Agitador cultural, professor, editor e, além de tudo, um grande ser humano e poeta! Alcides Buss é o último entrevistado do primeiro ano da revista Escritores do Sul.
""Não se ganha dinheiro com a publicação de livros de poesia. No entanto, quando você publica um livro, percebe que está cumprindo uma missão e espera, lá dentro de si, estar ajudando o mundo, um pouquinho, a ser melhor."

Qual seu nome completo?
É assim mesmo como aparece nos livros, com onze letras: Alcides Buss.
Onde e quando nasceu?
Nasci em 14 de agosto de 1948, sob o signo de Leão, na pequena cidade de Salete, em Santa Catarina. Na época, Salete pertencia ao município de Rio do Sul e por isto às vezes aparece como se aí tivesse nascido.
Como você se define?
Descobri cedo que a vida é uma combinação de acaso e determinação. Aprendi a lutar para ser merecedor do que sou. Me considero, modestamente, um lutador.
Qual foi seu primeiro e decisivo ato literário?
Aos catorze anos me considerava um bom jogador de tênis de mesa e um desenhista de algum talento. Praticava as duas coisas no Colégio Marista de Cascavel, no Paraná. Ali passava boa parte de meus dias na cumplicidade dos Irmãos, que me tratavam com imenso carinho. Morava de favor na casa de amigos da família. Um dia, sem mais nem menos, um rapaz da casa, nos seus vinte anos, me pediu um favor: que escrevesse um poema para sua namorada. Pra falar a verdade, mal sabia o que era um poema. Mas cedi ao apelo e escrevi. Foi meu primeiro poema. Dei pra ele e pedi que colocasse seu nome como autor!
Quando começou a escrever já fazia planos de seguir carreira?
Isso nunca me passou pela cabeça. Depois desse primeiro poema, por alguns anos me dediquei ao desenho e à pintura. Quando chegou de verdade o gosto pela escrita, eu a praticava de maneira natural e espontânea. Aprendi a fazer sonetos e escrevi centenas deles na paixão da juventude. Um dia decidi que devia queimá-los, e foi o que fiz.
Durante o ato da escrita, quais seus momentos de maior prazer e desprazer?
No exercício da poesia há dois momentos realmente prazerosos. O primeiro é quando você termina um poema e o vê como um ato de criação. O segundo, é quando o poema chega ao leitor, seja no jornal, na revista, no livro. O poema se completa no leitor e isto tem um sabor celebrativo. Os desprazeres são raros e têm a ver com circunstâncias tais como um falha de revisão ou uma crítica injusta.
Quando inicia um poema, sabe antecipadamente seu conteúdo, já o planejou na cabeça?
Considero que há três momentos na criação de um poema. Primeiro, você o imagina. É a concepção. Depois você o deixa realizar-se no inconsciente. É a gestação. Por fim você o coloca no papel ou na tela do computador. É seu nascimento.
Você começou imitando alguém? Quem?
O poeta W. H. Auden dizia que todo poeta começa a escrever a partir de um imaginário geral formado pelo substrato das suas leituras. Depois imita um ou dois poetas de sua predileção. Mais adiante, cria seu próprio estilo, sua linguagem. A partir daí, corre o risco de, algum dia, se auto-imitar. No segundo estágio, andei muito próximo de Raul Bopp, o autor do belo poema “Cobra Norato”. Encantava-me a sua linguagem e ambicionei escrever também meu Cobra Norato, não como uma imitação, mas tirando-o do mundo mítico da selva e colocando-o no prosaico cotidiano da cidade poluída. Resultou dessa aventura o meu livro Ahsim.
Já dedicou poemas a pessoas especiais? Quais os principais poemas dedicados a alguém?
A dedicatória é uma espécie de tributo. Quando a fazemos é porque temos dívida com alguém. Meu primeiro livro, Círculo Quadrado, dediquei a Sebastião Josué Votre, porque me ajudou a descobrir o fascinante mundo da leitura. Muitos poemas, dediquei a outros poetas. Eles, no conjunto, formam uma espécie de irmandade, uns precisando dos outros. Em Transação, há poemas dedicados a Cruz e Sousa, Manuel Bandeira e Raul Bopp. Neles, há mais do que uma dedicatória. É uma espécie de comunhão poética. Mais adiante, no livro Cinza de Fênix e três elegias, além dos poemas que celebram meu “paideuma”, há uma elegia para Lindolf Bell e outra para aquele índio pataxó queimado vivo, há anos atrás, em Brasília.
