Daniel Galera comemora o bom momento das HQs adultas no país e indica suas graphic novels preferidas
por Kelly de Souza*
A parceria entre o quadrinista e artista plástico Rafa Coutinho, filho do cartunista Laerte, e o escritor Daniel Galera (Cordilheira) gerou um dos mais ambiciosos projetos de história em quadrinhos produzidos no Brasil. O lançamento de Cachalote, que traz seis histórias independentes unidas pelo navegar da maior baleia com dentes já conhecida, mostra o bom momento das graphic novels no Brasil. A repercussão com a publicação do livro, produzido durante dois anos, surpreendeu Galera. “Nunca tinha imaginado algo assim, é muito gratificante. Há um aquecimento do mercado e do interesse do leitor, que começou faz uns três ou cinco anos, e não saberia dizer exatamente o porquê.”
Uma das pistas para o sucesso é o tratamento rebuscado dado às ilustrações (em preto e branco) e à narrativa. O escritor diz que é preciso entender que história em quadrinhos não é a mera união de texto e imagem, e, sim, uma linguagem de imagem estática, sequencial, que tem seu caráter particular. “Além dos diálogos e narrações textuais, é preciso escrever levando em conta a ação que os desenhos passam, a posição de cada quadrinho, a ordem de leitura, as viradas de páginas etc. Foi muito estimulante descrever essas histórias predominantemente visuais no roteiro”, conta.
Galera conta que o processo de produção de uma HQ como Cachalote é complexo e exige clareza em relação ao roteiro técnico final, que serve de referência para todos os profissionais envolvidos na criação do livro. “Demorei um pouco para aprender toda a dimensão dessa complexidade. Foi um aprendizado gradual.”
Para ele, apesar do estigma de produto infantil ser forte, aos poucos, isso está mudando. “A publicação no Brasil de graphic novels adultas tem aumentado e o consumidor está sacando que há obras para todos os públicos. O trabalho da editora Conrad na última década foi importante. Eles publicaram muita coisa boa de autores europeus e da cena alternativa americana. Temos a Devir, a Desiderata e, agora, a Quadrinhos na Cia., entre outras, apostando em autores nacionais, e certamente um novo público está sendo informado e atraído para o mundo das HQs”, comemora. Entre outros exemplos bem-sucedidos, Daniel Galera indica suas graphic novels contemporâneas preferidas.
O lançamento de Cachalote teve boa recepção da mídia e mercado editorial. Surpreendeu que esse projeto, ambicioso por se tratar de HQ, tenha atraído tanta atenção de público e mídia? Fiquei um pouco surpreso com toda a antecipação, até porque divulgamos pouquíssima coisa do projeto durante o período em que trabalhamos nele. E a repercussão do livro após o lançamento está sendo grande, eu nunca tinha imaginado algo assim. É muito gratificante. Acho que isso se dá, em parte, por causa do bom momento da HQ adulta no Brasil. É um aquecimento do mercado e do interesse do leitor que começou faz uns três ou cinco anos, e eu não saberia dizer exatamente por quê.

Você e o Rafael Coutinho trabalharam juntos no projeto. Como foi a experiência? Quadrinhos não são a mera união de texto e imagem. O mais importante é o conceito de imagem estática, porém sequencial, que dá à linguagem dos quadrinhos seu caráter particular. Além dos diálogos e narrações textuais, é preciso escrever levando em conta a ação que os desenhos passam, a posição de cada quadrinho, a ordem de leitura, as viradas de página etc. Foi muito estimulante descrever essas histórias predominantemente visuais no roteiro.
Os textos de Cachalote são “costurados” quase como que em um livro de contos. Quais são os aspectos narrativos comuns à prosa? O que existe em comum com a prosa são certos valores narrativos que ultrapassam questões de mídia e gênero. Os personagens tem que ser redondos e algo ambíguos, a trama precisa ser coerente e intrigante, as histórias precisam inspirar o leitor a encontrar um subtexto que aponte para além do que está evidente, etc. Acho que não leva a nada procurar semelhanças pontuais entre prosa e quadrinhos.São formatos e linguagens diferentes, mas é tudo narrativa.

O que mais o surpreendeu em termos da produção, tendo outros profissionais envolvidos e trabalhando em “linha”? O processo de diagramação, tratamento de imagens e composição de uma HQ grande como a ‘Cachalote’ é incrivelmente complexo e demorei um pouco para apreender toda a dimensão dessa complexidade. Um momento decisivo foi a redação do roteiro técnico final, que serviria de referência para todos os profissionais envolvidos na criação do livro. É preciso ser muito claro a respeito da posição dos quadrinhos e de cada balão, na descrição do que está na página. Foi um aprendizado gradual.
Muitos leitores são apresentados à leitura por meio dos quadrinhos. Você vê renovação do público? Ou ainda há pouca divulgação e o universo HQ fica restrito aos admiradores, colecionadores, etc. Acho que está havendo uma ampliação lenta, porém firme, do público leitor de quadrinhos no Brasil. O estigma de produto infantil é forte, mas aos poucos isso está mudando. A publicação de graphic novels adultas nos últimos anos no Brasil tem aumentado e o consumidor está sacando que há obras para todos os públicos. O trabalho da editora Conrad na última década foi importante, eles publicaram muita coisa boa de autores europeus e da cena alternativa americana. Temos a Devir, a Desiderata e agora a Quadrinhos na Cia, entre outras, apostando em autores nacionais, e certamente um novo público está sendo informado e atraído para o mundo das HQs.

Sandman, que completou 20 anos de publicação no Brasil em 2009, marcou época como sinônimo de qualidade. Neil Gaiman continua surpreendendo e avançando para além das páginas. Há potencial cinematográfico em HQs nacionais? Depende da HQ. Cada caso é um caso. Mas o que vale pro Neil Gaiman vale pra qualquer outro quadrinista, em termos de potencial de trânsito para outros formatos e linguagens.
Há espaço para que outros escritores e quadrinistas se reúnam em novos projetos? Certamente. Há várias duplas de escritor/desenhista trabalhando em HQs nacionais neste exato momento. Mas isso não é tão importante. Uma HQ pode ser feita por uma só pessoa, por uma dupla, por uma equipe… tanto faz. O que é mais relevante é o crescimento do mercado e do interesse do público, e para isso precisamos de obras de qualidade, bonitas, surpreendentes, intrigantes.
*Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.
FONTE: www.revistadacultura.com.br:8090/revista/rc37/index2.asp