionamentos sopraram no vazio, uma vez que a decisão foi tomada sem uma discussão com outros interessados. Já para os pesquisadores, sendo a maioria originária do Sul do País, ficou mais distante e custoso. Se na PUCRS a consulta era gratuita, não espere o mesmo do Moreira Salles, afinal trata-se de uma das entidades culturais mais importantes do Brasil e que funciona como qualquer empresa capitalista. Consultou, pagou!
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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A Ilusão Literária
(Nov.2009)
por Márcio Miranda Alves*
Nos últimos anos surgiram no Brasil diversos eventos que celebram os livros e seus autores. São chamadas de “festas”, geralmente localizadas em lugares bonitos e de forte apelo turístico. Os ingressos são caros, privilégio para poucos, e os escritores são os mais badalados, embora pouco conhecidos do grande público consumidor de livros. A impressão que isso causa é que a literatura brasileira vive um excelente momento. No entanto, não convém tirar conclusões precipitadas e, neste momento, vale mais a pena refletir sobre a situação atual da literatura nacional do que exagerar na empolgação.
Em primeiro lugar, deixo claro que não sou contra festas e encontros literários, muito ao contrário. Seria muito pior sem eles. Ao menos, por dois pares de dias, figuramos no mapa da literatura mundial. O que acontece é que esses eventos tão prestigiados pela imprensa e por poucos leitores abonados causam uma falsa sensação de que a coisa vai bem, mas não vai. É o que poderíamos chamar de “a ilusão literária”, a promoção de eventos de grande repercussão que pouco ou nada ajudam a fomentar o setor livreiro e a despertar novos leitores.
Não queremos (pois não somos utópicos) que a literatura volte a ter a importância que teve num passado nem tão distante. Tempos em que as opiniões de um escritor tinham a mesma relevância das de um chefe de nação, e o conteúdo de um romance a força de mudar o pensamento de uma geração. Hoje, com tantos apelos tecnológicos, é normal que as pessoas busquem outros meios para se informar e se formar. Gostaríamos, porém, que a literatura no Brasil realmente fizesse parte da vida social, não apenas em discursos oportunistas. Mas isso se consegue com pequenas e inúmeras ações, não com grandiosos e raros encontros nos quais o debate chega ao ouvido de poucos (e de quem não precisa).
Da maneira como a carruagem tem andado, não vemos isso acontecer, por mais otimistas que tentemos ser. Nas duas últimas décadas as pequenas livrarias foram engolidas por meia dúzia de gigantes, as feiras de livro desapareceram das praças para dar lugar a bienais (salvo aquelas que nós bem conhecemos) e os leitores são induzidos a comprarem os best-sellers que nunca saem da lista de mais vendidos das revistas. Por sinal, vitrine de livraria e lista de mais vendidos formam um casal inseparável que juraram amor eterno e parece que nunca vão morrer. Quem vende livro no Brasil são em geral os mesmos escritores estrangeiros (dos livros em série e de qualidade literária questionável) e das mesmas editoras, cuja tiragem pode chegar a impressionantes 500 mil exemplares. Tudo bem, você pode concluir que então existem 500 mil leitores de um determinado título, sem contar a circulação do mesmo livro entre amigos e familiares. Para uma população de 190 milhões de habitantes, isso é quase nada.
Enquanto isso, um autor nacional muito raramente consegue vender 10 mil exemplares de um título, exceto meia dúzia dos mais populares (Chico Buarque, Paulo Coelho, Luis Fernando Verissimo e outros que ganham um empurrão com versões de seus livros na televisão). No dia a dia de nossas vidas de brasileiro que não desiste nunca, muito raramente vemos alguém lendo um livro em lugares públicos. Basta observar no ônibus, no metrô, nas praças e nos cafés. Ninguém lê, ninguém lê. E nem precisa visitar a Rússia, a França e a Alemanha para saber que por lá não é assim.