Prefere escrever em silêncio ou com uma música de fundo, por exemplo?
O ato da escrever tem algo de mágico. O poeta escreve com o corpo inteiro. Por isto, o silêncio é importante, já que favorece a concentração. A boa música, por exemplo um clássico de jazz, ajuda bastante.
Em caso de dúvida, impasse, descrença, você se aconselha com quem?
Desconheço a descrença no que sou e no que faço. A dúvida, no entanto, é parte constante do trabalho literário. Ela acena com a diferença, com o outro lado de cada instante, com a outra forma para cada verso. A liberdade de optar é das coisas mais importantes para quem escreve. Cabe ao poeta exercê-la com a sua intuição e com sua consciência, esta, sim, amadurecida no convívio social, nas leituras e através da crítica.
Já utilizou ou utiliza dicionários ou algum outro meio pra procurar sinônimos, usar palavras mais bonitas num verso, por exemplo?
O dicionário é companheiro inseparável. Gosto muito também de dicionários etimológicos. Neles busco o que está dentro de cada palavra. Escrever, para mim, é de algum modo reviver as palavras e potencializar a linguagem.
Você reescreve os poemas ou os publica da forma como foram originados no papel pela primeira vez?
Aprendi que, após a escrita, deve-se deixar o texto descansar. Faço disso uma regra. E é a coisa mais acertada. Sempre há uma palavra a ser trocada, uma vírgula para suprimir. Na dúvida, fica na gaveta. Quando se publica, pretende-se que tudo esteja prontinho, cada coisa no seu lugar. O leitor merece o melhor de nós!
Por que poesia? Você já pensou em escrever romance ou outro gênero?
Em meus inícios aventurei-me na seara do conto, um gênero com certeza apaixonante. Depois refleti: o mundo do conto e o mundo do poema são tão diferentes e exigem tanto do autor, que é impossível estar com os dois sem trair um deles. Optei, então, pela poesia. Na verdade, foi ela que me exigiu esta postura. Me decidi: sou seu súdito, para sempre.
Poetas escrevem para ser amados? Qual o seu objetivo com a escrita?
Foi Rilke quem me ensinou, através das suas cartas, o papel da necessidade no ofício da poesia. Somente escrevo por este motivo, ou seja, porque não conseguiria viver sem ela. Claro, a escrita tem seus objetivos. No caso da poesia, eles são muito tênues e se aparentam mesmo com a gratuidade absoluta. Mas apenas aparentam. Sabemos do que ela é capaz. Um bom poema tem o poder de “acender” a alma, de fazer aflorar a alegria da existência.
Você acha que realmente é preciso ler os grandes clássicos para ser um escritor?
Tenho pra mim que todo cidadão deveria ler os clássicos da literatura universal. Em alguns países é assim. O sujeito já sai da escola com essa bagagem de leitura. No Brasil não acontece isto. E é uma pena. Nosso país seria bem melhor, as pessoas seriam melhores, não haveria tanta violência. Para o escritor, a leitura da boa literatura, de todos os tempos, é indispensável. Escrever, de alguma maneira, é sempre reescrever. Aos novos escritores cabe, além de manter viva a chama da criação, dar um pequeno passo adiante na arte de escrever.
Consegue ler os próprios poemas ou textos em geral na pele do leitor, não do escritor?
Esta é uma tarefa difícil, pra não dizer impossível. Cada indivíduo é único e são únicas as suas vivências. O que sei, de certeza, é que um bom texto é causa potencial de experiências. Cabe ao autor, nas artimanhas do fazer literário, construir a arte, não como a verdade, mas como uma mentira, conforme ensinou Pablo Picasso, que nos ensine a compreender a verdade.
Há algum livro seu que você já amou e hoje não gosta mais, como acontece com alguns escritores? Por quê?
