Ricardo Barberena é doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Durante a oficina de contos do Festival de Inverno de Porto Alegre, na última semana de Julho, na Sala Álvaro Moreyra, ele falou, entre outros, sobre o conto "Uma Vela para Dario", do escritor curitibano (avesso à fotos e entrevistas) Dalton Trevisan.
O conto de Dalton é considerado pelos críticos um dos 100 melhores do século. A pergunta feita, logicamente, é por quê? Com tantos milhares de contos por aí, por que se escolhe um como "um dos melhores dos últimos 100 anos"?
A resposta para isso Ricardo relatou em sua oficina.
Um conto, ao contrário de um romance, é uma fotografia. Se compararmos a uma luta de boxe, o conto, diz Ricardo, é o que vence por "knockout", enquanto o romance ganha por pontos. O conto é uma sinxtaxe, uma poética, uma brevidade com uso estético limitado, e não é possível perder tempo na narração da história.
Enquanto num romance os escritores permitem que os leitores fechem o livro e retornem depois, no outro dia, ou até na outra semana, no conto isso não pode acontecer. Os melhores contos fazem com que o leitor leia-os até mesmo sem pestanejar. O conto deve ser um ato de caça ao leitor nas suas poucas páginas. O conto tem que ser uma máquina que gere interesse, uma fotografia bela ou feia, mas bem feita, independente da história que se conte.
O que vemos no conto de Trevisan é tudo isso e mais um pouco. A cidade da história é um texto sem protagonista. A cidade como um espaço de despersonalização absoluta.
Há 2 parágrafos de estabilidade, depois já vem o caos. O conto funciona de uma estabilidade para o caos, exatamente como um conto deve ser, quando há uma piora na vida de um personagem, alguma coisa intensa acontece. Alguma coisa intensa deve acontecer na história para que a história se torne um grande conto.
Em uma vela para Dario, o personagem caminhando na rua sofre, aparentemente, uma parada cardíaca. Ao tentarem colocá-lo num táxi, o motorista não aceita levá-lo por não saber "quem irá pagar a corrida". Ao tentarem então conduzi-lo para uma farmácia na outra rua, logo desistem, não aguentam o peso e o largam, talvez já morto.
O seu corpo é deixado em frente a uma peixaria. Morto, Dario é roubado, coisificado, pisoteado, nadificado. As pessoas colocam até almofadas nas janelas para apoiarem os cotovelos e verem a cena. Outros seguem comendo e bebendo sem dar a menor importância ao fato. É um menino que traz uma vela para Dario, que já parece morto há muitos anos. Três horas depois, ele ainda espera o rabecão. O toco da vela se apaga com as primeiras gotas de chuva.
Tudo volta ao normal.
A profundidade do conto é extrema. Trevisan, diz Ricardo, mostra a cidade como ela é, "uma máquina de coisificar qualquer um", de "tirar qualquer identidade", de "matar humanos". A cidade é de uma violência intensa e mesmo as piores mortes tornam-se a espetacularização para a sociedade. Tudo se dá de forma efêmera e rapidamente esquecida. Amanhã estará no jornal, talvez, mas depois de amanhã, haverá outras notícias no mesmo jornal. Vítimas igualmente esquecidas, sem nome, sem identidade, anônimos do centro e da vida urbana.
É como um violinista que toca para ninguém na rua, no metrô, na estação do ônibus. Fora de seu lócus de representação urbana, ele não é nada. Ninguém é nada na cidade.
Dalton Trevisan não apenas cumpre muitíssimo bem o papel de um conto maravilhosamente escrito, como relata uma verdade até mesmo jornalística de forma nua, crua, fotográfica, textual...
Leia o conto abaixo:
Uma Vela para Dario
Dalton Trevisan
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.
Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores", Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20