TÂNIA RAMOS - Aquela que fica, aquela que sai: Delminda da Silveira e Maura de Senna Pereira

(Pela originalidade da aproximação de duas importantes escritoras catarinenses, abro este espaço mais uma vez para o PROJETO CNPq FAPESC UFSC, sobre o qual aqui escrevi em agosto de 2009: o Portal Catarina.
Júlia Telésforo Osório, a autora do texto, aluna do Curso Letras Português, da UFSC, e o apresentou na sessão destinada a alunos de graduação no Seminário Internacional Fazendo Gênero 9, realizado na UFSC entre os dias 22 e 26 de agosto de 2010.)

 

 

AQUELA QUE FICA, AQUELA QUE SAI:
DELMINDA DA SILVEIRA E MAURA DE SENNA PEREIRA
por Júlia Telésforo Osório


Os núcleos de pesquisa nuLIME (núcleo Literatura e Memória) e NUPILL (Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística), vinculados ao Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC, através do PRONEX, Programa Núcleos de Excelência,  FAPESC e CNPq, desenvolvem, desde 2008, um projeto que objetiva disponibilizar, em rede, Acervos Digitais de Escritores Catarinenses, um Portal Catarina. O trabalho com os acervos dos escritores catarinenses Ernâni Rosas, Delminda da Silveira e Cruz e Souza já foram concluídos e, atualmente, o acervo de Maura de Senna Pereira está sendo restaurado, catalogado e digitalizado.

A leitura dos manuscritos, dos éditos e inéditos de Delminda da Silveira (1854- 1932) e Maura de Senna Pereira (1904-1991), duas mulheres escritoras em uma história literária predominantemente masculina, remete ao conceito diaspórico, descrito por Stuart Hall em Da Diáspora, como forma de entendimento dessas produções da última década do século XIX e primeiras décadas do século XX: a poética daquela que sai, Maura de Sena Pereira, e daquela que fica, Delminda Silveira.

Essencialmente, presume-se que a identidade cultural seja fixada no nascimento, seja parte da natureza, impressa através do parentesco e da linhagem dos genes, seja constitutiva de nosso eu mais interior. É impermeável a algo tão “mundano”, secular e superficial quanto uma mudança temporária de nosso local de residência. A pobreza, o subdesenvolvimento, a falta de oportunidades – os legados do Império em toda parte – podem forçar as pessoas a migrar, o que causa o espalhamento – a dispersão. Mas cada disseminação carrega consigo a promessa do retorno redentor. (HALL, 2006p. 28)

Florianópolis não singulariza, apenas, como dado biográfico. A ilha de Santa Catarina, além de origem, aparece como uma constante temática em suas escrituras. Se a identidade cultural de um sujeito é, supostamente, fixada pelo local de origem, como pensar possíveis convergências nas poéticas dessas autoras?

Maura de Senna Pereira foi a primeira intelectual, no sentido proposto por Roland Barthes, a pertencer a uma Academia de Letras no país. Com uma intensa mobilidade geográfica, saiu de Florianópolis ainda jovem e morou em Porto Alegre e Rio de Janeiro, cidade escolhida como um exílio em idílio na maior parte de sua vida. Fora da ilha, construiu uma poética comprometida com a militância política, jornalística e literária, comprovada em seu extenso acervo: recortes, fotos, artigos, livros, correspondências. É, pois, no uso da liberdade poética, caracterizada por diversas imagens eróticas em seus versos, que se manifesta o feminino libertador de sua escritura, como no poema Ilha e mulher:

Abraçada ao Universo
tenho as raízes em ti

Quando me deito nos teus canteiros mornos,
Jurerê-mirim, Isla de los Patos, Santa Catarina,
não me basta a alegria telúrica
de ter nascido em ti
nem o pensamento quase bíblico
de que sou feita do teu barro.

Meu corpo é o teu imenso corpo de ilha
e minha alma invade as tuas entranhas
participando da tua febre criadora.
Meu sangue é o rasgão líquido dos teus rios
a linfa nervosa das tuas cachoeiras
a água matuta das tuas lagoas.

Plantas rebentam de tuas carnes, de meus chãos,
(em mim agora nascem grumixamas,
cachos de uva, brincos de princesa)
e sinto-me carregada da tua seiva e do teu pólen,
da glória dos rebentos
e do teu halo de conchas.

Quando me levanto
a sacudir a tua poeira morena
e ungida com o perfume de vinte lírios novos
e mulher e terra deixam de ser uma unidade pagã,
ainda sinto me prender e me abraçar
e envolver, implacável, a tua existência cósmica
e abraço varonil do mar.
(PEREIRA, 2004, p. 88)
.
Para a poetisa e jornalista exilada, porque lá se permitiu o exercício profissional da escritura, o espaço não é relatado, mas transfigurado. Stuart Hall pontua como uma das conseqüências do ato de migrar o espalhamento e a dispersão, que, no caso poético, potencializam e extrapolam a noção significativa do que caracteriza um espaço geográfico denominado “Florianópolis”.