Meu primeiro livro, Círculo quadrado, foi publicado num clima de grande euforia. Seus poemas eram citados, usados em convites de casamento, declamados nas rádios. Claro, adorava tudo isto. Hoje, porém, eu o vejo como uma experiência marcada pelo idealismo, mas sem nenhum amadurecimento crítico ou literário. Agora, sem dúvida alguma, eu não o publicaria.
Na história da literatura, quais as personagens mais bem construídas que conhece?
São muitas, intermináveis. Mas como não lembrar de Quixote e Sancho Pança, de Cervantes; de Fausto, de Goethe; de Hammlet, de Shakespeare? Vou ficar, no entanto, por aqui, em nossa valiosa literatura brasileira. As personagens de Guimarães Rosa são fascinantes, assim como as de Graciliano Ramos, de Clarice Lispector, de Jorge Amado, de Érico Veríssimo. Nenhuma, porém, deixa o leitor tão irrequieto como as de Machado de Assis. Entre todas, Capitu. Machado a criou como um ser que se desdobra, eternamente, em sua inquietante finitude.
Quando lê outros poetas, chega a comparar-se e julgar-se melhor ou pior? Já foi comparado também?
É natural que o poeta se compare com os outros. Faz isto mais para buscar um parentesco, uma comunhão. Não acredito que aspire à competição. No íntimo, deseja sempre encontrar sua família literária. Uma andorinha não faz verão nem um só poeta faz a poesia. Esta, na sua expressão maior, é uma espécie de árvore que não vive sem a contribuição dos poetas novos e antigos, tradicionais e de vanguarda, maiores e menores.
Em carta recente, Ivan Junqueira comparou meu livro Saber não saber à poesia do místico espanhol San Juan de la Cruz. Eu nunca havia pensado nisto. Mas, claro, a comparação me deixou satisfeito.
Quais os poetas internacionais, nacionais e regionais que prefere?
Gosto de ler e reler Baudelaire, um precursor da modernidade. Maiakóvski é sempre instigante, assim como Rimbaud. Garcia Lorca mantém-se vivo. Mas ninguém surpreende tanto e sempre como Fernando Pessoa. No continente americano, do norte para o sul, são leituras basilares Emily Dickinson, Ruben Darío, César Vallejo, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Vicente Huidobro, Mario Benedetti. No Brasil, não é possível viver sem a poesia de Drummond, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, João Cabral, Mario Quintana. Ferreira Gullar e Manoel de Barros são exuberantes. No território catarinense, entre tantos poetas significativos, leio e releio Lindolf Bell e Marcos Konder Reis. A lista nunca estará completa!
Para ser um poeta é preciso ser um sábio da alma humana?
A vocação de poeta se insere entre os grandes mistérios da existência humana. Ele é um porta-voz. Sua atividade tem, de alguma maneira, um caráter mediúnico. Com certeza, nele repercute a existência em sentido amplo. Nos corredores de seu corpo circulam os apelos da vida. Tudo o que veio antes está dentro dele. E dentro dele está o que virá. É por este motivo que às vezes se diz que o poeta não escreve, mas é escrito. Por tantas razões, ele é respeitado por todos os povos. Às vezes, venerado. Mas o que ele quer, o que ele almeja, é a liberdade de sentir e dizer.
"Dor-de-cotovelo" é um dos melhores incentivos à maioria dos poetas? Qual o seu maior incentivo?
A ruptura de um pacto amoroso, ou o seu impedimento, sempre foi motivo de exaltação dos sentimentos. Poetas de todo mundo fazem disso matéria para poemas que atravessam continentes e se alastram no tempo. Lembrem-se os sonetos de Camões ou de Florbela Espanca. Ou os “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Neruda. Creio, porém, que a grande poesia se alimenta da condição humana em sentido amplo. Para mim, pelo menos, a motivação para escrever decorre sobretudo do existir. No espelho, aquele que me olha, diz: você existe. Existir é sempre uma grande surpresa.
Que cidades, lugares, pessoas e fatos mais inspiraram você até hoje?
