Morto no final de fevereiro, aos 73 anos, em Porto Alegre, Moacyr Scliar sempre será lembrado como um dos principais escritores que o Rio Grande do Sul (e certamente o Brasil) já tiveram.
Selecionamos perguntas feitas e respostas dadas pelo eterno Scliar em entrevistas ao longo de sua sólida e vitoriosa carreira como escritor.
Com mais de oitenta livros publicados, o autor respondeu a praticamente todas as perguntas possíveis durante sua gloriosa vida como médico e escritor.
Abaixo, selecionamos algumas questões que foram lhe feitas por jornalistas, revistas e entrevistadores em geral. Muitas respostas mostram o profissionalismo e a dedicação de Scliar no decorrer de toda a sua existência.

PRESS: Como foi a tua infância?
SCLIAR: Minha infância foi no bairro Bom Fim. Só me dei conta de que fui pobre depois que melhorei de vida. Sou filho de imigrantes, e meu pai nunca passou de um pequeno empresário. Chegou aqui, bem dizer, sem nada. Uma família de nove irmãos. Minha vó era viúva, minha mãe também era imigrante, mas ela conseguiu estudar, foi professora e lecionou no grupo escolar que antecedeu o Colégio Israelita Brasileiro. Nós morávamos em uma casinha muito simples, não tinha água quente, não tinha fogão a gás e nem banheiro. Tinha tanto rato que eu brincava com eles. Nós vivíamos muito precariamente, mas nunca senti isso. O fato de ser um bairro comunitário, em que as pessoas conviviam muito umas com as outras e se ajudavam, acho que neutralizava um pouco essa sensação de desamparo que a pobreza tem. Meu pai fez várias coisas, ele foi empregado de uma fábrica, foi um pequeno lojista, no fim ele e um irmão, que era o pai do pintor Carlos Scliar, entraram em sociedade em uma fábrica de acolchoados. Aí melhoramos de vida, passamos a uma vida de classe média.
Shavua Tov - Como você começou a escrever?
Moacyr Scliar - Escrever está muito ligado à infância. Sou filho de imigrantes judeus, da Besarábia. Eles vieram para o Rio Grande do Sul para trabalhar num projeto de colonização agrícola. O projeto já estava terminando quando eles chegaram, então eles vieram para Porto Alegre, para o bairro do Bonfim, onde eu nasci e me criei. Era parte da vida das pessoas se reunir pelas noites, bater papo, contar histórias. Eu cresci ouvindo histórias e isso foi o ponto de partida para a minha literatura. Mas, além disso, eu tive influência da minha mãe, que era professora no colégio idish, atualmente o colégio israelita brasileiro. Ela entusiasmou-me tanto a ler quanto a escrever. Ainda criança eu já escrevia minhas histórias, mostrava para os meus parentes e elas passavam de mão em mão no Bonfim. Todo mundo dizia que eu ia ser o ‘escritorzinho do Bonfim’ e isso me deixava muito satisfeito. Quando eu vi, estava escrevendo, não foi nenhuma resolução. No início eu não publicava, depois comecei a publicar no jornalzinho do colégio, jornais de bairro. No final do curso de Medicina eu publiquei meu primeiro livro, uma coletânea das histórias de estudante de medicina. Teve muito sucesso porque os meus pais obrigaram meus vizinhos a comprar vários exemplares, mas não era um livro muito bom e eu só fui me dar conta disso depois que ele foi publicado. Então, nos 6 anos seguintes eu escrevia e guardava tudo. Quando eu retomei, publiquei outro livro de contos, “O Carnaval dos Animais”, que foi muito bem recebido. E a partir daí eu não parei mais de publicar. Hoje são cerca de 60 livros, de vários temas. Eu escrevo ficção, tanto para adultos quanto para jovens, crônicas, ensaios e muito sobre a temática judaica e sobre a minha experiência como médico de saúde pública. Muitos livros foram traduzidos, vários foram premiados e adaptados. A mais recente adaptação para o cinema foi “Sonhos Tropicais”.
S.T. - Como é o processo desde a criação dos personagens até a finalização do livro?