Para que essas lamentações não terminem em choro, encerro por aqui com uma frase de Mario Vargas Llosa publicado num artigo na revista Piauí (Em Defesa do romance, out. 2009, nº 37): “Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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A poesia de Carpinejar
(Out.2009)
por Márcio Miranda Alves*
Há muitos anos, talvez décadas, a poesia brasileira vive um estado de anestesia. Uma triste condição que tem razões mais profundas e complexas do que a política nacional de educação ou a falta de leitores. Tem a ver com o pouco caso das editoras em relação aos livros de poesia, o descuido dos poetas com a qualidade de suas obras e uma imposição de parâmetros comparativos injustos com os cânones Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral e alguns outros. Uma situação que nem a produção eletrônica tem conseguido reverter e que, ao contrário do que se esperava, parece contribuir com o nivelamento por baixo da produção poética (salvo raros exemplos). No Brasil, sempre se pensou que qualquer um pode ser poeta e que poesia está relacionada à terapia, o que explica a proliferação de grupos de poetas das mais diversas origens e finalidades. Esquecemos que poesia é arte, e como tal deve ser produzida e criticada. Para fazer poesia de qualidade o poeta tem que ser preciso, certeiro. Não existe poeta razoável, como um romancista, por exemplo, que às vezes escreve apenas razoavelmente e consegue atrair leitores. O poeta é bom ou não é.
Por isso mesmo, quando surge alguém como Fabrício Carpinejar, que justifica a denominação de poeta, somos levados a acreditar que nem tudo está perdido. Acompanho o trabalho deste gaúcho nascido em Caxias do Sul desde “Biografia de uma Árvore” (2002), publicado pela pequena editora Escrituras. E a cada nova publicação fico impressionado com a capacidade que Carpinejar tem de poetizar todo e qualquer movimento da vida. Poeta que emociona, surpreende, assusta, faz rir e até chorar os mais sensíveis, Carpinejar consegue ser poeta nas crônicas e cronista nas poesias. Com o duplo “Como no Céu/Livro de Visitas” (2005) parecia que o poeta chegava próximo do seu ápice, mas eis que ele aparece com “Meu filho, minha filha” (2007) e mais uma vez nos faz vibrar com versos como “Minha filha, os insetos / não pousam / em quem se movimenta. / Saíste adolescência / adentro e não paraste / para me abraçar.”.
Dentre os seus últimos livros, ele publicou crônicas e infantis. O último, “Canalha!”, acaba de vencer o Prêmio Jabuti de melhor livro de crônicas. Um prêmio mais do que justo para um poeta que já havia conquistado reconhecimento dentro e fora do Rio Grande do Sul pela força de seus versos. “Canalha!” traz mais de 120 crônicas curtas, de no máximo duas páginas, nas quais Carpinejar continua o seu ofício de traduzir o mundo pelo filtro do seu acurado olhar poético. Antes mesmo do sumário temos breves versos que antecipam o que vamos encontrar: crônicas poetizadas (ou seriam poemas cronicados?). “– Desejo passar o resto da minha vida com você. – Não, uma vida com você nunca será resto” e “– Não ponha palavras na minha boa. – Tiro palavras da sua boca”. As relações humanas, as práticas rotineiras, os pequenos vícios, os gestos inocentes, a vida como ela é e como deveria ou não ser, tudo descrito com a mais fina ironia, inteligência e curiosidade. Aliás, me arrisco a dizer que é a curiosidade de Fabrício Carpinejar com a vida que o faz tão sensível a tudo. Sua capacidade de se surpreender com o mundo e suas engrenagens permite que ele consiga transformar em poesia tudo que entra pelos olhos, ouvidos, nariz, boca ou pele.
Há alguns anos escrevi a Carpinejar solicitando uma entrevista por e-mail, que seria publicada no jornal Diário Catarinense. O poeta rapidamente respondeu que sim, seria um prazer, para “sacudir os insetos da lâmpada”. Sua resposta à mensagem já foi em si um poema. Insetos na lâmpada são comuns, mas não os insetos de Fabrício Carpijenar. Esses picam nossa pele e deixam marcas ardidas, daquelas que o álcool só faz incendiar.