Cada lugar tem o seu tempo e cada tempo tem o seu lugar. A Ilha de Santa Catarina, um dos lugares mais bonitos do mundo, é muito inspiradora. Joinville, por sua vez, em épocas épicas, me marcou com suas chuvas e suas chaminés. Na minha infância havia um rio que se chamava Rio Alegria. Dentro de mim, nunca se apagou. Rios são motivos reiterados na poesia. Recentemente, na Alemanha, tomei banho no Danúbio Azul. Apesar das águas frias, era como mergulhar meu corpo numa ficção luminosa.
Poetas em geral têm musas. Você as tem? Quem são e quem já foram elas?
Musas são ficções. A matéria da poesia está no dia-a-dia, no cotidiano, na enorme realidade à sua frente como bem disse Drummond num de seus poemas. Em tempos recentes, a própria poesia passou a ser matéria de poemas e de livros, como se ela precisasse mostrar-se para lembrar ao mundo que viver não é só correr atrás de lucro e do consumo frenético. Ou para lembrar aos poetas que ela, como ser de linguagem, estava por merecer os cuidados do artífice.
Você “caça” mentalmente as idéias para os livros ou elas surgem em você espontaneamente?
As idéias estão ao nosso redor, às vezes um pouco escondidas. É preciso querê-las e então elas aparecem! Meu livro infantil A poesia do ABC eu escrevi quando tinha dois filhos, a Deluana e o Loreno, em idade de aprender a ler. Queria mostrar a eles o encanto de ver letras formando palavras. Cada letra ganhou um poema. Foi trabalhoso, mas valeu. Além do que eles aproveitaram, já são mais de cem mil exemplares circulando em todo o País. Para o Pomar de palavras, a idéia surgiu durante um debate sobre cultura promovido por uma emissora de rádio na cidade de Caçador. No meio da reunião, apareceu uma bandeja com pêssegos madurinhos. Fui logo pensando no pessegueiro que, para florescer, se desnuda. Ali mesmo saiu um poema. Calculei, se fiz um poema para celebrar o pêssego, por que não fazer outros para as demais frutas que adoçam nossa vida?
Como é seu processo de criação em geral?
Pra mim, ler e escrever são coisas que sempre andam juntas. Minha casa é uma casa de livros. Não é difícil, no meio deles, encontrar motivação para o trabalho de escrever. Sim, que escrever é trabalhoso. Nada se consegue sem paciência. Cada poema tem seu tempo de maturação. Não adiante querer apressar. Você sente quando o poema está pronto para nascer.
Escrever poemas, como outros gêneros, também é mais transpiração que inspiração ou o contrário?
Sem dúvida, é mais transpiração. Mas sem inspiração nada acontece.
O mais difícil é escrever o início, o meio ou o fim de um poema?
Talvez o maior desafio esteja em começar. Quando se tem o início definido, o primeiro verso delineado, fica mais fácil ir adiante. Pode acontecer de empacar tudo. Neste caso, o melhor é dar um tempo, retomar o trabalho mais tarde, talvez num outro dia.
Quais os temas que você mais gosta de abordar?
Os temas são ditados pelas tensões do cotidiano. São exigências, por assim dizer, da vida. O poeta, na condição de mediador e de porta-foz, é chamado para trazê-los à superfície, para projetá-los sobre a razão humana, para convertê-los em matéria de vida. Hoje, a fugacidade de tudo e os riscos de um desequilíbrio ambiental irreversível são temas de grande urgência. No fundo, o poeta gosta do que precisa gostar.
E a repetição de palavras? Você cuida muito para que isto não aconteça com bastante frequência?
A repetição faz parte dos fundamentos do texto poético. O próprio verso, quando utiliza uma métrica determinada, é repetição do outro quanto ao número de sílabas. Há poemas célebres que não teriam acontecido não fosse o uso da repetição. É o caso de “O corvo”, de Edgar A. Poe, bem como “Trem de Ferro”, de Manuel Bandeira. A repetição por descuido ou pobreza vocabular, aí é outra coisa. Eu me preocupo com isso, claro. Às vezes, na releitura de um texto, encontro uma palavra repetida de forma injustificada. Vou então à cata de outra palavra, que tenha equivalência semântica e sonora, e faço a alteração.