M.S. - Pode ser uma coisa rápida , mas nunca menos do que semanas, e pode ser uma coisa de 8 anos. Acabei um livro em maio no qual demorei 10 anos. Mas eu o trabalhei em 1992, 1993 e 1994, de 1994 até 2002 ele ficou numa gaveta. Esse ano retrabalhei e conclui. É uma coisa muito aleatória. O processo de criação dos personagens nasce dos impulsos mais variados. “A mulher que escreveu a Bíblia”, não foi uma idéia minha, foi um estudioso norte-americano, um conhecedor da Bíblia, que levantou a hipótese de que parte da Bíblia teria sido escrita por uma mulher. Achei interessante e ousado, pensei sobre o assunto e nasceu a personagem.
Ademir Pascale: Você escreve diversos gêneros literários, mas qual é o seu predileto e por quê?
Moacyr Scliar: Gosto do conto, pelo desafio. Escrever um bom conto é, ao contrário do que possa parecer, muito difícil. Mas um bom conto é um triunfo literário
Ademir Pascale: Você escreveu mais de 80 obras, algumas foram adaptadas para mais de 20 línguas. Qual destas obras marcou a sua vida e por quê?
Moacyr Scliar: O Centauro no Jardim, uma obra em que uso a metáfora do centauro como símbolo da dupla identidade dos filhos de imigrantes (meu caso) me deu grande prazer e emoção.
Ademir Pascale: Qual a causa da escolha pela Medicina?
Moacyr Scliar: Foi uma motivação diferente daquela que me levou à literatura. Em criança eu tinha muito medo de doença. Eu não tinha medo de ficar doente, não era, e não sou, hipocondríaco; mas quando meus pais adoeciam eu entrava em pânico. Por causa disso comecei a me interessar por doenças e pela medicina o que me levou a esta carreira que foi e é uma fonte permanente de gratificações.
G1 - você escreveu um livro sobre o humor judaico. O que caracteriza esse humor, em linhas gerais?
SCLIAR: O humor judaico é um humor melancólico, filosófico, contido; um humor em que o humorista ri de si próprio, um humor que funciona, para um grupo humano freqüentemente perseguido, humilhado e às vezes ameaçado de extermínio, como defesa contra o desespero. Este humor judaico é relativamente recente, datando de meados do século 19, e ligado a um cenário particular: as aldeias judaicas da Europa Oriental. No império tzarista os judeus estavam confinados a pequenas e miseráveis aldeias. Não podiam ter terras, não podiam exercer muitas profissões; sobreviviam como podiam, através de atividades humildes: leiteiros, alfaiates, pequenos agricultores. O humor judaico nasceu como uma resposta às duras condições de vida, às perseguições, aos pogroms. Tem duas características: primeiro, é um humor que neutraliza uma realidade trágica, tornando-a cômica, e portanto menos ameaçadora: funciona como mecanismo de defesa. Neste sentido é um “humor do absurdo”, intelectualizado; segundo, ele procura preservar a coesão grupal, mostrando o que é especial em “nós”, em contraposição a “eles”, os não-judeus. Isso explica por que uma anedota sobre judeus, inventada por judeus, mas contada por não-judeus, não raro é considerada anti-semita. O humor judaico é um humor que induz à reflexão. Não é humor escrachado, é um humor reservado; não provoca o riso fácil, a gargalhada e sim um pensativo sorriso. Com a emigração maciça de judeus da Europa Oriental para os Estados Unidos o humor judaico foi transplantado, mas para solo fértil. Os humoristas judeus, populares não só na comunidade judaica como entre o público em geral, tornaram-se profissionais, muitos deles famosos por seus livros, artigos jornalísticos, peças teatrais, filmes ou cartuns: aí está Woody Allen para comprová-lo. Além disso, o humor judaico criou personagens característicos, como é o caso da mãe judia, uma figura superprotetora e sobretudo alimentadora. Tinha de sê-lo: a grande ameaça então era a tuberculose e a grande proteção contra a tuberculose era a comida. Mas a situação do judaísmo mudou. Já não se trata de comunidades pobres, sujeitas à perseguição ou ao extermínio. Com isso desapareceram os personagens típicos do humor judaico. As mães judias já não alimentadoras – ao contrário, estão atentas para a obesidade – e, graças à psicanálise, entendem a relação com os filhos e com as próprias mães. O humor judaico foi mudando. As comédias dos irmãos Marx, por exemplo, quase nada tem a ver com judaísmo. E o mesmo se pode dizer do humor de Sacha Baron Cohen. Isso tudo evidencia uma mudança de cenário cultural. É ruim para o humor, esta mudança? Talvez. Mas melhor, muito melhor, para as pessoas.