*Márcio Miranda Alves ( marciomir@hotmail.com ) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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O presidente e os livros
(Set.2009)
por Márcio Miranda Alves*
Volta e meia surge dos gabinetes do Congresso uma nova ideia para incentivar a leitura no Brasil. Como se a formação de leitores de um país pudesse ser realizada a partir de decretos ou medidas provisórias. A última proposta do gênero vem do Ministério da Fazenda (??), que discute a possibilidade de criar um novo tributo a ser cobrado das editoras de livros para viabilizar a implementação do Fundo Pró-Leitura. Os recursos serviriam para fomentar a criação e modernização de bibliotecas, ampliação de acervos, formação de professores, bibliotecários, contadores de histórias e campanhas de leitura. A justificativa é de que a criação do fundo foi um compromisso assumido pelos livreiros em 2004, quando o governo isentou o setor da cobrança do Pis/Cofins por conta do Plano Nacional do Livro e da Leitura (alguém leu ou ouviu falar dele?). O objetivo principal da medida foi favorecer a redução do preço dos livros. O governo afirma que o preço não caiu, mas as editoras discordam.
No calor do debate, o suplemento cultural do jornal Valor Econômico publicou em setembro uma reportagem na qual apresenta a opinião dos editores e livreiros, a maioria, claro, contrários à cobrança do imposto. Entre todas as declarações, uma delas me chamou a atenção. Partiu do presidente da Livraria Cultura, Pedro Herz. Disse ele que não se posiciona contra o repasse aos cofres públicos, mas alfinetou que se o presidente Luis Inácio Lula da Silva e sua família frequentassem livrarias o gesto teria um efeito simbólico muito maior que qualquer imposto. Bingo!
Pedro Hertz tocou num ponto que incomoda quem acompanha as declarações do presidente brasileiro em relação à cultura, educação, livros e conhecimento científico. Lula já disse que considera um absurdo os estudantes de doutorado receberem uma bolsa para estudar na Europa, que não lê jornal porque tem azia, que tem orgulho de ter chegado à presidência do Brasil sem precisar da universidade e outras pérolas do gênero. Ora, como principal autoridade política do país, o presidente precisaria ao menos pensar em incentivar as crianças e os jovens (porque para a maioria dos adultos é tarde demais) com observações de valorização à formação intelectual. Afinal de contas, intelectualidade e moralidade andam juntas.
É compreensível que a experiência de vida do presidente, um retirante nordestino que enfrentou muitas dificuldades, o leve a pensar que o importante mesmo é comer, poder trocar de geladeira e comprar o primeiro micro-ondas. No entanto, supervalorizar sua experiência pessoal é algo temeroso, para não dizer trágico. Nas entrelinhas, o que as pessoas entendem é que se o Lula chegou “lá” sem precisar estudar nem ler, todos podem fazer o mesmo, basta querer e acreditar em Deus. Mas sabemos que as coisas não funcionam assim e casos como o do presidente não ocorrem a todo instante.
As “necessidades básicas” que Lula considera mais importantes que todo o resto são imprescindíveis para a nação e disso ninguém discorda. É bom que a economia esteja saudável e que a classe média seja cada vez maior. Mas isso só não basta. Países que estão anos-luz à frente do Brasil em termos de desenvolvimento humano perceberam isso há décadas, para não dizer séculos. O bem-estar social da França, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Inglaterra e de tantos outros seria insustentável sem o apreço aos livros e às artes em geral. Para esses povos, ler livros e frequentar livrarias e bibliotecas são gestos tão naturais quanto comer e beber.
Não queremos que nosso presidente comece de uma hora para outra a ler os grandes filósofos, dramaturgos ou romancistas da literatura universal. Nem sonhamos com um governante como Barack Obama, por exemplo, que tem como livro preferido o clássico Moby Dick, de Herman Melville. Não é preciso tanto. Bastariam apenas algumas palavras de incentivo, daquelas que ele tanto gosta de falar de improviso. Ou, se não for querer demais, uma visitinha de vez em quando a uma livraria. Se o presidente está muito ocupado com coisas mais importantes, que tal a primeira-dama? (quais são suas atividades mesmo?) Um gesto assim teria mais força que qualquer imposto, fundo de reserva ou projeto de gabinete. Como dizia Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros. Infelizmente, é bem provável que o presidente nunca tenha lido o autor de Urupês.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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O ano de Euclides da Cunha
(Agosto.2009)
por Márcio Miranda Alves*
Se você nunca leu ou leu há muito tempo e acha que deve reler, agora tem um bom motivo para encarar “Os Sertões”. Publicado em 1902, o livro foi bastante celebrado há sete anos, nas comemorações do centenário de sua publicação. Agora, essa obra-prima da literatura brasileira volta ao centro dos círculos literários por conta da programação que marca os 100 anos de morte de Euclides da Cunha (1866-1909).