Quando uma obra sua, ou de outro bom autor, não tem repercussão, quem são os culpados?
Todos os livros que publiquei tiveram boa divulgação, circularam de maneira razoável e tiveram suas edições esgotadas. Mas é importante dizer que o livro de poesia, no Brasil, recebe em geral pouca atenção. Os suplementos literários desapareceram. A divulgação agora se faz mais pela Internet e depende, quase sempre, do esforço do próprio autor.
Escrevendo, conseguiu mudar sua vida? Em que sua vida mudou?
Não se ganha dinheiro com a publicação de livros de poesia. As tiragens sempre são pequenas, coisa de mil exemplares, no máximo. No entanto, quando você publica um livro, percebe que está cumprindo uma missão e espera, lá dentro de si, estar ajudando o mundo, um pouquinho, a ser melhor.
O escritor deve ser amparado pelo Estado, por entidades privadas, fundações, ONGs, ou deve apenas depender de si mesmo e do seu esforço pessoal?
O Estado tem obrigação de criar condições para que a cidadania seja exercida plenamente. Neste sentido, espera-se que o artista, incluindo aí o escritor e os poetas, encontre na sociedade as condições de estímulo e meios práticos para cumprir o seu papel. Afinal, o que seria do mundo sem a arte?!
Quais são, na sua opinião, suas principais qualidades e seus principais defeitos como escritor?
Escrever é um exercício constante em busca de aprimoramento. Por mais que se reescreva um livro, nada garante que ele não saia com imperfeições. Como disse Mario Quintana, publicar é uma forma de a gente de libertar dos originais! A meu ver, cabe à crítica literária mostrar as qualidades e defeitos de um escritor. Desta maneira, estará ajudando o leitor a fazer suas opções.
E como ser humano, quais suas principais qualidades e defeitos?
Talvez seja, às vezes, apressado e autossuficiente. Em compensação, sou tolerante com os outros e procuro colaborar com coisas que me parecem importantes para o crescimento humano, social e para a sobrevivência da vida no Planeta.
Você sempre foi um agitador cultural, já tendo feito trabalhos, eventos, oficinas, encontros literários. Fale um pouco sobre isso.
Eu ainda era estudante e já me envolvia em atividades culturais diversas. Fiz jornal quando estava na Faculdade. Fiz suplemento literário. Junto com amigos, criei em Joinville uma feira de arte e artesanato para levar a arte para a rua, para popularizá-la. Com outros escritores, fiz a revista Cordão, uma revista alternativa, marginal, que fazia intercâmbio com outras regiões do País. Ajudei a criar associações de escritores. Como presidente da ABEU – Associação Brasileira de Editoras Universitárias, trabalhei para implementar uma grande rede de livrarias universitárias. Durante oito anos, fui responsável por um boletim eletrônico semanal sobre publicações universitárias. Depois implementei a revista Verbo – Revista Brasileira do Livro Universitário e também o Catálogo Unificado das Editoras Universitárias (www.abeu.org.br). Também presidi a União Brasileira de Escritores de Santa Catarina. Na época os escritores filiados tinham uma carteirinha, credencial, que lhes permitia adquirir livros com desconto!
O que você aprendeu de mais importante presidindo a Associação Brasileira de Editoras Universitárias?
Aprendi muito sobre o Brasil, suas diferenças regionais e a necessidade de respeitá-las. Quando assumi a presidência, a entidade vivia um momento difícil, de desagregação. Em equipe, conseguimos superar as dificuldades e, inclusive, estimular o crescimento da atividade editorial universitária brasileira.
E a sua rotina, como funciona? Você escreve todos os dias? Tem horários próprios para issso? É casado e tem filhos? Concilia com facilidade a vida profissional e a vida pessoal?
Sou casado com Denise e tenho com ela três filhos: Deluana, que é jornalista; Loreno, que é engenheiro; e Hermano, que está estudando Jornalismo. Sou de levantar cedo e dormir tarde, assim o meu dia rende bastante. Para escrever, tenho meu cantinho e horários preferidos. Acho que consigo conciliar as coisas. Ainda sobra um tempinho para o jardim, onde adoro trabalhar. Sou também um jardinista!