DG – A que tu atribuis a falta de procura pelos livros? Seria um desinteresse em si ou o fato do livro ser muito caro?
SCLIAR – O livro realmente é caro, e tem um outro fenômeno agora, que a leitura não se restringe mais só ao livro. As pessoas estão lendo jornais, as pessoas tão lendo revistas e as pessoas estão lendo na internet. Isso é uma coisa muito importante, porque a internet realmente vai se transformar num espaço literário. Por enquanto, ainda tem muita coisa misturada, de valor desigual, mas eu não tenho dúvida de que para os jovens escritores a internet vai ser importante.
S.T - Como você vê o avanço da extrema - direita na Europa?
Scliar - Existe muito anti-semitismo no Rio Grande do Sul?M.S - Com grande preocupação, no mundo inteiro e em Israel. É o renascimento de antigas intolerâncias. Nós pensamos que estamos num mundo globalizado, que as pessoas agora vão conviver melhor. Mas isto está se revelando um equívoco. Quando a gente menos espera, velhas xenofobias ressurgem com conseqüências trágicas. No RS, não tem um anti-semitismo escancarado. Esse foi um estado que teve um movimento nazista nos anos 30 e 40 relativamente forte. E tem um movimento neo-nazista nos anos 80 e 90 débil. É uma coisa mais ridícula do que ameaçadora. Isso não significa que a gente deva minimizar. Porque esses neo-nazistas e racistas que estão ganhando eleições na Europa, há uns anos atrás eram meia dúzia e hoje conseguem adeptos. Isso sempre acontece quando existe uma crise social, representada na Europa pelo afluxo de imigrantes e pela violência social. São facetas do preconceito que ressurgem. Há uma comunidade árabe no RS, sobretudo nas cidades da fronteira. É uma comunidade que está crescendo, e que pode se tornar maior que a comunidade judaica. É engraçado porque eles repetem a trajetória judaica, trabalham em comércio. Eles são solidários aos palestinos, mas existem várias correntes, desde os extremistas até os que querem um diálogo. Agora, ser contra o estado de Israel não significa ser anti-semita..
Educarparacrescer – Como estimular os jovens a gostarem de ler?
Moacyr Scliar: O ensino da literatura ainda não se libertou da metodologia do passado, em que leitura era obrigação curricular, e não prazer. Só se lia autor morto - quanto mais morto, melhor. Clássicos são essenciais - Machado é prova disso - mas autores contemporâneos também são importantes, na medida em que falam da realidade vivida pelos jovens. Regra número um: eliminar o caráter de obrigatoriedade, de dever escolar, da leitura. Ler é algo que se deve fazer com prazer e emoção. A principal pergunta que um professor deve fazer para um jovem não é algo do tipo "O que o autor quis dizer com esse texto?", mas sim: "O que você sentiu lendo esse texto?" O conhecimento da vida e do mundo que se pode adquirir pela leitura é sempre mediado pelo sentimento. A segunda regra é estimular a interação com o texto: adaptações teatrais e recriação de textos são dois exemplos.
Educarparacrescer – Qual foi a maior lição que você aprendeu?
Moacyr Scliar: Que a gente não chega a nada sem método e sem esforço.
Wagner Lemos - Como foi seu ingresso na Academia Brasileira de Letras? O que isso significou para sua vida? Quais as mudanças que ocorreram?
Moacyr Scliar: Eu não era um candidato natural à ABL. Foi a gente do RS que me incentivou a concorrer a uma vaga e foi em nome da cultura gaúcha que eu o fiz. Fiquei felicíssimo com a eleição, porque a ABL é uma grande instituição com pessoas notáveis (basta lembrar o falecido Celso Furtado), mas isto não mudou em nada minha vida: continuo sendo o cara simples que eu era.
Wagner Lemos - Como gostaria de ser lembrado no futuro?
Moacyr Scliar: Como alguém que amou as pessoas, amou seu país e sua cultura, amou a literatura, amou a medicina.
Wagner Lemos - Deixe uma mensagem para os estudantes que farão vestibular analisando sua obra.
Moacyr Scliar: Gente, é uma glória ser lido por vocês. Espero que vocês tenham tanto prazer na leitura quanto eu tive escrevendo. E espero que meus livros ajudem vocês a entender um pouco melhor a nossa realidade e a vida em geral.