A poética de Delminda Silveira, que residiu na capital catarinense durante toda a sua vida, aborda aspectos do cotidiano em uma ótica subjetiva. Diferente daquela que saiu em um outro tempo, a poetisa que ficou construiu ― em seus manuscritos, nos cadernos guardados e encadernados, na letra redonda quase desenho ― uma história como mulher, professora, poetisa e intelectual de seu tempo uma identidade feminina que se afirmou no convívio diário do eu com o seu local de origem e seus espaços mínimos. A viagem e o deslocamento vão se dar pelos recursos figurativos e metafóricos presentes em muitas de suas narrativas e poesias, Lizes e martírios e Instantes. Interessa-nos mostrar no acervo deixado por Delminda Silveira, em breve disponibilizado na rede, que se uma viagem física não acontece, se um deslocamento geográfico não se efetiva, o exílio se dá pela consciência lírica de sonhos não realizados - que esperanças, meu Deus! E que esplendores – e pelo registro poético de impasses como mulher do século XIX, voltada à solidão, ao lar e à família.

O meu lar

Rico de afetos, cheio de doçura,
foste, ó meu lar — jardim de meigas flores;
minha mãe era o anjo dos amores,
e minha irmã a flor mais bela e pura.

Tanta paz, tanto amor, tanta ternura
os meus dias tornavam sedutores;
e que esperanças, meu Deus! e que esplendores
no meu porvir mostrava-me a ventura!...

Mas, foi tudo ilusão! tudo deixou-me!
e todos que amei despareceram,
só a lembrança vívida ficou-me !...

E eu, entre as saudades que nasceram,
choro na solidão que atroz restou-me,
O meu lar — os meus sonhos que morreram!...
(SILVEIRA, 1908)

A poética dos manuscritos encadernados de Delminda é tão diaspórica quanto às publicações esparsas e diversificadas de Maura, pois é perceptível na materialidade dos dois acervos ― cadernos com capas duras ou caixas repletas de recortes textuais dispersos e variados ― uma potencialização que recriou e extrapolou as concretudes significativas da mulher escritora em um determinado espaço e tempo: Florianópolis, como origem e como lugar, lida por aquela que sai e por aquela que fica, é o espaço simbólico e erótico de fechamento e de abertura seja como desterro, seja como alegria telúrica.

 

 

Bibliografia

BARTHES, Roland. “Escritores, intelectuais e professores”. In: O rumor da língua. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.
BORDINI, Maria da Glória. Manual de organização do Acervo de Érico Veríssimo. In: Cadernos do centro de pesquisas literárias da PUCRS. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
PEREIRA, Maura de Senna. Poesia reunida e outros textos. Florianópolis: Academia Catarinense de Letras, 2004.
RAMOS, Tânia Regina Oliveira. Encaixotados para (o) presente: Este Portal Catarina. Anais do II Simpósio Mundial de Língua Portuguesa, Universidade de Évora Portugal.06 a 11 de outubro de 2009 http://www.simelp2009.uevora.pt Acesso em 30 de julho de 2010.
RICHARD, Nelly. A Escrita tem Sexo?. In: Intervenções críticas. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2002.
SILVEIRA, Delminda. Lizes e martírios. Florianópolis: 1908. Disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/arquivos/texto/0006-03114.html. Acesso em 17 ago 2010.

 

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LEIA ABAIXO OUTROS TEXTOS DA AUTORA:



* Fazendo Gênero 9
* Encontros, lembranças, leituras: As memórias de Salim Miguel
*
Para 2010: O que é ser professor de literatura?
*
Dois livros saídos
*
Dedicatórias
*
Uma casa sem cor
*
Por um portal Catarina
*
Alguns dedos de prosa
*
SimplesMENTE Cascaes

 

 

 



Fazendo Gênero 9:
UFSC, em 23, 24, 25 e 26 de agosto de 2010.
Um espaço para tod@s
por Tânia Ramos*


Joan Scott, em seu ensaio intitulado “Experiência”, depois de historicizar o conceito experiência e de mostrar como ele é centrado na capacidade que temos de em nome dela – da experiência - reproduzir e transmitir já que ela faz parte da linguagem cotidiana, esta tão imbricada nas nossas narrativas, que seria em vão querer eliminá-la. Experiência, diz ela, “é, ao mesmo tempo, já uma interpretação e algo que precisa de interpretação. O que conta como experiência não é nem auto-evidente, nem definido; é sempre contestável, portanto, sempre político”.

Assim sendo, eu me sinto à vontade de escrever em nome da experiência. Ou da experiência vivenciada no projeto Fazendo Gênero que reúne na Universidade Federal de Santa Catarina, situada em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, a cada dois anos, pesquisadoras e pesquisadores do Brasil e de universidades estrangeiras na América Latina, Estados Unidos e Europa com pesquisas e publicações no campo dos estudos de gênero e dos estudos feministas.