O que era o Movimento de Ação do Livro, que você lançou em 1985?
Foi uma tentativa de fazer circular melhor o livro de poesia, à maneira do que se faz atualmente por aí com livros em geral. Dois livros meus, Pessoa que finge a dor e Segunda pessoa, foram dedicados integralmente a esse projeto. Funcionava assim: o exemplar do livro era dado a um leitor; este, depois de o ler, passava a outra pessoa e assim sucessivamente. Não se sabia onde o livro ia parar, mas a verdade é que ele ia longe, descobrindo seus leitores.
Seu livro mais recente, Saber não saber, foi bastante elogiado pela crítica. Fale um pouco dele e a mensagem que mais buscou transmitir.
Ele faz parte de uma trilogia, junto com Poder não poder e Ter não ter, estes ainda inéditos. Escrevi os poemas desses livros pensando estabelecer com eles um diálogo poético com leitores jovens sobre os valores da vida e da existência. Os poemas são bem interativos, pelo menos era minha intenção que fossem. Algumas pessoas, entre elas o Miguel Sanches Neto, me observaram que Saber não saber é um livro para o público em geral, ou seja, que não é bem um livro “juvenil”. Agora, como diversos colégios estão trabalhando com ele, vou poder fazer uma avaliação melhor.
Você acha que para se tornar um grande escritor é necessário trabalho duro, como um “operário da escrita”, ou é uma questão de mero talento?
Não tenho dúvida sobre a importância do talento. Mas ninguém se torna um grande escritor sem muita dedicação, muito trabalho e muita leitura. Um escritor precisa, antes de tudo, ser um bom leitor.
Você acha que publicar livros no Brasil é fácil, difícil ou depende de cada um?
Há trinta anos atrás era dificílimo publicar um livro. Agora, com os recursos da informática, ficou mais fácil. Eu diria até que qualquer um, querendo, pode publicar um livro. O Brasil é um dos países que mais publica, o que é muito contraditório, uma vez que a leitura não é um hábito largamente difundido entre nós. A maioria das pessoas apenas lê por obrigação. A leitura de fruição é escassa. As pessoas preferem ainda ver um filme ou ver televisão. Em resumo, no Brasil se publica muito, mas as tiragens são pequenas e os leitores de verdade, uns poucos.
O que você acha das publicações virtuais? Para onde vão os livros com inovações como o Kindle ou o IPAD?
Nós todos crescemos com o livro de papel e por ele somos definitivamente apaixonados.
Mas, há algum tempo fiz um curso com Roger Chartier e aprendi com ele que as inovações que já estão chegando por aí nada mais são do que a evolução do livro com base em novas tecnologias. Estranhamos um pouco agora, mas com o tempo tudo vai parecer natural. E talvez até aumente o número de leitores.
Qual o seu próprio livro preferido?
Não tenho muita certeza, mas acho que é Cinza de Fênis e três elegias.
E o seu próprio verso ou poema?
Vou dizer o “De ler e andar”, do livro Sinais/Sentidos:
“Há dias em que há
mais sentido nas ruas
do que nos livros.
Nesses dias se deve
de casa sair
e, dentro de si,
caminhar à escuta
da vida.
Há dias,
porém, em que mais
sentido há nos livros.
É preciso, então,
trancar-se em leituras
e, numa entrega de sonho,
misturar-se ao mundo.”
Ter um livro indicado para o vestibular da UFSC (Transação) lhe ajudou a tornar-se um nome mais conhecido desde então ou somente no ano do vestibular em questão. Falando nisso, quais os pontos positivos e negativos das leituras obrigatórias, seja nas escolas, seja nas universidades?
Ter um livro indicado para o vestibular significa que você será lido por milhares de pessoas, sob a orientação de algum professor. Isto não deixa de ser interessante. Vários anos depois de meu livro ter estado na lista do vestibular, ainda sou abordado por pessoas que o leram em função disso. Ou seja, apesar de ser uma leitura obrigatória e circunstancial, alguma coisa fica. Este pouco, a meu ver, justifica a prática, sempre tão polêmica. O ideal seria que, ao invés de listas, houvesse uma prática de leitura na escola, abrangente, ou seja, incluindo os bons autores contemporâneos.