É impossível falar de Euclides da Cunha sem tratar diretamente de “Os Sertões”. Por isso, qualquer debate sobre sua vida passa necessariamente pela obra. Até porque muitos apontamentos feitos pelo autor sobre o povo do sertão se repetiram em sua vida conturbada, que teve fim num duelo de armas entre o escritor e o amante de sua mulher. “Os Sertões” nasceu da cobertura jornalística da guerra de Canudos, na qual o exército enfrentou e derrotou os revoltosos liderados por Antonio Conselheiro. No entanto, a obra tem pouco do conteúdo das reportagens escritas no calor da hora para o jornal “O Estado de São Paulo” Entre o final do conflito e a publicação da obra passam-se cinco anos, tempo em que o autor trabalhou na concepção de um relato magnífico, dividido em três partes que se completam como num romance (“A terra”, como cenário, “O homem”, como personagem, e “A Luta”, como conflito).
É evidente que um livro que atravessa todo o século 20 sendo apontado como um dos principais de nossa literatura acaba sendo interpretado por diferentes ângulos. Desde os primeiros críticos até hoje, muito se enalteceu e se decifrou nas linhas e entrelinhas de “Os Sertões”. Conforme se desenvolve nossa história cultural, os princípios analíticos em torno da obra mudam, mas muitos deles permanecem. O principal deles, talvez, seja o consenso de que a literatura euclidiana é um quadro composto de aguda observação histórica, arte e ciência (pretensiosa ou não).
Quando se fala de “obra euclidiana” trata-se também de seus escritos sobre a Amazônia. Em 1905, Euclides da Cunha chefiou uma expedição ao longo do rio Purus, no Acre, e dessa experiência ficaram muitos escritos sobre os nativos amazônicos e a vida nos confins do Brasil. Durante um colóquio realizado no dia 14 de agosto no jornal “O Estado de São Paulo”, intitulado “Euclides da Cunha 360º - A Obra e o Legado de um Intérprete do Brasil”, o escritor amazonense Milton Hatoum tratou em sua palestra do que não lhe agrada em Euclides da Cunha: a visão estereotipada que Euclides encara e descreve os nativos. A fala de Milton Hatoum foi das mais impactantes do evento, não apenas pelo seu conteúdo, mas por quebrar um paradigma neste tipo de colóquio, onde raramente se questiona as fragilidades da figura ou da produção do cânone. O romancista mostrou que até o autor de Os Sertões pode ser questionado, o que dá à palavra “crítica” o seu verdadeiro sentido, que é de apontar os limites da razão, e não apenas de endeusamento dos artistas.
Viva Milton Hatoum, viva a crítica, viva Euclides da Cunha e Os Sertões.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo.
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A história viva da República do Sacramento
(Jul.2009)
por Márcio Miranda Alves*
Não chega a surpreender o que acontece em Honduras, com o golpe que destituiu Manuel Zelaya da presidência e estabeleceu um governo provisório. No século passado, a América Latina e o mundo viram isso acontecer diversas vezes. Nossas republiquetas, as chamadas banana republics, ainda não conseguiram se livrar do fantasma da imaturidade política, econômica e social. Pelo visto, eventos do gênero deverão se repetir nas próximas décadas.
Uma versão ficcional desta triste realidade está em O Senhor Embaixador, romance de Erico Verissimo publicado em 1965. Quando começou a escrever o livro, dois anos antes da publicação, o autor buscava estudar a estrutura política dos instáveis países das Américas do Sul e Central, tendo como problema central a participação dos intelectuais na política militante e a interferência norte-americana nos conflitos de seus irmãos pobres. Sem entrarmos na análise dos personagens, o quadro de fundo da ficção traz muitas coincidências com o que acontece agora em Honduras.