A tradição da UFSC na área dos estudos de gênero e feminista é bastante longa. Em 1984 foi criado, na UFSC, o Núcleo de Estudos da Mulher, que, a partir de 1989, com o I Encontro de Estudos sobre a Mulher, reestruturou-se como Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero, reunindo pesquisadoras de diversas áreas acadêmicas, como Literatura, Antropologia, Psicologia, Sociologia, História, Enfermagem e Nutrição, entre outras. Também em 1989 foi realizado na UFSC o 3º Encontro Nacional de Mulher e Literatura, que marcou o nosso salto qualitativo na consolidação dos estudos de gênero e feministas na universidade brasileira. Nos últimos vinte anos, esse campo cresceu significativamente na UFSC, com a abertura de disciplinas específicas em cursos de graduação e de pós-graduação, a criação de linhas de pesquisa em mestrados e doutorados, e uma vasta produção acadêmica que inclui dissertações, teses, artigos, livros monográficos e coletâneas publicadas pelas pesquisadoras da área. Atualmente, com um espaço físico garantido no Centro de Filosofia e Ciências Humanas consolidou-se institucionalmente o IEG-Instituto de Estudos de Gênero.

Com este breve histórico quero reforçar a comprovação de que com uma produção acadêmica de vigor teórico, amplitude temática e diálogo transdisciplinar e transnacional – incluindo pesquisas, publicações, formação de pesquisadoras/es e projetos sociais – os estudos de gênero e feministas já estão consolidados no Brasil. Particularmente a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) teve e tem hoje um papel importante na construção e na consolidação desse campo de estudos no país, contando atualmente com mais de trinta professoras doutoras que fazem pesquisa na área, situadas em diferentes programas de pós-graduação e que se dedicam, entre outras atividades, à orientação de dissertações, teses, projetos de iniciação científica e monografias de conclusão de curso. Além disso, desde 1999, um núcleo de professoras tem sido responsável pela edição da Revista Estudos Feministas, considerada a principal publicação com escopo nacional e internacional dessa área, indexada nos principais bancos e fontes de referência científicas internacionais.

Visando consolidar este espaço de debate e troca interdisciplinar mais ampliado, a partir de 1994 começou-se a organizar um evento bienal denominado Fazendo Gênero. Os oito encontros do Projeto Fazendo Gênero, realizados respectivamente em 1994, 1996, 1998, 2000, 2002, 2004, 2006 e 2008 resultaram na publicação de diversas coletâneas, números especiais de revistas acadêmicas com artigos inéditos de autoras nacionais e estrangeiras.

Exatamente, enquanto escrevo este histórico, estamos organizando o Seminário Internacional Fazendo Gênero 10, que acontecerá entre os dias 23 e 26 de agosto de 2010. O evento terá o seu foco em temas que sugerem movimento tanto pela dispersão dos povos e culturas através de espaços geográficos quanto pelo desejo de realocações em espaços imaginados e pelo encontro com identidades plurais. Um evento que sugere assim três dimensões – nos seus três D temáticos: Diásporas, Diversidades, Deslocamentos - para se discutir algumas das mais significativas experiências dos sujeitos contemporâneos, em sua permanente demanda de cruzamento de fronteiras:

Com este panorama quis, acima de tudo, mostrar essa nossa cartografia, que cruza, entrelaça, tece, amarra pessoas e pensamentos em torno da categoria gênero. Os nomes dos livros publicados, que deles resultaram, talvez representem melhor o que aqui temos discutido em uma amplidão de perspectivas e com uma participação que tem chegado a aproximadamente 4000 pesquisadoras e pesquisadores: masculino, feminino, plural; falas de gênero; cultura e poder; genealogias do silêncio; poéticas e políticas feministas; saberes e fazeres locais e globais; preconceitos e gênero em movimento. Mas é do título de nosso último livro - Leituras em rede - que tiro a metáfora-síntese desta trajetória de dezoito anos: a rede remete a cordéis com aberturas regulares e sua estrutura lembra um tecido reticulado, articulado por nós (no amplo sentido) e é diretamente ligada à geografia deste lugar de onde falamos: Florianópolis, uma cidade de tradição açoriana que nas questões de gênero não quer ser apenas a ilha de Santa Catarina, mas também arquipélago.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC


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Encontros, lembranças, leituras: “as Memórias de Salim Miguel”
(Fev.2010)
por Tânia Ramos*

Eduardo Portella, professor e crítico literário, em um dos textos pioneiros sobre o assunto, “Problemática do Memorialismo”, define memórias como entidades literárias autônomas, que se situam no meio caminho entre a autobiografia e a história. Teoricamente o lugar parece evidenciar-se realmente no não-lugar. A definição esvazia-se por si só, em todos os sentidos. Não há mais como situar isto e aquilo. Há sim que se considerar a possibilidade de ser isto e aquilo. As memórias articulam duas práticas significantes na revitalização das histórias de vida: as referências concretas e o ato de lembrar, o que implica em marcas autobiográficas. Assim, posso dizer que as memórias não se situam no meio de caminho, mas ocupam um lugar, ainda que problemático para a teoria da literatura. Quem escreve memórias em tempos de crise? A resposta toma como base a reflexão de Machado de Assis sobre o historiador e o contador de histórias e a conseqüente receptividade do documento e do monumento: “Um contador de histórias é justamente o contrário do historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias”. Todo texto memorialístico arrisca-se à condição de documento. Mas a elaboração textual pode subverter este estatuto. Escreve suas memórias aquele que recordando a vida vê na literatura um instrumento objetivo de ação. Quem lê memórias? Os pares daqueles que as escrevem? Os curiosos? Leitores de narrativa de si, de biografias? Não me cabe aqui descrever um possível leitor, mas reconhecer que todo leitor de memórias abriga-se sob a autoridade confortante de uma voz confiável. Toda palavra é memória e toda memória do outro detona no leitor a sua própria memória. É nesse ponto que quero registrar aqui um livro em minhas leituras de férias. O livro de Salim Miguel “minhas Memórias de Escritores” foi uma experiência enriquecedora para mim que sente uma explícita sedução por histórias de vida. Salim abre um espaço em seu universo ficcional para nos falar de suas leituras, de seus encontros e suas amizades literárias. São textos breves que podem ser lidos aleatoriamente como eu o fiz.

