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Crispim Mira

O primeiro jornalista assassinado em Santa Catarina morreu defendendo seus ideais

O dia 17 de fevereiro de 1927 era para ser apenas mais um de trabalho na vida do jornalista Crispim Mira, diretor e proprietário do jornal Folha Nova, de Florianópolis. Às 13 horas, após ter passado a manhã na redação acompanhado de seu filho Cláudio, de 14 anos, preparava-se para ir almoçar quando três homens armados com chicotes e revólver entraram na sala. Crispim Mira foi agredido violentamente e, ao tentar reagir, recebeu um tiro na boca. Mesmo ferido, resistiu – cambaleou tentando fugir, enquanto o filho gritava desesperado ao ver o pai ensangüentado. Os agressores fugiram num carro oficial que os aguardava em uma rua próxima.

O jornalista não resistiu ao atentado e morreu, no dia 5 de março, no Hospital de Caridade, no centro de Florianópolis. No atestado de óbito, a causa da morte foi declarada como "septicemia consecutiva a um ferimento por projectil de arma de fogo na região pharingo-espinhal". A morte de Crispim Mira foi uma resposta a sua conduta corajosa e independente. Combativo e popular, ele não tolerava os abusos do poder público e fazia questão de denunciar em seus jornais as irregularidades vigentes. Pouco antes de morrer escreveu artigos em que questionava, por exemplo, a lentidão com que a Comissão de Melhoramentos dos Portos, vinculada ao Ministério da Viação, tratava do aumento do calado do porto de Florianópolis – que, por ser limitado, obrigava as embarcações a atracarem na ilha de Ratones, na Baía Norte.

Não por coincidência, quem atirou em Crispim Mira foi Alécio Lopes, 26 anos, filho de Tito Lopes - diretor da Companhia de Melhoramentos dos Portos da Capital e duramente criticado nos editorias de Folha Nova. Mira colocava em dúvida a eficácia do órgão federal, que estava instalado na cidade há quatro décadas. Queria saber qual era o verdadeiro destino das verbas destinadas a ele, porque o maquinário não recebia manutenção e estava caindo aos pedaços. Acusava o diretor de nepotismo por ter contratado os dois filhos, e pedia que se abrisse uma sindicância para apurar as denúncias.

Assim que se confirmou a morte, 20 dias após o atentado, o jornal Folha Nova publicou uma despedida ao seu ex-proprietário: "Consumou-se a tragédia. Crispim Mira não pode resistir às conseqüências da bala desfechada pelo revólver de Aécio Lopes e seus comparsas. Paz em primeiro lugar à grande alma de Crispim Mira, já agora redimida de todas as culpas das contingências da vida terrena, pelo martírio dos sofrimentos de dias intérminos de ansiedade, de torturas físicas e morais".

Depois da morte do jornalista,o que sucedeu na cidade foi um enorme silêncio e um julgamento mal explicado. Aécio Lopes e seus comparsas foram julgados na comarca de São José, município vizinho, mas que na época do crime não tinha nenhuma ligação com Florianópolis. Os acusados foram absolvidos em setembro do mesmo ano e o processo extraviado. Hoje, o que resta é uma rua na capital que leva o nome do jornalista.

Mas Crispim Mira foi muito mais que um nome na história do jornalismo catarinense. Nascido em 13 de setembro de 1880, na cidade de Joinville, começou a trabalhar cedo, aos 20 anos, no jornal Gazeta de Joinville. Esteve no Rio de Janeiro para cursar Direito, mas não concluiu os estudos, o que não o impediu de atuar como advogado provisionado. No jornalismo deixou sua contribuição em periódicos como O Brasil, Correio da Manhã, Gazeta Catharinense, Folha do Commercio, República, A Notícia e Folha Nova, onde foi assassinado.

Também escreveu obras importantes para o seu tempo. No livro "Terra Catharinense" – originalmente uma tese, de 300 páginas, apresentada no Congresso Brasileiro de Geografia – publicado em 1920, trata de temas polêmicos como a questão de limites entre Paraná e Santa Catarina, a colonização italiana e alemã, assim como o ensino destas línguas nas escolas locais. Dedica um capítulo inteiro à revolta dos fanáticos, mais tarde conhecida como Guerra do Contestado, e faz uma comparação com Canudos. Em outros trechos, fala dos tipos catarinenses como a mulher, o homem do litoral e o da serra, o pescador e a benzedeira. Em "Os Alemães no Brasil", escrito durante a I Guerra Mundial, Crispim Mira demonstra que os alemães residentes no Brasil contribuíam para o desenvolvimento do país e não representavam nenhum perigo para a segurança nacional.