Em O Senhor Embaixador, a ação acontece em Washington e na fictícia República do Sacramento, localizada numa ilha do Caribe. As figuras centrais da trama são o embaixador do Sacramento nos Estados Unidos, Gabriel Heliodoro Alvarado, e o primeiro-secretário Pablo Ortega. Outros personagens têm destaque menor na trama, mas não deixam de ser importantes na configuração estética do romance, como o correspondente internacional William B. Godkin, repórter de uma agência de notícias norte-americana.
Os dramas individuais que se desenrolam nos salões de Washington convergem no final para o Sacramento. No país da ficção, o presidente Juventino Carrera tenta convencer a Câmara dos Deputados a aprovar uma emenda constitucional que permita sua reeleição (em Honduras, foi uma consulta popular para aprovar uma reforma constitucional, com o mesmo fim, que desencadeou o golpe militar contra Zelaya). Ao perceber que não vai conseguir o apoio dos parlamentares, Carrera forja provas conspiratórias e promove um golpe militar. No entanto, havia uma grande resistência ao seu governo e o golpe acaba provocando uma revolução socialista, liderada por um barbudo chamado Miguel Barrios. A ironia é que Juventino Carrera havia destituído um governo corrupto, 25 anos antes, e fora erguido nos braços do povo como o salvador da pátria. Na ficção de Erico Verissimo, o homem que derrubou o tirano também se tornou um tirano e a história se repete mais uma vez. Miguel Barrios é reverenciado como uma divindade, mas começa o seu reinado cometendo as mesmas atrocidades do passado recente.
Em muitos aspectos, O Senhor Embaixador faz uma sátira direta a Cuba de Fidel Castro, mas as referências valem para todo o continente. E se a realidade dos países latinos se identificava na ficção do escritor nos anos 60, o caso de Honduras mostra que nada mudou no século 21. Infelizmente (neste caso) o romance continua sendo atual.
*Márcio Miranda Alves ( marciomir@hotmail.com )é doutorando em literatura comparada pela USP e pesquisador da obra de Erico Verissimo
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Perseguição em São Paulo
(Junho 2009)
por Márcio Miranda Alves*
Quando alguém fala em Dyonelio Machado, dificilmente cita outro livro que não Os Ratos, por sinal o seu livro mais bem acabado, publicado em 1935. Mas Dyonelio não é escritor de um livro só. Publicou muita coisa em seus 90 anos vividos, de 1895 a 1985. Infelizmente sua obra caiu no esquecimento e apenas leitores atentos e curiosos conhecem outros títulos, como O Louco do Cati, Desolação e Passos Perdidos, que podem ser lidos separadamente ou em sequência, pois as aventuras contidas no primeiro têm seguimento nos seguintes, todos publicados entre 1942 (no caso, o Cati) e 1946 (os Passos).
Acontece que obras menos “redondas” não são necessariamente inferiores. Às vezes são concebidas como tal e é essa falta de fechamento ou de circularidade que as fazem ter valor enquanto objeto literário. A estranheza de O Louco do Cati, por exemplo, vem do fato de ter sido ditado a sua esposa enquanto o escritor estava enfermo numa cama de hospital. Cortes bruscos, diálogos secos e por vezes incompletos, capítulos-relâmpagos e personagens vazios caracterizam o romance. Dyonelio poderia ter reeditado o livro quando voltou a ter condições de saúde para escrever, mas preferiu deixá-lo assim, e fez bem.
Por sinal, Dyonelio passou boa parte da vida preso, se não numa cama, numa prisão, encarcerado por questões políticas nos anos de 1930. Talvez tenha sido o escritor brasileiro que mais sofreu perseguições pelo Estado (leia-se Getúlio Vargas), mais do que Graciliano Ramos. E essa experiência de sofrimento aparece na maioria de seus escritos. Assim como o “louco”, que não fala e apenas se deixa levar de um lado a outro, pode ser lido enquanto metáfora da opressão sobre a sociedade da época, o mecânico Maneco Manivela também se movimenta como se estivesse num ambiente em que não há como fugir da perseguição. A opressão é tamanha que mesmo sem ter feito nada, apenas participado de uma reunião sem saber ao certo do que se tratava, ter pego um panfleto sem saber ao menos interpretar os dizeres (no Desolação), sente-se sempre culpado.