Comecei por Marques Rebelo. Reencontrei Pedro Nava, um dos objetos de minha tese, conheci Flávio Costa, revisitei Carpeaux e Drummond, busquei Barão de Itararé, me senti próxima dos catarinenses. Quando vi tinha lido todos os escritores. Melhor: todo o livro, publicado pela Editora da Unisul em 2008, mais um livro deste intelectual que fala e publica sua fala: Salim Miguel. Um homem de letras, um leitor. E a capa revela no “minhas” minúsculo, humilde, o intelectual , contador de histórias. O que importava para ele eram as memórias de escritores. As minhas memórias se tornam as nossas memórias poderia pensar, Salim Miguel, o intelectual que escreve com delicadeza uma significativa fatia da vida literária brasileira.

*Tânia Regina Oliveira Ramos ( taniaramos@floripa.com.br ) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC]

 

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Para 2010: o que é ser professor de literatura?
(Jan.2010)
por Tânia Ramos*

Mais um semestre letivo acaba. E reservo este espaço do “Escritores do Sul” para mais uma vez, como professora de Literatura Brasileira na UFSC, lançar uma série de perguntas, especialmente aos meus pares: o que significa hoje ser professor de Letras, mais especificamente de Literatura? As incertezas que afligem a universidade são apenas institucionais? Por que nos encontramos envolvidos nessa crise de identidade de nosso objeto.? O que é a literatura? Literatura é mesmo tudo o que se ensina? Podemos também perguntar: serão as expectativas dos alunos ou da opinião pública com relação à atuação da Universidade o ponto ao qual devemos nos render enquanto pesquisadores e docentes universitários? O que ler? Qual a nossa atuação no espaço local, na cultura regional frente às novas tecnologias?

De que lugar posso falar neste exercício quase diário de pesquisa, da atenção aos lançamentos, às entrevistas televisivas, à leitura dos suplementos culturais, das resenhas publicadas em revistas semanais ou especializadas, dos muitos caminhos virtuais, às feiras dos livros como a Feira do Livro de Porto Alegre, que recentemente visitei à convite da FCC, das viagens possíveis pelo caminho da WEB? É este o caminho para identificarmos com crítica e criatividade o eixo de todo um processo ideológico de canonização da produção cultural, dentro do qual estamos condenados a exercer a nossa lucidez? Por outro lado, como levar os alunos, de forma sistemática, a não ignorar hoje o poder dos novos recursos disponibilizados pela mídia? Será que todos nós concordamos que a Internet hoje toma para si funções que já foram da escola, dos professores e da própria universidade, e que ela tem um papel decisivo na formação destas novas gerações com uma linguagem veloz e atraente? É essa cultura que impõe novos condicionamentos e formas de percepção e conhecimento. A questão é saber como nós e eles, os alunos, nos relacionamos com esse novo cenário. Ao pensar sobre o contemporâneo, Boaventura Souza Santos, filósofo português, sintetiza a dimensão de nossa atual responsabilidade: “ é cada vez mais importante fornecer uma formação cultural sólida e ampla, quadros teóricos e analíticos gerais, uma visão global do mundo e suas transformações”.

Usando a primeira pessoa, quero não mais fazer perguntas para me posicionar a partir da experiência de tantos anos: o espaço da literatura é aquele onde o professor mais do que nunca tem que se comportar como leitor, como um desbravador do espaço virtual, como um crítico a superar crises, tentando exercer a força interpretadora e o potencial criativo no salutar exercício de manter a existência do prazer da leitura. É isso que deve nos motivar para as salas de aula em 2010, pois para a literatura é necessária a permanência do verso de Carlos Drummond de Andrade: “O tempo é a nossa matéria” ou a frase do escritor português José Cardoso Pires, síntese das possibilidades que só o texto literário nos permite: “Isso não aconteceu, mas eu estive lá.”