O estilo jornalístico é melhor percebido no livro "Crimes e Aventuras dos Irmãos Brocato" (1917) – onde ele conta a história verídica dos sicilianos Thomaz e Domingos Brocato, dois criminosos que passaram por Buenos Aires, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Caxias e tiveram um final trágico em Lages, SC. Já em "Acorda Brasil" (1919), Crispim Mira reúne artigos em que expõe suas idéias para o desenvolvimento nacional. Ele analisa dificuldades enfrentadas pelo país naquele tempo e aponta algumas soluções, como o trabalho digno, a construção de rodovias, a implantação de cursos técnicos e profissionalizantes e o aprimoramento da indústria, do comércio e da agricultura. No livro, assegura que "o homem que produz é o único que tem valor, e as sociedades que não desejam iludir-se devem julgar os seus contemporâneos por aquilo que sejam e não pelo que procuram fazer crer que são".

Trajetória de Crispim Mira

Nasceu em 13 de setembro de 1880 em Joinville.

Aos 20 anos (1900) começa a carreira de jornalista em Joinville.

Em 1901 vai para o Rio de Janeiro Cursar Direito, mas descuida dos estudos e regressa a Joinville, onde funda o seu primeiro jornal, o Jornal do Povo.

Em 1905 ingressa como redator na Gazeta de Joinville.
Em 1907, parte novamente para o Rio de Janeiro, onde escreve artigos para os jornais O Brasil e Correio da Manhã.

Em 1908, regressa para Santa Catarina porque foi convidado a ssassumir o cargo de redator da Gazeta Catharinense, jornal do então senador Hercílio Luz.

Em 1909 funda a Folha do Commercio, onde pratica um jornalismo mais pessoal.

Em 1910, ainda na Folha do Commercio, começa a fazer criticas à administração federal e denunciar o abandono do porto de Florianópolis.

Em 1912 publicou diversos artigos no Folha do Commercio que influenciaram o governador Hercílio Luz a assinar um acordo que fixava as fronteiras entre Santa Catarina e Paraná e encerrava uma longa limites entre os dois estados.

Em 1918, depois de ter passado um tempo na superintendência da Cia. Sul América de Seguro de Vida no Rio de Janeiro, foi co-fundador e redator do jornal Terra Livre, em Florianópolis, mas a publicação durou pouco porque foi destruída por um incêndio.
Entre 1919 e 1920 se incorpora ao Republica, jornal "oficial" do governo Hercílio Luz, com quem Crispim Mira já havia estabelecido relações pessoais e de confiança.

Em 1924, transfere-se para Joinville, onde trabalha como advogado provisionado e colabora no Correio de Joinville e em A Notícia.

Em 1926 volta para Florianópolis e funda Folha Nova, seu último jornal.

Textos do Folha Nova:

"Preferimos informar a comentar, preferimos elogiar a censurar, mas não elogiaremos o erro, nem censuraremos o bem. Em qualquer caso, desejamos ser, sempre, oportunistas, tolerantes e cortezes. Temos um horizonte: a bondade, o affecto ou o cavalheirismo em todas as emerjencias e o jubilo da vida em todas as situações. É nosso ideal congraçar, construir, resistir á treva e homenagear a luz. Dê-nos o povo, seu amparo, e certo que não sossobraremos em meio da jornada"
Folha Nova – Florianópolis, 18 de novembro de 1926 – Ano I, Número I.

"Gente Forte, gente boa, prompta para servir"
"Queremos ser, tanto quanto possivel, um jornal que reflicta a opinião pública, desde o mais modesto homem do povo, até os que estejam mais altamente colocados. A todos acolheremos nestas columnas, sem distinção de classes e de posição: seja branco ou preto, paupérrimo ou poderoso. Aliás, tudo isso é muito relativo. O único poder supremo, na terra, está com o povo".


* Por Sabrina Domingos, jornalista e integrante da Rede Alfredo de Carvalho em Santa Catarina