Em Passos Perdidos, cuja ação se passa em 1937, Manivela encontra-se em São Paulo após ter cumprido dois anos de prisão (não como preso, mas como detido!). Toda a narrativa acontece em apenas 24 horas, e neste intervalo o mecânico move-se pela cidade de um canto a outro sempre em fuga. Esgueira-se pelas sombras, sem dormir ou comer, evita olhares, procura ser um sujeito invisível no espaço. Acabou de ser solto e novamente volta a ser perseguido, ou pelo menos acredita que esteja. Manivela não sabe bem o que fazer, penetrar nos labirintos do centro de São Paulo e desparecer entre a multidão ou voltar a sua oficina em Porto Alegre, ou, ainda, reencontrar a prostituta Dorinha e propor a ela um engajamento.
O drama de Maneco Manivela, de alguém que nunca alcançar o objetivo, procura e não encontra a saída, não difere muito do que vive Naziazeno com seus ratos. Embora de classes diferentes, ambos são vítimas de uma nova ordem social. Por essas e outras, Dyonelio Machado tem muito a nos dizer sobre o Brasil de sua época.
*Márcio Miranda Alves (marciomir@hotmail.com) jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela UFSC, doutorando em literatura comparada pela USP, pesquisador da obra de Erico Veríssimo
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1 – Nome: Márcio Miranda Alves
2– Data e local de nascimento: 26/04/1974, Marau (RS)
3– O que fez você se interessar por literatura?
O interesse pela literatura vem desde a infância, motivado pela curiosidade em “viver” outras histórias, pelo prazer em penetrar num mundo fantástico e pela necessidade de expandir horizontes possíveis e imaginários.
4– Quais teus escritores preferidos?
Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Erico Verissimo, Clarice Lispector, Balzac, Flaubert, Dostoievsky, Tolstoi, Virginia Woolf e Willian Faulkner.
5– Como você vê a literatura feita no Sul hoje?
A produção literária sulina está entre as mais fecundas do país. O momento, talvez, seja tão bom quanto foi nos anos de 1930. A variedade de escritores, estilos e gêneros mostra que a literatura produzida no Sul tem se destacado sem a necessidade de rótulos regionais, integrando-se de forma consistente na produção nacional e internacional.
6– Quais as obras mais importantes para você já escritas no Sul do país em todos os tempos?
Contos Gauchescos e Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto, O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, O louco do Cati e Desolação, de Dyonélio Machado, e Morangos mofados, Caio Fernando Abreu.
7– O que você aprendeu ou tem aprendido sobre seus estudos a respeito de Erico Verissimo?
Tenho aprendido que Erico Verissimo não foi apenas um “contador de histórias”, como ele mesmo costumava dizer. Percebo que existe preguiça da crítica em analisar a obra do escritor e certa má vontade em admitir a grandeza de seus romances, ao contrário do que acontece com os leitores em geral, que geralmente são admiradores de livros como O Tempo e o Vento, Olhai os lírios do Campo e Incidente em Antares. Os livros do Erico Verissimo nos mostram tanto do Brasil _ e do mundo _ quanto os de outros escritores consagrados da nossa literatura.
8– Qual personagem de Erico você mais gosta?
Rodrigo Cambará, pelo lugar que ele tem no imaginário coletivo, e pelas suas fraquezas e contradições que o fazem ser um dos mais autênticos e representativos personagens da literatura brasileira.
9– Qual livro dele releria sempre?
O Continente, primeira parte de O Tempo e o Vento.
10– Num mundo de tecnologias gritantes e superficiais, sites de relacionamentos, “clicks” abundantes e rapidez de informações como a que estamos vivendo, o que você acredita que precisa ser feito para os adolescentes e jovens se interessarem mais por leitura e literatura em geral?
O interesse pela leitura aumenta quando incentivado de forma atrativa. Como os jovens nunca irão abrir mão destas tecnologias, é fundamental saber aproveitá-las para divulgar os textos literários e científicos. Nunca foi tão fácil divulgar a literatura. Novos aparelhos eletrônicos de leitura estão chegando ao mercado e prometem revolucionar o campo literário. A questão principal é a leitura, não o formato do livro. A hora é agora.
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