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC



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Dois livros saídos.
(Dez.2009)
por Tânia Ramos

Dia 04 de outubro fui a Portugal, mais precisamente a um evento sobre Memória Literária e Cultural da América Lusa na bonita e instigante cidade de Évora, um dos patrimônios da humanidade. Na volta um dia em Lisboa, entre a tradição e a modernidade, coberta por um céu azul, imensamente azul. Foi tudo muito bom, desde as discussões sobre o (des)acordo ortográfico, as apresentações de novos estudos de Língua Portuguesa até os quinze trabalhos apresentados no meu simpósio que passaram por João do Rio, Lima Barreto, Silveira Martins, Silvio Romero, Revista Ilustrada, neorrealismo, José de Alencar, Caramuru, acervos literários e culturais, locais, regionais, nacionais, onde me incluí. Quero, neste espaço, registrar, porém, o e-mail que recebi de meu ex-aluno Rafael Miranda, nascido em Portugal e que veio para a UFSC em 2008 como intercambista. Jovem, inteligente, culto, poeta. Conheceu Marilha (assim mesmo este nome tão Florianópolis) no Curso de Letras, casou e ficou cá entre nós. Ao saber que eu estava indo para Portugal me escreveu mais do que uma mensagem, um guia turístico, sensível, tocante, pontual. Lá pelas tantas me disse: “Aproveite para comprar a revista Ler (mensal), é a nossa revista mais fresca e jovem sobre literatura. O JL (Jornal de Letras, quinzenal) estava um pouco decadente - de pesado, cinzento - quando eu saí de lá, mas é também interessante. Há também uma outra revista, Os Meus Livros, que eu não conheço tão bem”. A primeira coisa que fiz, na caminhada inaugural por Évora, numa das esquinas da Praça do Giraldo, perto do Hotel Santa Clara, onde fiquei hospedada (ao lado da igreja com o mesmo nome) foi comprar a Ler. Bonita revista (lembra em alguns momentos a CULT em seu início) com o subtítulo “Livros & leitores”. Cada noite, cada tempo que eu tinha, eu ia me encontrando com os heterônimos de Eduardo Lourenço, com Mia Couto, com o mundo vertiginoso de Roberto Bolaños, entre resenhas, crônicas, cartas, entrevistas. Além do evento na Universidade de Évora onde falei sobre literatura e as complexas questões locais, mergulhei minimamente nas letras portuguesas contemporâneas. Uma viagem em outra viagem. Na volta a vontade de saber o que aqui ocorria antes de ir para o cotidiano da UFSC. Li meus jornais, os diários, os suplementos amontoados no escritório. Alimentei, assim, esse desejo que tenho de estar sempre querendo saber quem escreve, quem publica, quem está lançando livros. E nesse retorno as boas notícias: “Sopé” e “Saber não saber” os novos livros de dois dos melhores escritores desse sul catarina: Flávio José Cardozo e Alcides Buss. Aqui se diria dois livros lançados, mas hoje vou optar em dizer como se diz em Portugal: dois livros saídos. Saídos das mãos e da imaginação de um excelente narrador e de um excelente poeta. Dois livros se dando a LER. 

*Tânia Regina Oliveira Ramos (
taniaramos@floripa.com.br ) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

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Dedicatórias
(Out.2009)
por Tânia Ramos*

Se a palavra “presente” pode remeter tanto ao tempo e às suas convenções, quanto à doação, à oferta, ela se aplica como uma luva ao que hoje aqui escrevo. Dois livros encontraram-se hoje na minha bolsa: “Borges e outras ficções” de Gabriel Gómez (Design Editora, SC, Jaraguá do Sul, 2009) e “O Sexo Vegetal (SP, Iluminuras, 2009). O primeiro me foi ofertado em 2008; o segundo nesse 16 de setembro de 2009. Duas dedicatórias. No primeiro: “Tânia, este é o segundo livro do Gabriel, que está crescendo como escritor. Acho que vais gostar! Regina” (a Regininha Carvalho, da UFSC, das singelas e inteligentes histórias de sapos e de tantas coisas). No segundo: “Para a Tânia, estas imagens catarinenses e sul-matogrossenses. UFSC, 2009, Sérgio Medeiros” (o próprio autor, meu colega, meu amigo, professor de Teoria da Literatura, da UFSC). Por que eu resolvo falar deste encontro inusitado? Porque ontem, na minha aula do Curso de Pós-Graduação em Literatura, li com meus alunos um conto-crônica-ensaio de Gabriel Gómez (por isso o livro ainda na bolsa), onde ele descreve e interpreta com muita graça e inventividade uma dedicatória feita por Bioy Casarez a uma mulher. Com meus alunos discuti a questão da assinatura, do nome próprio, da biografia. Com meus alunos falei do livro anterior de Gabriel Gómez, um argentino radicado em Santa Catarina, autor de um dos mais empáticos livro sobre livros, “A culpa é do livro”. Com meus alunos falei deste “catarinense-argentino-catarinense”, um dos maiores pesquisadores e colecionadores da obra do escritor Jorge Luiz Borges no Brasil. Outras ficções, Gabriel Gómez, a dedicatória de Regina e a dedicatória de Bioy no livro de Borges, ficaram ali à espera de um outro. E este outro foi exatamente “O Sexo Vegetal”, deste matogrossense de Bela Vista, catarinense por opção e por afetos, poeta-professor, professor-poeta, criativo, erudito, transgressor, teórico do inumano Sergio Medeiros. Sobre “O Sexo Vegetal”, suas imagens vegetais, olhares para um cenário “quando e onde”, opto por usar aqui, “décor”, como o quer o poeta, as palavras tão certeiras de Marcelo Coelho (http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br): “Esses pequenos “cenários” se alternam, ao longo do livro, com curtas narrativas que ilustrariam casos daquilo que o autor chama de “sexo vegetal”; geralmente, as relações epidérmicas entre um ser humano e plantas de qualquer tipo”. A dedicatória interpretada por Gabriel Gómez, de quem quero ainda muito ouvir falar pela sua capacidade narrativa e criativa -
suas “10 pequenas ficções”, no livro de que aqui falo, espécies de haicais narrativos, são para mim de uma qualidade ímpar - , me remeteu assim - quando os dois livros se encontram na bolsa e se tocam - à segunda dedicatória quando o poeta-prosador escreve para mim: “Para a Tânia, essas imagens catarinenses e matogrossenses”. Lanço, então, a pergunta diante destes dois excelentes escritores contemporâneos: seriam eles bons representantes de uma nova geração de “escritores do sul” sobre os quais este site nos fala? Seriam eles dois bons escritores catarinenses, de Santa Catarina ou em Santa Catarina? Prefiro a geografia poeticamente falada por eles para responder. De Gabriel Gómez: “E chegou a onda na costa, depositando o corpo que se atreveu a desafiar os segredos do mar”. De Sergio Medeiros: “as nuvens estufadas afundam o Continente, ou o consomem, elevando-se como espessa fumaça”.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