Como professor universitário aposentado, o que você vê de mais negativo e positivo nas universidades brasileiras hoje?
As universidades, especialmente as públicas, são muito boas. Os professores têm tempo e condições para buscar o aprimoramento de que necessitam. Têm tempo para a pesquisa. O problema é que, em geral, as universidades são ainda muito fechadas e interagem pouco com a comunidade externa. Os currículos são muito inflexíveis. Na área de Letras, por exemplo, há um notório desequilíbrio entre carga horária e matérias. Na literatura, quando se chega ao Modernismo, mal dá para abordar alguns poucos autores. Os contemporâneos, via de regra, sequer são lembrados.
Você acredita que um escritor precisa de algum diploma em alguma área determinada?
Muitos escritores poderiam fazer jus ao título de “Notório saber” e ao direito de ministrar aulas em universidades, mesmo que nunca tivessem feito um curso superior. Mas um bom curso, por outro lado, não fará mal a ninguém!
Quando surgiu a idéia do Círculo de Leitura?
Foi quando eu estava ainda na direção da Editora da UFSC. Minha intenção era a de fazer um evento,periódico, que motivasse o pessoal, funcionários e bolsistas, para a leitura. Afinal, todos estavam ali para fazer livros. E melhor seria se, além de bons servidores, fossem também bons leitores.
Como mediador desses encontros, qual o melhor depoimento? Qual o convidado que mais lhe marcou ou fez história?
Todo encontro aberto do Círculo de Leitura tem um convidado especial, sempre um notório leitor. Dificilmente não aparece uma história surpreendente, geralmente associada à descoberta da leitura. Mas o mais marcante é o relato de cada experiência, a relação com os livros, a maneira de ver o mundo. Rodrigo de Haro, Mário Prata, Cleber Teixeira, entre tantos outros, propiciaram aos freqüentadores do Círculo momentos inesquecíveis.
De todas as atividades que você já desenvolveu, quais as que mais lhe fascinam?
Eu sempre gostei de dar aulas, mas nada é tão fascinante e envolvente como fazer livros.
Eu sempre imaginei a biblioteca como o lugar sagrado de uma cidade, de um povo, de uma civilização. Ou de sua casa, se possível. Fazer livros é ajudar a construir esse alicerce da sobrevivência.
Defina em algumas palavras:
Amor – é estar junto.
Sexo – é fazer junto.
Liberdade – é poder optar.
Religião – é compartilhar um credo.
Deus – é amor.
Inteligência – é ser capaz de si próprio.
Burrice – é andar travado.
Prosperidade – é acrescentar.
Vida – é um mistério.
Morte – é o mistério às escuras.
Por sinal, como gostaria de morrer?
Assim como nasci: sem mácula. E sem dívida!
Qual o sentido da vida pra você?
A vida é uma dádiva. Temos o direito de colher os frutos que nos oferece. Mas também o dever de preservar a árvore que os gera, para que as colheitas se estendam no tempo, indefinidamente.
Já usou drogas, inclusive bebidas?
Um cálice de vinho, dizem, não faz mal. Aliás, combina bem com um clássico de jazz e um livro de poemas.
Qual seu próximo lançamento?
Já entreguei à Marta Martins, da Editora Cuca Fresca, os originais de um novo livro infantil. Intitula-se Menina de olhos verdes. Nele, através de uma menina-mulher, vislumbra-se a salvação ambiental do Planeta.
Qual o conselho ou dica mais importante que já recebeu na vida? E qual o conselho ou dica daria para os jovens poetas ou escritores atuais?
Quando estava ainda começando, recebi o seguinte aconselhamento: se quiser ser um escritor, você deve: primeiro, ler, ler e ler; depois, escrever, escrever, escrever; por fim, ínsista em mostrar aos outros. Este mesmo conselho eu gosto de passar adiante, porque, na verdade, é assim que funciona e dá resultado.
Quando olha para trás, qual sua maior satisfação?
É ver que, nos momentos mais difíceis, não desisti de levar adiante o que tinha como meu objetivo.