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Uma casa sem cor
(Set.2009)
por Tânia Ramos*

Entre1999 e 2009, mais de mil páginas chegaram literalmente pelas mãos de Zahidé Muzart às estantes individuais, às bibliotecas e às livrarias. Falo das coletâneas Escritoras Brasileiras do Século XIX, volumes I e II (o volume III encontra-se no prelo) uma belíssima e primorosa edição da Editora Universidade de Santa Cruz do Sul e da Editora Mulheres, de Florianópolis (www.editoramulheres.com.br) . Nele, a força de trabalho, manual e intelectual de algumas pesquisadoras contemporâneas, somando a essa empreitada, as escritoras (re)descobertas, a planejadora, a organizadora, as editoras, a prefaciadora: mulheres amarrando as pontas de dois séculos, integrando norte, sul, leste, oeste, as Américas. Em outras palavras, esta é uma cruzada, comandada pela professora, pesquisadora e editora Zahidé Lupinacci Muzart, para dar a ler a sua história da literatura, aquela que ainda não foi contada. Escritoras Brasileiras do Século XIX é, em síntese, não somente o resultado de uma pesquisa integrada, mas uma demonstração de um trabalho de equipe e de uma sinfonia ou sintonia de múltiplas vozes em um tempo datado: escritoras brasileiras do século XIX, pesquisadoras brasileiras do século XX, literatura brasileira para o século XXI, que possibilitam reavaliar nossa história cultural. Esta minha leitura, porém, não vai ser centrada na editora, dona da internacionalmente conhecida Editora Mulheres, Zahidé Lupinacci Muzart, na pesquisadora do CNPq Zahidé Lupinacci Muzart, na professora e orientadora do curso de Pós-Graduação em Literatura da UFSC, mas vai ser centrada na escritora Zahidé Lupinacci Muzart, que nos brindou agora em julho de 2009 com seu primeiro livro autoral, um bonito texto endereçado ao público infantil e juvenil intitulado “Uma Casa sem Cor”, publicado pela sua Editora Mulheres e ilustrado por Márcia Cardeal e sua sensibilidade de leitora e de pintora de. São poucos aqueles e aquelas que conseguem falar de dor e morte para crianças e do ponto de vista de uma menina de 8 anos com a sutileza e a delicadeza das imagens linguísticas e pictóricas. A saudade de um pai que desaparece sem explicação. A mãe e seus olhos vermelhos. A avó e a menina na casa sem cor. Do outro lado da história Dona Zefa. Um nome velho, um velho nome e, no entanto, a transformação da história acontece exatamente aí. Não posso contar mais. A narrativa perderia o misterioso encanto de uma história vivida por cada um de nós. Ou a viver. Todas nós, e todos nós, em algum momento habitamos ou habitaremos uma casa sem cor. 

*Tânia Regina Oliveira Ramos (
taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

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Por um portal catarina
(Agosto.2009)
por Tânia Ramos*

Aproveito este espaço para falar de alguns projetos que a UFSC tem feito para estabelecer um diálogo com a produção literária de Santa Catarina. Em 2007, dois núcleos de pesquisa da UFSC, o NUPILL, núcleo de Pesquisa em Literatura e Informática e o nuLIME, núcleo de Literatura e Memória, o primeiro coordenado pelo prof. Alckmar Luiz dos Santos e o segundo coordenado por mim, tendo nele a participação ativa dos professores doutores Lauro Junkes, Zahidé Muzart e Zilma Gesser Nunes, decidimos concorrer ao edital do PRONEX, Programa Núcleos de Excelência, FAPESC e CNPq, para organizar um Portal Catarina como um esforço de organizar digitalmente acervos literários tutelados e preservados pela UFSC e pela Academia Catarinense de Letras. 

Com o Portal Catarina, pretendemos colocar à disposição dos interessados, pela internete, obras literárias, críticas e informações de e sobre autores catarinenses de todas as épocas, além de dar início à importantíssima tarefa de organizar e dar ao público a possibilidade de consultar e conhecer acervos de escritores do Estado, atualmente sob a guarda da ACL.

O Portal Catarina, então, deverá proporcionar também a todos os interessados um dicionário de autores e de obras catarinenses, nessa parceria reunindo o NUPILL, o nuLIME, junto a grupos de pesquisa de duas outras universidades catarinenses, UNIVALI e UNIVILLE e a Academia Catarinense de Letras. É nesse sentido que propusemos a digitalização e a colocação no Portal de uma série de periódicos literários catarinenses (Terra, Sul, Litoral e O Moleque), além da obra de importantes autores no contexto local e nacional. E todas essas informações também estarão totalmente integradas à biblioteca digital do NUPILL - http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/ , o que vale dizer que as ferramentas de ensino e aprendizagem lá desenvolvidas (e ainda a desenvolver, como os mecanismos de anotações, para pesquisadores nos arquivos das obras digitalizadas e colocadas na internete) poderão ser utilizadas também por quaisquer usuários interessados, seja em leituras individuais, seja em projetos de ensino e aprendizagem de literatura catarinense desenvolvidos na rede pública de ensino do Estado. Finalmente, é parte importante desse projeto a catalogação e a organização de acervos de alguns escritores catarinenses, cujo material está sob a guarda da Academia Catarinense de Letras (cujo presidente, Prof. Dr. Lauro Junkes, professor titular da UFSC é participante desta nossa equipe): Ernâni Rosas, Maura de Senna Pereira e Delminda Silveira, além do acervo de Cruz e Sousa, cuja posse é da Fundação Casa de Rui Barbosa e do Arquivo Harry Laus, que se encontra no núcleo Literatura e Memória, nuLIME, da UFSC. Ressalte-se que tais acervos são majoritariamente em papel e sofrem todo tipo de ameaça a sua preservação. Apenas um esforço consistente de digitalização, como esse que estamos procurando fazer, através de alunos de graduação e de pós-graduação, extremamente dedicados ao trabalho , poderá preservá-los para pesquisas futuras e para conhecimento do passado literário nem sempre acessível aos interessados.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (
taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

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Alguns dedos de prosa
(Jul.2009)
por Tânia Ramos

Em sua terceira edição, a Semana Acadêmica de Letras da UFSC apresentou um leque de boas opções aos alunos e professores. Uma delas foi a mesa Redonda intitulada Três Dedos de Prosa realizada no dia 28 de maio de 2009 no Auditório Henrique Fontes, do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC, um auditório repleto de olhares e ouvidos curiosos, interessados, e que, entre todos os observadores, contou também, neste ano, com a participação de uma centena de alunos de Letras UFSC Ensino a Distância. Os alunos EAD, como se fazem reconhecer, foram uma importante presença na Semana. 

. Dedo de prosa foi um projeto do Centro de Comunicação e Expressão que durante algum tempo deu voz e vez a escritores contemporâneos que tinham, de alguma maneira, vínculo com Santa Catarina. Nessa III Semana de Letras, com a iniciativa do Curso de Pós-Graduação em Literatura, recuperou-se o projeto para dar a conhecer ou a (re)encontrar três escritores em diferentes momentos de suas carreiras literárias: Emanuel Medeiros Vieira, Maicon Tenfen e Carlos Augusto de Negreiros. Três escritores, alguns leitores e três dedos de prosa. Em outras palavras, quem escreve sabe, que a palavra sobre o papel, também fala.

Emanuel Medeiros Vieira, Maicon Tenfen e Carlos Augusto de Negreiros foram apresentados pela coordenação da sessão que leu suas biografias, destacou suas obras, deu relevo à formação acadêmica dos autores e que também preparou uma seleção de fragmentos das obras dos três autores para que fosse feita uma pequena homenagem aos convidados. Os trechos foram lidos por três alunas doCcurso após a apresentação de cada escritor, que conversaram sobre o ato de escrever, os motivos que os fizeram escrever, falaram de suas produções e trajetórias e no que acreditam que seja necessário para o ato da escrita. E não só: a luta pela publicação, o confronto com os editores, o desejo de escrever para não morrer.

Por que a escolha de Emanuel, Maicon e Augusto de Negreiros? Para que o público ali presente conhecesse e ouvisse a voz de três momentos literários: um escritor com uma obra sólida qualitativa ou quantitativamente, como Emanuel Medeiros Vieira; um jovem escritor, mas com um nome já reconhecido tanto pela mídia quanto pelos seus muitos livros já publicados, Maicon Tenfen e um escritor inaugural, Carlos Augusto de Negreiros, lançando seu primeiro livro. Os três estiveram alipara apresentar a seus convidados Olhos Azuis ao sul do efêmero, um instigante livro que mescla memória e ficção; Casa Velha Night Club, uma sucessão de histórias que brincam com o cotidiano, uma festa de personagens galhofeiros, brincalhões; e João, papéis e outras estórias, uma série de contos que buscam na linguagem e pela linguagem o fazer literário. Emanuel, Maicon e Carlos Augusto, os autores presentes e tendo na platéia e no lançamento, além de alunos e professores da UFSC, presenças de tantos bons escritores catarinenses.

Terminamos esse registro destes “três escritores do sul”, registrando que para os alunos conhecer um escritor em presença é comprovar que é possível ouvir uma fala a ser literatura. Cada vez mais a crítica literária se depara com a necessidade de voltar a discutir a distância entre a fala e a escrita, entre vida e obra. A rostidade dos escritores é também uma representação. É possível um corpo autoral, mesmo que as falas pareçam sempre uma inconclusão, um vazio instalado, onde o diálogo não preenche. Mas conhecer um escritor na sua transitividade - Roland Barthes nos apresenta o escritor como intransitivo a partir da idéia “o escritor escreve” - é uma oportunidade só possível quando acontecem estes dedos de prosa. Que venham outros e outras.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

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"Eu ouvi muitas histórias, também, de mentirosos, e aprendi a ser mentiroso."
Franklin Cascaes

(Jun.2009)

Os artistas que permanecem são aqueles que grandes sistemas estéticos acompanham as suas obras. A cultura produzida na Ilha de Santa Catarina possui algumas marcas e alguns marcos. Hoje eu não temo dizer que há uma literatura antes e depois de 13 Cascaes , uma antologia que reúne treze leitores de Franklin Cascaes, em treze narrativas que, evitando o naturalismo, o puro simulacro da realidade que não se repete, criam uma seqüência de histórias fantasmais, aventuras da mente, no que estas cinco letras – MENTE - têm de carga semântica. Cérebro, sufixo de advérbios de modo e terceira pessoa do singular do verbo mentir. Assim cada MENTE, dos treze convidados para este revival de Cascaes, MENTE verdadeira e poeticaMENTE.

A epígrafe deste meu ensaio faz uma homenagem a estes falsos mentirosos , arrolados alfabeticamente: Adolfo Boos Junior, Amílcar Neves, Eglê Malheiros, Fábio Brüggemann, Flávio José Cardozo, Jair Francisco Hamms, Julio de Queiroz, Maria de Lourdes Krieger, Olsen Junior, Péricles Prade, Raul Caldas Filho, Salim Miguel e Silveira de Souza. Numa mistura de memórias de leituras e memórias ficcionais, onde o fantástico é sempre evocado, somos encantados pelas histórias que as autoras e os autores nos contam, especialmente porque em cada narrativa há uma presença ou uma essência de Franklin Cascaes como um fantasma que, sem cair no fetichismo da tradição, assombra a cultura moderna. Daí a cumplicidade dos autores às genealogias (Talvez a primeira e última carta); aos lugares próximos e distantes (O presépio; Uma noite de profunda insônia solitária); aos espaços míticos e místicos (O “Minha Querida”; O Abençoado; Mistério no Miramar); ao tempo transgressor (Dois bandolins; O diário da virgem desaparecida); ao humanismo (Branco assim da cor da lua; O folheto); às referências reais ou simbólicas em histórias mescladas de verdade e de poesia (História praiana; Ao entardecer; Noites de encantamento), que conseguem elaborar um universo rico em contradições, especialmente porque todos os enredos passam pelo poder da linguagem, da palavra contada, da história inventada, e não apenas pela preocupação teórica da verossimilhança.

O fascínio da alteridade – deste outro inexplicável – é uma das marcas das narrativas fantásticas. Outras dimensões, outros mundos narrados, as ilustrações de Tercio da Gama, o prefácio, as notas do editor, os créditos estatais, que remetem e dialogam com os traços e com os desenhos bruxólicos de Franklin Cascaes, não desglamourizam a fantasia das letras e das palavras. Pelo contrário. Servem como complemento e suplemento. Complemento que Gelci José Coelho, o Peninha, é no livro com seu depoimento factual, de quem conviveu e viveu com Franklin Cascaes. Suplemento na Invocação feita por Dennis Radunz, numa leitura auricular, profunda, pontual, do significado deste que “não é apenas um livro, mas treze lugares da linguagem”. Complemento e suplemento obtidos pela organização e apresentação destes dois escritores, leitores sempre, Flávio José Cardoso e Salim Miguel.

Denise de Castro em sua bonita canção-homenagem diz que a festa hoje é pra Cascaes . No refrão ela alegremente canta que na freguesia do Ribeirão é vento, é fogo, é caldeirão; eu vi passeando na clareira, uma misteriosa reunião. Poderíamos dizer que era essa misteriosa reunião de cascaes. Na festa do livro que agora li entraram cabalisticamente treze cascaes. Mas se passam no ar vassouras voadoras, que dão gargalhadas pelo ar; aproveitando a lua cheia; em coro começando a cantar , não haverá mistérios se daqui a pouco encontrarmos mais cascaes continuando a contar. Porque, como sabemos, temos muitos falsos mentirosos. Logo, verdadeiros. SimplesMENTE cascaes.

*Tânia Regina Oliveira Ramos (taniaramos@floripa.com.br) atualmente coordena o núcleo Literatura e Memória - nuLIME - CCE UFSC

 

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